30.12.08

O(s) erro(s) de JMN III

O erro da falta de política para a Língua não é só de JMN. É de toda a nação, desde a independência até esta data. Sabemos, a questão é sociológica: o português foi e continuou a ser a língua da autoridade, da educação, da intelectualidade, da elegância do expressar, da distinção, ou, numa só palavra, a língua da dominação.

Sabemos também que, a Língua é o elemento de base de qualquer Cultura. Ou seja, sabemos que estamos perante uma Cultura distinta, quando esta apresentar uma Língua completa. Existe uma Cultura CV porque temos uma língua CV, que é radicalmente diferente da língua PT na sua estrutura, embora partilhem muito etimologia. Assim ficamos com um problema que nos atrasa, culturalmente: sentimos em CV e sistematizamos em PT; algo fica pelo caminho, de certeza. Vejamos: os cabovedianos tem uma oralidade muito desenvolvida; somos os maiores da anedota, das estórias, dos contos. Constatamos muitas vezes que, se o caboverdiano escrevesse tudo o que pensasse, teríamos a maior das literaturas. Mas isto é sério! Realmente temos uma literatura débil, porque, penso eu, quando passamos da oralidade para a escrita, temos de empreender um grande esforço de tradução para uma outra língua, que não dominamos propriamente, resultando numa literatura "engessada".

A questão é da maior gravidade quando se trata da educação das crianças. Quem disse que os meninos do interior de S.Antão, S.Nicolau ou Santiago, estão aptos para iniciar a sua educação formal em português?

Os problemas já conhecemos todos. O que fazemos é que é a questão. Ou seja, que política para a Língua? Que acções? Que atitudes?

Uma primeira atitude é deixar de prestar homenagens em ocasiões pontuais e passar a assumir o Caboverdiano nas reuniões ministeriais, nos gabinetes, nos tribunais, na televisão e em qualquer esfera social importante. Que tal um curso de Língua Caboverdiana para diplomatas? Que tal escutar o que se passa na Internet, na forma como os adolescentes estão a resolver a língua? Que tal ver como se escreve o CV num telemóvel? Que tal reunir os utilizadores profissionais da Língua (escritores, radialistas, publicitários, compositores, músicos) e ouvir o que eles tem a dizer?

Que tal se passasse a escrever em Cabovediano neste blog? Pois, aqui entra a segunda parte da questão: o português. É a língua que escrevemos desde da escola primária, pela vida fora. Pela escrita é mais difícil romper. Considero que abordar a questão pela escrita fica mais difícil. Estando a defender convictamente o CV, escrevo em PT. Aliás, escrevo muito rápido em PT. É um treino, é uma ferramenta que tenho e deverei deitá-la no lixo. Esta é uma das questões que os mesquinhos costumam agarrar para confindir o debate, mas eu não abro mão do português, não abro mão do caboverdiano, estou a ver se faço um curso de francês, o meu inglês já está a precisar de uma actualização e se pudesse aprendia chinês, que vai ser necessário quanto a China se tornar a 1ª potência do mundo. Separemos a questão de Identidade da questão da Utilidade.

A minha sugestão é que se trabalhe firmemente na questão oral, que se "liberalize" o Caboverdiano socialmente, mas, principalmente, que se ataque a questão de frente. É o dossier mais complicado da Cultura, mas temos de ter coragem para a assumir.

29.12.08

O(s) erro(s) de JMN II

Chega de brincar aos "amigos da Cultura". Qualquer sociedade que se preze tem um política cultural séria, assim como tem políticas fiscal, orçamental, de educação, de saúde, etc. A questão é: quais as consequências de não ter uma política cultural? Ou, ainda mais básico: o que é uma política cultural?

Vejamos, a palavra "política" é aplicada aqui no sentido de ter visão, estratégia, acção e avaliação de uma actividade/assunto de interesse público. Isto quer dizer que, para a Cultura, significa saber o que queremos dos nossos valores culturais: língua, semiótica, património arquitectónico, história, simbologias, arte, artesanato, museologia, investigação. Que me desculpe o Primeiro-Ministro, "contar com os artistas" é uma visão terrivelmente redutora da Cultura. Aliás, Arte muitas vezes está até em contradição com a Cultura, porque a contesta e a "vandaliza". E é bom que assim seja, porque Cultura é status quo e Arte é insatisfação do status quo. É também evolução da Cultura, ao forçar os seus limites. A relação é inversa: são os artistas é que precisam deseperadamente de uma política cultural (educação, investigação, produção,...) para que se desenvolvam e para que funcionem de verdade como esta força catalizadora da Cultura. Por enquanto somos uns artesãos pacóvios, até mesmo na música, que gostamos de apontar como "força cultural".

É verdade que os artistas, por desespero de causa, tem actuado como "especialistas" da Cultura, mas está muito errado. Para uma política cultural séria, ao nível do Estado, outros actores entram em cena: historiadores, linguístas, antropólogos, sociólogos, filósofos, investigadores de uma maneira geral. Os artistas, bem como todos os agentes culturais, terão obviamente uma palavra a dizer, mas os dossier são complexos e especializados, de maneira que precisam de uma acção complexa e especializada. Por isso é que preciso uma política, ou políticas: para a Língua; para o Património; para a Educação da Arte; para a Investigação Cultural; (principalemnte a História) para os Equipamentos Culturais (teatros, cinemas, salas de música, galerias, museus, etc); para o financiamento da Cultura (sem essa de economia da Cultura).

Sr. Premier, mais uma vez, se não se assessorar como deve ser nessas questões, o Sr vai se meter numa grande alhada, porque é neste sector, Cultura, onde se concentram grandes inteligências de um país, o que parece ridiculamente paradoxal. Ou seja, os "homens da Cultura" estão se fazendo de moscas mortas, mas experimente entrar por essas ondas de "homenagens" à Cultura e vai ver como afinal eles tem dentes. O que pode acontecer é que não os mostrem abertamente, porque já provaram os covardes que são, mas arranjarão maneiras esquivas e mesquinhas de o fazer. Neste sentido sou um dos seus maiores amigos.

O(s) erro(s) de JMN

José Maria Neves, que passou o tempo todo preocupado em tornar CV um país receptor dos maiores investimentos estrangeiros, nem sempre conciliando da melhor forma a economia, o meio ambiente, o desenvolvimento social e muito menos a Cultura, acordou para o facto de não ter tido até esta nenhuma política para a Cultura. Nenhuma!...pelo menos que eu conheça.

Entretanto o Premier acordou da pior forma. Apanhado por protestos cada vez maiores em relação ao sector, foge para frente, como se tornou prática aliás nesta terra. No Natal ele falou na língua caboverdiana, para "homenagear" a Cultura (!!?). Primeiro erro fundamental do Premier: passa o tempo todo da sua governação a "homenagear" a Cultura, enquanto se espera do Governo uma visão clara da Cultura, seguida de políticas concisas, ou seja, políticas que tenham em vista impactos e resultados, mas, atenção, não impactos e resultados medidos em termos económicos. Segundo erro fundamental do Premier: confundir "Política Cultural" com "Entretenimento Cultural". Realmente, o que ele quer é entreternos com a questão, enquanto pensa numa solução, de como, por exemplo, pedir delicadamente que Manuel Veiga vá ser útil em outro sítio e, mais difícil ainda, convercer uma pessoa de craveira deste país a aceitar o cargo.

26.12.08

Destaques e tal

Todos nos pedem para fazer uma "avaliação" do ano. O que destacamos, pela positiva, pela negativa? Quem é a figura do ano?

A minha percepção é que temos estado a incorrer na tentação do individualismo. Sabendo que defendo intransigentemente a individualidade, não suporto o individualismo. O problema é encontrar um ponto de equilíbrio entre os dois valores. O Primeiro-Ministro, do alto dos microfones da Assembleia Nacional e da Comunicação Social gritou que: "eu fiz, eu ganhei, eu fui escolhido, eu lidero, eu sou mais eu", etc. Bom, o homem estava a ser atacado pessoalmente, mas este homem não pode se esquecer que ele representa um colectividade muito importante: Governo. O simples uso da palavra "nós" é até auto disciplinadora.

