5.8.09

Jizas Kraist!

Existe uma zona da cidade que é chamada, no sentido de humor bem crioulo, de "Wall Street", porque tem muitos serviços, incluindo a Bolsa de Valores, que dizem que se trata de uma Bolsa sui generis; vários bancos e uma data de outros serviços. Só que tem um detalhe: nunca niguém disse que a zona seria destinada para tantos serviços. Resultado: overload. A circulação na zona é deficiente, vão faltar espaços para estacionar brevemente e a última é que é maior: um troço de cabo de electricidade da rede pública... queimou! Sim, esturricou, não aguentou a pressão, flipou.

Então uma parte da zona já vai com 24h sem electricidade, inclusive o Ministério que tutela as energias, enquanto uns gajos pretos, ups, queria dizer mandjakus, ups, não, mandjaku não que não fica bem dizer isso, digamos continentais, vão substituindo o cabo, na razão de 1m/h.

Jizas Kraist, que é definitivamente caboverdiano, nascido no bairro de Ponta Belém (o Belém do Médio-Oriente é uma tremenda confusão, o homem nasceu cá), nunca deixa é que esses casos se tornem em incêndios e expluda tudo. As explosões são mais na paciência de cada qual. Em nome do patriotismo, aguentemos.

4.8.09

Cabeças de prata

Ontem (3/8/2009) foi dia de lançamento do novo livro de Manuel Brito-Semedo, "Crónicas de Diazá". Poucas vezes vi a Biblioteca Nacional com tanta gente. Há tanta gente que não via há tanto tempo. Todos ali reunidos, as nossas pessoas mais crescidas, que vão ficando com a cabeça coberta de fios de prata e com tantas estórias para contar, na idade, como disse Fátima Bettencourt, de começar a fazer um resumo da vida, sem com isso significar que há uma noção de algum fim. É que, chega uma altura, depois de criados os filhos, conquistado uma carreira, lutado por ideais e vendo-se na interrogação do que fazer a seguir, uma pessoa precisa fazer esse resumo, seja em forma de livro, seja de que outra forma.

Quanto ao livro em si, de toda a vez que sai um livro, ponho-me a perguntar do que será da nossa indústria de livro? Pergunto-me de uma maneira mais ampla ainda, do que serão os livros no futuro dominado pela ausência de paciência para os ler e com uma forte penetração de conteúdos digitais? O livro precisa de uma reformulação. Mesmo que continuem em papel, os conteúdos precisam diversificar-se. Por exemplo, quantas colaborações há entre artistas visuais e escritores nacionais? Os livros precisam ser objectos tão bonitos, que dão vontade de tê-los só pelo objecto em si. Os nossos livros, em regra, são feios e só os compramos porque conhecemos os autores pessoalmente e conhecemos o conteúdo que tem para nos transmitir. Caso contrário, seriam poucos os livros nacionais que compraria, a julgar pelo objecto de arte, que deviam ser.

A par dessas minhas reflexões enquanto decorria o acto, fiquei a ver para as nossas cabeças de prata e a desejar que eles todos escrevam as suas estórias. Não resisti à passagem de Fátima Bettencourt quando disse que as mulheres que pedem ao cirurgião plástico ou ao esteticista que lhe retire 10 anos de vida, deviam ser processadas por destruição de património! Sim senhora, a idade é um património e não uma vergonha.

Doidera pegada

Juntar num mesmo palco, quase que todos ao mesmo tempo: 3 baterias, 1 percursão, 1 guitarrista, 3 baixos, 3 pianistas, 2 vocalistas é qualquer coisa que soa a cacofonia garantida. Mas quando falamos dos músicos de João Bosco (o fera da voz e da guitarra): Nelson Faria (guitarra), Nico Assunção (o virtuosíssimo baixo de 6 cordas), Marçal (percursão); Kiko Freitas (bateria); dos músicos de Ivan Lins (o doce compositor que ficou um pouco patinho feio na cena no entanto): Nelson Ayres (um piano divino), Teófilo Lima (bateria), Nehemias Antunes (baixo); os músicos de Gonzalo Rubalcaba (um dos top 5 pianistas de jazz do mundo!): Ignácio Berroa (um fera da bateria), Carlos Henriquez (que contrabaixo!)...uf! Estamos a falar de muitos e grandes músicos, que sabem se respeitar na perfeição. Um resultado surpreendente, num dos mais energéticos DVDs que já vi na vida.

Ao compadre Baluka e a sua linda esposa e comadre Jandira, aquele abraço.

