20.4.09

Aves raras

Era uma vez um pássaro chamado Filú. Só podia ser avistado na floresta encantada de Cabo Verde. Na origem, nem passarinha exótica, nem imponente águia-real. Somente um pássaro de voo comum, simpático e divertido, integrado e querido da comunidade. Um dia o pássaro Filú ambicionou voar mais alto e entrou na política, a conhecida corrente de ar ascendente, que projecta passarinhos e passarões para cima, sem que necessitem bater muito as asas. Filú ganhou alturas e embriagou-se. Sofreu metamorfoses, ficando as asas maiores e a plumagem mais pomposa. Aprendeu a fazer umas piruetas e passou a gritar, convencido que cantava. Tornou-se arrogante, voando e cagando a cidade toda, convencido que a sua porcaria representava uma bênção que caia dos céus. Tornou-se predador, alimentando-se dos da sua espécie, sendo jovens pombos o seu pitéu preferido. Tornou-se ave rara, ambicionando voos ainda mais altos e foi então que a população, em eleições, resolveu cortar as asas do bicho, que levou um grande e inesperado tombo.

De um dia para o outro, o pássaro Filú deixou de se ver. Recomeçou a piar timidamente pouco tempo depois, um piar de lamento. Passou a deslocar-se aos pulinhos, em figura triste. Nisso, um outro não menos notável passarinho, conhecido por moranguinho, tendo enchido o coração de piedade, ofereceu ao pássaro Filú um par de asas, não tão potentes, mas suficientes para, em pouco tempo, resgatar a sua capacidade de voar e, em pouco tempo, já piava com mais força, ensaiava novos voos e sem muita modéstia voltava a querer descaradamente ganhar os ares, ainda a cidade a tentar desincrustar a acumulação de porcaria deixada por anos de cagada.

Frases fantásticas

"N'sta xinti gosi mas kapasitada na nha ária di kabélu"
Formanda, curso de capacitação cabeleireiras

18.4.09

Trapalhada clássica

Afinal, acabei por ir ao hiper propalado show do Tito Paris e devo isso à insistência de João Neves, director do CCP-Praia, a quem agradeço sentidamente, pelo empenho em “corrigir” uma certa antipatia do evento em relação a algumas pessoas. Muito mais do que eu, outras pessoas, músicos super interessados, ficaram frustrados.

Afinal, o hiper propalado evento foi uma autêntica bosta! Produção de última categoria. O primeiríssimo destaque pela triste negativa, foi a onda dos convites, que resultou em desastre. Muita, mas muita boa gente , inclusive figuras de destaque, assistiu o show em pé, com os seus lindos vestidos de noite, em cima do salto, as suas fatiotas, preparados para um espectáculo de salão. A sala abarrotou, o que começou a estragar a produção. Era gente a circular por todos os lados. Fotógrafos a subir ao palco…um ambiente instável. Se tivessem reservado parte dos lugares e vendido bilhetes, caros que fossem, o cuidado teria sido outro.

O show foi looongo e Tito portou-se de forma intolerável, dado o tipo de evento, o tipo de lugar e o tipo de plateia. Atropelou gravemente o protocolo, fazendo piadinhas parvas em relação aos membros do governo e ao presidente da assembleia. Falou demais e está definitivamente provado que Tito só devia cantar. Por fim, convidou pessoas demais a subir ao palco, que causaram alguma rebaldaria, exagerou na graxa a determinadas pessoas, mandava a orquestra parar (imaginem!) para conversar com o público e o público, este, embarcou no carnaval. As pessoas riam, aplaudiam e, nervosamente, apupavam as piadinhas insossas do Tito, esquecendo que estavam ali para ver uma, caramba, orquestra!

E no meio disso tudo, nos momentos em que a sala conseguia se comportar, o melhor da noite soava: a música! As lindas melodias de Tito, o lindo acompanhamento da orquestra, os talentosos músicos, a arte finalmente. E mesmo assim, fiquei por perceber a ideia do Tito em preparar um repertório mais “sensual” para a Praia(!?), segundo o próprio, em entrevista na rádio. Dá-me vontade de o mandar para o cara…! Tito, na Praia, há público também para um repertório menos “sensual” e aquilo não era para ser propriamente um baile.