Fala-se tanto de política, porque é pela política que se tem a maior percepção de toda a sociedade. Ser social, ser país, ser civilizado, implica logo ser político. Todos são, de uma maneira ou outra: ou somos eleitores, ou somos eleitos, ou somos contribuentes, ou somos sindicalizados, ou somos tão somente cidadãos, somos políticos. O problema é o equilíbrio que precisa existir entre os individuos e as colectividades. O problema é quando, disfarçados de colectividades, as pessoas começam a agir individualmente, seja o dirigente político, seja o agente económico, seja o bastionário, seja o presidente de alguma associação, seja o Governo, seja a Oposição.

Em 2008 senti um aumento do "eu" e uma diminuição do "nós". Para 2009, pessoalmente, empreenderei uma luta pela colectividade, lá onde posso influenciar. O meu desejo é, sem pertencer a partido algum, conseguir ter maior participção política, sem sequer praticar directamente a política. Quero, com a minha colectividade, empreender acções que possam criticar a realidade e modificá-la. Sou membro de Prodeco, quero que funcione; sou membro da Adeco, quero que aumente a sua actuação; participei da Fundação Amilcar Cabral, quero que tenha a sua importância; sou membro do Praia.Mov, quero que tenha força. Sou cidadão, um conceito colectivo, quero ter mais particição.

24.12.08

OK, pronto, Feliz Natal!

cartão UNICEF
É Natal. Nunca explicaram-me ao certo o que é isso e porque devo abrir o coração anualmente por esta altura. Nasci e encontrei as coisas como estão, nunca questionei e na verdade deixo um certo contágio de alegria me invadir, acho bonito o jantar familiar, lembro-me da enorme excitação em criança de receber as prendas e vejo isso agora em minha filha.

Nunca questionei os hábitos: de se vestir o fato terrivelmente quente do Pai Natal, figura inventada, dizem as más línguas, por Coca-Cola; de se simular a neve na árvore de Natal; e outras tantas coisas mais. Também nunca tinha reparado que a árvore só se encontra com muita raridade em alguma montanha deste país.

Não critico os discursos de ocasião e a repentina sensibilidade para com os pobres e menos afortunados, aleijados, idiotas e estúpidos.

Não questiono os preços, justos ou não, não é altura de questioná-los. Não questiono os milhares de contos que circulam vertiginosamente esses dias. Nem questiono os produtos, chineses ou não, tóxicos ou não, letais ou não, descartáveis ou não.

Ensinaram-me uma coisa, quando praticava desportos naúticos: o mar é uma força poderosa; numa situação de aflição tenta não entrar em pânico e gastar muita energia; tenta aproveitar a própria força do mar para encontrar uma solução. É o que faço por esta altura: aproveito e mando uns abraços e beijinhos; compro uma prenda (penso) inteligente para a minha filhota; bebo umas cervejas desmedidamente com os amigos; e vou estar logo à noite à volta de uma mesa, com a família reunida, degustando as coisas importadas que podemos comprar.

Filmes da minha vida

Este é dos maiores! Um grande ensaio sobre a natureza humana. Nada de estorinhas de encantar; nada de efeitos mágicos; nada de soluções idealistas; nenhuma piedade; nenhum milimetro de descuido na feitura desta obra de arte. Trabalho exímio de todos: actores, realizador, fotografia, cenografia, adereços, figurinos...tudo.

Cinenastas como Lars Von Trier, Michael Haneke, David Lynch, Glauber Rocha ou Wong Kar-Wai, são monstruosos profanadores da profissão. Ou, visto de um outro ângulo, são os guardiões intransigentes da arte. Obrigam-nos a lembrar que, entre arte e entertenimento existe um abismo.

Lars Von Trier é o "dogmático" de Dogma 95. Michael Haneke fez um dos filmes mais radicalmente cruéis (crú e verdadeiro) que já vi: Funny Games. David Lynch é o meu herói e poucos aceitarão o facto que ele reinventa a linguagem do cinema. Glauber Rocha é o terrível reaccionário do cinema novo brasileiro.

Nesses tempos de artificialidade das lojas de Natal, ver um filme de qualquer um deles é uma punhalada nas nossas crenças e ilusões. É lembrar que o mundo é um lugar bizarro.

23.12.08

Uma nota a Maquiavel

Querias dizer que a política devia ser feita com pragratismo e, talvez não desejasses o sentido pejorativo que a expressão "maquiavelismo" veio a tomar. O problema é a acepção que cada um tem do que é pragmático. Em Cabo Verde o conceito de "tratar do seu expediente" pode ser considerado um pragmatismo...perigoso.

Lendo Mário Fonseca

"Entre nós, a política, em geral, não é nobre, é um mero instrumento de poder para o qual se tende, por propósitos e ambições pessoais e de grupo, fazendo o que se mostrar necessário, o que quer que seja, na prática, para alcançar e conserver, respeitando por conveniência, as regras do jogo em vigor, num pacto implícito de que beneficiam os partidos políticos que se alternam na governação do país, e que, mais do que o grande público que neles vota, estão interessados na sua preservação e perpetuação."
Mário Fonseca, in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

"Não há dúvida, pois, de que o cruzamento ou a proximidade entre a política e mundo de negócios é um sinal seguro de bicho na fruta, isto é, de corrupção, mais ou menos palpável, embora não exista entre nós, um mecanismo de controlo de aquisição de riqueza, o que urge instaurar, sob pena de virmos a sofrer os efeitos corrosivos da corrupção que falsifica e apodrece uns e outros, corrompidos e corruptores, introduzindo elementos de perversão no sistema político"
Mário Fonseca, in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

Mais 2 ou 3 discursos desse e talvez começassemos a ter uma opinião pública que pressiona os partidos a fazerem política efectivamente, ou seja, administratar os assuntos do Estado, este conceito grande, com ética.

Rouba, mata, esfola!...

"...Iaia, foi baleado, nos arredores do mercado da Achadinha. François, o provável homicida, foi capturado...Uma briga de gangues rivais terá estado na origem do incidente..."
in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

"...Polícia Nacional apreendeu, nos últimos dois dias, várias armas de fogo, munições, dinheiro falso, telemóveis e uma avultada quantidade de jóias em ouro."
in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

"Na ilha do Sal, uma briga de namorados culminou com a morte de um jovem,..."
in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

Sempre se roubou, se brigou e se matou nessas ilhas. Antes, volta e meia éramos assaltados com uma notícia pavorosa de um assassinato. Hoje, a maneira como se rouba e os motivos porque se matam, nos locais onde acontecem, na proximidade dos nossos filhos, nas barbas das autoridades, é que assustam. E a quantidade também: tudo isso aí em 2 dias!

A pior coisa que nos pode acontecer é essas notícias tornarem-se banais. Não são; são GRAVES.


22.12.08

À conversa com Mário Lúcio

Imagem de Abraão Vicente
Ir à casa de Mário é como sair para fora cá dentro. O sítio é inspirador num duplo sentido: em si, emana a alma do artista, com os seus muitos discos, livros, objectos, plantas, pedras, esculturas,...; o outro sentido tem a ver com o facto de, por não ser uma zona "chique", termos de atravessar zonas muito pobres da capital para lá chegar. Imagino que para um criador comprometido com a sua sociedade, deve ser um renovar permanente de um sentimento humanista.

Além do sítio, a conversa com esta personalidade é verdadeiramente desafiante. Talvez a maioria dos CVs conheçam o músico e alguns só conhecerão o intelectual. Ainda menos ainda conhecerão a forma com ele constrói o seu pensamento, a infraestrutura de ideias que ele tem sobre assuntos importantes. À conversa com ele, numa visita ao seu sítio, o assunto da língua caboverdiana ocupou a maior parte do tempo. No final fiquei muito mais convicto de uma coisa: o Ministério da Cultura podia ocupar-se SOMENTE deste dossier, que já teria trabalho para vários anos e podia EFECTIVAMENTE mudar alguma coisa de estrutural na nossa Cultura. E se precisassem de um concelheiro, Mário Lúcio tem um dos discursos mais inspiradores e conciliadores sobre o assunto.

