21.7.09

Os poetas nascem uns dos outros. Do casulo de um sai a borboleta de outro.

O mundo internetizado

Já li algures: a Internet representará a 3ª grande revolução da humanidade. A primeira foi a revolução agrícola, que nos tornou bundões. A segunda foi a revolução industrial, que nos catapultou para níveis perigosos de agressivadade, auto-detruição, bombas atómicas, ciência de ponta, a terra em perigo. Segundo esses autores, a Internet, ou seja, a Sociedade da Informação, estará a representar a 3ª revolução humana.

Tudo está a passar para a Internet: o social, o económico, o cultural. Empresas baseadas na Internet já suplantam gigantes com a General Motors. Aliás, esses gigantes da rev.indutrial estão a tombar. As noções de território, fronteira, nacionalidade já começam a parecer construções arcaicas, em desfasamento com as incríveis relações pela Internet (blogs, redes sociais, micro-blogging). Eu conheço gente exclusivamente pela Internet, trocamos ideias e até falamos em projectos. Na Internet as classes sociais são invisíveis e as gerações se confundem. A noção de perigo também extendeu-se. É realmente um mundo novo.

Recebi um e-mail com sabor a café caseiro de Amaro Teixeira Ligeiro, um cotinha de 63 anos, como ele próprio se define, que resolveu entrar na rede, após a reforma. Quer descobrir os amigos que perdeu o rastro. O seu blog: http://nhagente-bissau.yolasite.com

20.7.09

O hábito de não reflectir

Da série No Limiar, Abraão Vicente

Nada causa espanto, consternação ou tão simplesmente uma reflexão. Nem a vitória do Filú, o reinado de José Maria Neves, o silêncio macabro de Jorge Santos, os laivos de Maquiavel de Carlos Veiga, o desemprego, a pobreza no mundo, se Manuel Veiga deve permanecer para sempre no Ministério de Cultura ou se isso não interessa a ninguém, se a terrível exposição de Abraão Vicente, chamada "No Limiar", é transgressora, libertadora, válida, se faz cócegas ou causa urticária. Se pelo menos gostamos ou não.

É verdade, Abraão Vicente não causa alívios a ninguém. Pelo contrário, causa-nos desconforto, jogando com a nossa própria concepção de conforto. Pois, conforto é fácil e desejável. Mas será tolerável em tal mundo de desassossego?

A nova exposição, "No Limiar", de Abraão Vicente, é destabilizadora dos conceitos de fronteiras e identidades. Fronteiras são fáceis: deixamos passar quem queremos e não deixamos passar quem não queremos. Identidades é que ninguém pode decretar. Passaportes são meros instrumentos de conforto. Por isso, Abraão Vicente rasgou-os, literalmente, para propor uma re-leitura desses objectos falsos de humanidade. As vivências são as únicas células da vida no mundo.

Aqui, dentro de casa, é hábito não reflectir sobre isso e mais uma data de coisas. Este trabalho já esteve cá exposto e ninguém ligou, como de resto só ligam as nossas expoisições o nosso querido círculo de amigos. Espero que Abraão, estando exilado temporariamente em outras partes, consiga olhos, ouvidos e bocas para essa sua proposta, No Limiar. Aqui há mais: http://www.traficolx.net/

Vitória?

Que representa a vitória de Filú, por incrível maioria de 83% dos votos, em eleições internas?

É conhecida a teoria das alas dentro do PAICV, que Filú representa uma ala e que José Maria Neves representa outra. De acordo com um comentador num dos jornais online, Filú representa o povo e Maria Neves representa a cúpula. Estranha divisão, acho eu. Mas, ao que parece, se não existe na dimensão primária como está sendo colocado aqui, pelo menos há este sentimento. Também, segundo ainda outra comentador, a vitória de Filú não é mérito dele enquanto líder, mas sim representa um desagrado dos militantes em relação aos dirigentes. Se existe este sentimento dentro do próprio partido, como será para o povo em geral?

Sempre me irritou este síndrome do segundo mandato. Os dirigentes tornam-se arrogantes, donos da verdade e das soluções. Tornam-se paternalistas e autistas. Acomodam-se ao poder e perdem sentido de terreno. O poder, definitivamente, corrompe. É quase que uma necessidade terapêutica que o partido no poder, após dois mandatos, caia. Para o bem dos homens e mulheres dirigentes. Para que voltem a ser cidadãos normais.

E a Oposição, sem mérito nenhum, na minha opinião, vai colhendo os frutos desta auto-flagelação, certamente a rebolar no chão em gargalhadas de satisfação.

