30.12.10

Balanço

Datas são construções que não tem nada a ver com os ritmos de vida, mas de todo o modo são sempre pretextos para assinalar alguma coisa. Final do ano pode assinalar um momento de balanço.

2010 foi um ano mágico. Espero que assim o tenha sido para todos. Infelizmente não será. Aconteceu tudo de bom. Estou muito mais maduro hoje, o país está (o país está ou não está, dependendo da percepção pessoal de cada qual), os meus amigos estão, isto tudo, claro, com alguns contratempos. 35-40 deve ser a melhor fase na vida de um homem. Se tiver fases ainda melhores, uau!, amo a vida. Nesta fase sinto-me como a ponta de uma lança afiada. Meus amigos também. É a fase que somos gestores, directores, chefes de projectos, especialistas, políticos elegíveis, os filhos já são pessoas, a nossa casa já é um lar completo, é  uma fase que mistura força física e sabedoria. Pelo menos é assim que sinto que todos nesta fase deviam estar. Opá, pessoal, se não se sentem assim, olha, final do ano, bom tempo para se pensar na vida e corrigir rotas. Dica para quem dela precisa: tenham a felicidade como norte.

Muito reclamamos, falo por mim, mas hoje não reclamo. Podia me queixar de n coisas, da luz que falta, deste que foi para partido A e aquele que foi para partido B, do preço que as coisas estão e das desigualdades que se perpetuam no mundo, mas quem sou eu para reclamar quando tenho tanto em troca? Que dou tanto em troca. E assim caminharei com o sentimento de dever cumprido. Dei imensa à vida em 2010.

Um palavra especial aos amigos, que depois da família (a família é uma entidade tão adquirida que nem a louvamos na correcta dimensão), são a próxima coisa que mais vale a pena no mundo. E passando em revista às minhas tropas, porra que tenho uma cambada de grandes amigos! E grandes profissionais, pessoal de obra feita, gente decisiva.

Reclamar de 2010 seria uma ingratidão. Podia pedir mais, mas melhor seria impossível. Façam o favor de serem felizes, como diz o gajo dos tachos na roça.

28.12.10

Um apêndice de pausa no dia

Não tenho tempo. Até ao aeroporto foram poucos minutos, a toda a força. Arranjei-me em 15 minutos, mais uma milésima vez, não tive tempo para o pequeno-almoço. Não ter tempo para o pequeno-almoço é a pior face da tirania do tempo. Estava 10 minutos atrasado. Comecei o dia a 120Km/h, marcados no quadrante do carro. Fui levar metade de um ano da minha vida em vídeo. Chegado, recebi em troca eternidades em livros, filmes e discos!

Bernardo Sasseti parou o meu dia. Não existe carro que consiga acelerar com Bernardo Sasseti a rezar ao piano. Parei tudo, as preocupações matinais, tudo. Chegado, ainda resisti a sair do carro, pregado ao banco. Bernardo Sassaeti, como Mário Laginha, Keith Jarret ou Brad Melhdau, são sacerdotes do Jazz.

E no lugar do acelerador e do motor, pensei em mar e em alma.

24.12.10

Prima

Hoje alguém com a alma do tamanho do mar inspirou-me a tornar isto aqui (Bianda) num lugar...diferente. Não resisto a comentar a política, essa coisa que mexe tanto com as nossas vida. Mas a política também torna isto aqui um lugar pesado, carregado de problemas e não há reclamação que chegue para mudar as coisas. Logo, mudança de direcção.

Será a nova cara do Bianda para o novo ano e talvez isto esteja a ser a minha própria mudança de cara. E se só falarmos das coisas boas? Das coisas que transformam efectivamente. E se falarmos das pessoas generosas? Dessas que sofrem, inquietam-se, mexem-se, fazem, desfazem, nunca estão contentes, mas o rastro que deixam é uma plantação. Quem sabe seja uma melhor corrente que o reclamar e denunciar as coisisses deste mundo.

Isto é pra ti, alma-mar.

13.12.10

Primos II

O Presidente da República (de Portugal) considerou hoje que os portugueses têm de se sentir “envergonhados” por existirem em Portugal pessoas com fome, um “flagelo” que se tem propagado pelos mais desfavorecidos de forma “envergonhada e silenciosa”.
Fonte: Público online

..O "silencioso" é que me faz impressão, ainda por cima quando o país é pobre, armado em rico, como nós somos, passando imagens pra fora, que não colam com a realidade cá dentro.

Cavaco marcou um ponto na minha consideração. Algum Presidente (de Cabo Verde) candidato a marcar um ponto na minha consideração?

Primos II

O Presidente da República (de Portugal) considerou hoje que os portugueses têm de se sentir “envergonhados” por existirem em Portugal pessoas com fome, um “flagelo” que se tem propagado pelos mais desfavorecidos de forma “envergonhada e silenciosa”.
Fonte: Público online

..O "silencioso" é que me faz impressão, ainda por cima quando o país é pobre, armado em rico, como nós somos, passando imagens pra fora, que não colam com a realidade cá dentro.

Cavaco marcou um ponto na minha consideração.

9.12.10

Primos

A justaposição da política e dos negócios é uma fatalidade? Os negócios e a corrupção são indissociáveis? A falta de postura ética é condição sine qua non dos políticos da actualidade? Ou seja, devemos tomar a consciência que vivemos num mundo selvagem, do salve o mais esperto dos chicos, é fatal, ou vale a pena propalar as boas práticas, os bons costumes, a conduta moral e lutar por ideais?

As notícias dos nossos primos portugueses (é só desgraça ultimamente):


"Contas dos partidos portugueses criticadas na Europa...diz que se atrasam a entregar as contas e escondem os valores do financiamento eleitoral". 
Ui! Como isso é tão parecido connosco, com a grande diferença que ninguém nos critica. Tá tudo na boa. 

"Dos seis megaprocessos de corrupção em curso, só um se encontra em fase de julgamento. Nunca terá havido tantos megaprocessos de corrupção em curso ao mesmo tempo..."
No dia em que abrirmos a nossa caixa de Pandora!....Quer dizer, se algum dia o abrirmos.

"Só houve 50 condenados a prisão efectiva por corrupção numa década. Mais de 80 por cento dos portugueses acreditam que a corrupção piorou..."
Aqui, a terra dos primos, prisão por corrupção é missão impossível.

"Ser denunciante, ainda por cima assumido, é "uma experiência dolorosa""
Puro e simplesmente não vamos ter denunciantes nunca. Denunciar aqui, na terra de primos, é correr o risco de mandar algum primo para a cadeia. Quando não é a mamã, o papá, o filhote ou outro familiar perto que corre o risco de ir parar à cadeia. Mas, espera....qual cadeia? Quem vai à cadeia nesta terra por coisas do género? Nem há espaço nas cadeias!

Enfim, vivo num mundo que desconheço. Ou, enganaram-me com estórias da carrochinha.

(Fonte notícias portuguesas: Público online)

1.12.10

Multimedia, Multidimensional


Ver detalhes aqui

Tivemos a honra de ter esta senhora numa exposição nossa. Recordar aqui e aqui. Que saudades...do futuro!

Luz

Acordo com isto!

Entranhas

Boa Entrada, S.Catarina, a minha mais recente obsessão.

30.11.10

O Trampolim


Heis uma coisa que admiro: o lançamento de um livro. Normalmente fazer um livro é uma grande empreitada. Abraão Vicente ousou, empreendeu e heis que nasce o seu primeiro livro. Na sua nota de lançamento, defende-se, dizendo que não são contos, muito menos um romance, mas cá por mim é só um livro e pelas páginas iniciais que já li (confesso Abraão, não o li todo, eu sei, preguiça e otras cositas mas) e pela grande qualidade dos seus escritos nos jornais, tenho a certeza que valerá a pena apreciar esta obra. E mais, o caminho só se faz, fazendo. Continua fazendo, amigo.


O lançamento terá lugar na livraria Nhô Eugénio, no dia 2 de Dezembro pelas 18h30.

A apresentação terá a participação especial do músico e compositor Princezito que fará uma leitura dramatizado de um texto. O lançamento terá um ambiente totalmente informal e contará também com leituras encenadas de alguns diálogos do livro pelos actores Dulce Sequeira, José Pedro Bettencourt, Paulo Silva e Raquel Monteiro.

(ou seja, ainda temos bónus!) 

26.11.10

The sprint

"Governo e Câmaras proibidas de inaugurar obras a partir de 8 de Dezembro"

Assim vem em letras garrafais no A'Semana de hoje. Acho o máximo! Ainda, é proibido lançar resultado de inquéritos e sondagens, sem que esses sejam avaliados pelo CNE. Também acho o máximo. Acharia mais máximo ainda se auditassem, julgassem e executassem as contas dos partidos, que andam a dar verdadeiros shows de "engenharia financeira". Acharia o melhor dos máximos se o meu dinheiro (dinheiro de contribuente) fosse poupado nas campanhas, ou seja, que a malta que tá no Governo e na Adm.Pública, que quando tivesse que se deslocar em campanha, fosse de carro próprio ou a pé!

