29.5.09

MOSF, BONS e MAUS

Ontem aconteceu um acto que vai ser muito importante para a fotografia em CV. A Mostra de Fotografia Contemporânea Caboverdiana (MOSF). Aqui vão as minhas impressões.

MAUS
  • Se há coisa que já começa a ficar tristemente notória é a falta de espaços para as artes visuais, à altura da cidade. O MOSF aconteceu em 3 belíssimos espaços (CMP, IILP e CCF), proporcionou um roteiro pedestre interessante, mas em termos estritamente artísticos, fragmentou a exposição. Precisamos, não de coisa muita, mas de um simples barracão, género esses armazéns dentro da cidade abandonados (zona antiga alfândega), que possa proporcionar largas superfícies de exposição. Não precisa grandes sofisticações; só bom gosto.
  • Não há serviços preparados para as especificidades da coisa artística: casas de impressão, empresas de transporte, fornecimento de material, etc., etc.
  • Sinto falta de uma determinada classe a frequentar as exposições.
  • O adiamento do dia 27 para dia 28 pegou mal. Cascudo Abraão!
  • Ausência de Comunicação Social...é preciso comentar?!

BONS
  • Nada como o colectivismo. Transmite a sensação de classe, corpo, identificação. Dá vontade de trocar ideias, comentar, perguntar. Causa uma invejinha necessária, comparações, competição, desafio. Quem não gosta de ser colectivo, não gosta de progredir.
  • Envolvimento da Câmara. Esteve toda a equipa sempre presente, sorridente, perguntando, interagindo, dando dicas e esbanjando àvontade. Não sei se esse comportamento é genuíno ao não, mas se a equipa camarária baixar em 1 milímetro essa disponibilidade, disposição e entusiasmo, serei o primeiríssimo a retirar os parabéns que neste momento têm direito: PARABÉNS.
  • Colegas, fotógrafos, quase todos amadores, nós, francamente de bom espírito de uns em relação a outros. Bom clima, boas colaborações a adivinhar-se no futuro.
  • Empenho e paixão que Abraão Vicente meteu no evento. Correu, ouviu, sofreu, errou, manteve a calma, desdobrou-se e abriu a cena. Assumiu uma função que já começamos a assumir sem complexos, na falta de profissional para isso: curadoria de exposição. Foste cidadão a valer man!
Long live to MOSF!

28.5.09

Visão de furo.

Hoje acordei sem uma gota d'água no depósito! Reparem que disse "no depósito", porque na rede já há dias que não vem. A frase do Premier a prometer água na cidade da Praia 24h/dia, no encerramento do debate sobre, imaginem, "Emprego e Formação Profissional", ecoa-me nos ouvidos. Hoje, enquanto obrava de manhã, ao mesmo tempo que fazia contas da quantidade de água que tenho engarrafada, necessária para levar a coisa para o esgoto, fez-me luz sobre a relação da água, emprego e formação profissional. É assim:

Hoje vou ter que procurar água. Começa a economia a andar. Se houver uma falta duradoira e persistente de água na rede, há um estímulo ao investimento em camiões, conhecidos como "auto-tanques", característicos nas nossas cidades, o que, por efeito multiplicador, estimula outros serviços, como lavadores de carros, pedreiros que consertam os passeios que esses camiões danificam, puxadores da corda que arranca o motor (barulhento) das bombas d'água …enfim. Depois, se a coisa pegar, o Estado se sentirá na obrigação de abrir cursos profissionais de pintores, para escrever frases nos camiões, artesãos, que fazem santinhos e amuletos para os condutores, etc.
Digam-me se isto não é visão?!

O facto de isto me ocorrer enquanto obrava é pura coincidência.

África mãe, Europa madrasta

Praia vai reactivar a célula da CEDEAO, como quem diz, reactivamos a nossa célula africana...por condição da parceria com a Europa. Qual será o efeito disso nos nossos genes?

Money

O MCA desiste de alguns projectos, já não vai financiar a 2ª fase do porto da Praia…Efeito Obama ou crise?

A todos que fizeram planos a contar com dinheirinho di Mérka, be carefull!

Greve de fome

Alguém já reparou que está um homem sentado junto à Assembleia Nacional, em greve de fome, esturricando-se ao sol? As razões do pobre serão discutíveis, mas de todo o modo trata-se de um ser humano a por em risco a própria vida.

27.5.09

Televisão avariada

Tenho o televisor avariado. Mudo de canal, programas normais, notícias de um cão que aprendeu a abrir o frigorífico, agarrar o pacote de leite com os dentes sem o rasgar e levar ao dono, uma Xá sentado num sofá, relatos de um papagaio que decorou versos de poemas e vive repetindo-os, volto ao canal nacional, a cara do Primeiro-Ministro lá encravado, não sai por nada. Experimento ainda outra emissora, em que falam de um homem em depressão, que jura conhecer pessoalmente Barack Obama, mas, uma vez Presidente, deixou de responder-lhe os e-mails, não lhe atende o telemóvel e, afinal, não vai cumprir com as promessas de mudar ao mundo. Volto ao canal nacional, continua a cara do Primeiro-Ministro.

