1.8.10

Estado 90%

Entre o país “moderno e competitivo” de José Maria Neves e a sensação de, dinheiro que nunca chega para nada, falta de qualidade de serviços públicos, ausência de espaços públicos de lazer e entretenimento, pobreza à vista desarmada, o que falta realmente? Entre o evidente bom estado de relações com a comunidade internacional que este Governo conseguiu restabelecer, o notável equilíbrio financeiro da gestão pública e mais alguns bons ganhos em sectores diversos, e a “governação negativíssima de Fernando Elísio Freire, qual é realmente o meio-termo? Terá António Monteiro razão afirmando que, em Cabo Verde impera o revanchismo?

Pessoalmente o que me parece é que nós sofremos do que chamo de “síndrome dos 90%”. Está tudo quase a acontecer, quase a acabar, em projecto, vai acontecer. E a verdade é que o tempo passa e continuamos com os mesmos dramas. Se é verdade que a diplomacia CV goza de grandes momentos de notoriedade (aliás, se tem legado de Amílcar Cabral que soubemos manter, é a diplomacia) também é verdade que JMN descuidou-se da sua reforma da administração pública, que está cada vez mais gorda, velha e preguiçosa. Socialmente há grandes correcções de rota a fazer: do ensino, da capacitação profissional, da habitação e, ainda, da saúde. JMN passou completamente ao lado da política cultural e, dentro do seu partido, não me parece que tenha promovido tanta democracia como propala.

Para além do Governo, não esqueçamos que um país não é feito só de Governo. A sociedade civil é cada vez mais egoísta e alienada. Não estamos a cumprir bem o nosso papel de cidadãos. Nem cuidamos da empena da nossa porta. A Oposição também, não é que ajuda muito; vive berrando e, quanto a uma visão alternativa, nada! Se este Governo merece continuar à frente do país, será por total desmérito da Oposição. Se o PAICV continuar à frente do Governo, com todo o arrasto maléfico da acomodação ao poder, a interminável cadeia de dirigentes da Adm.Pública, mais fiéis ao partido que aos princípios da gestão da coisa pública, espero que percebam que é o social a base de um país, que abandonem um pouco o conluio aos grandes negócios e as grandes empresas estrangeiras, que tenha a coragem de se declarar ignorante em matéria de política cultural e arranje alguém que o faça e, uf, substitua o discurso repetitivo que já irrita. Caso o MPD consiga, num passe de mágica, constituir-te Governo, dado ao seu historial de governação voltada aos negócios, não me pareça que corrija a ausência de actuação social, por isso resta-nos a nós, povo, sociedade, fazer o nosso papel: actuar! 

12 comentários:

Anónimo disse...

Gostei. Bastante equilibrada e pertinente a tua leitura.

Anónimo disse...

Eu vou votar no MPD. Voto por 10 razões:
1. MPD é um movimento de várias gerações de quadros altamente capacitados.
2. No MPD encontramos pessoas que se destacaram pelo mérito pessoal e profissional.
3. MPD mudou a base social e económica do país na última década de 90 e preparou Cabo Verde para uma nova era
4. MPD deixou obra feita e deixou trabalho em todos os domínios, que o PAICV ainda está a inaugurar e por inaugurar.
5. MPD incentivou o aparecimento de uma classe empresarial nacional forte e competitivo
6. MPD lançou as bases da Reforma Administrativa do Estado e preparou o país para a governação electrónica
7. MPD tem visão de futuro
8. MPD na oposição sempre deu combate fortíssimo, com opiniões e posições críticas muito próprias, mas nunca sem sentido de Estado: veja-se o caso dos presos de Guantanamo.
9. MPD na oposição foi um partido útil, sério e responsável: não complicou as acções do governo com boicote, nem incentivando às manifestações violentas que o PAICV tanto sabe fazer e fomentar na oposição.
10. MPD já foi governo e tem um líder maduro à frente que já conheceu as teias da governação e que saberá melhor que ninguém como colocar o país de novo no rumo certo, com as reformas necessárias, para uma nova era e novas décadas de prosperidade.

