25.7.09

Coisas importantes na vida

O compadre Baluka e a comadre Jandira casaram-se!

O cenário não podia ser mais pitoresco. A Conservatória de Registos da cidade da Praia, o local onde se celebra tão simbólico acto fica no coração do maior mercado a céu aberto do país, o mercado da Sucupira, sítio onde se vende de tudo, até a alma se for o caso. A Sala de Actos, é assim que se chama o sítio sagrado, está num beco. A montante inúmeras senhoras e as suas roupas espalhadas pelo chão. A jusante uma carrinha de caixa foi transformado em talho. Metade de uma vaca pendurada ensanguentada, uma balança sebosa, um facão, machado e um temeroso homem que vocifera a venda. Aplica umas valentes pancadas no animal, pesa um pedaço de carne e osso, vende. Continua a apregoar a sua venda, de forma quase que intimadora.

No beco que dá acesso à Sala de Actos, é outro frenesim, da linda e jovem noiva que estará prestes a concretizar vários contos de infância. E o noivo, o meu compadre, com ares de dominar a cena, impecável no seu fato. Cerimónia singela, um Conservador que tinha um tanto de solene e um tanto de despachar mais um acto, profere umas palavras moralizadoras: no casamento há duas chaves: a primeira é o amor, naturalmente; a segunda é o respeito. É sim. Sábias palavras e termina o acto. A comadre lava as emoções com lágrimas. Abraços. Fotografia. Saímos do sagrado lugar, por meio das rabidantes, os bidons, as barracas e os vendedores a fisgar todo o possível comprador, mesmo um que esteja a celebrar uma fantasia de todos os tempos: o casamento.

O jantar foi gostoso, de profundo amor e amizade. Gente nossa, que nos viu nascer, conta-nos como viveram, cresceram brincaram, casaram-se também. Gente que encontra sempre alguma réstia de parentesco ou recordação das esquinas da infância. Somos todos ramos e folhas de uma única árvore.

Que os anos a vir tragam mais momentos de comunhão da família, da amizade e do amor.

Cheiro de coisa boa

Cheiro a coisa de diazá. Soalhos de madeira, talvez. Moínhos de café, Mindelo d'outrora (?)... Manuel Brito-Semedo tem surpresa para nós. O meu querido amigo, um nadinha mais velho que eu, na verdade colega e amigo de infância do meu papá, começa a ter uma produção literária de respeito. O meu querido amigo, na verdade é um dos mais importantes intelectuais desta terra. Um antropólogo por paixão.

Lançamento dia 3 de Agosto (segunda-feira) às 18h15, na sala de conferências da Biblioteca Nacional

22.7.09

A moral

Não é suficiente para garantir uma cidade equilibrada, mas muitos problemas seriam resolvidos se, tivéssemos regras claras: códigos de conduta, planos municipais, leis: e se velássemos para o seu cumprimento estrito, sem flectir, sem excepções, duradoiramente.

O lamaçal

As chuvas anunciaram-se ontem. Será que as valas, por onde as águas devem ser guiadas, estão limpas e desimpedidas? É desta que a Protecção Civil vai dar um show de eficiência? Quantas desgraçadas famílias vão ter as casotas inundadas? Será que a grande ribeira que desagua na praia da Gamboa está limpa das suas toneladas de plástico, ferro-velho e toda a espécie de lixarada? Quantas linhas de electricidade vão ser cortadas, para nos deixar mais irritados ainda com o fornecimento de energia? Quantas estradas vão ficar intransitáveis. Desde que não morra ninguém!...

Depois do arranque em força da nova equipa camarária, vamos lá enfrentar os factos, a empresa é gigantesca. O problema da câmara da Praia, para além da eventual obtusidade dos seus elementos, sofre de problemas organizacionais graves. Ninguém precisa ser perito em gestão para sentir isso, bastando ter que se enfrentar os seus serviços. O mal tem que ser combatido por dentro. Para além de que é preciso reforçar o debate sobre o crescimento da cidade versus recursos para fazer face. Será o Estatuto Especial uma solução?

É que a cidade que representa 1/4 da população nacional, para além de ter que enfrentar toda a imensidade de chatices quotidianas, tem ainda que satisfazer uma população exigente, que trabalha, que contribui para o desenvolvimento deste país, mas que exige praças, cinemas, actividades, trânsito ordenado, zonas de lazer, limpeza, ordenamento, alegria e visão de futuro. Estamos em férias: trabalhadores, estudantes, emigrantes, turistas: e o que temos é uma cidade sem a capacidade de transformar todo esse pessoal em dinâmica de actividades e geração de rendimentos.

Na Praia, a gestão camarária corresponde a um Governo.

21.7.09

Cuidados Intensivos

Morte política está para o político como perder as chaves está para S.Pedro. É a pior coisa que pode acontecer a um político. Demora tanto a recuperar-se que é provável que no fim não se tenha os dentes todos, necessários a um belo discurso. Morreu e pronto.