Para quando um Ministério da Cultura capaz de motivar e aproveitar as ideias concisas sobre a Cultura CV de Mário Lúcio, Corsino Tolentino, António Correia e Silva, Manuel Brito Semedo ou Mário de Andrade? Para quando uma reflexão sobre as sucessivas tentativas de movimentos culturais? Para quando um resultado concreto e tranformador deste Ministério que consome 3% do nosso custoso dinheiro?

21.12.08

Arte em primeiro plano

Ahmed Khemis, fotografado por Jef Rabillon
Auditório da Assembleia Nacional, dia 20, 21h, após a apresentação da Solange, 3 solos de dança contemporânea, 3 MAGNÍFICOS momentos de arte e um enorme auditório...sem gente. Os artistas:

Ahmed Khemis, Algéria. Foi o que mais gostei. Um imenso solo. Velocidade, técnica, precisão e, mais importante para mim: conceito. O tema da guerra, da oposição das civilizações, os desastres humanitários, traduzidos em 3 elementos: dança, som e luz. Foi mágico.

Serge-Aimé Coulibaly, Burkina Faso. Eu vi nele o talento natural do africano pela dança, um trabalho de estilização da dança tradicional do seu país, para além de todo o resto: técnica, velocidade e precisão. Ocorreu-me a questão da escola. Os Raiz di Polon tem feito um esforço titânico, mas é preciso mais: é preciso educação sustentada, formação de formadores, laboratórios e outros itens mais.

Ariry Andriatmoratsiresy, Madagascar. Um sénior já. Um senhor. Um espectáculo. No seu solo também impressionou-me o conceito, para além da excelente execução.

3 grandes artistas. 3 momentos raros em CV. 1 auditório vazio...a culpa está em vários lados: ausência de programação cultural, desinteresse da sociedade pela arte, fraca divulgação.

E eu fiquei mais rico nesta noite e compensado da irritação do primeiro evento.


Arte em segundo plano

(quem é o autor da foto? apanhei-o no Expresso da Ilhas, mas quem é o autor?)

Solange apresenta o seu primeiro álbum, Hotel Trópico, Sábado, dia 20, 19h.

À partida seria um bom programa. Confesso que estava desconfiado da escolha do Hotel Trópico. Para mim, arte é para ser apresentada em lugar de arte. Todos os meus amigos artistas, quando apresentam um trabalho, num espaço que não tem a religiosidade necessária da arte, faço sempre esta crítica: ficou a faltar ambiente de arte. No caso deste evento da Solange, não só ficou a faltar ambiente de arte, como a arte foi só uma fracção do todo:

O espectáculo, se é que se pode chamar aquilo de espectáculo, começou com 1 hora de atraso!! Razão, toda a gente aguardava o Presidente da República. Meu querido Presidente, com esta a Excelência perdeu pontos da minha admiração. Foi inqualificável! Quase me levantava e ía para casa, bem mais quentinha que aquela noite fria que se fazia sentir à beira da piscina.

Mas o pior estava por vir: um rol de marketing descarado e sem graça dos Mendes Brothers e, mais grave ainda, os discursos de João Mendes e Ramiro Mendes. A esses dois, aconselharia uma coisa: tenham também profissionalismo de discurso. O improviso, que fica bem na arte, não fica tão bem em determinados momentos: ao iniciar a apresentação, João improvisa claramente, cumprimentando o Presidente, o Primeiro Ministro, quase a esquecer a Primeira-Dama, que se não me engano devia ser cumprimentada logo depois do Presidente, depois esqueceu todo o corpo diplomático que estava ali, não cumprimentou os familiares da artista, quanto menos o resto do público. É assim: ou há protocolo ou então o homem devia simplesmente apresentar o evento. O Ramiro, este é que acabou por nos massacrar com as suas dissertações sobre História, Cultura e Política. Ramiro pára com isso! Pela segunda vez oiço o homem, com as suas considerações leves sobre a Cultura e a sua ingenuidade sobre a Política. Ainda por cima puxando o saco de Pedro Pires a toda hora. Ainda por cima roubando protagonismo à artista.

Por fim (depois de 1hora + discursos estapafúrdios) veio a arte. Foi um deleite ouvir e ver Solange. Ela tem uma interpretação segura e convicta. Expressa bem no palco. Fala bem, acabando por salvar os discursos. E a música, aí sim parabenizo os Mendes Brothers, está deliciosa.

No encerramento, mais discursos dos MB, uf!!! Conclusão: a arte da Solange, que devia ser maior parte do evento, ficou reduzido a uma peça de marketing dos MB. Detestei!!

18.12.08

Joint (traduson: djunta, eheheh)


O projecto de um blog joint já está a andar. Desculpem-me, mas essas coisas são para serem feitas a quente. O blog "Geração 20J73" já está a ventilar a ideia, num post curioso. Heis alguns trechos e comentários:

"passe de ruptura num ângulo de difícil execução" (referindo-se à ideia do alinhamento de blogs periodicamente). Pois, é um ângulo difícil, mas o que não é difícil nesta terra? Até quando se paga, é difícil. Estamos cientes e temos que ter convicção, mesmo que pareça utopia. Tu tens essa fibra, já senti.

"teríamos antes de limitar as nossas deficiências num profundo contacto via meios electrónicos (emails por exemplo) de forma a estabelecermos o Norte da bússola". Eu desafiaria a nos mantermos intactos, como estamos, sem sequer ter a necessidade de nos encontrarmos. Vamos experimentar. Vamos testar uma colaboração 100% virtual. O único ponto de encontro seria o tema.

Na barra lateral está a lista dos blogs interessados. Se algum não quer estar na lista, avise p.f. Destaco mais uma vez que a lista está por ordem de manifestação de interesse.

EmRede

Imagem daqui: http://www.flickr.com/photos/navafederico/
Surgiu uma provocação aqui neste blog, de se tentar criar uma colaboração, uma vez por mês, entre bloggers. Tudo surgiu com o post "Cidadania distribuída". A ideia é:

Um grupo de bloggers se associa à ideia. Cria-se um lista por ordem de manifestação de interesse. Cada blogger inicia um tema na última semana do mês e todos os outros criam réplicas nos seus blogs sobre o mesmo assunto, concordando, discordando, fazendo um desenho, buscando mais matéria, ou seja o que for para ajudar o debate. A escolha de temas é obviamente livre e cada um mostra a sua perspectiva sobre o tema. Assim, por um dia, ou por cinco dias, conforme acharem bem, estará a circular nesta rede um tema, em que bloggers e comentadores poderão contribuir para formar opinião.

Eu gosto particularmente de colectividades: de exposições colectivas, de teatro, de cinema, de colaborações, de workshops, etc. Colectividades aliadas ao conceito de redes, torna a coisa ainda mais aliciante. Que tal?

(título emprestado do blog do meu colega Zé Lino, http://emrede.wordpress.com/)

17.12.08

Filmes da minha vida

Adaptações (livros, teatro) para o cinema são sempre operações delicadas, que podem resultar em: porcarias entediosas; ou obras d'arte, como é o caso deste filme, que conservou de forma corajosa os diálogos "teatrais", refazendo todo o resto em linguagem cinematográfica.

O que mais me impressionou: os diálogos. É uma viagem!

Segundo, vêm as interpretações: Clive Owen, um actor sério, brutal; Natalie Portman, a que Norah Jones roubou o papel em Blueberry Nights, é descaradamente sexy e uma potente actriz; Jude Law, sempre impecável; e até Julia Roberts não ficou mal.

Terceiro, a realização, Mike Nichols. Não me lembro de ter visto um filme deste tipo, mas vou passar a ver qualquer coisa que ele faça. A história faz uns tantos shiftings e a realização tornou isso uma brincadeira deliciosa. Nunca vou esquecer a sua técnica.