Anónimo disse...

Oi César
Parabéns pela reflexão. Cá vai o que me ocorre.
Não há bons países com maus governos. Não há bons governos com má oposição. Não há boa classe política com maus cidadãos (aqueles que se demitem de exercer a sua cidadania, feita de direitos e deveres). Uns e outros são o reflexo da sociedade civil que temos/SOMOS. Não há democracia que preste sem, bons governos, boa oposição e boa cidadania.
Como conseguir que o governo governe bem?
Como conseguir que a oposição cumpra bem a sua função?
Como conseguir dos cidadãos melhor cidadania?
Este raciocínio tautológico conduz-nos a uma aporia. Como resolver esta quadratura do círculo quando quase TODOS, acham que fazem bem o seu papel?
Alguém dizia, que quando não há respostas, convém indagar pela pergunta? Qual é a pergunta? Como sair da situação?
Cinicamente podemos concluir que temos aquilo que merecemos. E o que temos, bom ou mau, somos NÓS!
Vejamos. Será assim tudo tão apocalíptico? Fomos capazes de inventar um país (aliás, vimos inventando-o há séculos com o sangue, o suor, e as lágrimas de um filão inesgotável de esperança) para descobrirmos agora que o conduzimos para um beco sem saída? Não acredito. A ansiedade em que cada geração vive, no desejo (legitimo) de ver as coisas acontecerem no seu tempo, não pode trair a esperança que está na raiz de toda a cabo-verdianidade, e na essência do que é ser cabo-verdiano. Provavelmente a realidade, a nossa e a dos outros, não cabe nesta tendência maniqueísta de ver tudo a branco e preto, bons e maus, culpados e inocentes. E sabem uma coisa? É que não cabe mesmo. Não há nestas coisas um NÓS (bons), e um ELES (maus). Que não há receitas milagrosas todos sabemos. Que não há mudança que preste que não seja aquela que começa em nós, poucas vezes vejo referido. Não é o teu caso, César. Eureka! Afinal a mudança SOMOS NÓS. Que cada um cumpra o seu dever, faça o seu melhor, dê o seu máximo, seja exigente, rigoroso, por mais humilde que seja o seu papel social, EIS A TAL RECEITA, QUE NÃO HÁ, MAS ESTÁ SEMPRE AO ALCANCE DAS NOSSAS MÃOS: mudar o mundo começa por (e em) mim.
Last but not least, não convém alimentarmos ilusões. E uma das que vem sendo alimentada sem proveito para ninguém, é a que confunde modernizar (o país) com a modernidade (do país). A primeira não leva necessariamente à segunda. Mas esta é condição sine-qua-non daquela. Aquela é da ordem de ter/fazer coisas. Esta é da ordem do pensar. Mas não se faça aqui, e a propósito, outra confusão. Entre opinar (e são tantos os opinantes na praça) e reflectir (raros os pensadores, apesar da proliferação de Institutos e Universidades, o que não deixa de ser paradoxal.). Afinal o que anda a produzir tanto ensino “superior”?
José E. Cunha
(NOTA: um dos anónimos acaba de dar mostras da demagogia que é preciso evitar nestes tempos. E neste contexto, a figura do anonimato reforça a ideia de propaganda. Fico-me pela total ausência de sentido crítico do "seu" discurso. Aquilo parece mais um comunicado politico encapotado, do que uma declaração de voto. Seria isto que Carlos Veiga queria dizer quando, referindo-se aos Pioneiros, falou em … lavagem cerebral? A cada um a sua brainwashing; a cada tempo a sua blindness! Era só o que nos faltava. Um Sebastianismo à cabo-verdiana. E nem sequer é original. Caro Anónimo, faça do seu voto um instrumento, sem se transformar num.)

Cesar Schofield Cardoso disse...

