Chuva em devaneios de vento veio intempestiva ejaculando sémen em avassalos d'água. Veluptosa a chuva penetrou o chão. Acoplados terra e céu. Coitos prolongados e prolongados beijos de lama. Sussuros de riachos fúteis em fendas e buracos. Amante paciente o chão. Guardou em vales escondidos e montanhas as sementes das plantas que germinam enfim.31.7.09
Chuva em devaneios de vento veio intempestiva ejaculando sémen em avassalos d'água. Veluptosa a chuva penetrou o chão. Acoplados terra e céu. Coitos prolongados e prolongados beijos de lama. Sussuros de riachos fúteis em fendas e buracos. Amante paciente o chão. Guardou em vales escondidos e montanhas as sementes das plantas que germinam enfim.Operação Stop Apreensão de Cartas
Da próxima vez que eu for parado pela polícia em operação stop, tomara que tenha absolutamente tudo em dia, desde o triângulo, até os faróis a funcionarem em condições, mas pode ser que não esteja absolutamente tudo em dia, pode falhar alguma coisinha. Se for o caso de me apreenderem a carta, vou pedir uma audiência ao Ministro da Administração Interna, que isso é uma afronta a um cidadão, seja ele quem for. Só quero saber se serei recebido pelo meu Ministro da Administração Interna, do meu Governo, do meu Estado, do meu País.
A atitude monárquica do PGR lembra-me o caso do governante (o Primeiro-Ministro?) que foi impedido de viajar de avião porque os guarda-costas estavam armados até aos dentes. Se há regras, protocolos de segurança, procedimentos que devem ser seguidos por todos, onde é que está o escândalo com esses funcionários do Estado? São muito mais funcionários do Estado que todos os outros? Não digo que o Primeiro-Ministro não deva andar com os gajos às costas cheios de armas, mas porquê não avisaram com antecedência?
Pois, Estado de Direito tem dessas. Não é lei de Deus, nem lei do Rei. É para todos e a questão é sempre se está na lei ou não. Se o caso do PGR é ilegal, que se abra um processo, que se processe quem que tem que ser processado e já agora que se informe a todos os cidadãos que podem fazer o mesmo e que o Estado lhes garante que vão ser atendidos. Esse climinha de mágoa e ofensa é que não!
A atitude monárquica do PGR lembra-me o caso do governante (o Primeiro-Ministro?) que foi impedido de viajar de avião porque os guarda-costas estavam armados até aos dentes. Se há regras, protocolos de segurança, procedimentos que devem ser seguidos por todos, onde é que está o escândalo com esses funcionários do Estado? São muito mais funcionários do Estado que todos os outros? Não digo que o Primeiro-Ministro não deva andar com os gajos às costas cheios de armas, mas porquê não avisaram com antecedência?
Pois, Estado de Direito tem dessas. Não é lei de Deus, nem lei do Rei. É para todos e a questão é sempre se está na lei ou não. Se o caso do PGR é ilegal, que se abra um processo, que se processe quem que tem que ser processado e já agora que se informe a todos os cidadãos que podem fazer o mesmo e que o Estado lhes garante que vão ser atendidos. Esse climinha de mágoa e ofensa é que não!
30.7.09
Lata Geral da República
"O Procurador-Geral da República (PGR), nomeado pelo actual poder do PAICV, reuniu-se com emergência, na tarde de terça-feira, 28 de Julho, com o Ministro da Administração Interna, do Governo de José Maria Neves, a fim de discutir e receber os devidos esclarecimentos necessários acerca da actuação de um agente da Polícia Nacional, que agiu contra o Procurador–Geral da República, a quem prendeu a carta de condução."
In A Nação
Ganda lata! O Sr PGR considera-se acima da lei ou acha que é a lei em si? A polícia prendeu-lhe a carta? Porque será? O ilustre não estava em dia com a legalidade? Não é a polícia que prende cartas, mas sim a Direcção dos Transportes Rodoviários? Ah pois! E sabia o ilustre que sempre foi essa a actuação da polícia? Então o ilustre, antes de ser PGR, não é um cidadão? Nunca reparou que é assim que as coisas acontecem por cá? Nunca, em todos os seus aninhos de vida pensou em reclamar tal abuso de poder? Só agora lhe ocorre? Ou seja, se não tivesse acontecido a si, fingiria que não sabia que a polícia cá do burgo prende a carta por tudo e por nada.