Cidadania distribuída

Instalação de Pascal Combis
Filinto escreveu uma expressão que achei engraçada: "A blogosfera caboverdiana, a nova diáspora CV"

...tenho dificuldades em a encarar assim, porque a diáspora supõe sempre uma certa alienação da sociedade de origem. A blogosfera CV, movimento incipiente, circunscrito e (des)necessariamente elitista, visto a pobre penetração da Internet na nossa população, é uma versão séc.XXI do que foi "Sopinha de Alfabeto", só para dar um exemplo em que Filinto participou. É uma acção vinculada à sociedade e não alienada.

Na era da Internet, apareceu o conceito de "informação distribuída". Até mesmo as aplicações informáticas correm de forma distribuída: um Banco, por exemplo, pode ter o cálculo de câmbio num servidor na Japão, as contas dos clientes nos EUA e se apresentar para o cliente, de forma transparente, num site, como entidade única. O mesmo está se passando com a informação e até mesmo a arte. Hoje já existem formas de colaboração artística pela Internet.

Em CV, os novos conceitos da cibernética são ainda mal apropriados, ou apropriados de forma inconsciente. Usamos a Internet, um conceito amplo, global, distribuído, colaborativo (Wikipédia, por exemplo), mas continuamos a funcionar de forma "ilhada"...demasiadamente individualistas.

Tenho defendido para a blogosfera: que cada um cuide do seu sítio, muito bem, mas, que seja de tempos em tempos, que surjam colaborações de maneira a encorpar a mensagem. Imaginem todos os blogs CV, durante uma semana, a debitar um único assunto. Imaginem a pressão política que isso seria.

Património do quê?

Queremos, torcemos, desejamos que a Cidade Velha seja classificada como Património da Humanidade. Já andamos nessa "teima" há alguns anos. Alguém se recorda de Ciza Vieira, um dos maiores arquitectos do mundo, a oferecer os seus serviços a CV, de forma quase grautuita, de ter iniciado os trabalhos e depois ter bazado (ir-se embora, escafeder-se) destas terras morabis, perfeitamente irritado com as nossas criolices/carolices? Pois, não recordamos. Somos péssimo de memória. Somos horríveis de história e de preservação de patrimónios. Somos patos bravos, deslumbrados (ainda) com a indepedência. Eis alguns dos factores de não nos favore na candidatura.

A gestão política do dossier é uma das maiores complicações, como não podia deixar de ser. O sítio da Cidade Velha sempre foi pilhada e destruída. Mas a partir do momento em que engajamos numa candidatura do género, não seria de esperar uma outra autoridade do Estado? É possível que se continue a destruir as velhas casas para construir vivendinhas para o pessoal chique? É possível que se deixe construir um enorme armazém, ou unidade industrial, ou sei lá do que se trata, de betão, mesmo, mas mesmo debaixo do nariz, da Sé Catedral, reconstruída de ruínas com o dinheiro espanhol? É possível que se passem fios de electricidade e telefone a torto e a direito? O que é feito das escavações? E os artefactos encontrados no mar e na terra?

Vi à entrada do forte uma tentativa de construção, com blocos de cimento e ferro, que pelos vistos foi embargado (uf, uma medida!). Agora resta limpar o que já foi feito. Podia até por um contador para determinar o tempo que aquela porcaria vai ficar ali intacto.

E parem com esta conversa de que o povo é difícil, é ignorante, que destrói e bloqueia, pois que sabemos que na actualidade o maior perigo para a Cidade é a construção de vivendas, hotéis, resorts e o pessoal chique que quer morar nas casinhas centenárias, destruindo-as completamente. Ignorante é o Estado, mais uma vez.

Pessoal, não precisamos de Planos Estratégicos; precisamos de Planos Operacionais, tipo: que fazer com a figura de Estado que autorizou a destruição de uma das casas da Rua de Banana, em uma vivendinha ridícula?

16.12.08

Prémio Nacional de Arquitectura

A cidade da Praia, para além de outras preciosidades, é uma grande exposição de aberrações arquitectónicas/urbanísticas: zonas residênciais sem acessos condignos; falta de espaços de lazer; inexistência de parqueamento automóvel; ausência de espaços verdes (ou pelo menos livres); ocupação indevida do litoral; indústrias entaladas dentro da cidade; tráfego pesado e ligeiro juntos, numa grande confusão; desrespeito total de padrões de construção (prédios, casas individuais); até chegar a desenhos de certas habitações que sairam da cabeça de um arquitecto (ou não) inundado de uma tremenda confusão estética.

É tão raro encontrar um caso exemplar de urbanização. A zona chamada de "Wall Street", onde concentra a Bolsa de Valores, vários Bancos, lojas, farmácias, operadoras de telecomunicações, vários escritórios e residências, é quase funcional e um bom exemplo, mas mesmo assim é apertado, não há parqueamento, não há espaço para a criançada, a não ser dentro dos condomínios fechados, que é um conceito que, se eu fosse dono desta terra, mandava demolir. É tão raro encontrar um exemplo de edifício de alta qualidade de: desenho, função e construção.

Os arquitectos tem ainda responsabilidades enormes, como sejam as ambientais e as económicas. Os arquitectos são um dos maiores responsáveis pelo visual de uma cidade. Em nossa terra, é uma classe sofrida, destratados pelos políticos, especialmente os Presidentes de Câmaras, estes bestinhas metidos a reis. Para além disso tem uma grande confusão interna, que é uma especialidade caboverdiana.

Ocorreu-me que um prémio nacional de arquitectura podia ser pensado, como forma de: criar um ponto de reflexão sobre esta importante profissão; criar uma cultura de qualidade; e recompensar os casos de excepção que existem, neste mar de betão desordenado. Mas, por favor, a ter um prémio do género, que não façam como o Ministro da Cultura que criou um prémio ele próprio, nomeou um júri ele próprio e quase que ganha o prémio ele próprio. Convoquem um júri internacional, professores, pessoas de reconhecido mérito.

Será que certos arquitectos da praça, donos de algum poder, estariam preparados para saber que a sua obra é uma bosta?

15.12.08

Crioulês

Teresa Sofia Fortes (jornalista):...há cabo-verdianos que são contra o ensino do crioulo e a sua oficialização porque dizem, dificultaria a aprendizagem do português. Existe outra corrente que diz o contrário, ou seja, que aprender crioulo (gramática, sintaxe e semântica) facilitaria a aprendizagem do português.

Nicolas Quint (línguista, doutorado, investigador, 13 livros publicados, entre os quais Gramática da Língua Caboverdiana): Esta última seria a minha posição. Compreendo perfeitamente este receio porque o português é a língua materna ou veicular de mais de 200 milhões de pessoas no mundo e o crioulo tem um número reduzido de falantes, por volta de 1 milhão de falantes, incluindo a diáspora. É evidente que há muitas vantagens sociais que levam as pessoas a querer aprender e falar o português. Aliás, creio que ninguém em Cabo Verde está a pensar em substituir o ensino do português pelo ensino do crioulo. Mas é preciso ter cuidado. Se se ensinar apenas o português corre-se o risco de ver o crioulo desaparecer. Pode não ser daqui a 100 ou 200 anos, mas um dia vai acontecer. Uma língua que não se ensina de todas as formas está condenada no mundo de hoje. Os cabo-verdianos devem aproveitar as duas línguas que fazem parte do seu património cultural. Acho que não há nenhum impedimento de se optar a aprendizagem paralela das duas línguas. Um ensino bem construído e bem programado do crioulo ajudaria a tornar as crianças e o resto da população conscientes de que estão a lidar com duas línguas diferentes e provavelmente ajudaria muita gente a falar melhor o português pois teriam uma base sólida para depois se abrirem para outras línguas.

Fonte: A Semana online

Pergunta: o que nos assusta tanto ao tratar da Língua Caboverdiana?

Ignorância e esquecimento

"Emigrantes portugueses desintegrados em Andorra
Uma investigação, elaborada pela socióloga Magda Matias a pedido do governo andorrano, aponta para a "existência de segregação política, laboral e cultural", apesar dos portugueses serem a maior comunidade estrangeira no principado.
" Fonte: Expresso

Vi também na televisão que em Portugal, por desculpa da crise, estão a "convidar" os nosso emigrantes a voltar às suas terras, mesmo que isso signifique deixar para trás uma vida inteira (de miséria). Povos emigrantes deviam ser mais tolerantes uns em relação aos outros, mas não são. A Declaração Universal dos Direitos Humanos fez 60 anos, mas ainda não apanhamos o significado do termo "Universal". A gestão das Migrações é um falhanço universal dos Direitos Humanos: em parte alguma os emigrantes são tratados com dignidade.