A avaliar pela ferocidade das rondas iniciais dos embates pré-eleitorais, a coisa vai ser forte e feia. Andam os dois barões, o verde e o amarelo, na tangente. Não se apercebe bem qual será o sentido dessas eleições. Se é verdade que o Governo vem se safando de rombos maiores e a Oposição não conseguido transmitir uma imagem de coesão, também é verdade que as autárquicas deram o toque da mudança e sinais de irritação podem ser fatais, como os intermináveis cortes de energia (ainda anteontem estivemos um dia todinho sem luz) e o desemprego, que, digam o que disserem as estatísticas, é um realidade sensível e preocupante.

Segundo o FMI a crise (Portugal nomeadamente) está intimamente ligada às desigualdades sociais, que permite um sistema que, enriquece um minoria e põe a maioria a pedir dinheiro emprestado à minoria (através do crédito bancário), endividando progressivamente, até levar o sistema à ruptura que se verificou, ficando minoria e maioria todos na lona. Em CV estamos a assistir esse fenómeno e só não sabemos quando vai estourar. Nem Situação nem Oposição tem discursos diferentes, pelo que o futuro, qualquer que for o caso, será tempo para se estar alerta.

O pior de tudo é que, por mais um par de anos, é preciso ouvir, ou o discurso autista de Zé Maria, ou o discurso mofo de Carlos Veiga. Juventude, nada!

22.11.10

Quando for velho...

...quero ser Presidente.

À boa maneira das perguntas cafeanas margosas, apetece-me perguntar: a grande concorrência às presidenciais significa que o patriotismo está em alta ou que há muita gente a tentar um reforma política em alto estilo? 

Dos candidatos: um só se ouve a voz ocasionalmente, se bem que ultimamente, com a pretensão presidencial, ande a opinar, viajar e mostrar-se; outro nem se ouve a voz, mas para mim é o que melhor conduta moral e cívica vem demonstrando; outro só se ouve a voz a inaugurar estradas e raramente se prenuncia sobre outros aspectos da vida social, politica, economica e cultural do país; outro foi eleito e tirado rapidamente do posto logo nas eleições a seguir, por não ter ligado a mínima o lugar a que foi eleito; outro abandonou o partido, havendo mesmo concorrido contra ele, viu que sozinho é uma folha seca e forçou a reentrada no partido; finalmente, um deles anda a braços com a justiça.

Regra geral, tenho poucos motivos de orgulho nos candidatos à presidência da minha república.

20.11.10

E-Saudades

Tenho saudades de cá estar. O mundo é feito de muitos caminhos e há alguns que demoram a terminar. Já volto


E-Abraços

16.11.10

Mindelo.Again


Espectáculo de baía!!

12.11.10

Mindelo

Cá vou eu mais uma vez este ano à minha ilha natal. Alguma coisa me tem puxado praí, não sei o que é mas estou a gostar.

Se posso dar uma mãozinha nessa consciência que é despertar a ilha do seu sono paralisante, penso que é por aí, indo mais vezes, levando coisas, falando sempre e tentar ver as coisas desapaixonadamente. Na verdade não é aceitável que uma ilha que tem a melhor cidade de CV, ou seja, melhores coberturas eléctricas, de água e esgotos, talvez a melhor rede viária intra urbana do país, uma ilha que tenha a história industrial e urbana, como tem SV, esteja simplesmente a dormir. SV reclamou por tudo e tudo teve: tem os estaleiros navais, o parque industrial, ainda o melhor porto de CV, um aeroporto internacional, unidades fabris, unidades de pesca industrial, boas unidades hoteleiras, enfim, em termos físicos a ilha é a que menos tinha que reclamar. Mas uma coisa ando a dizer há muito tempo e há quem me caia em cima: há um baixar de braços colossal. Não há que esperar por ninguém e desse ponto de vista os meus votos ao movimento que nasceu na net e se chamá "Cordá Monte Cara".

E já agora apareçam na minha exposição, na Zero Point Galery, às 21h. Pelo menos servimos um copo de vinho (espero bem que sim!)

10.11.10

Utópicos


É uma sensação indescritível abrir uma exposição! Alguma nasce dentro de nós. Ainda por cima quando se trata de a abrir no lugar que nos viu nascer, assume uma dimensão ainda mais indescritível; um misto de ansiedade e triunfo.

Estaremos no Mindelo, na bela galeria Zero Point Art, sexta-feira, dia 12, abertura às 21h. Passem a palavra por favor. E aguardo a vossa visita.


Mais sobre o projecto UTOPIA aqui

Futcera


Não deveria falar deste filme porque encontro-me demasiado perto das pessoas o fizeram. Mas, por me encontrar demasiado perto das pessoas que o fizeram, vou falar, simplesmente por não conseguir conter o que vai cá dentro.

Já exprimi publicamente a minha grande admiração por essa malta do teatro no Mindelo. Bem, "malta do teatro" é um tanto redutor, porque essa malta escreve, produz, dirige, actua, sobe escadas, aperta parafusos, tira cambalhotas, enquanto criam os filhos, e se lançariam no vazio, se fosse o caso, tudo por paixão à arte. Esta é uma força que serve para mostrar que o principal recurso no mundo continua a ser a vontade humana.

Em "Futcera" todos se desdobram em produtores, guionistas, uma-data-de-coisas e actores. Principalmente actores. Laura Branco, filha dos peixes Bety Gonçalves (a bruxona do filme) e João Branco, impressionou-me pela actuação quase sem palavras. Acreditem que isso não é fácil para nenhum actor, quanto mais uma adolescente como ela é. Fonseca Soares lembrou-me um grande patriarca, tipo o homem que vê para a vida com a serenidade de quem já passou pelo mesmo sol imensas vezes. Não falo só do personagem, mas de tudo: da fé, da garra, da paciência, da luta, da entrega e da vontade de continuar, continuar, continuar. As minhas lindas Sílvia, Mirtó, Zenaida e Bety já tratam a representação por tu. Senti um grande orgulho por essas pessoas todas, por terem conseguido!

No entanto, para olhos menos distraídos, há falhas que fazem um grande barulho e levam à desconcentração. A dramaturgia tem vários momentos de dispersão. Eu iria pelo regra do KIS (keep it simple); contar a história e nada mais que isso. Há várias passagens, momentos e personagens que não encontrei justificação para ali estarem. O momentinho da passagem dos outdoors de publicidade é imperdoável! Também imperdoável são as dessincronizações som/imagem nas cenas musicais. Os filtros na fotografia estão óbvios demais e o director andou ali a experimentar vários looks. Ou seja, simples detalhes técnicos que podiam perigar a história, se ela não fosse bem forte e aguentasse até ao fim.

Estamos perante uma longa-metragem do cinema, coisa que em produções "normais" conta com dezenas de pessoas, cada um a cuidar de um pequeno aspecto. Nesta produção, aliás como nas outras coisas que essa malta faz, o desdobramento dos papéis parece-me o aspecto mais relevante a destacar, porque é o que mais revelou do sacrifício que foi ter chegado ao fim da obra.

Que venham mais bruxedos!

2.11.10

William Kentridge


...uma descoberta

1.11.10

Estômago



Quando já acho que a ilha de Santiago não pode mais me maravilhar, eis que me dou conta que vivo numa ilha que tem ainda mais mistérios e encantos por desvendar. São muitos os caminhos desta ilha. São tantos os montes, as montanhas, os vales, as ribeiras e populações, ainda por descobrir.

Conheço mal o concelho de Santa Catarina, por uma razão simples: é grande e variado, em lugares e modos de estar. Neste fim-de-semana vi pela primeira vez o pé de Poilão gigante, região da Boa Entrada. Digo-vos, aquilo devia ser declarado património natural e ser protegido. É uma árvore que tem vários metros de diâmetro, raízes enormes e uma frondosa copa. Em vez de protegido, à sua volta, vestígios de piquenique, rabiscos no seu tronco e até grafittis (sim, com spray!)


Assomada, a cidade central de Santa Catarina, fica num alto, num grande planalto. Ao redor, existem zonas baixas, que se organizam ao longo dos caminhos d’água. Meti o meu carro numa dessas ribeiras, com água a correr, e andamos ali a descobrir os lugares, com gosto a safari. A dado momento vi umas árvores, que já vi em só duas localidades nesta ilha, que se dá o nome de lemba-lemba, que tem umas grandes lianas, a lembrar os filmes de Tarzan. É um espanto de árvore.

Terminamos a incrível aventura pelo interior de Santiago (interior literalmente, o estômago da ilha) em Tarrafal, a minha musa doirada e maltratada por mãos de péssimos gestores locais. Às vezes dói-me que a vila seja tão pobre e decadente, mas às vezes abstrai-mo e curto a incrível beleza da sua maior praia e as suas águas que fazem amor a uma pessoa.