O Sr. tem cá uma boa lata! Ai essas manias monárquicas!
In A Nação
Ganda lata! O Sr PGR considera-se acima da lei ou acha que é a lei em si? A polícia prendeu-lhe a carta? Porque será? O ilustre não estava em dia com a legalidade? Não é a polícia que prende cartas, mas sim a Direcção dos Transportes Rodoviários? Ah pois! E sabia o ilustre que sempre foi essa a actuação da polícia? Então o ilustre, antes de ser PGR, não é um cidadão? Nunca reparou que é assim que as coisas acontecem por cá? Nunca, em todos os seus aninhos de vida pensou em reclamar tal abuso de poder? Só agora lhe ocorre? Ou seja, se não tivesse acontecido a si, fingiria que não sabia que a polícia cá do burgo prende a carta por tudo e por nada.
O Sr. tem cá uma boa lata! Ai essas manias monárquicas!
Reinu di kanporta
Para os meus leitores estrangeiros, tradução do título: reinu di kanporta = reino da chuchadeira = rouyone de n'importe quoi = whatever kingdom=...etc.
À entrada da Cidade Velha, um cartaz de boas-vindas: "Cidade Velha, uma maravilha portuguesa no mundo" (!!!!!!!!!!!)"
Onde é que querem que fique a minha noção de pátria?? Ainda por cima um título que é decorrente de um concurso de televisão portuguesa, muito contestável para os povos vítimas dessas maravilhas. Um concurso que foi acusado de valorizar as maravilhas arquitectónicas, sem nunca mencionar um dos mais desastres da humidade que foi a escravatura.
À entrada da Cidade Velha, um cartaz de boas-vindas: "Cidade Velha, uma maravilha portuguesa no mundo" (!!!!!!!!!!!)"
Onde é que querem que fique a minha noção de pátria?? Ainda por cima um título que é decorrente de um concurso de televisão portuguesa, muito contestável para os povos vítimas dessas maravilhas. Um concurso que foi acusado de valorizar as maravilhas arquitectónicas, sem nunca mencionar um dos mais desastres da humidade que foi a escravatura.
As ruínas
Agora, de cada vez que alguém fala em Cidade Velha, parece que é motivado pelo seu recente estatuto. Confesso, fiquei a reparar mais nos detalhes. Dantes era aquele lugar para um final de tarde, para o almoço do Domingo, uma escapadela romântica ou outro motivo qualquer, na paz, no silêncio. Continua a sê-lo, mas o seu estatuto desperta-me curiosidades. A lista de crioulices é extensa:
A começar por uma tentativa de construção de uma asneira qualquer à entrada do Forte, que foi embargada, mas no entanto ninguém se lembrou de tirar de lá os restos de construção. Descendo a cidade, à entrada, as sensações exóticas começam: o cheirinho característico de criação de porcos; um mastodonte de betão a tapar a vista do mar; um cocktail de lixo num contentor, é a figura das boas vindas.
Nada de ilusões: trata-se de uma vila pobre e uma população pobre. É imediatamente sensível. Vê-se nas casas, no modo de vida, na indissociável desarrumação visual, no sentido estético, no sentido de higiene e nos meninos que assediam os visitantes. Mas talvez o que mais impressiona é a presença activa dos habitantes, que parece que está mais activa ultimamente, a querer mostrar que, antes de tudo, o lugar é deles. Justo. Só que esta reivindicação por vezes assume formas ruidosas e pouco elegantes.
Por outro lado, a "burguesia". Ou seja, toda a malta que tem dinheiro para investir e conseguiu terrenos na vila e permissões para construir coisas malucas em sítios malucos. Edificam-se palacetes de mau gosto; tapam-se os acessos e a vista ao mar; encavalitam-se construções; os padrões podem ir do barroco ao rococó.
De tudo isso, o que é Património são as ruínas que assistem a tudo sem reclamar e o tal coiso imaterial que ninguém vê. Que nem sequer está só ali; está dentro de nós, nos genes.
A começar por uma tentativa de construção de uma asneira qualquer à entrada do Forte, que foi embargada, mas no entanto ninguém se lembrou de tirar de lá os restos de construção. Descendo a cidade, à entrada, as sensações exóticas começam: o cheirinho característico de criação de porcos; um mastodonte de betão a tapar a vista do mar; um cocktail de lixo num contentor, é a figura das boas vindas.