13.12.08

Uma Entidade baixou aqui...

"Leio tudo. Devoro tudo o que está escrito nos tais blogs de Cabo Verde. Sou um devorador de blogs. Tenho várias máscaras, pseudónimos e nomes. Sou amigo de todos e de ninguém. Estou e não estou. Sou e não sou. Existo e sou um fantasma. Estou por perto e tenha uma visão global de ti e de todos os que te rodeiam. Estou em todos os lados. Sou Omnipresente, Omniconsciente. Sei todos os teus passos. Sei de todos as tuas fraquezas. Sei os teus fortes. Sei como pensas. Sei como devias pensar. Sei onde estás e onde não vais. Sei onde queres chegar e onde não alcanças. Sou o anónimo. Sou todos os anónimos num só. Estou por dentro. Sou aquele te mete medo. Que te faz pensar. Que te faz dar justificações pensadas num sábado de manhã quando devias estar com a família a curtir a vida que é curta."

Comentário de um Anónimo...Um verdadeiro Manifesto Anónimo. Não estou a ser cínico: achei verdadeiramente se tratar de uma leitura interessante: a do olho que não se vê, dos passos atrás de nós que não se ouvem, do objector de consciência, do misticismo, omnipresença, omniconsciência...brrr...estou arrepiado.

Há frase e frases

"Franco-atirarei na tua ideia discordada e não no teu peito inocente dela"

Um visitante deste blog, com a imagem enigmática de Cristo, que diz frases revolucionárias, tem delicadeza de poeta, apelida-se de Joshua e escreve muito aqui: http://joshuaquim7.blogspot.com/

Neste mundo perdemos uma jóia numa esquina e encontramos um baú na próxima.

Tempo de mudar

Vamos entrar no ciclo das pré e precoces campanhas eleitorais. A partir de agora tudo será classificado de verde ou amarelo. Quem nem é uma coisa ou outra, melhor desaperecer de circulação. Vou experimentar o que é isso.

Tempo de fechar, fechar-se e inventariar-se. Durante anos, progredi quieto na fotografia, nas artes plásticas e na escrita, num percurso de tentar decobrir com se fazem essas coisas. Nunca tive a ousadia do público. Houve pessoas que me dizia: é preciso começar por algum lado, porque a obra nunca está acabada. Então um dia, enchi o peito de ar e saí à rua. A vida mudou.

Fizemos Praia.Mov 2006, 2007, "Texturas da cidade" em 2008, fizemos teatro, fomos ao Mindelact, conhecemos artistas brilhantes, lemos e escrevemos bastantes coisas, poesia, fizemos "META_FORA", este filme que está por debater, participamos num festival de filmes documentários, seguimos vários workshops, promovemos vários debates, compilamos muitas ideias, conquistamos pessoas, fomos ao estrangeiro, ARCO'07, uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo, andamos a escrever crónicas todos os meses e até na televisão pública já fomos parar e é precisamente neste ponto, da televisão, da máxima exposição, que vem a necessidade do balanço.

Balanço para mim: ENORME. Balanço social: FRUSTRANTE. Vivo num país carente de tudo, principalmente de discussão. Temos um déficit enorme de participação. Somos um país de egoístas e mesquinhos. Por mais que uma pessoa se esforce para estar na boa, tentar eliminar a ideia da vaidade, tentar demonstrar a OBRA, há sempre uma núvem de crápulas prontos a atacar ao mínimo erro (humano). Estão sempre aí, a fazer não sei o quê, mas sempre aí, à espreita. Consigo sentir-lhes o bafo, os dentes afiados, à espera que a presa se enfraqueça. Ainda por cima mascarados.

A vontade de fechar-se tem a ver com repensar as coisas, porque não estão funcionando. Uma pessoa se expõe, trabalha mesmo (depois das horas), errando de certeza, mas tentando sempre, e quando olha à volta, nada mudou e ainda ganhamos uns pentelhos de estimação. A estratégia não tem sido boa.

12.12.08

Girar, girar, girar

Lá vou eu hoje ao 180º do Abraão...girar. Das outras vezes fui com convicção, com algo para dizer e procurei a melhor forma de o dizer, sabendo que a televisão é um saber próprio, aprende-se com a prática e nem sempre a mensagem sai da melhor maneira. Mas hoje não estou convicto; estou inseguro e um tanto desanimado. Que tema abordo? Qual é o sentido das palavras? Que efeito é que elas têm, neste país que parece que palavras são bandeiras rotas?

As palavras neste país, ou são bandeiras rotas, ou devem ter somente 1 de 2 cores possíveis, as cores dos 2 únicos partidos deste país, para que tenham ouvidos. Se esta afirmação for verdadeira, estamos mal. Se existem só 2 partidos efectivamente, estamos mal. Se não há outras bandeiras estamos mesmo mal.

Qual é a forma de contrariar a palavra política, que neste período que já se vê as eleições no horizonte, distorce a realidade. Entramos no período do marketing político. Para uns está tudo errado. Para outros está tudo bem. E no meio? E no meio disto tudo, onde pára a sociedade? Ou seja, onde estamos? Qual é o valor efectivo das nossas acções? Eu escolhi ser participativo; qual é o significado disso? Quanta energia terei de dispensar até conseguir um resultado efectivo?

Não sei de nada e por isso estou desanimado...

11.12.08

Countdown project

Faltam 159 dias, 9 horas e 17 minutos para terminar o prazo que o Ministério da Cultura deve estregar o Plano Estratégico da Cultura, PES. Estou em pulgas!

Hoje foi anunciado que vai haver (mais) um fórum para debater o ALUPEC. Para começar o MC está virar um especialista em fóruns. Faz sentido, na medida em que este país tem a cultura dos fóruns, mesmo que não produzam coisa alguma e gastem centenas, ou mesmo milhares, de contos. Preciso saber: as (in)conclusões e as re(co)mendações deste fórum vão ser integrados no tal PES? É que preciso saber se ponho mais um contador, para a implementação de políticas efectivas de defesa das nossas línguas, ou não.

Bom, sei que o tema é ALUPEC, mas, ao meu ver, precisamos falar de Língua, que no nosso caso são Línguas. Não é todo o país que é bilingue, ou semi-bilingue, como somos. Mas há uma grande distorção no tratamento do assunto: a língua mãe não é ensinada nas escolas/a língua madrasta é ensinada pessimamente; a língua madrasta tem autoridade decretada/a língua mãe tem autoridade efectiva;...e por aí fora.

O certo, certinho, é que somos mal servidos de ensino de Língua(s) e por isso praticamente não temos Literatura.

Evasão/Invasão

Imagem da WWF
Acordei com vontade de correr. Fazer jogging, como fica mais chique dizer. Tradicionalmente ía correr pelos lados da Quebra-Canela, o nosso reduto espiritual, em desaparecimento. Agora aquilo anda cheio de obras. Hoje fui correr dentro de um ginásio, para evitar a irritação que essas obras causam-me. Mesmo assim fiquei com o assunto na cabeça.

Eu sou ABSOLUTAMENTE contra todas as obras que estão a ser feitas na Quebra Canela. Os mais velhos dizem que o areal da QC, em tempos outros, era extenso. O areal foi ficando curto, com o avanço da cidade, com a erosão, mas também com a apanha de areia (sim, há apanha de areia na QC). Agora, com (a moda) o asfaltamento da estrada da QC, o areal ficou ainda com menos espaço. Aliás, QC está a ficar quase que um estorvo ali. Parece que a vontade é de acabar com aquele pedaço de praia.
Não bastasse o encurtamento da praia, resolveram fazer um enorme saída de águas, que não sei bem se são residuais, superficiais ou fecais, bem dentro da praia!!!!...

A cidade da Praia não tem cidadãos; têm bestas quadradas.