Zé Cunha, grande contributo à discussão. Gostei da parte: "Não há bons países com maus governos. Não há bons governos com má oposição. Não há boa classe política com maus cidadãos (aqueles que se demitem de exercer a sua cidadania, feita de direitos e deveres)."

Acho também que é isso: é preciso fechar o círculo. Pôr todos a trabalhar com o mesmo sentido, senão é um eterno puxa daqui, descobre dali, ajusta ali, etc.

Quanto ao 2º anónimo...errou de fórum, só. E por falar em lavagem cerebral, é esse tipo de discurso robótico que nos corta a capacidade de crítica, de contribuir para o debate. Enfim...

Bernardino disse...

Sim a cada Estado da Nação descobrimos quão distante estamos do sonoro que vem da casa parlamentar. Nem céu...nem inferno...! Sejemos mais sérios não é, srs nossos representantes!! Deveras é confuso o debate e com final previsível. (Tem final mesmo?!) Mas penso que inevitavelmente, devo(mos) questionar, que fiz eu para ser diferente? Não teria os mesmos instrumentos sim, mas que uso fiz dos que tinha? Mais e Melhores cidadãos precisa-se (Os da Santa Casa também são convidados a vestir a camisola C)

Anónimo disse...

Bom dia,

Gostei da tua análise, Cabo Verde precisa sim de um governo voltado para a sociedade. O governo do JMN tem feito muito mas falta muito e muito por favor.

Política sociais e culturais precisa-se.

Anónimo disse...

Eu também da análise que fiz vou votar na mudança. basta de abuso do JMN e do PAICV. Sem lero lero txeu por favor!

Cesar Schofield Cardoso disse...

Não me parece que a discussão aqui seja sobre quem vamos votar. A discussão aqui, não sei se repararam, é sobre a gestão do Estado, que, como alguém já disse, é de responsabilidade do Governo, da Oposição, da instituição parlamentar no seu todo, da Justiça e, não menos importante, da Sociedade Civil. Não sei se repararam, mas a minha tónica aqui é sobre a sociedade civil, que é amorfa e inexpressiva. Falemos das Ordens profissionais, falemos de Pró-Praia, da Adeco e da Prodeco, falemos das associações juvenis e das mulheres, falemos dos espaços públicos de encontros e discussões, falemos da sociedade, do lazer e da arte, falemos das associações que não existem, que deviam existir, para exigir melhores estradas, melhor energia, melhor Governo e melhor Oposição.

Malta dos partidos, abram as vossas mentes. Há muito mais vida para além dos partidos.

Anónimo disse...

"no mundo por que luto nasço"

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
repescado no Margoso, com a devida vénia ao JB.

C'est ça!

Ab
JECunha

Baluka Brazao disse...

Oi Schoffield. Concordo contigo sobre o muito que se tem feito para cumprir metas que as grandes organizações financeiras impõem aos mais pobres, que nos torna o exemplo que eles pretendem para o nosso Continente. Porém, como muito bem afirmas, toda essa projecção internacional, de pouco ou nada tem servido para melhorar a condição social dos menos favorecidos. Aliás, o que se vê, é uma classe média cada vez mais pobre e individada, e cada vez mais famílias recorrendo às lixeiras para poderem sobreviver! O País, somos nós, para o bem e para o mal, e se essas inúras obras que se tem feito não se reflectem numa condição de vida mais digna para as populações, então, tornam-se inúteis para o País!
Abraço.

Baluka Brazao disse...

Apenas uma correcção no meu post: onde se lê, classe média cada vez mais pobre e individada, deve-se ler classe média cada vez mais pobre e endividada.
Abraço

Cesar Schofield Cardoso disse...

O Governo está para um país, como a Administração está para uma empresa; por mais bonitos que sejam os programas e as actividades, só o resultado é que vale. Se para a empresa, o indicador final é a satisfação do cliente, para o Governo o indicador final é a satisfação do cidadão. Todos nós aspiramos viver o fruto do nosso trabalho enquanto temos força e alegria de viver, ou seja, AGORA.