Nada de ilusões: trata-se de uma vila pobre e uma população pobre. É imediatamente sensível. Vê-se nas casas, no modo de vida, na indissociável desarrumação visual, no sentido estético, no sentido de higiene e nos meninos que assediam os visitantes. Mas talvez o que mais impressiona é a presença activa dos habitantes, que parece que está mais activa ultimamente, a querer mostrar que, antes de tudo, o lugar é deles. Justo. Só que esta reivindicação por vezes assume formas ruidosas e pouco elegantes.
Por outro lado, a "burguesia". Ou seja, toda a malta que tem dinheiro para investir e conseguiu terrenos na vila e permissões para construir coisas malucas em sítios malucos. Edificam-se palacetes de mau gosto; tapam-se os acessos e a vista ao mar; encavalitam-se construções; os padrões podem ir do barroco ao rococó.
De tudo isso, o que é Património são as ruínas que assistem a tudo sem reclamar e o tal coiso imaterial que ninguém vê. Que nem sequer está só ali; está dentro de nós, nos genes.
29.7.09
Cultura do moquifo
Espero museus, galerias e auditórios prometidos. Ainda não vi a primeira pedra e desconfio que não vou ver pedra nenhuma. Continuo a espera dos planos estratégicos, que já deviam ser apresentados. Por esta altura, em que o país vai se enchendo de gente cada vez com mais capacidade, informação e criatividade, fazia sentido concursos literários ou prémios para artes visuais. Ainda não percebi a lógica das nossas participações (?) em eventos internacionais. Na verdade, não entendo nada de nada. Deliro apenas.
O Palácio da Cultura continua um palácio dos tristes. A livraria vai acabar por morrer de desgosto. O bar, outrora centro vital daquela zona do Plateau, continua pilhado e fechado. Em cima funciona uma pseudo escola de música. Os equipamentos vão se estragando um por um: lâmpadas fundidas, peças estragadas, salas mofando, terraços desertos, varandas inabitadas, falta de manutenção.
Alguém sabe onde fica o Museu Etnográfico da Praia? Pois, esse é um fantasma. Sei que tem coisas depositadas, mas ninguém lhe conhece a alma. Ele não geme e não reclama. Tá aí, encravado algures no Plateau. Outra pergunta difícil: alguém sabe dizer quantos tesouros submarinos foram recolhidos do fundo do mar e desses, quantos foram pilhados, quantos estão em nossa posse e o que vão fazer com essa bodega toda? Quem responder tem um astrolábio de presente.
Sabiam que apareceu, num ápice, uma vivenda em pleno sítio arqueológico da Cidade Velha, bem nas barbas do convento S.Francisco? Olhem que os gajos da Unesco falam a sério! Entretanto os artesãos genuinamente caboverdianos vindos de outros países, as vendedoras de mangas e os donos de botecos, vão desfrutando do afluxo de curiosos ao sítio Património da Humanidade, Património esse que ainda ninguém percebeu. Garanto-vos, o sítio é um Património sim senhor, mas é dito imaterial, invisível, não tocável. A única forma de conhecê-lo é pelo ensino correctíssimo da história, pelas nossas próprias mãos e cabeças.
Este é só um snapshot do bravo trabalho dos tipos do MC. Por mais quantas décadas vão auferir esses senhores de todas as benesses do Estado, que pago mensalmente em impostos? E ainda outros acham que os tipos têm retumbantes vitórias? Porra, puxa-saco é pior que putaria. Putas ao menos são honestas: é por dinheiro mesmo.
O Palácio da Cultura continua um palácio dos tristes. A livraria vai acabar por morrer de desgosto. O bar, outrora centro vital daquela zona do Plateau, continua pilhado e fechado. Em cima funciona uma pseudo escola de música. Os equipamentos vão se estragando um por um: lâmpadas fundidas, peças estragadas, salas mofando, terraços desertos, varandas inabitadas, falta de manutenção.
Alguém sabe onde fica o Museu Etnográfico da Praia? Pois, esse é um fantasma. Sei que tem coisas depositadas, mas ninguém lhe conhece a alma. Ele não geme e não reclama. Tá aí, encravado algures no Plateau. Outra pergunta difícil: alguém sabe dizer quantos tesouros submarinos foram recolhidos do fundo do mar e desses, quantos foram pilhados, quantos estão em nossa posse e o que vão fazer com essa bodega toda? Quem responder tem um astrolábio de presente.