8.12.08

A uma mulher

Imagem:Basquiat
Amiga, haverá alguma forma de suavizar o teu sofrimento? Haverá forma possível de atenuar a barbárie de uma violação? Que não bastante bárbado em si, veio a quadriplicar?

Servirão de algo dizer-te palavras e finalmente não guardar mais a admiração que te tenho e informar-te que poucas pessoas merecem o meu respeito como mereces? Servirão as palavras, ditas de circunstância, por ditas pessoas importantes, que, dirão, sentem profundamente?

Haverá castigo suficiente para os perpetuadores de tal babárie? Serão os doze anos que ouvi dizer que se apanha de cadeia para esses casos, com todos os agravantes, compensação de alguma coisa?

Amiga, nem posso imaginar as chamas que ardem no teu ventre agora. Nunca, ninguém, por abstração, intelectualmente, poderá por-se na tua pele. Só posso estar inundado de raiva como estou agora.

E vou mandar à merda a próxima pessoa que entrar por este blog e sugerir que eu pare de chatear, que eu pare de dizer que tudo está mal, que eu vá cuidar da minha vida, que eu vejo tudo torto, porque, para além de a mandar à merda, vou lhe dizer que não vou parar de chatear, que enquanto agirmos como se a estupidez não existisse, vou ser um valente chato. Ou então do que vale a força, a inteligência, a educação e as possibilidades que me foram dados?

Ironia macabra

Imagem:Basquiat
Quando a violência ocorre bem dentro no nosso seio, com a nossa gente, com a gente que abraçamos, temos saudades, alegramos ao revê-los, gente que admiramos, que amamos, sentimos então o quanto somos estúpidos. Sentimos de verdade o quanto pode a raça humana ser despresível.

A minha amiga, que admiro tanto, tão linda, foi estrupada violentamente, por QUATRO demónios disfarçados de homens. O meu amigo foi espancado, amarrado e obrigado a assistir a macábrie. O meu amigo até que poderá, dificilmente, se recuperar um dia, mas a minha amiga não. A minha amiga, mãe, profissional, cidadã de alto valor, amiga mesmo, doce e inteligente, foi escolhida pelo inferno para ser infligida um castigo. Não se livrará nunca do inferno.

O castigo parece ser: irresponsáveis, apelidados de políticos, mas previligiados pela sociedade, porque tem o poder de decidir por toda a sociedade, digladiam-se pela conquista e manutenção do poder. Nesta luta, estúpida, pelos valores que atrela, uns escondem a brutalidade, outros brutalizam. Então vem Deus, se existe, ou uma Força Oculta, ou uma Lógica qualquer que anda por trás disso tudo, inflingir um temeroso golpe, a ver se alinhamos o juízo. Eu sei, a violência existe em todo o lado. Mas não acham que estamos a beirar o estupidamente ridículo?!

Mas porquê os meus amigos? Mas também dirão os outros: porquê os meus amigos? Então digo somente: porquê?

Ironia trágica do destino

Imagem:Basquiat
O jovem casou-se. Primeiro no Civil, para depois, no dia a seguir, ir casar na igreja e arrebentar-se de alegria em festa, com a família e com os amigos. Em vez disso morreu em trágico acidente de automóvel, a preparar a sua própria festa. Um hetacombe cai sobre os familiares, sobre os que o conheciam e comoveu toda a sociedade, parecendo realmente uma piada de muito mau gosto de uma força oculta.

Lembro-me que as nossas estradas são assassinas, que a prevenção não é suficiente, que morre gente barbaramente em acidentes de automóveis, mas, como teve um policial a lata de dizer certa vez, o balanço é positivo, porque para o mesmo período, do ano passado para cá morreu menos gente. Para o idiota do policial, uma dica: tratando-se de vidas humanas, ou melhor, de morte humana, o balanço nunca é positivo; no máximo é menos negativo.

5.12.08

Estamos todos FU...

Se há uma coisa absolutamente clara para mim, na celeuma gerada pelas moções confiança/censura, é que a classe política, ela todinha, está a levar este país, outrora miserável e de brandos costumes, para caminhos perigosos.

O Governo, "protegido" pela lei, adjudica de forma directa cerca de 14 milhões de contos de obras a empresas estrangeiras. Sabem quantificar esse montante no contexto CV? Só uma referência: o Orçamento do Estado é de cerca de 52 milhões de contos. O que diz a tal lei de adjudicação de obras públicas, que protege os políticos, e nos desprotege, a nós cidadãos: que o Governo pode adjudicar qualquer obra directamente, desde que este tenha carácter de urgência ou se revele oportuno. Agora digam-me, o que tem a Circular da Praia de urgente? e oportuno?? E outras tantas obras? E o ESTRONDOSO escândalo da adjudicação do imenso projecto, que é Palmarejo Grande, a uma empresa que nem sequer tem alvará para essa dimensão de obras?

A Oposição anda a querer desmontar o Governo, mas, para além de não conseguir reunir provas materiais concretas, a sua classe tem tantas imbricações com os tais negócios supostamente irregulares, que não podem forçar muito a barra. Hoje fiquei a saber que a Sociedade Lusa de Negócios, a que está a causar um terramoto político por cá, ao qual o Governo está (ou esteve?) ligado, dona da corruptíssima BPN, tem administradores que foram figuras de proa do MPD e do Governo da República de Cabo Verde.

O nosso calcanhar de Aquiles: SOCIEDADE CIVIL. Não me interessa se o Governo faz adjudicações legais; o que me interessa se são moralmente aceites e se são lesivos ou não para o país. Não me interessa se a Oposição grita no Parlamento; interessa-me que mostrem, por vias legais também, as irregularidades dos factos e que sejam capazes de fazer mea culpa. O que está claro é que, enquanto a Sociedade Civil não se mexer, os políticos continuarão a ser donos e senhores desta terra. Ou seja, enquanto os cidadãos não conseguirem se organizar em associações, grupos de cidadania, grupos de pressão, manifestações, petições, ou qualquer outra forma efectiva de exercício da cidadania, continuaremos a colher os malefícios da actuação política: especulação económica, delapidação do património nacional, desigualdade social, erosão moral e geração de conflitos.

Para o nosso maior pesadelo, atribuem-nos boa classificação no mundo, tendo em conta que o nosso termo de comparação (o resto da África) está na lama.

3.12.08

Estado grave...e a piorar

A política caboverdiana está a atravessar um daqueles momentos tristes e graves. Tudo despoletado pela polémica do BPN português, que está ligado ao Banco Insular caboverdiano, criado pela Sociedade Lusa de Negócios, que está (ou esteve) ligada ao Governo.

Isso tudo dá à Oposição, mais precisamente à dupla de cunhados Jorge Santos/Fernando Freire, o direito de chamar ao Primeiro-Ministro de ladrão, mentiroso, de dizer que ele mudou a lei das instituições financeiras em nome próprio (como se os técnicos dessas instituições fossem moscas mortas) de gritar na Assembleia e de meter o PM na Justiça.

Isso tudo dá ao Primeiro-Ministro o direito de chamar a Oposição, à tal dupla de cunhados, de bando de arruaceiros e mais outros mimos e de os meter na Justiça.

A Justiça, já sabemos, anda emperrada, sem acção, nada pode fazer, porque a instituição carece de reformas urgentes de ordem técnico-legislativas, materiais e humanas. A mesma classe política (Governo+Oposição) não conseguiram aprovar o pacote de reformas da Justiça, o que revela que a classe política anda interessada em tudo, menos em desbloquear as situações concretas.

Crítica ao Primeiro-Ministro: o Governo não faz negócios; o Governo abre concursos públicos e explicita as regras do jogo. Ainda há dias aconteceu mais uma vez, o IFH, instituição pública, concedeu ao Monte Adriano a construção do Palmarejo Grande. E concurso?

Crítica à Oposição: a ideia que passa que é cosa nostra da tal dupla de cunhados. Onde estão os outros? Os de maior craveira que esses dois aí? Até quando os grandes homens da Oposição (Carlos Veiga, José Filomeno, José Tomás Veiga, José Carlos Fonseca, etc, etc, etc) vão permitir este nível de discurso incendiário, panfletário e, mais grave, sem provas materiais?