- Mais turismo, mais investimentos, mais leberdade, mais democracia… Mais turismo, mais investimentos, mais leberdade, mais democracia…

Dormi mal. Devo ter sonhado com a cara do Primeiro-Ministro. Não me concentro no trabalho. Telefono a um amigo que me surpreende com a queixa da mesma avaria no seu televisor, a cara do Primeiro-Ministro encravada no canal nacional.

26.5.09

MOSF

A fotografia na cidade na Praia está de saúde! Bastou alguns eventos, promovidos por instituições estrangeiras e particulares, para a alavancar. O Min.Cultura mantem-se sempre, sempre e sempre, estoicamente, orgulhosamente, à margem deste movimento novo e sensível de uma nova arte na cidade e no país. A CMP, ainda que a tentar encontrar um eixo bem definido para a sua política cultural, está dando bofetadas com luvas de seda, patrocinando e apoiando grandes eventos, num único ano! Esperemos que seja sol de vai durar. Valeu Tober!

Quarta-feira, dia 28, 18h30, abertura do MOSF (Mostra de Fotografia Contemporânea Caboverdiana), na CMP. A expo decorrerá em 3 espaços: CMP, IILP e CCF.

Ao Abraão Vicente, organizador e curador da mostra um valente abraço pelo dinamismo.

Roupa velha

Quando uma pessoa tem preguiça de cozinhar, que significa descascar cebola, cortar legumes, temperar, lavar os utensílios da actividade, seguir a ordem de meter os alimentos ao lume, aguardar, vigiar que nada passe o tempo de cozedura, rectificar os temperos, até obter um simples prato de comida decente, enfim, uma chatice, então recorre-se ao processo chamado “roupa velha”, que é uma recombinação de restos de refeições anteriores. Foi assim que o partido da Situação classificou o discurso da Oposição.

Sinais de “roupa velha”: arroz seco ou gorduroso; carne retorcida; legumes com um ligeiro gosto a azedo.

Roboposição

O Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado, o Governo está esgotado

A Oposição substituiu o líder da bancada parlamentar por um boneco que diz esta frase até ao esgotamento das suas energias. Depois, aproveitam as horas mortas e recarregam as pilhas da engenhoca. A Situação, percebendo-se da artimanha, cortam a electricidade nessas horas estratégicas, com o efeito terrível de coincidir com a hora que uma pessoa quer ver as notícias, ouvir uma musiquinha ou ter o ventilador a espantar o calor e os mosquitos.

25.5.09

Frases fantásticas

“Roma é suja como uma cidade africana”
Silvio Berlusconi, fonte: Público online

Baziuzin (superlativo absoluto do adjectivo Baziu)

Hoje, ao ouvir o discurso do Premier de fechadura do debate sobre o "Emprego e Formação Profissional", fiquei muito preocupado, ou, de forma sintética, preocupadíssimo. O homem fez discurso de palanque; retalhou; invocou os erros dos outros; invocou o passado; foi curto e muito grosso.

Começa por exigir os louros pelo simples facto de ter agendado o tema. Parabéns Mister. Merecia outro honoris causa só pelo simples facto de trazer ao debate um tema obrigatório de governação.

Depois faz um discursinho de diversão. Invoca o incremento do Turismo (!) Invoca dinâmica Transportes Aéreos! Qual? TACV??...Fala de importância das Rodovias, sim senhor, estradas são estradas, nem vale a pena reclamar da Circular da Praia que (ainda) não serviu de nada. Fala do desenvolvimento de empresas com base tecnológica e eu havia de lhe explicar como nós (empresa de base tecnológica) vemo-nos gregos para desenvolver. Fala dos furos que vão libertar água (sacanagem de pensamento que vocês estão tendo neste momento, eheheh); falou ainda de 24H de água na Praia e eu já contentava só com ter água e luz. Falou ainda do mar e das suas vastas possibilidades (reparem que não aponta desenvolvimentos aqui). Fala do desenvolvimento humano e havia de contar-lhe como é que nós (empresa de base tecnológica) vemo-nos gregos com esses recursos desenvolvidos.

Depois o discursinho da chacha do passado. Olha Mister: vosmicê já foi premiado em 2006 por ter corrigido o estado catastrófico que o MPD deixou o Estado deste país. Mas dali pra frente só tem direito em falar do FUTURO!!!

Enfim, falou de tudo menos da cifra de desemprego. Falou e não disse uma linha de estratégia de formação profissional ao não ser a enumeração (isso já não é hábito, é tique) dos centros de formação a funcionar (leia-se, de portas abertas); não falou de cifras de formação profissional; nem de impactos; nem de resultados (mensuráveis). Afinal do que lhe valeu o encontro com 80 potenciais assessores da sexta-feira, a não ser vangloriar-se que sabe encontrar-se com jovens?