Adoro este país. Adoro Chã das Caldeiras, Pedra de Lume, Calhau, Praia Grande, Monte Verde, Santa Mónica, Santa Maria, Assomada, Praia, Mindelo, São Filipe…e mais uma data de pequenos cantos, encantos.

27.10.10

Alma

A alma humana é o mais potente motor do mundo. Ela é capaz de construir uma montanha, ou de a deitar abaixo. Não se trata de orçamentos, nem de recursos, nem de condições, ou condicionalismos, ou conjunturas. Tudo se resume à capacidade das almas.

O Palácio da Cultura Ildo Lobo é prova concreta de: sem alma/com alma. O sítio esteve abandonado, a agonizar a cada dia que passava. As almas que lá estavam, deambulavam para cima e para baixo sem poder perceber até porque ali se encontravam. O sítio ia a morrer. Hoje, o Palácio, um dos edifício mais bonitos da cidade da Praia, tem alma nova e volta a brilhar como uma peça de bronze, limpada e polida.

As boas almas atraem as boas almas. O Palácio agora anda cheio de gente com uma vontade férrea de fazer. Gente com talento, gente bonita, músicos, artistas visuais, jornalistas, produtores, gente com vida, gente que mudam o lugar só pela sua presença. O sítio agora tem aulas de canto, aulas de instrumentos musicais, exposições permanentes, workshops, filmes e sempre alguma coisa nova a acontecer.

Hoje, esta cidade tem muitas almas, que podiam fazer muitas montanhas e talvez tornar as nossas vidas menos insossas. Falta que outras almas, em outras esferas, também façam o seu trabalho e contribuam para, no fundo, o nosso bem estar comum. Os senhores dirigentes públicos perceberam?

25.10.10

Sunhador

Ando de poucas palavras. Estou mais de ver, observar os outros, ver como as coisas funcionam, aprender mais e...sonhar. Estou mais de deixar levar pela ondulação, me deixar diluir em tudo. Sou só ouvidos e olhos e gravador.

Há uma tempo na vida, em que nós somos novos ao máximo, pujantes e pretensiosos, em que queremos a todo o custo que o mundo mude o sentido da sua rotação. Mas a verdade é que não muda; há de rodar no mesmo sentido até acabar. O único poder que temos é o da felicidade. Esse poder temos, temos sim!

Ando de poucas palavras, à procura. As sensações até agora esgotaram-se, preciso de outras. Preciso sempre de outras, aliás, precisamos todos. Na procura incessante de sensações faz-me até achar piada o sentido que a terra roda, em torno de si própria, num ritual irrevogável.

(Este post foi-me inspirado pelo blog da minha multi-talentosa prima, Lúcia Cardoso: http://sunhador.blogspot.com)

22.10.10

Xeno

"Polícia faz rusga em mercado e identifica 18 estrangeiros ilegais

O mercado da Praça Estrela, em São Vicente, esteve cercado nesta quinta-feira por policiais e militares, que passaram revista a pente fino nas barracas onde nacionais e imigrantes da costa africana exercem actividade comercial."
fonte: Sapo.cv

Às vezes enerva-me solenemente o nosso cinismo. Então estamos aqui armados em intolerantes em relação a um punhado de comerciantes, quando sabemos que este nosso país reina a ilegalidade de cima a baixo? Que critério é esse da polícia nacional (repararam no "nacional"), que faz uma rusga num pequeníssimo mercado, que faz questão de realçar "imigrantes da costa africana", quando temos um mercado de divisas, totalmente ilegal, nas barbas do Banco Central? Que dizer de todos os vídeo-clubes do país, todos eles perfeitamente ilegais, porque nenhum deles tem licença das obras que andam a vender? Que dizer das rádios, restaurantes e até mesmo publicidade do Governo, que usa a música dos outros ilegalmente? Existe situação mais ridícula que organismos do Estado, até mesmo da Justiça, a alugar vários prédios que conhecidos traficantes?

E o uso indevido dos carros do Estado? E a fuga aos impostos de grandes empresas? E as centenas de estabelecimentos ilegais, sejam bares em garagens, sejam oficinas no meio da rua, sejam escritórios não licenciados....Enfim, a lista podia levar-me o blog todo.

Devíamos era fazer uma rusga geral ao país inteiro, ou então deixar de gracinhas.

19.10.10

Art Now!


As coisas estão a acontecer agora, nas cidades, nos bairros, na periferia. As nossas cidades estão a produzir algo novo, longe das referências do passado, longe de saudosismos. Coisas do real agora, dos problemas deste quotidiano. Mas, continuamos a marginalizar populações e a sua forma de expressão. Uma nova ordem se faz sentir.

Democracy


O honorável vencedor do prémio do júri do Festival Internacional de Cabo Verde, Sal 2010.

Realidades muito parecidas as nossas. Movimentos idênticos entre os nossos países. Falta-nos só mais vontade de trocarmos experiências. Dakar é já aqui ao lado e acontece muitas coisas. Um filme a ver e a ser mostrado.

Sinto-me verdadeiramente honrado de estar ao lado desta obra, na atribuição dos prémios do festival. Quero ir a Dakar, aproximar-me mais.

18.10.10

Laureados

No Festival Internacional de Cabo Verde, ilha do Sal, 2010, o nosso filme ganhou 2 prémios! O prémio mais simpático, Prémio do Público, e uma Menção Honrosa!

Estou feliz por mim e pelo colectivo: Samira, Nuno, NDú, Lúcia. Uma nota de apreço ao Djinho Barbosa. A lição óbvia disso é: quando juntamos e trabalhamos a valer, a obra nasce forte, ousada e ambiciosa. Obrigado amigos!

15.10.10

RTP - GRANDE PLANO

Link: RTP - GRANDE PLANO

Peça sobre o Festival Internacional de Cinema, Sal 14-17 Outubro. Tem uma entrevista comigo sobre os meus filmes participantes "Raíz" e "Faka"

12.10.10

Cinema cá

Estou nessa. Sou participante, apoiante, vibrante e crente. Estou em competição nessa, mas na verdade só de estar nessa, já me atrai. Vou ao Sal, uma ilha que só se vai para apanhar sol ou avião, não um encontro cultural. Este festival vai começar pequenino (mas assim também começou Baía das Gatas) e já há vozes do agouro, maldizendo isto e mais aquilo. Não nos lembramos que por cá, nem se passam filmes, quanto mais fazê-los, mostrá-los, debatê-los, compará-los, ouvir outros sobre nós, falar de nós com outros, discutir os pequenos jargões, as pequenas manias, esta e aquela técnica, uma ou outra opção. Se fosse na Santa Lúzia, com 5 pessoas, se pudesse, ia também.

Vou já torcendo que tenha muitas edições. Tem vozes do agouro, mas também tem vozes confiantes. Tem já gente, de cá e de outros lados, a torcer pela 2ª edição já. Muita m*da pessoal!

Vejam o programa aqui

Upgrade

Já não há dúvida que o hip-hop hoje é a verdadeira voz da cidade da Praia. Está por todo o lado e é o meio preferencial para falar, contestar. A população jovem diz das suas angústias, dos seus medos e raivas; cantam a percepção que tem do seu país e os políticos não são propriamente uma raça amiga. Esta manhã vinha ouvindo na rádio um som, um bom beat. Primeiro fui agarrado pela qualidade do som em si, que é um dos aspectos que mudou radicalmente no hip-hop feito por cá, mas depois foi a letra da música que me chamou atenção. Cantava a raiva e a revolta que é ter que enfrentar o sistema de saúde. Contou do desespero da espera (veio num jornal da praça que um homem de bacia partida esperou 24h para ser atendido!), da impotência perante o mau tratamento do pessoal dos serviços, dos erros e das mortes que acontecem, que deixem um espectro de erro médico no ar. Enfim, as coisas que todos nós em algum momento sentimos. No fundo, samplaram um discurso do ministro da saúde, sobre as melhorias do sistema de saúde, das medidas a introduzir, terminando a dizer que, "estamos a fazer um upgrade"...

Certo ou errado, é a percepção que a população tem e contra isso não há números que sosseguem. Depressa com este upgrade, Excelência.

6.10.10

Ruga-se

Ela era uma manga madura envolvida numa pele lisa e salpicada de gotículas d’água na prateleira de um mercado de fruta. De todo o ângulo que era vista, era redonda e abundante de carne. E nós, cabritos imberbes, que vivíamos contando os pêlos que apareciam um de cada vez, tínhamos uma onda de calor no corpo se ela passasse e no ar ficasse um perfume de manga que pedia para ser comida. Ela tinha olhos de ave de caça e boca firme, pronta a devorar cabritos imberbes. Morríamos de medo que ela visse que transpirávamos, tremíamos, que pressentisse as nossas vontades, e, num acto de fera que sente sangue, nos atacasse. 