Alguém tem dúvidas que a classe política é a classe mais importante numa sociedade, o que quer dizer que o seu comportamento condiciona toda a sociedade? Ainda reclamamos da violência, dos maus costumes e dos valores distorcidos?


2.12.08

Achadura

Imagem tirada daqui: http://www.myspace.com/hernani1978

Hernani Almeida concedeu uma entrevista no jornal "Nação" que está a causar o maior reboliço, que acontece porque em CV a Arte é coisa emocional. Daí faltar a escola, para que nós aprendamos a dar a nossa opinião de forma mais fundamentada. A arte tem um parte subjectiva, que é muito menos subjectiva que muitos pensam, e uma parte técnica. A parte subjectiva tem a ver com a apreciação estética (gostar/não gostar), mas o resto são factos, são teorias fundamentadas na história, na sociologia, na antropologia, na...ciência.

Hernani fala com propriedade técnica, mas também opina e a sua opinião tem peso. O grande problema está quando outros "peritos" se põe a construir teorias em cima das opiniões dele, acabando até por distorcer as suas opiniões. Leiam Hernani devagar, porque ele é honesto e bastante assertivo

Que em CV a música não se desenvolve. Não totalmente verdade, senão ele próprio não existiria. Completamente verdade, se compararmos com outras realidade e com o "achar" que somos desenvolvidos. Como ele próprio disse, formas musicais mais evoluidas não temos, como o Jazz.

Que Princisito não é músico, estou certo, quis ele dizer que Princisito não é arranjador e falta-lhe técnica. Mas Princisito é muito músico (na expressão do Djinho) no sentido em que ele é um criador inspirado e talentoso.

Depois vêm as famosas comparações S.Vicente/Santiago. Quando é que começamos a fazer debates sem paixão sobre este tema? Quando é que começamos a apoiar na História, como uma ciência, para fundamentar as nossas declarações? O que estamos a assistir, DE FACTO, na música caboverdiana? Será difícil perceber que S.Vicente, por mais que nos doa, está a perder vitalidade social, logo cultural e que, logicamente, a criação artística tenha decaído? É complicado perceber que, historicamente e antropologicamente, a ilha de Santiago é o nosso maior stock cultural, e que sendo actualmente a maior economia do país, logo a maior dinâmica social, fosse natural a exploração do seu stock cultural? É tão inaceitável admitir que Santiago é de momento o maior contributo à música CV? Já paramos para pensar que até mesmo sociedades muito avançadas, como os EUA, UK, França, muito evoluídas tecnicamente, tiveram a necessidade de procurar matrizes de outras partes do mundo (pobre) para se revitalizar?

Porque não aceitamos como natural e tranquilo que grandes músicos de S.Vicente, porém a viver numa sociedade em retracção, colaborem com criadores e portadores de grandes tradições de Santiago, produzindo coisas novas. O disco de Princizito é terrivelmente autoral, quase que a sua cara, porque Princizito tem uma grande presença de espírito; é o som do Princizito; é a sua poesia. A produção musical é do Hernani e é uma produção de fina qualidade técnica, mas em momento algum, nem o próprio Hernani, reclama a autoria desse disco.

Hernani Almeida é um grande homem, pelo valores de honestidade intelectual que cultiva. É doloroso ver "artistas" a usarem o seu nome para alimentar essas questões "ruidosas" que estão a circular por aí.

Countdown

Resolvi pôr pimenta aqui no Bianda. Na barra ao lado está um contador de dias que faltam para o MC apresentar o Plano Estratégico para a Cultura...Que me sirva de lembrete...porque não quero deixar de chatear...porque temos que chatear até que as coisas resultem.

Mulas

"Mulas" é o nome dado a pessoas que transportam a droga, dentro do próprio organismo. Que raio de nome feio que se farta! Por muito respeitinho que se tenha às mulas, mas apelidar um ser humano assim...! O triste é que, apanhadoa na grande teia do tráfico da droga, arriscando a vida, transportando quantidades impressionantes de droga dentro do organismo, acabam por ser isso mesmo.

Da Caps, um comentador do post anterior, disse a coisa certa: elas acabam por ser as grandes condenadas de todo um sistema, que nem mesmo os políticos estão isentos de culpa. É claro que o que fazem é crime e deve ser punido, mas é preciso urgentemente agir sobre todo o montante do problema. É só ver que o Primeiro-Ministro declara publicamente que há actividade política financiada pela droga e isso não tem consequência nenhuma. É só ver a quantidade de negócios (prédios, automóveis, estabelecimentos) que florescem por aí com dinheiro duvidoso. É só ver os advogados com alta responsabilidade no Estado a defender a "honra" de traficantes. É só ver, ou aliás, não ver o Ministro da Administração Interna a vir mais vezes à Comunicação a falar do tema. Por alguma razão mereceu a classificação de "tocha apagada" aqui neste blog.

Tenhamos a coragem de dizer: a nossa sociedade está impregnada de droga, das águias reais às mulas e que todos nós, mas todos nós mesmo, participamos disso. Ninguém tem o direito de se ausentar da sua responsabilidade social, sob pena de não pertencer a sociedade nenhuma. Mesmo quando achamos que não temos nada a ver com as questões, participamos, ao votar, ao consentir, ao pagar impostos, ao adquirir bens, ao calar-se. A democracia pode ser tão perigosa como a autocracia.

28.11.08

Filmes da minha vida

Há filmes e filmes. Há dias em que temos a felicidade de ver uma estrondosa obra de arte, que nos muda a perspectiva. Não importa se é unanimamente espectacular para todos. Importa é que para nós, naquele momento, aquele tema, aquele realizador, aqueles actores e todas as outras dezenas de pessoas que trabalharam no filme, cumpriram o objectivo de nos perturbar a alma.

Este filme, "Maria cheia de graça", fez isso em mim. Ainda não sei bem explicar qual é a parte responsável por este desassossego: se foi a realização tremendamente naturalista, se foi o tema angustiante, se foi a representação ou se foi a linda actiz. Mas fê-lo. E por alguma razão tem tantos prémios.

Como não temos salas de cinema, só posso dizer que procurem nos vossos video-clubes.

27.11.08

Hiena à solta

Cartoon by Hiena
Ninguém pára este Hiena, o nosso cartoonista de serviço, com os seus golpes finos. Como lhe disse no seu blog, ele mata uma pessoa, a pessoa morre e fica por saber como morreu. Mata como os ninjas. Ele é que é um verdadeiro HIENANATOR.

Abraço Hiena.

25.11.08

Diluir o discurso

Vamos lá diluir o discurso um pouco sobre o Governo, para não parecer autismo a questão do Ministério da Cultura. Se tivesse que classificar o Governo, sabendo que muitos ministros apanham má nota, por estarem no sector que estão, de 0 a 10:

Primeiro-Ministro. Eu gostaria de ter um chefe da Oposição que me permitisse dizer que José Maria Neves não será o meu Primeiro-Ministro em 2011, mas não é o caso. JMN, no meu ponto de vista, fez política virada para os negócios e descuidou-se gravemente do Social e do Cultural. Mesmo assim, mesmo para os Negócios há falhas redondas: TACV em falência técnica; grave problema de Energia; Transportes Marítimos ainda não é realidade; Formação Profissional é insuficiente; não ter conseguido aprovar as Reformas da Justiça é um fracasso político; as PME nacionais estão sufocadas; as Telecomunicações continuam bloqueadas, com as altas tarifas, etc. As Infraestruturas é das raras área que me regozijo, ainda assim com críticas quanto às prioridades, por exemplo das Estradas em detrimento da rede pública de Água, Esgotos, Electricidade e Telecomunicações. Porque a Oposição desilude completamente, este Premier, pelo menos, garante a "paz institucional". Nota 6.