Esta vitória do Fílu é desconcertante. Um homem que perdeu o maior município do país, acusado de graves irregularidades, em poucos meses fica ainda mais bem posicionado dentro do partido. Qual será a consequência disso para o partido?

16.7.09

Por falar em calor...

Adoro começar uma noite de sexta-feira culturalmente. É que depois a cerveja cai sem nenhum sentimento de culpa, eheheheh. Ainda por cima com este calor e com uma peça que se chama "No Inferno" com base num texto de um diabo chamado Arménio Vieira e com os trabalhos dos diabos e das diabas de S.Vicente.

Vamos lá ver e ouvir esse Inferr.

O país em calor e férias

O calor e a humidade tornam o ar pesado. Difícil de mover-se. As noites tornam-se quentes e sensuais, apelativas, cheias de cervejas a serem servidas por todo o lado e os estudantes a encher os espaços de cor.

Tempo de entrar em férias. Mesmo que não se entre, o país entrará automaticamente. Reduzem-se as cargas horárias no trabalho, reduz-se as responsabilidades, as conversas começam a ser tolas nos gabinetes, os rapazes põem-se a inventariar as novas belezas: quem melhorou, quem piorou, quem revelou, quem casou, descasou, está disponível e as possibilidades. Por esta altura, bébés são gerados, bem como haverá estreias sexuais, no álcool e nas drogas. Por esta altura, a voltagem da cidade aumentará para níveis elevados.

De zero a dez, o país estará em três de produtividade e dez de prazer, nos próximos dois meses, no mínimo.

15.7.09

Praia com problemas de costas

A orla marítima da Praia torna-se especial por esta altura do ano. Desde manhãzinha que se vê muita gente na rua, a caminhar, a correr, na ginástica, no banho de mar, a passear o cão...a curtir a cidade (!?). E Praia tem uma bela encosta e uma bela baía, a da Gamboa. Mas Praia também tem os obtusos que vão decidindo os seus destinos e a sua figura.

Estamos a destruir a nossa orla marítima. Da estrada do Palamarejo à Quebra-Canela, que mais parece uma pista de morte, sem passeios e condições para peões. Quebra-Canela a ser invadida de betão, que brevemente vai trazer trânsito, lixo, barulheira e vai legitimar mais construções na zona. Os passeios ridículos em toda a orla, de 1m de largura. Toda a Gamboa, abandonada à sorte. Até a nova avenida marginal, onde os carros atingem facilmente os 100Km/h e já matou gente. Sem contar com a falta de estruturas de apoio, para venda, para se sentar, etc.

Mas como a vida triunfa sempre, mesmo nesta bosta de betão, vai fluindo e fazendo a circulação sanguínea da cidade.

14.7.09

As costas da Praia

Praia sofre gravemente de costas. Desvios irreparáveis. Problemas crónicos.

Praia da Gamboa. Linda e impraticável. Nenhum plano arquitectónico digno de uma baia a Gamboa.

Eu gosto muito da vaca

Publicidade em rádio é sobretudo texto. Aqui a rádio é um poderoso meio de comunicação e passa publicidade, naturalmente, a toda a hora. Tristinho mesmo são os textos, que são invariavelmente do género: "a vaca dá leite; eu gosto muito da vaca".

Questão de conteúdos

Só passado muito tempo descobri o que é uma "bolota". Durante toda a infância cantei a música das bolotas sem nunca saber o que era isso. Como cantei todas as musiquinhas infantis e não fazia a mínima ideia do que estava a cantar. Revejo a cena com a minha filha de 4 anos, passado tanto tempo de "desenvolvimento". Todo o conteúdo que podemos oferecer-lhe vêm do estrangeiro, incluindo os rios, os campos verdes, comboios e outras maravilhas. E esse mesmo conteúdo é ministrado para todos os meninos destas pobres terras crioulas, tendo elas ou não a possibilidade de um dia dar um pulo lá fora para ver com os próprios olhos e que andam para aí a cantar.

Na Fundação Amílcar Cabral, esta semana, todos os dias a partir das 19h, estará a passar o documentário "A Guerra", produzida pela RTP. Interessante, porque informação é informação. Mas, comentávamos: é chegado a hora de fazermos a informação, do nosso ponto de vista também.

Seremos eternos alienados, enquanto não aprendermos a produzir o nosso conhecimento, baseado no que sentimos e vivemos, na intimidade e nos detalhes do nosso espaço.

