14.7.08

Dignidade II

A situação das pessoas que se lançam ao mar, em pequenas embarcações, tentando desesperadamente chegar à Europa, morrendo de desidratação e fome, não me sai da cabeça. A forma como o mundo tem lidado com essa situação e a forma como nós, caboverdianos, temos lidado com isso, não pára de me fazer uma grande confusão. Enquanto humano, desilude-me a (falta de) humanidade da questão. Enquanto caboverdiano, envergonho-me do tratamento que é dado ao assunto.

Este foi o mote para a minha crónica n'A Semana, do dia 11 de Julho, em que escrevi uma torrente de emoção e talvez por isso não tenha saído uma coisa muito clara. De todo o modo, a mensagem é simples: da mesma forma que a ecologia, a energia e o preço dos cereais é um problema de todo o mundo, também a miséria é. O desrespeito aos direitos humanos na China preocupa a todos; também preocupa Guantanamo; preocupa o armamento nuclear; e deve preocupar a situação incrivelmente degradante por que passa alguns países africanos e as loucas consequências que daí advém.

Li na imprensa: "...não temos condições logísticas e humanas para tratar dessa gente..."!!! Estamos à espera de quê para ter condições? Ou será que achamos que só vamos cuidar dos nossos condomínios fechados, alto standing, para o mercado europeu? Ou será que não consideramos que seja um problema que valha a pena cuidar? Ou será que de repente não somos mais cristãos? Ou será que não subscrevemos a Declaração Universal dos Direitos Humanos? Ou será, pior ainda, subscrevemos essas tretas, porque fica bem na figura?

O problema é de nós, humanos, todos. Principalmente de nós, que somos africanos.

1 comentário:

Rosi disse...

E o mais grave é que a comunidade Europeia paga aos países como Cabo Verde para manterem o problema fora de Europa. Sacudir agua do capote. Um livro interessante que fala dessa problemática, é "passaporte para o céu" de Paulo Moura http://www.oi.acime.gov.pt/modules.php?name=News&file=article&sid=1050
É um livro pesado, mas retrata a realidade dos imigrantes que esperam uma chance para entrar na Europa.