Saí desgostado e desgastado, após o stress dos convites e as longas 3h (!) de…Que me desculpe o leitor o fel que me sai pelas ventas. Insisto: ou é arte, ou é entretenimento, ou é rebaldaria. Tudo junto é que não dá.

17.4.09

Quem nos socorre?

Segundo Manuel Veiga, os "ganhos conseguidos com a sua governação...a mudança cada vez mais positiva e actuante na atitude dos sujeitos culturais e actores políticos; o aumento crescente da credibilidade no sector, traduzido no aumento orçamental, as novas tarefas e algumas distinções feitas ao Ministério, tanto pelo Governo como também pela cidadania cultural; e ainda as acções de vulto empreendidas pelo Ministério, em vários domínios culturais, como a arte, a investigação, a legislação, o património e a salvaguarda da identidade

Como posso chamar a isso? Confusão? Trapalhada? Gozo? O que é isto, que saiu nesta notícia no A Semana Online? Que foi devidamente comentada no Cafe Margoso.

É assim: eu já nem me importo que o homem ande a gozar com a cara de cada qual, que não consiga dialogar com ninguém e que não tenha uma ponta de dignidade para pedir a sua demissão. O que me indigna é o imposto que pagamos para alimentar esta corja, as suas benesses e as suas regalias.

E espero bem que José Maria Neves perca bastante votos por causa da sua desastrada política cultural. Receio é que isso não tire votos a ninguém em CV.

Correcção

No post em que digo a frase "Se Deus tivesse feito um estudo de impacto ambiental...", a frase não é minha, muito menos da Cristina, muito menos do pai dela. Ao autor as desculpas. A brincadeira sobre o Min.Ambiente é da minha autoria e responsabilidade. Uma pequena confusão. As desculpas.

Novos piratas

Piratas estão em mó de cima. Hoje são outros tesouros, mas pirata é pirata, nos séculos passados e presente, embora os do passado tenham contribuído para a riqueza de algumas nações e tenham as cabeças em prateleiras douradas da história. Heróis quase.

Pirataria é igual em todo o tempo, embora a tecnologia esteja hoje umas tantas vezes mais mortal e a espécie humana seja progressivamente mais violenta, conduzindo-se à auto extinção, parece. Hoje, piratas deslocam-se em barcos velozes, as comunicações são uma maravilha e as armas são utensílios de matar de alta precisão e destruição.

Pirataria é tão nosso como de todo o mundo. Cada Estado, político ou empresário corrupto, em qualquer parte do mundo, é agente disso. Redes de tráficos de droga, armas e pessoas, são causa e consequência disso. Nossos portos e aeroportos são infra-estrutura de apoio disso. Guerras fratricidas dentro dos países, já de si depauperados, dependem disso. A indústria escandalosa e milionária de armas é a própria ossatura disso. Pirataria é mais do que um punhado de esfarrapados com poder de fogo. E as Nações Unidas a fingir que não tem nada a ver com isso.

Fofos

Que fofos o Primeiro-Ministro e o Presidente da CMP, em encontro oficial, que mais parecia uma alegre cavaqueira. Eram só sorrisos. Se sorrissem eram deixava até de ter piada.

É preciso complementaridade na questão do governo central/local, concordam na perfeição os dois fofinhos. Concordo. É preciso rever a questão do estatuto especial da cidade da Praia. Não concordo. Estatuto especial soa-me a meter lixo debaixo do tapete. É preciso sim rever a questão do poder local, das suas finanças, da questão dos terrenos, clarificar as águas. Estatuto especial soa-me a remendo.

Mas, vá lá, há que aproveitar este momento de amor entre os dois fofos, à partida inimigos de estimação, porque daqui para as eleições, sorrisos podem se transformar em cara feia e considerações menos simpáticas dum em relação ao outro.

15.4.09

Este tipo...