Volto aqui todos os anos e todos os anos a cidade tem mais uma ruga, velha desgastada de uma vida vivida a pleno num tempo passado. Ela, a manga, passou por mim, é cozinheira do restaurante que vou. Por instantes, por instinto, o que vejo é a fruta madura, como um arquivo que guarda a melhor foto, mas logo vejo os seus olhos esvaziados de perigo, baixados. Ela ainda ocupa o ar com formas ovais e movimentos de dança, mas os seus olhos flutuam num líquido turvo. Perdeu brilho na pele, tem varizes. Não pressente mais rapazes que a perscrutam, olha para um nada, de boca cerrada, como que acabada de provar fel. Ninguém a salpicou mais com borrifos d’água. Era seca.

Volto aqui todos os anos e a cidade envelhece entrevada numa cama. Nada mais mexe. Cadeiras vazias. Teimo em ver poemas a balançar no mar calmo da baía, mas as rugas da velha mais parecem feridas mal cicatrizadas. A cidade tem nova safras que não florescem. Tudo vive num arquivo, guardando a melhor foto. 

5.10.10

Bzzz

Ouvir o presidente do CA da Electra a explicar a falha de fornecimento da electricidade na ilha de S.Vicente, é de cortar os pulsos. O homem deu as desculpas que não se dá em gestão e em engenharia. O homem falou titubeante. Disse que a razão das falhas tem a ver com a falta de aprovisionamento em combustível. Básico! Falou da situação financeira dramática da empresa. Novidade! Mas, pra mim, a desculpa das desculpas foi, que tiveram que parar as máquinas para manutenção, porque são...máquinas! OK, uma analogia com um equipamento de suporte de vida num hospital: Sr.Doente terminal, vamos ter que parar isto para manutenção, porque é uma máquina; não o deixamos morrer, só vai sofrer umas horitas, tá?!

A Electra tornou-se um cancro. Não há medidas possíveis que a reponha num lugar digno de empresa. E pobre do homem que lá está à cabeça, encaixando tudo. Um verdadeiro testa-de-ferro. Qual ferro, titánio.

4.10.10

M*da na cabeça

Tem coisa mais triste que ouvir o director de uma escola privada (leia-se cara) a queixar-se dos pais? A queixar-se que os pais não pagam 2,3,4,5,6 meses. Que os pais largam os filhos esquecidos (!) na escola à hora do almoço! Que os pais não vão assistir às peças de teatro dos filhos! Que já aconteceu terem que anular uma peça de teatro porque apareceram poucos pais! E ainda chamam a essas pessoas de encarregados de educação?!

Tem coisa mais porca que gente que mora em bairro classe média-alta a mandar as empregadas deitar o lixo na rua, porque não há um contentor por perto? Enquadramento: a Câmara Municipal mandou tirar os contentores das ruas, porque cães e vagabundos espalham aquilo tudo, deixando os lugares sujíssimos. Doravante cada um deve gerir o seu lixo. SENHORES, eu cuido do meu lixo, guardo-o em casa, meto-me no carro e vou deitá-lo lá onde existe um contentor ou até à lixeira se fosse o caso. Aonde eu moro, todos tem um carro...e, supostamente, uma posição nesta sociedade. Envergonhem-se da vossa falta de sentido cívico. 

O endireitamento deste país passa por uma crítica cerrada às aparências despidas de conduta moral. 

30.9.10

Muita M*da!

Terminou mais um Mindelact, festival internacional de teatro do Mindelo, a 16ª edição. Na memória fica uma avalanche de emoções e momentos únicos. Para sempre fica também a experiência humana e artística. O festival oferece uma variedade tonificante de espectáculos e registos, alguns menos conseguidos, mas sempre de grande entrega, outros sumptuosos acontecimentos de arte...(continue a ler a história aqui

23.9.10

Boing

Em Mindelo. Vim da Praia num Boeing. Trinta minutos de vôo. Parece abrir um amêndoin com uma marreta. É que Boeing só pelo nome é grosso e ilha é sempre pedaço minúsculo de terra. Inglaterra não é ilha porque não é pequena. Mindelo tem um aeroporto, que é internacional pelo tamanho da pista e nacional pelo tamanho do terminal. Mas é lindo, arrumado e calmo, como a própria cidade que acolhe o festival internacional de teatro, Mindelact, de 16 a 26 de Setembro.

Procuro não faltar a um show. E que shows! Mais uma vez, vi Void, de Clara Andermatt com Avelino e Sócrates. Conheci Sócrates, um tipo que tem um percurso que se confunde com o próprio movimento da dança contemporânea em CV. Sócrates tem muitas estórias a contar. Vi um magnífico monólogo brasileiro, num palco sem qualquer cenografia; só o actor, um luz geral e o público; 2 horas (um tantito demais) de pura arte de representação. Vi a peça "Os amantes" uma peça espantosamente atrevida do grupo do CCP-IC, toda ela falada em crioulo, um facto também de notar num grupo de uma instituição cuja missão é promover e divulgar a língua portuguesa. Tenho visto tanta coisa e falado com muita gente. Há discussões existenciais sempre, há festa e novas amizades. O Festival tem um ambiente fantástico, embora muita gente vem queixando da sua degradação.

Entristeço-me amargamente da opiniões da treta que tem havido à volta da extensão do Mindelact à Praia. Está provado que somos um povo leviano, capaz de meter muita energia em discussões estéreis e desmotivantes, enquanto que a realidade demanda por um discurso responsável e construtivo. O que digo a esse respeito é que, é muito benvindo essa extensão, do ponto de vista de consumidor, continua a ser uma extensão e não um festival, é um crescimento saudável do festival e ainda pode até conquistar público para o palco principal do festival, Mindelo, que tanto precisa de visitantes, turistas, receitas, atenção.

Estou em Mindelo, a minha cidade natal, que reconheço a cada pedra que piso, mas que deixo de reconhecer a sua alma saudosista e corrosiva. Também não reconheço esta proibição de andar à noite nas suas belas ruas, porque a violência faz lei. A cada ano que venho, não páro de fazer a pergunta: qual será o teu ritmo certo, Mindelo? Nem massivo-industrial para não perder o encanto pueril, nem pacato como está para não perder a dignidade.

E não poderei parar de amar a minha cidade, contudo.

15.9.10

Vaga

Claude Chabrol (1930 - 2010)

A Nouvelle Vague vai desaparecendo. Um enorme legado deixado e a transformação definitiva na arte de fazer o cinema. Há vagas fantásticas!

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País desgovernado, todos ralham e ninguém tem razão.

A Câmara Municipal da Praia (CMP) pediu a intervenção do Governo em 4.000 casas em perigo de desmoronamento, por causa das chuvas. O Governo negou, devolvendo a acusação à CMP, de que não se preparou como devia ser para as chuvas. Neste ping-pong, as famílias vivem o dramaticamente a chegada das chuvas na cidade.

A relação poder central/poder local é muitas vezes de fronteiras imprecisas e os políticos jogam com isso. Os cidadãos tem que se informar para não se apanhados nessa charada. É de competência do Governo o ordenamento do território, que passa por gerir as grandes infraestruturas - como pontes, condutas de água, estradas - as ocupações e usos do território, com vista a protecção do seu equilíbrio geofísico. O território da cidade também faz parte dessa gestão e não pode o Governo esquivar-se a isso. O caso flagrante de incongruência de políticas é a super estrada circular da Praia, enquanto que dentro da cidade não existe uma única estrada competente, prova disso é o péssimo escoamento das águas. No entanto é da competência das municipalidades criarem os seus Planos Directores Municipais (PDM), que estrutura e regula a ocupação do território dentro das cidades, coisa que ainda o maior município do país não teve a capacidade de fazer.

Em resumo, a situação da cidade da Praia é um incompetência dupla, da CMP e do Governo. As fronteiras de actuação não são tão imprecisas assim, tendo cada um as suas tarefas, que vem sendo adiadas ou executadas pessimamente. E bem que podiam ter mais respeito para as famílias que se desesperam de toda a vez que vêm as chuvas, em vez desse ping-pong vergonhoso.

AHAHAH

Mulheres fumam cigarros electrónicos depois de terem conversa atrevida no Messenger

À semelhança dos cigarros tradicionais, considerados imprescindíveis após o sexo, os cigarros electrónicos já começam a ser usados após conversas de índole sexual na internet. “Gosto muito de fumar o meu cigarro electrónico, que também tem nicotina e não produz cinza, o que é uma vantagem. Quando a conversa é mesmo intensa e até mete webcam, gosto muito de fumar o meu cigarro electrónico até que a pilha acabe. O problema é que também gosto de um abraço e de carinho electrónico depois do sexo virtual. Tal como acontece na vida real, os homens depois do clímax no chat viram-se para o outro lado da cama e ficam off-line no MSN”, afirmou uma mulher. 
João Henriques, in Inimigo Público

Void

De Clara Andermatt, com Avelino Chantre e Sócrates Napoleão, CCP Praia, 14-09-2010.