Ministro das Infraestruturas, Transportes e Telecomunicações. Manuel Inocêncio Sousa causa-me grande respeito. A grandeza de um homem é feita de História e este tem uma história política de grande valor. Não me esquecerei que, enquanto o PAICV esteve na oposição e muitos fugiram, este homem manteve-se inamovível na sua convicção política. Enquanto MITT porém as coisas têm desandado. Não o perdoo pela questão dos TACV. É ausente da minha actual área profissional, Telecomunicações. Cabo Verde tem uma oportunidade económica com as Novas Tecnologias, mas estamos 1 década atrasados e a culpa é maioritariamente das Telecomunicações (preços). Nota 5.

Ministro da Saúde. Sabem quanto ganham as enfermeiras? E os "serventes"? E os médicos? E os especialistas? Mas, tem aumentado os Recursos Humanos nesta área. Benvindo o curso superior de Enfermagem. Grande conquista o hospital Santiago Norte. Mas por favor tratem das condições de vida dos profissionais que, religiosamente, mantêm um nível adequeado de serviço. Nota 4.

Ministra da Reforma do Estado e da Defesa. Cristina Fontes Lima, caso não saibam, é uma pioneira na política CV, pós independência. Eu gosto de convicções e ela as têm. E ela participa da vida social do país, coisa que poucos ministros fazem. Ou seja, vai a exposições, concertos, lançamento de livros e outros eventos. Quanto à governação, a Reforma do Estado é uma realidade, embora as próprias contradições do país não a deixem avançar mais. Defesa é para repensar totalmente. Eu a vejo mais como uma diplomata do que uma governante. Nota 6.

Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades. Não gosto do homem. É um dos ressurgidos do PAICV, como se nada tivesse acontecido. Saltou do Ministério da Economia para os Negócios Estrangeiros como se nada tivesse acontecido, safa-se sempre e há qualquer na conversa dele que não me agrada. Nota 3.

Ministra das Finanças. Cristina Duarte é uma força da natureza. O melhor do Governo. Nota 8.

Ministro da Administração Interna. Lívio Lopes, uma tocha apagada. Nota 1.

Ministra da Justiça. Ainda não há tempo para a avaliar, mas o sector da Justiça merece um valente cascudo, pela incapacidade de aprovar o pacote de reformas para a Justiça. Nota 3.

Ministra da Economia, Crescimento e Competitividade. Fátima Fialho entrou a querer sacudir as coisas e tem mostrado boa atitude, mas o sector em si está de rastos. A crise energética por si só deita tudo por terra. O desemprego elevado é indicador de incompetência de qualquer Governo. O Empreendodorismo é só conversa. Competitividade? O que é isso? Competitivos em relação a quem? Ademais, essa conversa de crescimento a 2 dígitos parece-me pura demagogia, em que as Estatísticas Económicas (ou a falta delas, ou a existência dúbia delas) são a culpa. Nota 4.

Ministra do Trabalho, Formação Profissional e Solidariedade Social. Madalena Neves é das pessoas que trabalham muito e não precisam se exibir. Foi posta neste ministério a ver se recupera o atraso da anterior gestão. A nódoa neste sector, para mim, é a Formação Profissional, que ainda é encarado como Educação de segunda. Nota 4.

Ministro Adjunto e da Juventude e Desportos. Sinceramente!...Nota 0.

Ministro do Ambiente, do Desenvolvimento Rural e dos Recursos Marinhos. Um discurso confuso. Não tem percurso no sector. Não tem pinta. Nota 3.

Ministra da Descentralização, Habitação e Ordenamento do Território. Alguém consegue explicar o que Sara Lopes faz no Governo? Ainda por cima com uma pasta desta tamanho? Nota 0.

Ministro da Cultura. Este blog é quase inteiramente dedicado a ele. Nota 0.

Ministra da Educação e Ensino Superior. Vera Duarte é outra grande senhora da política CV. Vamos ver como se safa. O sector é o maior fracasso de Cabo Verde de todos os tempos. Tudo devia ter começado aqui. Tenho dois exemplos: Cuba, embora deteste o regime; Estónia, independente há apenas 16 anos. Nota 3.

Ministra da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares. A minha jovem amiga Janira Hopffer Almada tem feito um incrível esforço para provar aos críticos que este ministério faz sentido e que ela aí está por mérito. Sim, ela é um fenómeno de inteligência e trabalho, mas o ministério não faz sentido. Nota 3.

Em resumo, este Governo só não cairá porque a Oposição tem sido péssima. Ai de nós se continuar a mesma lógica. Ai de nós se a Oposição não mudar o discurso incrivelmente baixo, se não se apresentar como uma colectividade de grandes homens desta terra, se não transmitir confiança e solidez. O Governo mantêm-se de pé, mas a que custo? Digo, a que custo em termos de $.

24.11.08

História da Cultura

Imagem: João Nelson, há 22 anos atrás

O pessoal do Ministério da Cultura abriu a boca, numa fiada de palavras decoradas. Andam a insultar a inteligência de cada qual. Mas isso é bom! Inflama os ânimos e dá vontade de mandar tudo pelos ares. Mas, invés disso, vamos a uma soft war; bofetadas com luvas de seda.

Em 1986, há 22 anos atrás (caraças!) nascia uma revista cultural, uma das maiores da história cultural do país, não pelo tamanho, mas por representar uma alta densidade de pensamento: SOPINHA DE ALFABETO. Vejam os nomes: Mito, Filínto Elísio, João Nelson, Eurico Barros, Arménio Vieira, Vadinho Velhinho, Oliveira Barros...e outros tantos.

Revistas culturais já não há. O Artiletra é qualquer coisa de...extemporâneo. O Pretextos publica, mas quem sabe sequer da sua existência? Os jornais da praça têm um minúsculo caderno, que não devem ser chamado de "caderno cultural" por respeito à Cultura. Mas, o desaparecimento das revistas culturais é sintomático de uma coisa maior: o desaparecimento de movimentos culturais. Ou, de uma forma mais consentânea, os movimentos que existem (se assim podem ser chamados) não colam com a dinâmica actual da sociedade cabovediana. Ou, de uma forma extrapolatória, toda a Cultura, enquanto actividade organizada, perdeu o passo da história. Está ULTRAPASSADA.

Antes de discutir o sexo dos anjos, convinha que olhássemos no espelho e perguntássemos: O QUE SE PASSA? O que significa afinal o fazer da Cultura, nos presentes dias? Antes que a Cultura tenha uma economia, ou que contribua para a economia, ela precisa se identificar.

Fuga em frente

Imagem: capa do livro "Animal Farm", por Shepard Fairey

Uma semana de ausência! Explicações impõem-se. Não é que um blogger tenha que se explicar, mas quando se têm um público "fidelizado", quando se recebe tantos inputs na rua e se ouve tantas palavras de apreço, então um blog deixa de ser tão pessoal como isso; é uma comunidade, de algum modo. Obrigado os que se indignaram com esta semana silenciosa.

Bom, estive numa espécie de catatonia depois do fórum sobre a Economia da Cultura. É que não posso com tanta desonestidade pegada. Uma pessoa fica a pensar se manda isto tudo àquela parte, se fica mudo ou se deixa a coisa passar, para retomar a serenidade dos dias. Foi o que fiz, mas mesmo assim fiquei com sequelas; não paro de pensar nesse tal fórum, um rol de palavras vãs.

O Ministro da Cultura, esse, já roça o absurdo, de tanto repetir os mesmos versos sem piada. Sr. Ministro, governar não se faz com versos; faz-se com políticas, programas e projectos. Para além disso, faz-se com verificação de resultados. Mandei-lhe um recado pela televisão. O Sr retorquiu também pela televisão. Desafio-lhe a apresentar os seus projectos, os seus resultados e os seus impactos concretos. Pois, falar é fácil.

O Sr Primeiro Ministro já teria perdido o mandato, se Cultura desse votos. Aí é que está, as acções para o sector da Cultura não tocam as pessoas directamente. Há coisas mais urgentes: água, energia, habitação, etc. Mas, sabemos nós bem que há coisa imediatas e há coisas definitivas: o investimento na Cultura é definitivo e estruturante. O Premier sabe bem disso, mas tanto se lha dá! Deu ao Ministério da Cultura 6 meses para apresentar um Plano Estratégico para a Cultura. AHAHAHHAHAHAH

É isso que chamo de fuga em frente...E a caravana continua.