Este tipo não é do tipo assim, assado, de se conhecer de horóscopo, de se tentar adivinhar, de se aplicar fórmulas conhecidas, porque eventualmente nenhuma dessas estratégias vai servir para nos confortar a ponto de se reclinar num sofá e dizer: pronto, captei este tipo. Estejam sempre preparados para serem apanhados em contrapé por este tipo. Não se deixem tranquilar. Não façam disparates disfarçados de acções. Ou então façam disparates assumidamente disparates. Escolham uma das duas maneiras de estar ao pé deste tipo: estar ou não estar.

Este tipo não é tipo de estar com um blog para a eternidade. Nem de se conter num ponto, muito menos num traço, muito menos numa imagem. Precisa se explodir periodicamente e depois se catar. Por isso não há tristeza em Ala Marginal ficar por aqui. Ele, o tipo, vai para um outro sítio, esbofetar o conformismo que está em todo o lado. Ele o tipo não pára.

Habituaram-se à cocaína? Desabituem-se porra!

Povo com sede

Foi lindo, lindo, lindo, ver pela televisão milhares de pessoas na Rua de Lisboa, Mindelo, em pé, para ver Tito Paris e Orquestra Metropolitana de Lisboa. Mas sou obrigado a concordar com o João Branco que, pelo que me apercebi, a montagem do palco não podia favorecer a transmissão do som delicado de uma orquestra. O palco tinha que ser feito como uma grande caixa de ressonância, como uma vez vi feito na Alemanha, se não me engano, em que num anfiteatro desses medievais, foi construído como que uma concha à volta do palco e o som saia como um assobio de pássaros. De todo o modo foi lindo de ver.

Aqui na Praia, os glamurosos de serviço acharam que nem o povo, nem ninguém podia ver a orquestra, a não ser quem pertença ao círculo restricto de Santa Sociedade de Faz de Conta. Um show desses à porta fechada!!?

14.4.09

Pensamentos

Se Deus tivesse feito um estudo de impacto ambiental antes da criação do homem, jamais o teria criado

...Ou então fez como o Min.Ambiente: ignorou o estudo e fez-nos na mesma :)

Odontologia

Em tempo de preparação de campanhas políticas, os jornais se transformam em seres, com estômago, intestinos, arrotos, peidos, mudam de pele, de face, de tom, de humor.

Ficamos a saber afinal que, por trás dos jornais, que saem fininhos das imprensas, nos ecrãs, ou publicados na Internet, tem homens e mulheres, que tem cú e tem medo, tem amor e tem ódio.

- Esses tipos querem matar-me! - grita uma mulher.
- Chilique de velha sabida - respondem.
- Aguentaram-se desta vez, mas para a próxima os deitamos abaixo.
- O país nunca este tão bem senhores!

Publicam-se provas irrefutáveis de crime. Exibem-se quadros e gráficos ilegíveis, pretensas sondagens à vontade do povo. As colunas da fofoquice, as preferidas da maioria, tornam-se o próprio sistema central dos jornais e a deontologia, esta espécie de juramento secreto, dá ares de odontologia, ciência de reparação de dentes podres e mau hálito.

Em tempo de preparação de campanha política, afinal, homens, políticos, jornais e mulheres, são só seres com medo de morrer, ou vontade de acordar e ter o motorista à porta e o contabilista a cuidar que não dormimos a fazer contas à vida.

13.4.09

Tito Erudito

Tito Paris em Cabo Verde e Orquestra Metropolitana de Lisboa. Até o título é grande!

Este sonho já vem sendo sonhado por Tito há algum tempo. Lembram-se de uma história de Tito, Min.Cultura CV e 200 mil? Na altura, terão dado ao Tito um cheque de 200 mil ESCUDOS, quantia claramente ridícula para uma operação deste tipo. Se calhar foi uma pequena confusão de linguagem. Terá sido 200 mil EUROS a quantia pedida. Enfim, entre escudos e euros, azedaram-se a relação entre os dois ilustres, que chegaram mesmo a trocar umas farpas por escrito. Que seria de nós sem riola?

Desta vez o homem vem mesmo, por via de um Banco. Mas é mesmo assim, o dinheirinho tem de vir de quem a faz e não do Min.Cultura, que deve se preocupar com questões mais … eh … digamos … caras! 200 mil escudos se calhar é quanto o Ministro gasta de combustível ao ano.