Sabiam que apareceu, num ápice, uma vivenda em pleno sítio arqueológico da Cidade Velha, bem nas barbas do convento S.Francisco? Olhem que os gajos da Unesco falam a sério! Entretanto os artesãos genuinamente caboverdianos vindos de outros países, as vendedoras de mangas e os donos de botecos, vão desfrutando do afluxo de curiosos ao sítio Património da Humanidade, Património esse que ainda ninguém percebeu. Garanto-vos, o sítio é um Património sim senhor, mas é dito imaterial, invisível, não tocável. A única forma de conhecê-lo é pelo ensino correctíssimo da história, pelas nossas próprias mãos e cabeças.
Este é só um snapshot do bravo trabalho dos tipos do MC. Por mais quantas décadas vão auferir esses senhores de todas as benesses do Estado, que pago mensalmente em impostos? E ainda outros acham que os tipos têm retumbantes vitórias? Porra, puxa-saco é pior que putaria. Putas ao menos são honestas: é por dinheiro mesmo.
27.7.09
Regurgitante
Algo maravilha aqui neste chão de pedra dura e plantas armadilhadas de espinhos. O sol seca tudo e no entanto uma seiva teima em manter-se viva. Algo maravilha aqui entre as escarpadas montanhas e o infindável mar. Será castigo ou laboratório de limites?
Aqui um povo foi deixado órfão e como cães procura o vão de escada onde é permitido dormir. Algo perturba. Há olhares fixos num ponto de indeterminação. Transitam corpos inanimados como fantasmas vivos e no entanto não pára o frenesim de potentes braços e pernas. As esquinas cheiram a sexo.
Algo regurgita permanentemente neste espaço exíguo que junta os corpos mais estranhos. Aqui pessoas têm cabelo fino e grosso, olhos pequenos e grandes, braços compridos e curtos, dedos redondos ou chatos e pele negra interpolada de vários tons até ao branco. Recombinam-se cérebros e corações.
Aqui ninguém ousaria habitar e no entanto é o lugar onde se reinventam seres humanos. Não dá para pular no mar nem se despenhar do cimo das montanhas. Sim, um laboratório de limites, um desígnio e não um castigo, vale a pena acreditar. A beleza alucinante desses meninos que nascem perfeitos tem que ter um significado supremo. Sim, maravilha sim.
Aqui um povo foi deixado órfão e como cães procura o vão de escada onde é permitido dormir. Algo perturba. Há olhares fixos num ponto de indeterminação. Transitam corpos inanimados como fantasmas vivos e no entanto não pára o frenesim de potentes braços e pernas. As esquinas cheiram a sexo.
Algo regurgita permanentemente neste espaço exíguo que junta os corpos mais estranhos. Aqui pessoas têm cabelo fino e grosso, olhos pequenos e grandes, braços compridos e curtos, dedos redondos ou chatos e pele negra interpolada de vários tons até ao branco. Recombinam-se cérebros e corações.
Aqui ninguém ousaria habitar e no entanto é o lugar onde se reinventam seres humanos. Não dá para pular no mar nem se despenhar do cimo das montanhas. Sim, um laboratório de limites, um desígnio e não um castigo, vale a pena acreditar. A beleza alucinante desses meninos que nascem perfeitos tem que ter um significado supremo. Sim, maravilha sim.
Julho cá
- Hoje há muitos casamentos!
- Há sempre muitos em Julho.
- Porquê?
- Porque em Agosto não se casa. Agosto é mês de desgosto.
- É verdade?!
- Dizem.
- E as pessoas acreditam nisso?
- Dizem que antigamente era uma crença, depois ficou uma tradição. Em Agosto não se casa, dá azar, assim como noivo não pode ver para o vestido da noiva.
- Oh, isso tudo é tão bobo.
- São fantasias, como em toda a parte, para todas as meninas do mundo. Meninas sonham casar.
- Eu não…
- Todas sonham. É das histórias de princesas e príncipes encantados. É da natureza romântica das mulheres. Pode ser até um instinto de preservação da espécie, não achas?