Não fosse o (já repetente) atraso do Primeiro-Ministro a chegar ao teatro e algum excesso de ruído na sala, teria sido uma noite perfeita. Mas exceptuando essas duas notas deselegantes, foi um noite de encher os poros de poesia.

VOID, uma peça para mastigar, dada a quantidade de informação que passa e todas as interpretações possíveis. Uma temática que pode ser vista na direcção Praia-Lisboa, Lisboa-Praia, Mindelo-Lisboa ou S.Paulo-Tóquio. Questões de gerações, identitárias, ir e voltar, nascer e morrer, estar, simplesmente deixar-se estar num estado VOID. Morremos muitas vezes, repetia-se.

A peça, disseram-me, tem uma versão diferente de Lisboa, o que desconfiei pela quantidade de texto dito em crioulo e uma ou outra interjeição tipicamente daqui, que faz o público rir. Desconfio também que, dado que o público CV gosta de piadas, foram introduzidas algumas. Mas o efeito disso é o público achar que se trata de uma comédia e de surgirem risos em momentos inapropriados, cobrindo até o texto, que é uma componente muito forte da peça; não ouvi uma ou outra frase que quis ouvir.

Aos intérpretes, Avelino e Sócrates, parece que a peça foi criada para eles, para o seu percurso de vida, este ir e voltar constante do cabo-verdiano, para as suas memórias, a nostalgia de estar lá e uma experiência poetizada daqui. Para quem vive aqui, dá até um toque folclórico as saudades das coisas que já não existem, como a soleira da porta e as estórias da avó. Aos intérpretes, um regresso à terra, em apresentações em grande, Praia e Mindelo, Mindelact. Se calhar um recarregar de outras memórias e um actualizar da nostalgia.

À grade coreógrafa, Clara Andermatt, gosto particularmente da sua interpretação de nós. Ora vemo-nos ao espelho, ora vemos um nós possível. Outras vezes é tão somente a criadora, com todo o seu processador, passado e presente, que inventa-nos e o faz com muita graça.

VOID é um espectáculo de teatro, dança, música e literatura. É dirigida por uma coreógrafa, mas é criada conjuntamente pela coreógrafa e pelos intérpretes. Parece uma peça fácil de digerir mas não é; merece reflexão, rever, conversar, ler sobre, ouvir os outros, ter ideias e pô-las em causa. E está mais uma vez provado que, para a arte contemporânea, a técnica continua a valer muito, mas o que distingue uma obra de outra é a elaboração do seu conceito, o que dá imenso mais trabalho que o treino físico.

6.9.10

A política em placas

No meu país o desporto se faz em placas. Na falta de dinheiro para construir polidesportivos e ginásios genuínos, são feitas pequenas áreas cimentadas, a que se dá o nome de “placas desportivas”. Existe de todo o tipo e formato. Podem ter vedação ou não, baliza ou não, tabela de basquetebol ou não, terem as linhas divisórias no chão, ou não. Podem simplesmente se resumir à área cimentada e à declaração de que se tratam de infra-estruturas desportivas.

Concelho ou vila que se digne do nome deve ter placas. Político que se preze deve mandar construir uma. A cada rotação do poder, aparece uma nova placa, acabando assim o país por se dotar de uma infinidade de placas. Existem por todo o sítio. Tanto podem estar no meio de plantações em espaços rurais, como podem se irromper no areal de uma praia, ou estarem no meio do trânsito da cidade. O país e as cidades cresceram, os desafios aumentaram e os políticos seguiram em criatividade as demandas dos novos tempos. Nas cidades surgem placas mais sofisticadas, equipadas com bancos inclinados e barras paralelas, para a prática da musculação. Um político teve a ideia de pintá-las das cores do partido, então veio o adversário, que se apercebeu da importância estratégica das placas desportivas e mandou construir uma, ainda mais sofisticada, com equipamentos de ginásio de verdade, bancos almofadados e um piso fantástico, de uma cor ostensivamente verde, que tanto pode significar a esperança, imitação de relvado ou literalmente a cor do partido.

Ninguém ousa dizer que não existem políticas públicas para o desporto, que vem imediatamente um dirigente político a contar as placas construídas. E pela evolução do fenómeno é de se esperar que no futuro venham ter recepcionistas, treinadores, médicos, chuveiro e sauna. E isso tudo ao ar livre.

3.9.10

7Arte

Ver um bom actor a actuar é sempre um momento de perceber que afinal a arte não é tecnológica, é humana. Harry Brown é um portentoso filme, porque é bonito visualmente, porque é realizado com mão segura por Daniel Barber, um realizador que acabei de descobrir, mas essencialmente porque tem uma performance irrepreensível de Michael Caine, nos seus 77 anos, a esbanjar talento. 

Harry Brown é desses filmes que faz chorar aos mais sensíveis. Damos por nós a sentir raiva, alegria, pena, tristeza, todas as emoções que são supostas de passar e que realmente passam com uma intensidade grande. Adoro os filmes ingleses. Tem um quê de realismo e força visual que me cativam. Lembro-me de Trainspotting, de Danny Boyle (o mesmo que fez Slumdog Millionaire), um dos filmes que mais me marcou nos últimos tempos; ou do realizador Mike Leigh e os seus filmes que parecem documentários das nossas vidas; ou Guy Ritchie e os seus filmes que são, ao mesmo tempo, obras visualmente magníficas, comédias negras, ritmo e adrenalina, para além das sempre boas interpretações.

Almirante é assim o título de um filme russo que vi antes de ver Harry Brown, do realizador Andrey Kravchuk (descoberta), que me fez lembrar que a Rússia é a pátria dos maiores realizadores da história do cinema: Dziga Vertov, Serguei Eisenstein, Andrei Tarkóvski, Nikita Mikhalkov. Stalker de Tarkóvski mudou a minha maneira de pensar o cinema.

Enquanto se espera por salas de cinema em CV, vai valendo a pirataria, que por mais que me doa reconhecê-lo, é a única maneira de não perder o admirável progresso de uma arte suprema: o cinema.

2.9.10

Concurso Fotografia

O Correio ACP tem o prazer de anunciar a realização da edição de 2010 do seu Concurso de Fotografia!
És um jovem fotógrafo com idade inferior a 30 anos? És cidadão de um dos países ACP?

Em caso afirmativo, o Concurso de Fotografia de 2010 do Correio ACP é-te destinado!

Os temas seleccionados para concurso são os seguintes: comércio, cultura, tradição, alterações climáticas, ciência e tecnologia, na sua relação com os países de África, Caraíbas e Pacífico e com o desenvolvimento. 

Todos os detalhes aqui

1.9.10

Éter

Volta e meia temos que tocar no assunto: arte contemporânea em Cabo Verde; o que é isso? Onde está? Parece paradoxal que a arte contemporânea, que se define como a arte que saiu das academia, e logo dos dogmas e segredos académicos, para se identificar com a vida, com a sociedade, com os problemas mundanos, que seja possível de fazer tanto dentro de uma galeria, como numa praça pública, que pode usar materiais nobres, como pode durar só algumas horas, e no entanto é um conceito perfeitamente confuso, até mesmo entre os estudiosos. Mas o facto é que ela existe e pode ser identificada. Não sabemos bem por que mecanismos, mas quando estamos perante arte contemporânea sabemos reconhecê-la. Tem um traço que a marca de forma indubitável: o desenvolvimento do conceito. Uma performance com um copo de água pode se tornar instantaneamente em arte contemporânea, desde que o artista consiga desenvolver um conceito a partir daí. Já não chega ter “jeito” para alguma forma de expressão; é preciso aprender a desenvolver o conceito na arte e essa é a marca indelével da arte contemporânea.

O conceito na arte, não é obra de um talento extraordinário ou oculto. É produto do ensino, de uma cultura de fazer e refazer a arte, de workshops, de interdisciplinaridade, de trabalho, muito trabalho; de errar e tornar a tentar, mas sobretudo de compreender o conceito por trás, se é sustentável ou não. Não necessariamente explicável, mas definitivamente sustentável. É nesse prisma que se torna difícil falar em arte contemporânea em CV. Num país onde não existe um ambiente de qualidade, de diferenciação positiva, onde o prestígio social pode ser conquistado sem muito trabalho, com base em valores completamente mercantilizados, um país sem quaisquer políticas públicas para o desenvolvimento da arte, onde a classe média-alta compra banalidades e as exibem em casa como “arte”, nunca se pode definir como um país que tem uma arte contemporânea. Podemos até identificar artistas contemporâneos, ou manifestações de arte contemporânea, mas não uma arte contemporânea CV (corpo e diferenciação). 

Toda essa dor, porque vi uma incrível obra de vídeodança, com o nome de “Kaspar Konzert” e fico maluco com o estado mental em que certos países já atingiram, permitindo um ambiente de tamanha criatividade, e nós aqui com a mesma conversa de chácha.