País blindado

"O Tribunal de Sintra condenou Isaltino Morais a uma pena de prisão efectiva de 7 anos e à perda imediata do seu mandato. O autarca já anunciou que irá recorrer desta decisão do tribunal."
via www.sapo.cv

E os senhores que por cá que andaram a oferecer "presentes" a este condenado, não se lhes diz nada? Há tempos foi com o caso do SLN/BPN. Lá as coisas arrebentaram; cá, apesar de nítida conivência, os de cá continuam na boa.

Em Cabo Verde, parece que não existe corrupção, mas a verdade é que ela se confunde com a legalidade, ninguém está para se chatear e ninguém quer se responsabilizar ou cobrar responsabilidades. Então fica um clima de tudo calmo...como se aqui nada se passasse. E com direitos a cargos, títulos, benesses e louvores.

3.8.09

Blog joint: Estado e Nação

O Governo e a Oposição estão em permanente campanha eleitoral. O Governo sobrevaloriza os ganhos e desvaloriza as dificuldades e os erros. Diametralmente oposto, a Oposição arrasa o país e indica autistamente como única e válida opção a sua própria governação. É evidente que esse "diálogo" acaba por cair no ridículo e não contribui em nada para a construção de um espírito crítico nos cidadãos. O Estado da Nação, feito por Governo e Oposição não me dizem absolutamente nada, porque são instituições que não se respeitam a si próprios.

Resta-me fiar na palavra dos técnicos, economistas, sociólogos, arquitectos, engenheiros e demais especialistas, se esses, por acaso, não estivessem também tão embalados neste discurso oco de avaliar a nação, como quem discute uma partida de futebol. Poderia me fiar nos juristas e politólogos, se esses estivessem comprometidos, antes de tudo, com a crítica do Estado de Direito. Ficaria imensamente alegre se, apesar das dificuldades, linguistas, antropólogos e historiadores pudessem comentar sistematicamente e não somente em improvisados fóruns, as políticas da Cultura. Ficaria um pouco mais descansado se soubesse que os jornalistas estão aí para escavar, provocar, investigar e procurar informar, com a isenção possível, as várias verdades sobre um mesmo assunto.

Não tendo nenhuma dessas ajudas, resta-me SENTIR o Estado da minha Nação: enganamo-nos permanentemente. Há ganhos extraordinários, sim, mas se isso resultar em crescente injustiça social, alienação cultural e destruição do meio ambiente, então estarei preocupado e receoso pelo futuro.


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31.7.09

Chuva em devaneios de vento veio intempestiva ejaculando sémen em avassalos d'água. Veluptosa a chuva penetrou o chão. Acoplados terra e céu. Coitos prolongados e prolongados beijos de lama. Sussuros de riachos fúteis em fendas e buracos. Amante paciente o chão. Guardou em vales escondidos e montanhas as sementes das plantas que germinam enfim.

Frases fantásticas

Furo de prospecção de águas do Fanado já foi recuperado
(Inforpress)
Quando chove o céu entra em espectáculo de sons, tambores e raios de solos de guitarra de rock. A água que bate no chão faz harmonias de flautas e oboés. A água que corre são longos sussuros de piano e vozes. E quando a chuva pára, entra em palco uma coreografia de luz e pomposas formas de nuvens,

Operação Stop Apreensão de Cartas

Da próxima vez que eu for parado pela polícia em operação stop, tomara que tenha absolutamente tudo em dia, desde o triângulo, até os faróis a funcionarem em condições, mas pode ser que não esteja absolutamente tudo em dia, pode falhar alguma coisinha. Se for o caso de me apreenderem a carta, vou pedir uma audiência ao Ministro da Administração Interna, que isso é uma afronta a um cidadão, seja ele quem for. Só quero saber se serei recebido pelo meu Ministro da Administração Interna, do meu Governo, do meu Estado, do meu País.

A atitude monárquica do PGR lembra-me o caso do governante (o Primeiro-Ministro?) que foi impedido de viajar de avião porque os guarda-costas estavam armados até aos dentes. Se há regras, protocolos de segurança, procedimentos que devem ser seguidos por todos, onde é que está o escândalo com esses funcionários do Estado? São muito mais funcionários do Estado que todos os outros? Não digo que o Primeiro-Ministro não deva andar com os gajos às costas cheios de armas, mas porquê não avisaram com antecedência?

Pois, Estado de Direito tem dessas. Não é lei de Deus, nem lei do Rei. É para todos e a questão é sempre se está na lei ou não. Se o caso do PGR é ilegal, que se abra um processo, que se processe quem que tem que ser processado e já agora que se informe a todos os cidadãos que podem fazer o mesmo e que o Estado lhes garante que vão ser atendidos. Esse climinha de mágoa e ofensa é que não!