- Pode ser…Pode ser uma fantasia nossa…Nós lá, a minha geração, contestamos a legalização do amor pelo Estado ou pela Igreja. Aqui não sei…
- Aqui é como em todo o mundo. São só homens e mulheres.
- Não, aqui é tudo tão diferente…
- Lugares diferentes, pessoas diferentes?...
- Não. É difícil de explicar. Qualquer coisas não funciona bem aqui…Não sei explicar… Decepciona um pouco, sabes? É uma cidade sem saúde, sabes?
- É simplesmente uma cidade que nasce. É como a confusão de um estaleiro de construção: não é fácil adivinhar o resultado. É uma cidade que se busca e se define. Hoje, ao mesmo tempo, fui a uma feira de artesanato bem tradicional, mesmo que tenha novidades, fui a um concerto de rock e estamos aqui numa rave party. Aqui as coisas estão em formação. Acredito que um dia vamos ter um caldo bom, de sabores exóticos, porque aqui vive muita gente de muitas partes diferentes do mundo e onde há tanta gente diferente só pode resultar em coisa boa, não achas?
- Acho que não terei paciência para esperar que termine de cozinhar. Tenham paciência vocês.
- Claro! Fazer o quê?
- Há sempre muitos em Julho.
- Porquê?
- Porque em Agosto não se casa. Agosto é mês de desgosto.
- É verdade?!
- Dizem.
- E as pessoas acreditam nisso?
- Dizem que antigamente era uma crença, depois ficou uma tradição. Em Agosto não se casa, dá azar, assim como noivo não pode ver para o vestido da noiva.
- Oh, isso tudo é tão bobo.
- São fantasias, como em toda a parte, para todas as meninas do mundo. Meninas sonham casar.
- Eu não…
- Todas sonham. É das histórias de princesas e príncipes encantados. É da natureza romântica das mulheres. Pode ser até um instinto de preservação da espécie, não achas?
- Pode ser…Pode ser uma fantasia nossa…Nós lá, a minha geração, contestamos a legalização do amor pelo Estado ou pela Igreja. Aqui não sei…
- Aqui é como em todo o mundo. São só homens e mulheres.
- Não, aqui é tudo tão diferente…
- Lugares diferentes, pessoas diferentes?...
- Não. É difícil de explicar. Qualquer coisas não funciona bem aqui…Não sei explicar… Decepciona um pouco, sabes? É uma cidade sem saúde, sabes?
- É simplesmente uma cidade que nasce. É como a confusão de um estaleiro de construção: não é fácil adivinhar o resultado. É uma cidade que se busca e se define. Hoje, ao mesmo tempo, fui a uma feira de artesanato bem tradicional, mesmo que tenha novidades, fui a um concerto de rock e estamos aqui numa rave party. Aqui as coisas estão em formação. Acredito que um dia vamos ter um caldo bom, de sabores exóticos, porque aqui vive muita gente de muitas partes diferentes do mundo e onde há tanta gente diferente só pode resultar em coisa boa, não achas?
- Acho que não terei paciência para esperar que termine de cozinhar. Tenham paciência vocês.
- Claro! Fazer o quê?
25.7.09
Coisas importantes na vida
O compadre Baluka e a comadre Jandira casaram-se!
O cenário não podia ser mais pitoresco. A Conservatória de Registos da cidade da Praia, o local onde se celebra tão simbólico acto fica no coração do maior mercado a céu aberto do país, o mercado da Sucupira, sítio onde se vende de tudo, até a alma se for o caso. A Sala de Actos, é assim que se chama o sítio sagrado, está num beco. A montante inúmeras senhoras e as suas roupas espalhadas pelo chão. A jusante uma carrinha de caixa foi transformado em talho. Metade de uma vaca pendurada ensanguentada, uma balança sebosa, um facão, machado e um temeroso homem que vocifera a venda. Aplica umas valentes pancadas no animal, pesa um pedaço de carne e osso, vende. Continua a apregoar a sua venda, de forma quase que intimadora.
No beco que dá acesso à Sala de Actos, é outro frenesim, da linda e jovem noiva que estará prestes a concretizar vários contos de infância. E o noivo, o meu compadre, com ares de dominar a cena, impecável no seu fato. Cerimónia singela, um Conservador que tinha um tanto de solene e um tanto de despachar mais um acto, profere umas palavras moralizadoras: no casamento há duas chaves: a primeira é o amor, naturalmente; a segunda é o respeito. É sim. Sábias palavras e termina o acto. A comadre lava as emoções com lágrimas. Abraços. Fotografia. Saímos do sagrado lugar, por meio das rabidantes, os bidons, as barracas e os vendedores a fisgar todo o possível comprador, mesmo um que esteja a celebrar uma fantasia de todos os tempos: o casamento.