31.8.10

Obtuso

"O vereador do ambiente da câmara municipal da Praia anunciou esta segunda feira que, para reparar os estragos feitos pelas primeiras chuvas deste ano, serão necessários cerca de 15 mil contos. Desabamentos de terra, queda de muros, inundações e quedas de tectos de habitações foram as situações mais graves registadas até agora."
in Expresso das Ilhas (via Sapo.cv, 30/8/2010)

E só vamos nas primeiras chuvas! Para quando esses milhares de contos empregues em acções preventivas e correctivas? Então quanto custou o circular da Praia? Sabiam que há famílias que ficam sitiadas em casa após uma boa chuvada?

Monda

O Meret insistiu e fiz-lhe a vontade: uma imagem do interior da ilha de Santiago, quando chove. Quando não chove é lindo na mesma, mas outro tipo de lindeza.

Por esses dias o que mais se vê no interior, são homens, mulheres e crianças, numa atividade já ancestral: a monda. Isso consiste no seguinte: quando caem as chuvas, a terra cobre de vegetação selvagem. Então as pessoas precisam desbravar a terra dessa vegetação, para dar lugar ao cultivo, essencialmente do milho e do feijão. Isso lembra-me que a agricultura em Cabo Verde continua a ser uma prática altamente artesanal. É muita gente a trabalhar, muita terra cultivada, para pouquíssima produção. Os casos de agricultura inteligente, de grande envergadura são raríssimos.Mais uma vez, a história da política. Temos grandes investimentos, grandes grupos estrangeiros e os seus hotéis, temos uma circular enorme onde só as vacas transitam, mas o existente, os sistemas básicos, agricultura, pecuária, saúde, educação, habitação, continuam num estado primário.

O Desenvolvimento é um misto de recursos, políticas e sociedade. Está provado que o conceito de "recurso" é criativo, por isso paremos de chorar por recursos; estão aí. Parece-me que falta mais é trabalho sério, políticas e sociedade actuante.

30.8.10

Segunda,Versão

Fui ao Tarrafal. O caminho para o interior de Santiago está lindíssimo! Todas as municipalidades deviam estar a apelar para um turismo interno, com uma oferta de paisagem, campo, comida, sossego, frescura. Ou, as agências de viagem/turismo deviam estar a desafiar as municipalidades a criar as condições para esse tipo de turismo. 

Está confirmado: Tarrafal está agonizante. É de rachar o coração ver as coisas a degradarem-se à vista desarmada. Até o mar, aquele lindo e transparente mar, estava cheio de lixo: plástico, garrafas, cordas, papéis, objectos e tudo quanto é lixo lançado nas ribeiras e depois é transportado pelas águas da chuva, até ao mar, aquele lindo mar, maculado cruelmente. Mesmo assim foi agradável. Como disse um comentador aqui, amo o meu país apesar do meu país ser difícil.

No Tarrafal não se sente uma única acção da municipalidade. Não há nenhuma novidade, a não ser os espaços moribundos, os pardieiros abandonados, edifícios não aproveitados a caírem aos pedaços, falta de fiscalização das praias e dos banhistas, enfim…um lugar abandonado. Não sei o que falta. Não consigo nenhuma explicação para a falta de raça na classe dirigente, que se escudam atrás das divergências políticas, em vez de sentiram na pele os problemas do seu próprio lugar. Vão lá perguntar ao Presidente da Câmara do Tarrafal por essas coisas e, de certeza absoluta, vão ouvir acusações ao Governo. E se perguntarem o Governo, vão ouvir queixas à municipalidade. E no meio das acusações, a porcaria ao nosso redor vai crescendo e ainda um dia nos engole.

27.8.10

Sexta,Capital

Não me canso de louvar a sexta-feira, não porque deixo de trabalhar, até porque tenho a sensação que não paro de trabalhar nem no sono. É porque as pessoas estão bem-dispostas na sexta. É tempo dos telefonemas, ver quem está disponível, combinar um jantar aconchegado, um copo de vinho e conversa em dia. Vou ao Tarrafal, outro sítio que adoro, mas que me tem despedaçado o coração de toda a vez que aí vou. É um caso de políticas públicas catastróficas e seria mais justo dizer FALTA de políticas públicas. A vila está às moscas, os hotéis degradam-se e outros até estão fechados, como o icónico e outrora tido como chique, Hotel Tarrafal. Os preços no entanto são como se a vila vivesse um esplendor turístico. Não vou mais comentar os serviços de restaurante porque já me habituei: toma e cala! Tarrafal é um dos municípios mais pobres do país. É um dos mais bonitos e aprazíveis também. A sua pequena praia de areia branca e a sua tranquilidade são as únicas coisas que ainda fazem merecer os quilómetros para lá chegar e aturar todo o resto. Vou ao Tarrafal porque adoro lá estar e as crianças gostam ainda mais.

Hoje é sexta. O dia boémio por excelência. Cá pelo burgo da Praia, bem que podia estar melhor. Esta cidade precisa de uma vocação nocturna urgente. Vá lá gente, não é por nada mas, cidade que morre à noite, está mais para vila do que para cidade. Cidades cosmopolitas tem uma vida nocturna, por uma razão muito simples: trabalhamos das 8 às 8. É a partir das 8 da noite é que desfrutamos enfim do esforço do nosso trabalho. E não necessariamente dentro de uma caixa de som berrante (discoteca).

Bebam uma Becks bem gelada e levantem o copo em brinde. Bom FDS.

26.8.10

FRESCO

 I love a ilha de Santiago. Serra Malageta na imagem

24.8.10

Bram-Bram

É uma estranha, agradável e inquietante sensação de receber a chuva. Agradável porque prenúncio de vida e frescura; inquietante, porque muda o céu, desaparece o sol, irrompem raios das nuvens e nunca se sabe ao certo a quantidade de água que irá se desabar por cima das nossas cabeças. É um misto de alegria e preocupação. É sobretudo um momento raro, imbuído de alguma religiosidade; tanto os deuses podem nos abençoar como nos castigar por algum mau comportamento ao longo do ano.

Anda um furacão a formar-se no sul do arquipélago. Será que a Protecção Civil tem portado bem? E as Câmaras Municipais? Estaremos preparados por eventuais caudais d'água extraordinários? S.Nicolau já se recuperou? Uma coisa é certa: a lagoa que se forma em frente ao Palácio do Governo, por um milagre, tem desaparecido assim que pára de chover, não vá a Oposição chatear os gajos por terem tamanha falta de eficiência debaixo do nariz. Em tempo pré-eleitoral acontecem coisas fantásticas!

23.8.10

Be Eme Dabliu

Na ilha de Santiago os rapazes têm carrões. Estamos no tempo em que os rapazes, estando de férias laborais, voltam à terra-mãe, aos seus locais de origem, humilde na sua maior parte, rural, às suas mães, igualmente humildes na maior parte, ainda a exibir uma maneira de estar de lenço atado, roupas e gestos tradicionais, gestos de missa de Domingo, roupas e maneira de estar de trabalhar a terra e vender no mercado. Uma sociedade rural, onde só os carrões destoam na paisagem, pelo luxo refinado dos seus bancos de pele, ou pela extrema elaboração tecnológica dos seus equipamentos. Carrões topo de gama. Rapazes rurais de maneiras, de palavras simples na sua expressão, regressados dos seus árduos trabalhos no exterior, se exibem perante uma mulherada fulminada pelo brilho irresistível de um luxo que as suas preparações e vivências nem conseguem conceptualizar, tal insecto que cai fatalmente nas garras de uma bela flor carnívora.

Na ilha de Santiago os rapazes têm carrões e toda uma sociedade que nem consegue explicar a enorme cadeia de causas e efeitos, que faz acontecer que uma fila de carros de alto quilate pudesse desembarcar numa ilha, rural em sua maior extensão e na sua maior expressão.   

16.8.10

Escuro

Quem paga as toneladas de combustível que cada empresa é obrigada a consumir, para ter, em termos industrias, um bem básico que é a energia? E os muitos trabalhadores e pequenas empresas que não podem sequer suportar geradores e toneladas de combustível? Quem paga os electrodomésticos que vão se queimando ao ritmo dos apagões? Quem paga o descontentamento dos clientes que ficam a espera do trabalho que não saiu porque não há luz? Como explicar (e evitar perder uma parceria) aos estrangeiros que o relatório não foi enviado, pela enésima vez, porque falta energia enésimamente? Quem paga os meus nervos? Em que conta se debitará o custo da incompetência e das políticas desacertadas?