Em situação de crise outra opção menos penosa e de recuperação provável é o coma político. Uns gajos cá do burgo apanharam a técnica. Desmaiam imediatamente após um desaire. Deixam os outros cuidar de tudo, da limpeza, da alimentação e dos cuidados de recuperação. Deixam-se ficar na cama depois de acordar. Queixam-se muito, apontam culpados a toda hora. Acabam por criar fãs. As atenções desviam-se para os possíveis culpados e o doentinho, aos poucos, levanta-se e, sem se dar por isso, estará a exigir o lugar de volta.

Para outros casos ainda, a estupidez selectiva funciona bem. Quando acusado, o político torna-se um ignorante. Desconhece que devia respeitar uma contabilidade, que existem leis para isso e mais aquilo, que é crime fugir ao fisco e que não é possível transformar burros em cavalos de raça.

Em luta política, o segredo é escolher o mal que se quer padecer, antes que apareça. Nunca se deixem é matar.
Os poetas nascem uns dos outros. Do casulo de um sai a borboleta de outro.

O mundo internetizado

Já li algures: a Internet representará a 3ª grande revolução da humanidade. A primeira foi a revolução agrícola, que nos tornou bundões. A segunda foi a revolução industrial, que nos catapultou para níveis perigosos de agressivadade, auto-detruição, bombas atómicas, ciência de ponta, a terra em perigo. Segundo esses autores, a Internet, ou seja, a Sociedade da Informação, estará a representar a 3ª revolução humana.

Tudo está a passar para a Internet: o social, o económico, o cultural. Empresas baseadas na Internet já suplantam gigantes com a General Motors. Aliás, esses gigantes da rev.indutrial estão a tombar. As noções de território, fronteira, nacionalidade já começam a parecer construções arcaicas, em desfasamento com as incríveis relações pela Internet (blogs, redes sociais, micro-blogging). Eu conheço gente exclusivamente pela Internet, trocamos ideias e até falamos em projectos. Na Internet as classes sociais são invisíveis e as gerações se confundem. A noção de perigo também extendeu-se. É realmente um mundo novo.

Recebi um e-mail com sabor a café caseiro de Amaro Teixeira Ligeiro, um cotinha de 63 anos, como ele próprio se define, que resolveu entrar na rede, após a reforma. Quer descobrir os amigos que perdeu o rastro. O seu blog: http://nhagente-bissau.yolasite.com

20.7.09

O hábito de não reflectir

Da série No Limiar, Abraão Vicente

Nada causa espanto, consternação ou tão simplesmente uma reflexão. Nem a vitória do Filú, o reinado de José Maria Neves, o silêncio macabro de Jorge Santos, os laivos de Maquiavel de Carlos Veiga, o desemprego, a pobreza no mundo, se Manuel Veiga deve permanecer para sempre no Ministério de Cultura ou se isso não interessa a ninguém, se a terrível exposição de Abraão Vicente, chamada "No Limiar", é transgressora, libertadora, válida, se faz cócegas ou causa urticária. Se pelo menos gostamos ou não.

É verdade, Abraão Vicente não causa alívios a ninguém. Pelo contrário, causa-nos desconforto, jogando com a nossa própria concepção de conforto. Pois, conforto é fácil e desejável. Mas será tolerável em tal mundo de desassossego?

A nova exposição, "No Limiar", de Abraão Vicente, é destabilizadora dos conceitos de fronteiras e identidades. Fronteiras são fáceis: deixamos passar quem queremos e não deixamos passar quem não queremos. Identidades é que ninguém pode decretar. Passaportes são meros instrumentos de conforto. Por isso, Abraão Vicente rasgou-os, literalmente, para propor uma re-leitura desses objectos falsos de humanidade. As vivências são as únicas células da vida no mundo.

Aqui, dentro de casa, é hábito não reflectir sobre isso e mais uma data de coisas. Este trabalho já esteve cá exposto e ninguém ligou, como de resto só ligam as nossas expoisições o nosso querido círculo de amigos. Espero que Abraão, estando exilado temporariamente em outras partes, consiga olhos, ouvidos e bocas para essa sua proposta, No Limiar. Aqui há mais: http://www.traficolx.net/

Vitória?

Que representa a vitória de Filú, por incrível maioria de 83% dos votos, em eleições internas?

É conhecida a teoria das alas dentro do PAICV, que Filú representa uma ala e que José Maria Neves representa outra. De acordo com um comentador num dos jornais online, Filú representa o povo e Maria Neves representa a cúpula. Estranha divisão, acho eu. Mas, ao que parece, se não existe na dimensão primária como está sendo colocado aqui, pelo menos há este sentimento. Também, segundo ainda outra comentador, a vitória de Filú não é mérito dele enquanto líder, mas sim representa um desagrado dos militantes em relação aos dirigentes. Se existe este sentimento dentro do próprio partido, como será para o povo em geral?