O jantar foi gostoso, de profundo amor e amizade. Gente nossa, que nos viu nascer, conta-nos como viveram, cresceram brincaram, casaram-se também. Gente que encontra sempre alguma réstia de parentesco ou recordação das esquinas da infância. Somos todos ramos e folhas de uma única árvore.
Que os anos a vir tragam mais momentos de comunhão da família, da amizade e do amor.
O cenário não podia ser mais pitoresco. A Conservatória de Registos da cidade da Praia, o local onde se celebra tão simbólico acto fica no coração do maior mercado a céu aberto do país, o mercado da Sucupira, sítio onde se vende de tudo, até a alma se for o caso. A Sala de Actos, é assim que se chama o sítio sagrado, está num beco. A montante inúmeras senhoras e as suas roupas espalhadas pelo chão. A jusante uma carrinha de caixa foi transformado em talho. Metade de uma vaca pendurada ensanguentada, uma balança sebosa, um facão, machado e um temeroso homem que vocifera a venda. Aplica umas valentes pancadas no animal, pesa um pedaço de carne e osso, vende. Continua a apregoar a sua venda, de forma quase que intimadora.
No beco que dá acesso à Sala de Actos, é outro frenesim, da linda e jovem noiva que estará prestes a concretizar vários contos de infância. E o noivo, o meu compadre, com ares de dominar a cena, impecável no seu fato. Cerimónia singela, um Conservador que tinha um tanto de solene e um tanto de despachar mais um acto, profere umas palavras moralizadoras: no casamento há duas chaves: a primeira é o amor, naturalmente; a segunda é o respeito. É sim. Sábias palavras e termina o acto. A comadre lava as emoções com lágrimas. Abraços. Fotografia. Saímos do sagrado lugar, por meio das rabidantes, os bidons, as barracas e os vendedores a fisgar todo o possível comprador, mesmo um que esteja a celebrar uma fantasia de todos os tempos: o casamento.
O jantar foi gostoso, de profundo amor e amizade. Gente nossa, que nos viu nascer, conta-nos como viveram, cresceram brincaram, casaram-se também. Gente que encontra sempre alguma réstia de parentesco ou recordação das esquinas da infância. Somos todos ramos e folhas de uma única árvore.
Que os anos a vir tragam mais momentos de comunhão da família, da amizade e do amor.
Cheiro de coisa boa
Cheiro a coisa de diazá. Soalhos de madeira, talvez. Moínhos de café, Mindelo d'outrora (?)... Manuel Brito-Semedo tem surpresa para nós. O meu querido amigo, um nadinha mais velho que eu, na verdade colega e amigo de infância do meu papá, começa a ter uma produção literária de respeito. O meu querido amigo, na verdade é um dos mais importantes intelectuais desta terra. Um antropólogo por paixão. Lançamento dia 3 de Agosto (segunda-feira) às 18h15, na sala de conferências da Biblioteca Nacional
22.7.09
A moral
Não é suficiente para garantir uma cidade equilibrada, mas muitos problemas seriam resolvidos se, tivéssemos regras claras: códigos de conduta, planos municipais, leis: e se velássemos para o seu cumprimento estrito, sem flectir, sem excepções, duradoiramente.
O lamaçal
As chuvas anunciaram-se ontem. Será que as valas, por onde as águas devem ser guiadas, estão limpas e desimpedidas? É desta que a Protecção Civil vai dar um show de eficiência? Quantas desgraçadas famílias vão ter as casotas inundadas? Será que a grande ribeira que desagua na praia da Gamboa está limpa das suas toneladas de plástico, ferro-velho e toda a espécie de lixarada? Quantas linhas de electricidade vão ser cortadas, para nos deixar mais irritados ainda com o fornecimento de energia? Quantas estradas vão ficar intransitáveis. Desde que não morra ninguém!...
