8.9.09

"Os músicos Vasco Martins – de Cabo Verde, e Mário Lajinha – de Portugal, actuam no próximo mês de Outubro no auditório do Centro Cultural Português na Cidade da Praia, em concertos separados." (RTC)

Há notícias que deixam uma pessoa cheia de inspiração. Dois monstrinhos sagrados juntos!!..Quero ver e ouvir.

7.9.09

Palavras fantásticas

Adoro as palavras. Acho que a palavra "putativo" é uma palavra fantástica que faz a língua estalar duas vezes nos dentes para a pronunciar, que é a mesma coisa que fazemos com a boca quando tomamos um café mesmo bom e estalamos uma ou duas vezes a língua nos dentes como que a ecoar o gosto. Juro que ainda vou escrever um texto cheio de "putativos" só para a poder saborear como um café.

Aqui todos malham

Uma brasileira andou dedilhando algumas impressões sobre a comida que é servida na cidade da Praia o que incomodou muita gente. É certa que a senhora apressou-se nas ilações tais como "não doura-se cebola e alho, eles são cozidos junto com todos os demais ingredientes do prato" mas depois de nos passar a irritação de ver o nosso nome criticado não pelas melhores razões, vamos fazer um exercício de racionalidade e vamos perguntar: ela andou muito longe da verdade?

Em Cabo Verde come-se bem, diverte-se bem, vive-se bem, mas só para quem conhece e chega a traçar o seu próprio roteiro. De resto, para os visitantes, passamos uma péssima imagem e mesmo nós próprios dizemos muitas vezes: come-se mal na cidade da Praia! Exercício: tendo dinheiro, experimentem almoçar todos os Sábados e Domingos na cidade da Praia e verão se em duas semanas não estarão terrivelmente irritados.

Não vale a pena "chingar" a brasileira. No mundo de hoje da globalização e do tempo limitado, um país que se preze deve impressionar desde o aeroporto a todo o resto. Neste sentido, acho que a brasileira foi até "bacaninha", como ela própria disse, porque na verdade somos horríveis de turismo. Aceitemos os factos.

4.9.09

Estado de Emergência de Energia

Mas...ninguém vem a público explicar o que se passa com a electricidade neste país?! O QUE SE PASSA?? Porque passamos 24h sem electricidade? O que está acontecendo Sr.Director-Geral da Electra? Que se passa Sra Ministra da Economia? Então passamos pelas mais absurdas situações e ninguém treme no Governo, Sr Primeiro-Ministro??...Não temos ao menos o direito à explicação? Ou isso já passou toda a explicação lógica? E a Oposição no meio disso tudo? E as organizações da sociedade civil? Quanto tempo temos que aturar mais esta absurdo-situação?

O discurso de posse da Ministra da Economia centrou-se na questão da energia e do emprego. Lembro-me vivamente das suas palavras a demonstrar uma grande confiança na resolução definitiva e consistente do problema da energia a breve trecho. Quanto ao emprego até lhe dou o benefício da tolerância por causa da crise. Mas esta situação da energia!!...Não faz sentido nenhum e não nos enganemos: não vai se resolver a breve trecho a não ser que se declare Estado de Emergência e se tome medidas sérias. Em política normal uma cabeça já tinha rolado diante de tais catastróficos-factos.

3.9.09

Mosquito Rave Party

Os mosquitos descobriram que agora invariavelmente falta a luz de madrugada lá em casa. Ontem fizeram uma rave party contando ainda com a minha participação na percursão e nos coros. Descobrindo os sons do meu corpo. Cara: taz; coxa: tum; joelho: toc. Coros: porra!..gaita!...porra! Os mosquitos e o seu invariável som: bzzzz, bzzzz.