30.7.09

Lata Geral da República

"O Procurador-Geral da República (PGR), nomeado pelo actual poder do PAICV, reuniu-se com emergência, na tarde de terça-feira, 28 de Julho, com o Ministro da Administração Interna, do Governo de José Maria Neves, a fim de discutir e receber os devidos esclarecimentos necessários acerca da actuação de um agente da Polícia Nacional, que agiu contra o Procurador–Geral da República, a quem prendeu a carta de condução."
In A Nação

Ganda lata! O Sr PGR considera-se acima da lei ou acha que é a lei em si? A polícia prendeu-lhe a carta? Porque será? O ilustre não estava em dia com a legalidade? Não é a polícia que prende cartas, mas sim a Direcção dos Transportes Rodoviários? Ah pois! E sabia o ilustre que sempre foi essa a actuação da polícia? Então o ilustre, antes de ser PGR, não é um cidadão? Nunca reparou que é assim que as coisas acontecem por cá? Nunca, em todos os seus aninhos de vida pensou em reclamar tal abuso de poder? Só agora lhe ocorre? Ou seja, se não tivesse acontecido a si, fingiria que não sabia que a polícia cá do burgo prende a carta por tudo e por nada.

O Sr. tem cá uma boa lata! Ai essas manias monárquicas!

Reinu di kanporta

Para os meus leitores estrangeiros, tradução do título: reinu di kanporta = reino da chuchadeira = rouyone de n'importe quoi = whatever kingdom=...etc.

À entrada da Cidade Velha, um cartaz de boas-vindas: "Cidade Velha, uma maravilha portuguesa no mundo" (!!!!!!!!!!!)"

Onde é que querem que fique a minha noção de pátria?? Ainda por cima um título que é decorrente de um concurso de televisão portuguesa, muito contestável para os povos vítimas dessas maravilhas. Um concurso que foi acusado de valorizar as maravilhas arquitectónicas, sem nunca mencionar um dos mais desastres da humidade que foi a escravatura.

As ruínas

Agora, de cada vez que alguém fala em Cidade Velha, parece que é motivado pelo seu recente estatuto. Confesso, fiquei a reparar mais nos detalhes. Dantes era aquele lugar para um final de tarde, para o almoço do Domingo, uma escapadela romântica ou outro motivo qualquer, na paz, no silêncio. Continua a sê-lo, mas o seu estatuto desperta-me curiosidades. A lista de crioulices é extensa:

A começar por uma tentativa de construção de uma asneira qualquer à entrada do Forte, que foi embargada, mas no entanto ninguém se lembrou de tirar de lá os restos de construção. Descendo a cidade, à entrada, as sensações exóticas começam: o cheirinho característico de criação de porcos; um mastodonte de betão a tapar a vista do mar; um cocktail de lixo num contentor, é a figura das boas vindas.

Nada de ilusões: trata-se de uma vila pobre e uma população pobre. É imediatamente sensível. Vê-se nas casas, no modo de vida, na indissociável desarrumação visual, no sentido estético, no sentido de higiene e nos meninos que assediam os visitantes. Mas talvez o que mais impressiona é a presença activa dos habitantes, que parece que está mais activa ultimamente, a querer mostrar que, antes de tudo, o lugar é deles. Justo. Só que esta reivindicação por vezes assume formas ruidosas e pouco elegantes.

Por outro lado, a "burguesia". Ou seja, toda a malta que tem dinheiro para investir e conseguiu terrenos na vila e permissões para construir coisas malucas em sítios malucos. Edificam-se palacetes de mau gosto; tapam-se os acessos e a vista ao mar; encavalitam-se construções; os padrões podem ir do barroco ao rococó.

De tudo isso, o que é Património são as ruínas que assistem a tudo sem reclamar e o tal coiso imaterial que ninguém vê. Que nem sequer está só ali; está dentro de nós, nos genes.

29.7.09

Cultura do moquifo

Espero museus, galerias e auditórios prometidos. Ainda não vi a primeira pedra e desconfio que não vou ver pedra nenhuma. Continuo a espera dos planos estratégicos, que já deviam ser apresentados. Por esta altura, em que o país vai se enchendo de gente cada vez com mais capacidade, informação e criatividade, fazia sentido concursos literários ou prémios para artes visuais. Ainda não percebi a lógica das nossas participações (?) em eventos internacionais. Na verdade, não entendo nada de nada. Deliro apenas.

O Palácio da Cultura continua um palácio dos tristes. A livraria vai acabar por morrer de desgosto. O bar, outrora centro vital daquela zona do Plateau, continua pilhado e fechado. Em cima funciona uma pseudo escola de música. Os equipamentos vão se estragando um por um: lâmpadas fundidas, peças estragadas, salas mofando, terraços desertos, varandas inabitadas, falta de manutenção.