13.7.09

Descubram o passarinho que há em vós

Todos somos passarinhos cantadores em potencial. Quem o diz é Lúcia Cardoso. É só ousar e seguir umas aulas. Vejam os detalhes aqui

Responsabilização

Aqui, nesta terra de morabeza, os gestores públicos nunca são acusados de incompetência, que dirá então de responderam na justiça por actos de gestão danosa da coisa pública. Não se prestam contas e nem se as auditam. E quando as auditam, vem o gestor público acusar o outro de "perseguição política", tal como está a acontecer com o nosso querido ex-Presidente de Câmara da Praia, quando confrontado com o resultado do relatório de auditoria da PriceWaterHouse, empresa reputada internacionalmente.

Ouvi com atenção José Filomeno no programa de ontem na TCV (visão global) que é preciso positivar um pouco a imagem do político, que, por definição, é a pessoa que se consagra à coisa pública, ao bem-comum, sendo por isso de louvar. Pois digo ao ilustre que é preciso moralizar a Política, senão a qualquer um que resolva se dedicar a isso terá já o selo da sujeira. É preciso que ilustres como José Filomeno, da alto das antenas da Com.Social, denuncie os casos de baixa moralidade na Política. É preciso que cada um de nós, sem excepção, não aceitemos a sujeira na nossa sociedade.

Falou e disse

"A repressão pode manifestar-se de diversas formas e em demasiadas nações, mesmo aquelas que realizam eleições, são afligidas por problemas que condenam os seus povos à pobreza. Nenhum país cria riqueza se os seus líderes exploram a economia para se enriquecerem a si próprios ou se a polícia, se a sua polícia, é passível de ser comprada pelos narcotraficantes. Não há empresa que queira investir num local onde o governo, à partida, retém 20 por cento dos lucros, ou onde o director das Autoridades Portuárias é corrupto."
Barack Obama, discurso em Acra, Gana (qualquer semelhança com a nossa realidade será mera coincidência)

As palavras movem montanhas. Obama tem o dom da palavra, logo moverá montanhas...Com a ajuda de uns dolarzitos, talvez consiga mover cordilheiras. Resta colar as palavras com a prática, o tal bico d'obra.

Amilcar Tavares tem a versão completa do discurso aqui

Nova Cidade Velha

Viajava para a Cidade Velha. Pelo caminho, já de si misterioso, magicava o que teria mudado esses dias de Património da Humanidade. O caminho já o fiz milhentas vezes, mas desta vez tinha a sensação de estar a ir para uma dimensão diferente. Entretanto os Hiaces, essas carinhas frenéticas, ultrapassavam-me com a mesma violência de sempre. Cheguei. Constatação número um: o pelourinho, sítio que quinhentos anos atrás se maltratavam homens, estava apinhado de gente.

Nunca vi tanto turista na Cidade Velha. Nunca vi tantos vendedores de artesanato genuíno das ilhas. Nunca vi tantos carros e gente nervosa. No ápice que um turista apontou a câmera fotográfica para as mangas que se vendiam no chão, a mulher, a vendeira, saltou do seu lugar como galinha a proteger os pintos, fazendo um gesto com a mão que o fulano teria que pagar. O pobre, assustado, afastou a câmera. Depois a dona disse para as colegas, as mulheres, as outras vendedeiras: "Gosi nos e Patrimoniu, e pa paga!"

10.7.09

House, Lounge, Trip-Hop, Hip-Hop, Techno

Música electrónica, para ser mais sintético. Cultura urbana. O diabo da "Cultura erudita". Entretanto uma realidade invasiva nas cidades. A cultura popular invade sempre a cultura erudita, até porque a cultura erudita é vazia de conteúdo em si, dependendo sempre de manifestações concretas, da sociedade, do povo.

Em cidades "cultura popular" significa discotecas, bairros, ghetos, juventude marginalizada, injustiça social, violência, mensagens de amor e esperança. Em CV ainda temos outras especialidades como o zouk, o funaná, que depois de misturados com os outros dão origem a uma série de sonoridades: funaná-funk, zouk-love, etc. Nas cidades da Praia e Mindelo já existem movimentos semi-organizados de Hip-Hop. As rádios fazem broadcasting constante desses sons.

Tenho dito: a literatura e a música de futuro em CV estão nas ruas. É só pararmos de chamar a isso tudo de lixo e começarmos a pensar que, não tem a "qualidade de erudição", mas tem a enorme força da verdade e da realidade. Õ caminho da erudição é: aceitação, escuta, estudo, experimentação, reformulação e produção.

Penso nessas "malcriações" enquanto ouço um disco de um projecto chamado "Frikyiwa", uma espécie de Gotan Project para África, onde se junta a mais genuína música tradicional de alguns países africanos (é uma ofensa dizer "música tradicional africana", porque existem centenas diferentes) e house music. O resultado é coisa séria...e muito agradável.