Os mosquitos do meu bairro montaram uma maternidade num descampado que fica mesmo ao lado do meu prédio que está atolado de entulhos e plantas e com as chuvas tem as condições ideias para a procriação de várias espécies animais em que se destacam os mosquitos reproduzindo-se aos quilos. Em reconhecimento às boas condições de vida, a associação dos mosquitos da Praia estão organizando a próxima condecoração às autoridades locais e nacionais, louvando a falta de luz e as águas estagnadas. Poderá até uma figura receber um honoris causa.

Tal qual um recinto após um festança ao amanhecer o meu corpo mostrava como tinha sido divertida a noite.

2.9.09

As (opções) políticas

Preso por ter cão e preso por não ter.

Se é facto que essa questão da electricidade beira o surreal, o TACV continua a demonstrar como não se faz uma transportadora, a política das telecomunicações vai impedindo o país de entrar na economia digital, passamos em cima de questões ambientais de forma deselegante, ignoramos os benefícios de uma adequada política cultural, o desemprego não vai melhorar, a administração pública vai continuar monstruosa e a necessitar de chupar-nos o dinheirinho todo para se manter, o facto é que ninguem garante que isso tudo se resolva com uma mudança política em 2011, por um facto muito simples: grandes males que estamos a viver hoje foram plantados na viragem da dita democracia. E é exactamente essa mesma turma que está no horizonte para formar Governo, agravado pelo facto que estarão mais velhos e carregados de ressentimentos políticos. Caso para dizer, a minha geração (que em 2011 serão quarentões ou quase), vai passar ao lado. A minha geração não produziu líderes políticos.

As (más) políticas

A estrada circular da Praia é uma estrondosa obra, talvez só ultrapassada pela estrada em S.Antão que faz túnel e tudo (como se chama?). Ninguém duvida da grandiosidade dessa obra, mas terá sido uma boa política?

Política, em outras definições, é a melhor gestão possível dos recursos públicos. Temos um grande circular em que passa um carro de vez quando e por outro lado temos uma cidade que quando chove torna o trânsito automóvel impossível. Temos umas quantas zonas da cidade sem uma estrada de acesso digna do nome. O próprio palácio do Governo torna-se um lago devido a um sistema ineficaz de escoamento de águas. É como esses indivíduos que compram grandes e vistosos carros mas moram em casas miseráveis. Andamos a vangloriar de grandes obras públicas, mas vivemos em condições insuportáveis.

Lembro-me da discussão da boa Governação e do bom Governo. A primeira existe (também chamada de Governabilidade) porque somos um país democrático, com instituições do Estado a funcionar (uns mal como a Justiça, mas a funcionar), temos paz e cumprimos os outros requisitos todos para merecer essa classificação. Mas, um país que falha uma das suas políticas essenciais, a política energética, tem um bom Governo?

A minha noite foi um horror por falta de electricidade que me possibilitasse uma ventoinha e um repelente de mosquitos.

1.9.09

"A novela é o ópio do povo caboverdiano"
Inspirado num comentário aqui de Amilcar Tavares

Hipnóticos

Tomava o café vendo para parte nenhuma na rua tentando esvaziar-me sem pensar no cochichar e demais ruídos do bar quando tudo parou. Tudo ficou quieto. A balconista ficou com o braço suspenso a entregar o troco ao cliente que ficou com o braço suspenso a receber o troco da balconista. Outros pararam de levar o pão à boca e outros suspenderam o tilintar da colher na chávena. A criança parou de desenhar e a mãe parou de a ralhar. Olhei para a direcção que todos olhavam. Aconteceu algo trágico na novela.

Not proud to be

Ingénuo, dizem-me. Olha que é assim em toda a parte do mundo. A política é assim que se faz. Todos os países do mundo têm a corrupção e os esquemas que caracterizam a política. Em África estamos muito melhores. Blá blá blá.