Quem paga os contentores-geradores, alugadas pela Electra, para suplementar a energia nesta altura de pico de consumo, que afinal não suplementam nada? Quem paga os salários do exército de técnicos dessa empresa?, que não tem culpa, claro! Aliás, ninguém tem culpa. Não tem culpa o Governo se as Câmaras devem enormidades à Electra. Não tem culpa as Câmaras se o Governo não consegue parar o roubo de energia. Não tem culpa o gestor da empresa, se o Governo não investe os fundos necessários. Não tem culpa os funcionários, se já estão há anos sem progressão na carreira; não tem culpa os técnicos se tem família para alimentar, o que os obriga a um bico. Não tem culpa os cidadãos, se não tem nada a ver com isso. É uma situação sem culpa.

E quem paga a factura? Fica a adivinha.

Sol

Esta altura, comicamente chamada de "Verão" (em contradição com a propalação de país de sol o ano todo), em que a cidade devia ser um poema, é o contrário, é mais lento nos serviços, não há luz, se chove o mar é invadido por toneladas de lixo, as estradas estragam-se, nunca há programas em condições para os turistas e visitantes, a noite é escura e pobre de sítios de bom-gosto, enfim, a cidade revela o seu despreparo em ser cidade

As repartições públicas, que passaram a funcionar a meio-gás o ano todo, vulgo período único, nesta altura funcionam a gás mínimo; a Electra rebenta pelas costuras, apesar das não-temos-ideia-do-quanto custosos contentores-geradores adicionais; a cidade da Praia prova que não é uma cidade feita para gente andar e desfrutar; o monstro que estão fazendo na Quebra-Canela é cada vez mais monstruoso, come estrada, come terra, come céu e a vista do horizonte; Zé Maria tem um grande gerador à porta, para provar que o problema é para ficar. Já agora, que vai ser lançado o programa Casa Para Todos, um item que podia ser de muita valia seria a inclusão ou não de gerador; assim podíamos ter: Casa Pack Simples, Casa Pack Gerador Individual, Casa Pack Gerador Familiar, e por aí fora.

Quem não pára são os partidos e a sua guerrilha pré-eleitoral. O MPD lançou um panfleto disfarçado de jornal, o PAICV vai aproveitando a sua posição de Governo para nos encher de asneira informativa. As eleições são uma surpresa; os inquéritos revelam resultados contraditórios, mas é na urna mesmo que vamos tirar esta teima. O certo é estarmos lixados em ambos os casos: não podemos tolerar mais um mandato PAICV, com toda a sua corja de pequenos, médios e altos funcionários do Estado a instalaram-se sem vergonha na cara; não podemos tolerar um MPD Governo de 91, com todo o seu historial anti-Estado. Algo falta no puzzle político; falta renovação; falta juventude; falta sociedade civil actuante. Mas está provado pela Dengue, só reagimos quando um de nós morre.

Entretanto, curtam uma praia...se puderem.

6.8.10

Arbítrio

Em que situações o árbitro anula o jogo? Pelas razões que me ocorre, se uma das equipas não comparecer, chove aos potes que os jogares nem conseguem se manter em pé, em situação de falta evidente de segurança, se o campo racha ao meio, ou seja, em situações obviamente de anulação. Não consigo encontrar uma razão satisfatória para o Ministro da Saúde ter anulado o concurso de avaliação curricular à classe médica.

História. Os médicos não são promovidos desde 95 por falta de concurso, para determinar de forma criteriosa, quem deve e quem não deve ser promovido. Finalmente se faz, e pelo próprio Ministério. Até aqui bravo. Resultado do concurso: a esmagadora maioria dos médicos obtêm classificação de aluno suf- a medíocre. E este é só um concurso curricular, ou seja, a malta só tinha que inventariar a papelada, as formações, os workshops, os papers científicos que tenham produzido, o currículo profissional e por aí fora. Imaginem se fosse uma avaliação de desempenho? Se um dos critérios fosse "satisfação do utente", aí é que muita gente ia apanhar com um "mau". Se a malta da "bata branca", como são conhecidos, não passaram neste concurso, ou é porque não apresentaram a papelada, ou é porque não a têm, literalmente. Face a isso, claro está, senhores do mundo (ou da vida, mais propriamente) como são os médicos, contestaram  (os maus) em massa e o Ministro da Saúde, numa saída que não lembrava o diabo, ANULA o concurso, satisfazendo os maus e prejudicando os bons. Ainda por cima diz o seguinte: "a breve trecho, e em concertação com as entidades pertinentes, decidir-se-á da conduta a seguir". (A Nação, 5/8/2010)

Não é aceitável sob nenhum ponto de vista a decisão do Ministro. Se o concurso continha irregularidades, como alegam os "prejudicados", que não se fizesse. Se os critérios não eram claros à partida, que a classe não os aceitasse, impugnando o concurso antes que acontecesse. O que não podia acontecer era, que se anulasse um concurso, conduzido por gente séria, inclusive com a participação da própria Ordem dos Médicos, com base em descontentamento dos que (mesmo sendo a maioria) o concurso não tenha corrido à feição. É com essas atitudes que os políticos desvirtuam gravemente o jogo do Estado de Direito. Como é que os cidadãos podem confiar nas autoridades, se não sabem ao certo por que batuta se rege o próprio Estado? Que poder é esse, supremo, de um dirigente político anular um acto administrativo (e logo legal), com base em critérios tão subjectivos, ou no mínimo mal explicados? Poder pode, senão não o teria feito, mas será que deve? A conduta a seguir é caso a caso?

Mais uma grave desilusão na forma como se conduz os assuntos de Estado. Por razões de coerência, ou fazemos concursos correctamente e os respeitámos, doa a quem doer, ou não fazemos concurso nenhum e assim sabemos que isso funciona ao gosto do freguês.

4.8.10

Instante

fonte: aqui

Cláudia Rodrigues (a nossa querida Lála) num momento único da sua vida; talvez irrepetível. Atrás o nosso igualmente estimado Ivan. Toda uma nação se orgulha (espero).

1.8.10

Estado 90%

Entre o país “moderno e competitivo” de José Maria Neves e a sensação de, dinheiro que nunca chega para nada, falta de qualidade de serviços públicos, ausência de espaços públicos de lazer e entretenimento, pobreza à vista desarmada, o que falta realmente? Entre o evidente bom estado de relações com a comunidade internacional que este Governo conseguiu restabelecer, o notável equilíbrio financeiro da gestão pública e mais alguns bons ganhos em sectores diversos, e a “governação negativíssima de Fernando Elísio Freire, qual é realmente o meio-termo? Terá António Monteiro razão afirmando que, em Cabo Verde impera o revanchismo?

Pessoalmente o que me parece é que nós sofremos do que chamo de “síndrome dos 90%”. Está tudo quase a acontecer, quase a acabar, em projecto, vai acontecer. E a verdade é que o tempo passa e continuamos com os mesmos dramas. Se é verdade que a diplomacia CV goza de grandes momentos de notoriedade (aliás, se tem legado de Amílcar Cabral que soubemos manter, é a diplomacia) também é verdade que JMN descuidou-se da sua reforma da administração pública, que está cada vez mais gorda, velha e preguiçosa. Socialmente há grandes correcções de rota a fazer: do ensino, da capacitação profissional, da habitação e, ainda, da saúde. JMN passou completamente ao lado da política cultural e, dentro do seu partido, não me parece que tenha promovido tanta democracia como propala.

Para além do Governo, não esqueçamos que um país não é feito só de Governo. A sociedade civil é cada vez mais egoísta e alienada. Não estamos a cumprir bem o nosso papel de cidadãos. Nem cuidamos da empena da nossa porta. A Oposição também, não é que ajuda muito; vive berrando e, quanto a uma visão alternativa, nada! Se este Governo merece continuar à frente do país, será por total desmérito da Oposição. Se o PAICV continuar à frente do Governo, com todo o arrasto maléfico da acomodação ao poder, a interminável cadeia de dirigentes da Adm.Pública, mais fiéis ao partido que aos princípios da gestão da coisa pública, espero que percebam que é o social a base de um país, que abandonem um pouco o conluio aos grandes negócios e as grandes empresas estrangeiras, que tenha a coragem de se declarar ignorante em matéria de política cultural e arranje alguém que o faça e, uf, substitua o discurso repetitivo que já irrita. Caso o MPD consiga, num passe de mágica, constituir-te Governo, dado ao seu historial de governação voltada aos negócios, não me pareça que corrija a ausência de actuação social, por isso resta-nos a nós, povo, sociedade, fazer o nosso papel: actuar! 

27.7.10

Grito

A propósito do comentário de Houss no post "silêncio", sobre a ausência de Amílcar Cabral nas nossas notas (dinheiro) e sobre a sensação do desvanecimento da figura deste líder maior, do nosso dia-a-dia, das nossas conversas.

Eu tive a "obrigação" de ler muito sobre Cabral, para um trabalho que fiz e foi lendo que descobri o quanto nós somos ignorantes do seu percurso, importância para o pensamento nacionalista africano, influência para os nossos primeiros dirigentes e figura de destaque no mundo. Os suecos devem admirar Amílcar Cabral mais do que nós próprios. Parece-me que é mesmo da humanidade, não conseguir valorizar o que está perto demais, o que nos parece demasiado vulgar para ser elevado.