Sempre me irritou este síndrome do segundo mandato. Os dirigentes tornam-se arrogantes, donos da verdade e das soluções. Tornam-se paternalistas e autistas. Acomodam-se ao poder e perdem sentido de terreno. O poder, definitivamente, corrompe. É quase que uma necessidade terapêutica que o partido no poder, após dois mandatos, caia. Para o bem dos homens e mulheres dirigentes. Para que voltem a ser cidadãos normais.

E a Oposição, sem mérito nenhum, na minha opinião, vai colhendo os frutos desta auto-flagelação, certamente a rebolar no chão em gargalhadas de satisfação.

Esta vitória do Fílu é desconcertante. Um homem que perdeu o maior município do país, acusado de graves irregularidades, em poucos meses fica ainda mais bem posicionado dentro do partido. Qual será a consequência disso para o partido?

16.7.09

Por falar em calor...

Adoro começar uma noite de sexta-feira culturalmente. É que depois a cerveja cai sem nenhum sentimento de culpa, eheheheh. Ainda por cima com este calor e com uma peça que se chama "No Inferno" com base num texto de um diabo chamado Arménio Vieira e com os trabalhos dos diabos e das diabas de S.Vicente.

Vamos lá ver e ouvir esse Inferr.

O país em calor e férias

O calor e a humidade tornam o ar pesado. Difícil de mover-se. As noites tornam-se quentes e sensuais, apelativas, cheias de cervejas a serem servidas por todo o lado e os estudantes a encher os espaços de cor.

Tempo de entrar em férias. Mesmo que não se entre, o país entrará automaticamente. Reduzem-se as cargas horárias no trabalho, reduz-se as responsabilidades, as conversas começam a ser tolas nos gabinetes, os rapazes põem-se a inventariar as novas belezas: quem melhorou, quem piorou, quem revelou, quem casou, descasou, está disponível e as possibilidades. Por esta altura, bébés são gerados, bem como haverá estreias sexuais, no álcool e nas drogas. Por esta altura, a voltagem da cidade aumentará para níveis elevados.

De zero a dez, o país estará em três de produtividade e dez de prazer, nos próximos dois meses, no mínimo.

15.7.09

Praia com problemas de costas

A orla marítima da Praia torna-se especial por esta altura do ano. Desde manhãzinha que se vê muita gente na rua, a caminhar, a correr, na ginástica, no banho de mar, a passear o cão...a curtir a cidade (!?). E Praia tem uma bela encosta e uma bela baía, a da Gamboa. Mas Praia também tem os obtusos que vão decidindo os seus destinos e a sua figura.

Estamos a destruir a nossa orla marítima. Da estrada do Palamarejo à Quebra-Canela, que mais parece uma pista de morte, sem passeios e condições para peões. Quebra-Canela a ser invadida de betão, que brevemente vai trazer trânsito, lixo, barulheira e vai legitimar mais construções na zona. Os passeios ridículos em toda a orla, de 1m de largura. Toda a Gamboa, abandonada à sorte. Até a nova avenida marginal, onde os carros atingem facilmente os 100Km/h e já matou gente. Sem contar com a falta de estruturas de apoio, para venda, para se sentar, etc.

Mas como a vida triunfa sempre, mesmo nesta bosta de betão, vai fluindo e fazendo a circulação sanguínea da cidade.

14.7.09

As costas da Praia

Praia sofre gravemente de costas. Desvios irreparáveis. Problemas crónicos.

Praia da Gamboa. Linda e impraticável. Nenhum plano arquitectónico digno de uma baia a Gamboa.

Eu gosto muito da vaca

Publicidade em rádio é sobretudo texto. Aqui a rádio é um poderoso meio de comunicação e passa publicidade, naturalmente, a toda a hora. Tristinho mesmo são os textos, que são invariavelmente do género: "a vaca dá leite; eu gosto muito da vaca".

Questão de conteúdos

Só passado muito tempo descobri o que é uma "bolota". Durante toda a infância cantei a música das bolotas sem nunca saber o que era isso. Como cantei todas as musiquinhas infantis e não fazia a mínima ideia do que estava a cantar. Revejo a cena com a minha filha de 4 anos, passado tanto tempo de "desenvolvimento". Todo o conteúdo que podemos oferecer-lhe vêm do estrangeiro, incluindo os rios, os campos verdes, comboios e outras maravilhas. E esse mesmo conteúdo é ministrado para todos os meninos destas pobres terras crioulas, tendo elas ou não a possibilidade de um dia dar um pulo lá fora para ver com os próprios olhos e que andam para aí a cantar.

Na Fundação Amílcar Cabral, esta semana, todos os dias a partir das 19h, estará a passar o documentário "A Guerra", produzida pela RTP. Interessante, porque informação é informação. Mas, comentávamos: é chegado a hora de fazermos a informação, do nosso ponto de vista também.

Seremos eternos alienados, enquanto não aprendermos a produzir o nosso conhecimento, baseado no que sentimos e vivemos, na intimidade e nos detalhes do nosso espaço.