Alguém sabe onde fica o Museu Etnográfico da Praia? Pois, esse é um fantasma. Sei que tem coisas depositadas, mas ninguém lhe conhece a alma. Ele não geme e não reclama. Tá aí, encravado algures no Plateau. Outra pergunta difícil: alguém sabe dizer quantos tesouros submarinos foram recolhidos do fundo do mar e desses, quantos foram pilhados, quantos estão em nossa posse e o que vão fazer com essa bodega toda? Quem responder tem um astrolábio de presente.

Sabiam que apareceu, num ápice, uma vivenda em pleno sítio arqueológico da Cidade Velha, bem nas barbas do convento S.Francisco? Olhem que os gajos da Unesco falam a sério! Entretanto os artesãos genuinamente caboverdianos vindos de outros países, as vendedoras de mangas e os donos de botecos, vão desfrutando do afluxo de curiosos ao sítio Património da Humanidade, Património esse que ainda ninguém percebeu. Garanto-vos, o sítio é um Património sim senhor, mas é dito imaterial, invisível, não tocável. A única forma de conhecê-lo é pelo ensino correctíssimo da história, pelas nossas próprias mãos e cabeças.

Este é só um snapshot do bravo trabalho dos tipos do MC. Por mais quantas décadas vão auferir esses senhores de todas as benesses do Estado, que pago mensalmente em impostos? E ainda outros acham que os tipos têm retumbantes vitórias? Porra, puxa-saco é pior que putaria. Putas ao menos são honestas: é por dinheiro mesmo.

27.7.09

Regurgitante

Algo maravilha aqui neste chão de pedra dura e plantas armadilhadas de espinhos. O sol seca tudo e no entanto uma seiva teima em manter-se viva. Algo maravilha aqui entre as escarpadas montanhas e o infindável mar. Será castigo ou laboratório de limites?

Aqui um povo foi deixado órfão e como cães procura o vão de escada onde é permitido dormir. Algo perturba. Há olhares fixos num ponto de indeterminação. Transitam corpos inanimados como fantasmas vivos e no entanto não pára o frenesim de potentes braços e pernas. As esquinas cheiram a sexo.

Algo regurgita permanentemente neste espaço exíguo que junta os corpos mais estranhos. Aqui pessoas têm cabelo fino e grosso, olhos pequenos e grandes, braços compridos e curtos, dedos redondos ou chatos e pele negra interpolada de vários tons até ao branco. Recombinam-se cérebros e corações.

Aqui ninguém ousaria habitar e no entanto é o lugar onde se reinventam seres humanos. Não dá para pular no mar nem se despenhar do cimo das montanhas. Sim, um laboratório de limites, um desígnio e não um castigo, vale a pena acreditar. A beleza alucinante desses meninos que nascem perfeitos tem que ter um significado supremo. Sim, maravilha sim.

Julho cá

- Hoje há muitos casamentos!
- Há sempre muitos em Julho.
- Porquê?
- Porque em Agosto não se casa. Agosto é mês de desgosto.
- É verdade?!
- Dizem.
- E as pessoas acreditam nisso?
- Dizem que antigamente era uma crença, depois ficou uma tradição. Em Agosto não se casa, dá azar, assim como noivo não pode ver para o vestido da noiva.
- Oh, isso tudo é tão bobo.
- São fantasias, como em toda a parte, para todas as meninas do mundo. Meninas sonham casar.
- Eu não…
- Todas sonham. É das histórias de princesas e príncipes encantados. É da natureza romântica das mulheres. Pode ser até um instinto de preservação da espécie, não achas?
- Pode ser…Pode ser uma fantasia nossa…Nós lá, a minha geração, contestamos a legalização do amor pelo Estado ou pela Igreja. Aqui não sei…
- Aqui é como em todo o mundo. São só homens e mulheres.
- Não, aqui é tudo tão diferente…
- Lugares diferentes, pessoas diferentes?...
- Não. É difícil de explicar. Qualquer coisas não funciona bem aqui…Não sei explicar… Decepciona um pouco, sabes? É uma cidade sem saúde, sabes?
- É simplesmente uma cidade que nasce. É como a confusão de um estaleiro de construção: não é fácil adivinhar o resultado. É uma cidade que se busca e se define. Hoje, ao mesmo tempo, fui a uma feira de artesanato bem tradicional, mesmo que tenha novidades, fui a um concerto de rock e estamos aqui numa rave party. Aqui as coisas estão em formação. Acredito que um dia vamos ter um caldo bom, de sabores exóticos, porque aqui vive muita gente de muitas partes diferentes do mundo e onde há tanta gente diferente só pode resultar em coisa boa, não achas?
- Acho que não terei paciência para esperar que termine de cozinhar. Tenham paciência vocês.
- Claro! Fazer o quê?