Bem, como isso não quero dizer que as figuras da história devam ser mitificadas. Não, mais simples que isso; temos unicamente que continuar o trabalho que eles começaram. Amílcar Cabral fez um grande esforço para a definição de uma série de condutas, para que os povos africanos pudessem se emancipar e trilhar o seu próprio caminho. É verdade que boa parte da sua moral está vinculada ao contexto da guerra, mas é verdade também que ele professava essencialmente a valorização do homem; por exemplo, acho de um romantismo insuperável, que ele tenha insistido em ter escolas para todos, em plena guerra. Ele era um idealista, mas ao mesmo tempo um pragmático.

A minha posição em relação a Cabral, não é de endeusificação; é de aprender a ter respeito pela história e a admirar um homem de obra. Uma inspiração, no fundo.

Nós aqui, não é só Amílcar Cabral que não valorizamos; estudamos muitos dos grandes filósofos, mas são poucos os que conseguem identificar as suas condutas ao que aprenderam na escola. Somos imediatistas, fingimos que os problemas são só dos outros, somos ligeiros e vaidosos. É de contar nos dedos os homens deste Cabo Verde da actualidade, que inspira uma real admiração.

22.7.10

Lata

Guiné Equatorial declara português como a terceira língua oficial do país (SAPO CV)

Isto equivale a Cabo Verde declarar o francês como língua oficial. Lidamos muito com o francês, principalmente ao nível da Adm.Pública, ou seja, muitos documentos e até concursos públicos vem em francês. Ora isso tem a ver com as relações internacionais, agora daí a declarar o francês como língua oficial em Cabo Verde seria um pouco forçado. Como é declarar o português a 3ª língua oficial da Guiné Equatorial. Eles falam espanhol, mas o que é que o rabo tem a ver com as calças?

Que ao ditador Teodoro Obiang tenha a pretensão de pertencer ao CPLP, como forma de branquear a sua política do terror, é uma coisa; outra completamente diferente é receber os apoios internacionais, nomeadamente de Cabo Verde. Muitas serão as argumentações a favor da Guiné Equatorial: é um país católico, tem ligações de história com portugal por pelo menos 1 século, tem um elevado PIB per capita e um IDH (Índice Desenvolvimento Humano) maior até que Cabo Verde, embora esse índice está a ser grandemente puxado pelo PIB, já que os indicadores sociais (ensino e sáude) são inferiores aos nossos, importantes organizações internacionais estão presentes no país, tem o apadrinhamento dos USA e da Espanha e, para todos os efeitos, há eleições no país, embora sejam altamente contestadas, pela oposição e por observadores internacionais.

Tenha os indicadores que tiveram, um país governado por uma única pessoa há mais de 30 anos, que tomou o poder por força militar, que manda executar os seus opositores, que nomeia pessoalmente o primeiro-ministro e todos os governadores de província (o país tem 7 províncias), que nomeia agentes da Justiça e que ganha as eleições com 98% dos votos (impossível em qualquer Estado decente), não pode ser considerado um Estado sério, pelo Comunidade Internacional. Mas ao que parece, o dinheiro está cantar nos ouvidos dos dirigentes dos nossos país e encadeando os seus olhos, até que perdem o discernimento das suas acções.

Para o Presidente do meu país, herói de luta contra o colonialismo e fascismo português, combativo negociador da Independência Nacional, é inaceitável o apoio a um ditador. Desilude-me.

Fontes: 

21.7.10

Som

Aconteceu no Palácio da Cultura, ontem, dia 20, uma jam session entre músicos das Canárias (bons) e músicos de Cabo Verde (bons) e do encontro resultou um repertório…brasileiro! Ponham dois músicos de partes diferentes do mundo, em comum vão conhecer um sambinha, quase de certeza. É como dizer que, a música popular brasileira é uma língua franca musical. Na verdade a música brasileira é uma grande escola.

Para além de que, tradicionalmente, o Brasil tem muitos ritmos e géneros, resultante da grande mistura de povos que resultou o seu povo, o factor mais importante para terem a sua música bem desenvolvida e divulgada pelo mundo, é que tem muita qualidade técnica e isso só se consegue com escola. Escola, escola, escola. Tem de ser esse o nosso lema na actualidade.

19.7.10

Rafael Sica

Silêncio

"O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão."
José Saramago, in Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p.56

Alma

Sou desabridamente fã de David Lynch, o cineasta dois tempos à frente do seu tempo. O cinema de Lynch não se vê, estuda-se. Não há uma única pessoa no mundo, nem mesmo o mais experimentado crítico de cinema, que pode gabar-se de ver um dos seus filmes de um só sorvo. É preciso rever, discutir, analisar, teorizar e comparar teorias, sempre numa tentativa de adivinha, que o próprio Lynch nunca facilita; nunca entrega as chaves, talvez, como o próprio diz, não tenha chave nenhuma. Um dos filmes que mais me marcou foi Mulholland Drive e esta (http://obviousmag.org/archives/2007/12/david_lynch_clu.html) é só mais uma das dezenas de adivinhações que já li sobre o mesmo...Acaba por ajudar de alguma forma.

18.7.10

Éter

Até nunca deixaria que isto que está prestes a acontecer, acontecesse, caso fosse pago para estar aqui a aturar o mau fígado de cada qual, os humores fétidos de uns e outros, a acidez de estômago de tantos que passaram por aqui. Não sou pago. Isto é mantido por esforço e vontade próprios. Já aturei uns tantos parvos, mas hoje, num Domingo, dia de família, paz, amor fraternidade, dia de sol e praia e almoços divertidos, um parvalhão conseguiu mudar-me. Venceram as forças do mal.


As intenções deste blog foram as melhores. Quis ter uma plataforma de diálogo. Quis ajudar a criar um espaço de encontro supranacional, sem fronteiras e restrições localistas. Acreditem se quiserem, mas também se não acreditarem, pouco me importo, nem vou sabê-lo, porque nem poderão dizê-lo mais aqui.

A partir de agora, este espaço é meu e de mais ninguém. Mando as bocas que quiser e bem entender e, desculpem qualquer coisa, não poderão replicar. A partir de agora este espaço não publica anúncios de espectáculos ou exposições, portanto não mo peçam. Acabaram os projectos colectivos, blogjoints e coisas do género. Pouco me importa se o país desliza na sua própria defecação ou se cheira a rosas. O que anda lá fora exige ser encarado de cara feia e palavras igualmente rudes.

Um apreço às centenas de pessoas que adicionei à minha lista pessoal, aquele abraço, continuem vindo que isto continua por cá e se quiserem comentar, os que são amigos, terão oportunidades de o fazer. Aos da má fé, vão lá se matar lá prós quintos do inferno, que aqui é lugar de gente saudável.

16.7.10

Tinta

É a minha estréia (em grande) em design de capa de livro. A fotografia é de Duarte Belo, um fotógrafo poeta. O livro é de, nada mais, nada menos, que o nosso mais premiado escritor, José Luiz Tavares.

Acreditem que o livro é bem mais bonito que esta simples imagem; tem a capa, a contra-capa, as badanas, a lombada e o miolo, que é um papel que parece reciclado; o desenho de uma capa se faz por pequenos detalhes, que agora, ao pegar no livro, corre-me uma alegria de ter feito boas escolhas, de proporções e posicionamentos. Ocorreu-me que os nossos escritores, se conta pelos dedos de uma só mão, os que cuidam do aspecto gráfico dos seus livros; é só ver para a parte da livraria que diz: "literatura cabo-verdiana".

E já agora, quem ainda não leu José Luiz Tavares, que tente fazê-lo. Vá, é poesia, é uma linguagem muito elaborada, com toques de literatura clássica, o vocabulário, muito dele, já não está em uso, e são temáticas também elas profundas, não evidentes ao primeiro olhar. Acontece com toda a expressão artística; há aqueles que produzem para consumo imediato; há aqueles que produzem para rasgar os limites da nossa compreensão; José Luiz Tavares é da segunda categoria.

15.7.10

Adesão de Cabo Verde ao FODETE está mais ou menos assente

...estamos fod***s

Copy&Paste

"Aquele cheiro era igual ao do meu avô. Cheiro de blazer de fazenda antiga misturado com cigarros, um cheiro amarelado, macerado, das pontas dos dedos.

É um cheiro que quase não o chega a ser. É o cheiro da total ausência de uma gota de perfume, de um aroma, ausência de qualquer nuance contemporânea naquele corpo estranhamente tão jovem.

Deixei-me senti-lo, inspirei-o com a memória. E a sorrir daquele sorriso encabulado como quem coça a cabeça, meti a mudança e lentamente carreguei no acelerador."

(És uma inspiração, Minhokinha. Sorte a ti e aos teus)