Rua de Lisboa (foi escolhido pelo nome?), 13 Abril. Auditório Nacional (residência de aranhas em tempo normal), 17 Abril. Vamos desentupir os ouvidos.

11.4.09

No country for kiddos

Crianças, acabou a brincadeira! Jorge Santos e meninada que andou a brincar aos partidos e candidatos naturais, por favor dêem licença que é hora de pessoal da pesada. Vem aí um think tank, tanque que pensa, artilharia pesada, isto é, Carlos Veiga e a tropa (quase) toda. O general e os seus coronéis. Nomes de fazer medo.

As manobras estão desenhadas em papel milimétrico. Carlos "Think Tank" Veiga vai assumir os comandos do partido, irá à guerra das legislativas, ganhará a guerra, governará por um tempo, até o tempo das presindenciais, abandonará o governo, contando já com experiência em tal manobra, irá à guerra das presidenciais, ganhará a guerra, deixando o governo ao coronel Ulisses, que, obviamente, terá de abandonar a câmara ao deus dará. Tudo limpinho. Pelo menos é o plano. Ao menino Jorge, convém não espernear, fica quieto que ainda poderá ganhar a assembleia nacional de prenda de bom comportamento. Menino Freire barulhento, faz menos barulho agora e, quiça, uma secretaria de Estado. Menino Dico pode continuar a brincar de saltar paredes que ninguém o vai reprender pelas suas traquinices.

Ao outro lado, conselhos de estratégia. Não é tempo de amor à terra; é tempo de amor à vida! Preparem-se. Zema, tira o lastro de chumbo do governo, isto é, a Veigada, a Sidoniada e outras peças inúteis, arranja melhores homens de campo que Barbinha e Filú, faz exercício físico, põe-te leve, que a luta vai pedir corpo a corpo e derramamento de suor, sangue e lágrimas.

That's why a love this country: entertainment.

9.4.09

Jazz nasceu em Cuba

...também. Nasceu em Cuba também. Reza a história que, na mesma altura em que nascia e crescia rapidamente o jazz norte-americano, o de Cuba também se esboçava. Reza a história que negros de Cuba e de New Orleans tinham uma profícua relação de intercâmbio musical. Reza ainda a história que terão havido proveitosos jam sessions promovidos por Cachao em New York, entre jazzers dos dois locais, no início do séc.XX. Não é fabuloso?!

Mais tarde, acabaram por criar um ramo inteirinho e próprio do jazz: o latin jazz. Cuba influenciou e influencia o jazz em toda a américa latina, américa do sul, incluindo Brasil, e em todo o mundo.

Para além disso, Cuba tem uma sólida formação em música clássica. Teve uma orquestra sinfónica desde os finais do séc.XIX. Cuba no mundo é uma superpotência na música. Este artigo aqui em Wikipedia é muito esclarecedor.

Jorge Reyes e banda foi, para mim, o topo de qualidade do festival. O maior agrupamento de estrelas a tocar ao mesmo tempo e todos em conjunto num som divinal.

8.4.09

Post KriolJazz II

O KriolJazz desenhou um eixo que vai das ilhas Reunião, oceano índico, até as Caraíbas, no extremo ocidente do oceano atlântico, percorrendo metade do globo, na longitudinal. E no entanto culturas com grandes semelhanças e subtis diferenças: as culturas crioulas.

É excitante a ideia de um festival, tendo a cidade da Praia como centro. Para além do espectáculo da arte universal que é o jazz, pode mobilizar estudiosos e intelectuais das mais diversas áreas das ciências humanas, em torno de um conceito que não se encontra fechado: a crioulidade. Pelo contrário, é um conceito que sofre do peso da herança das suas culturas de origem. A velha questão "mais africanos ou mais europeus"; e que tal, nem uma coisa, nem outra; crioulos. Mas o que é isso exactamente?

E mais uma vez, a cidade da Praia tem que aproveitar essas oportunidades para se constituir como uma cidade importante no mundo, do ponto de vista cultural, político e económico.