Depois do arranque em força da nova equipa camarária, vamos lá enfrentar os factos, a empresa é gigantesca. O problema da câmara da Praia, para além da eventual obtusidade dos seus elementos, sofre de problemas organizacionais graves. Ninguém precisa ser perito em gestão para sentir isso, bastando ter que se enfrentar os seus serviços. O mal tem que ser combatido por dentro. Para além de que é preciso reforçar o debate sobre o crescimento da cidade versus recursos para fazer face. Será o Estatuto Especial uma solução?
É que a cidade que representa 1/4 da população nacional, para além de ter que enfrentar toda a imensidade de chatices quotidianas, tem ainda que satisfazer uma população exigente, que trabalha, que contribui para o desenvolvimento deste país, mas que exige praças, cinemas, actividades, trânsito ordenado, zonas de lazer, limpeza, ordenamento, alegria e visão de futuro. Estamos em férias: trabalhadores, estudantes, emigrantes, turistas: e o que temos é uma cidade sem a capacidade de transformar todo esse pessoal em dinâmica de actividades e geração de rendimentos.
Na Praia, a gestão camarária corresponde a um Governo.
Depois do arranque em força da nova equipa camarária, vamos lá enfrentar os factos, a empresa é gigantesca. O problema da câmara da Praia, para além da eventual obtusidade dos seus elementos, sofre de problemas organizacionais graves. Ninguém precisa ser perito em gestão para sentir isso, bastando ter que se enfrentar os seus serviços. O mal tem que ser combatido por dentro. Para além de que é preciso reforçar o debate sobre o crescimento da cidade versus recursos para fazer face. Será o Estatuto Especial uma solução?
É que a cidade que representa 1/4 da população nacional, para além de ter que enfrentar toda a imensidade de chatices quotidianas, tem ainda que satisfazer uma população exigente, que trabalha, que contribui para o desenvolvimento deste país, mas que exige praças, cinemas, actividades, trânsito ordenado, zonas de lazer, limpeza, ordenamento, alegria e visão de futuro. Estamos em férias: trabalhadores, estudantes, emigrantes, turistas: e o que temos é uma cidade sem a capacidade de transformar todo esse pessoal em dinâmica de actividades e geração de rendimentos.
Na Praia, a gestão camarária corresponde a um Governo.
21.7.09
Cuidados Intensivos
Morte política está para o político como perder as chaves está para S.Pedro. É a pior coisa que pode acontecer a um político. Demora tanto a recuperar-se que é provável que no fim não se tenha os dentes todos, necessários a um belo discurso. Morreu e pronto.
Em situação de crise outra opção menos penosa e de recuperação provável é o coma político. Uns gajos cá do burgo apanharam a técnica. Desmaiam imediatamente após um desaire. Deixam os outros cuidar de tudo, da limpeza, da alimentação e dos cuidados de recuperação. Deixam-se ficar na cama depois de acordar. Queixam-se muito, apontam culpados a toda hora. Acabam por criar fãs. As atenções desviam-se para os possíveis culpados e o doentinho, aos poucos, levanta-se e, sem se dar por isso, estará a exigir o lugar de volta.
Para outros casos ainda, a estupidez selectiva funciona bem. Quando acusado, o político torna-se um ignorante. Desconhece que devia respeitar uma contabilidade, que existem leis para isso e mais aquilo, que é crime fugir ao fisco e que não é possível transformar burros em cavalos de raça.
Em luta política, o segredo é escolher o mal que se quer padecer, antes que apareça. Nunca se deixem é matar.
Em situação de crise outra opção menos penosa e de recuperação provável é o coma político. Uns gajos cá do burgo apanharam a técnica. Desmaiam imediatamente após um desaire. Deixam os outros cuidar de tudo, da limpeza, da alimentação e dos cuidados de recuperação. Deixam-se ficar na cama depois de acordar. Queixam-se muito, apontam culpados a toda hora. Acabam por criar fãs. As atenções desviam-se para os possíveis culpados e o doentinho, aos poucos, levanta-se e, sem se dar por isso, estará a exigir o lugar de volta.
Para outros casos ainda, a estupidez selectiva funciona bem. Quando acusado, o político torna-se um ignorante. Desconhece que devia respeitar uma contabilidade, que existem leis para isso e mais aquilo, que é crime fugir ao fisco e que não é possível transformar burros em cavalos de raça.
Em luta política, o segredo é escolher o mal que se quer padecer, antes que apareça. Nunca se deixem é matar.