E os deputados do PAICV aplaudiram de pé! E o mais triste é que a Oposição deve estar a preparar o mesmo discurso, só que ao contrário.

Alguém anda a queimar os meus impostos!


Gamboa 2009 - Ressaca

Um valente parabéns à CMP pela excelente organização do Festival da Gamboa 2009.

Uma cidade baseia-se, entre outras coisas, no princípio da civilidade. E se há aspecto que ficou evidente com esta Gamboa foi: um dos maiores índices de civilidade que tenho memória neste festival. Sendo a Praia uma cidade onde vivem nacionais, estrangeiros, jovens, adultos, ricos, pobres, eufóricos, discretos, doutores, estivadores e todo o tipo de pessoas, o aspecto de respeitar o espaço de cada qual é essencial para transmitir a sensação de conforto. Foi o que senti.

23.5.09

Ninfa e nuvens

Entrou o que podia ser um papá que ia oferecer um lanche à filha na esplanada favorita dos arredores da escola. Hora habitual de acontecer um café em pensamento livre, gente a passar, meninos, lavadores de carros, vendedores, tudo em movimento comum, excepto que a mão que se pousou no joelho da pequena não era gesto fraterno. O acidente da colher na chávena foi um espasmo do pressentimento com repentino medo de se verificar.

A forma como a cara barbuda olhava para os seios finos da criança soltava um cheiro de pêlo grosso que se esfregou num púbis de pêssego. A menina tinha pés bonitos, ancas leves, sem cintura, em vez de braços linhas, olhos de céu, olhar indeciso vendo caras ao redor, talvez de ciúmes, chateadas, ou de vergonha da mão que continuava no joelho. A forma como a cara barbuda expirava o bafo perto da boca da menina e em troca inspirava o aroma dos seus poucos anos, enchia o ar de enxofre. A criança tinha bata e mãos a tremer, unhas pintadas, sorria como adulta, mas piava em vez de falar.

Podia ser uma filha a ver para um pai, explicava às voltas o estômago, tentando desembrulhar uma ideia do que tinha a dar tal menina nova a tal homem velho. Em trago final, uma gota de café rebolou lento, tentando combinar outras possibilidades. Aguardou. Nada justificava que continuasse em redemoinhos. Ninguém via ou fingiam tratar-se de acto natural. Desistiu desaparecendo num sorvo. De dia, debaixo de quem passava, um pai possuía uma ninfa, que naquele momento tinha de estar sentada no banco de uma sala de aulas de aprender a sonhar com nuvens.

22.5.09

Gamboa 2009

As coisas tão a melhorar :)

A organização deste ano tá com ares de grande organização. Tudo no lugar, gestão de espaço por funções, palco mais decente, grandes camarins, boa iluminação, boa campanha de policiamento, informação, formato reduzido de artistas...small and beautiful. É isso aí Tobber, dá o teu best.

De todo o modo, eu sou um brejeiro, até porque a minha fotografia baseia-se nesse aspecto sujo da cidade. Vou ter saudades de ver aquela montagem progressiva, em que não se sabe bem o que vai resultar e aos poucos as pessoas vem com as suas barracas e as vão montando; a paisagem vai se transformando; instalam-se os grandes grelhadores e todo o tipo e formato de mesas e cadeiras; cada barraca faz a sua decoração, cada uma mais criativa que a outra; o povo começa a chegar; revelam-se as bebidas com odores e cores estranhas; a brisa do mar vai se substituindo por uma mescla exótica de fragrâncias; e lá para a matina o festival é uma amálgama de sovaco, líbido, álcool, sholé, brio e calor. Ah! Isso é muito fotografável.

O festival pode estar a dar ares de grande organização e regras estritas, mas enfelizmente o povo e o seu conteúdo não se muda de um dia para o outro; comportamentos de risco vão acontecer; bebidas alcoólicas péssimas vão intoxicar muita gente; pupu e xixi vai se acumular nos cantos; e certamente que não será ainda o ano em que sinto-me seguro a levar a minha criança a curtir um dos maiores festivais do país.

...felizmente para a fotografia, desculpem lá!

21.5.09

A vida continua apesar...

...de toda a violência por todo o lado: nas famílias, na rua, no trabalho, na escola. Temos de denunciar todo o tipo de violência: contra os países, contra os povos, contra as religiões. Há violências que matam devagar, como a certeza que vamos sofrer de falta de electricidade mais uma vez (!), com a falta de água, com as frases malucas dos deputados. Tenho ainda de sofrer por tempo indeterminado com um Ministro que ganha um dinheirinho, não coisa e não sai de cima. Tenho de engolir ainda os sucessivos abusos do poder. Tenho de ver para a nossa televisão, assitir à polícia a espancar um homem de tal forma, que o pobre diabo, seja ele quem for, homem bom ou mau, nunca podia ter tido semelhante tratamento do Estado.

O remédio é seguir em frente...ai, ui....apesar da violência da explosão, continuo por cá.