Sim, é verdade que aqui não teremos um paraíso da honestidade e nem seremos diferentes dos restantes miseráveis seres humanos do mundo. Mas também em todo o lado com o mínimo de civilidade, há vozes que se erguem, espíritos que não se domam, há acções que parecem inócuas mas que marcam a diferença e, fundamentalmente, há cidadãos que não se deixam enfiar o dedo em qualquer buraco. Em determinados países, sai uma pedra da calçada e imediatamente cria-se uma associação dos possíveis lesados por entorse de pé. Aqui falta um dia de luz e ninguém pia; vem uma factura monstruosa e ninguém pia; os deputados trabalham quando bem lhes dão na gana e ninguém pia; a revisão constitucional encontra-se bloqueada por capricho desses mesmos parasitas e tá tudo OK; criminosos vão se soltando da cadeia por inoperância da Justiça e tá tudo cool. Quem está para se chatear?!

Querem que eu ame essa maneira de adormecer ou fingir-se de bem quando há problemas reais que pedem que tirem os vossas bundonas de casa?...No meu bairro chamado de chique facto que ainda não descortinei porquê, é um espectáculo de sacos de lixo pendurados nas varandas porque o pessoal não tem paciência para aguardar até que passe o carro da recolha. Fazem a festa os gatos e os cães mas pelo menos já vou sabendo aonde moram os porcos. Não senhor. Não amo a vossa imitação de chique. E nem esse fingimento de país.

28.8.09

Proud to be...

"First there was Cesaria Evora, Then Lura, and now, the Portuguese/Cape Verdean singer/composer/guitarist Sara Tavares. The title of this CD (pronounced bal-on-SAY) refers to the equilibrium necessary for balancing her mixed, Crioulo culture that stretches from Africa, Europe, and the Americas. Blessed with an angelic voice, and a knack for writing accessible compositions that are global, yet ancestral, Tavares is closer to Les Nubians than to Evora, as the title track makes clear. She's more about adapting her homeland's musical conceptions to include Angolan sembe Afrobeats on "Poka Terra," with rapper Melo D, reggae, and Cape Verdean coladeira rhythms on "Planeta Sukri," co-starring vocalist Boy Ge Mendes. Fadista Ana Moura helps Tavares tell her soulful story on "De Nua." With this heartfelt, autobiographical work, Sara Tavares emerges as a new dark and lovely diva for this decade."
Eugene Holley, Jr., in www.amazon.com

E no mesmo prestigiado site, de 33 comentadores, 27 consideram o disco 5 estrelas! (nota máxima). Sara balançada!

Cacocracia

Seria capaz de encher esta página de nomes de pessoas brilhantes dos 25 aos 65 anos de todas as áreas de actividade e de todos os níveis possíveis. O nosso país é repleto de talentos e cabeças multidimensionais. O segredo do nosso relativo sucesso passará pela qualidade das pessoas e a sua entrega aos seus projectos na discrição dos gabinetes, técnicos anónimos, apaixonados, trabalhadores de todos os dias de ir ao emprego e voltar às famílias. Mas algo mudou. Em algum ponto da nossa trajectória, da Independência até hoje, houve uma reviravolta. O país passou a ser palco de estribadas lutas de interesses de valor muito questionável para o conjunto da sociedade e face a esta luta por vezes de contornos medonhos o conjunto das pessoas brilhantes desta terra continuam no mais sepulcral silêncio. Estamos ausentes, deixamos o país a alguns bichos, a que chamamos "jogo político" e fingimos que não estamos todos aterrorizados.

Tudo isso para dizer o quanto fico triste por ver como líderes de juventudes partidárias, numa brincadeira bem interessante do jornal "Expresso das Ilhas" que os questiona se fossem Primeiro-Ministro, são meras caixas de ressonância dos líderes absolutos dos seus partidos e como os seus partidos vão ter fatalmente nos próximos tempos líderes absolutos, absolutamente inquestionáveis. Estaremos a combinar autocracia e democracia em auto-democracia?

27.8.09

E nasce projecto...

ABRIASPAS é uma co-produção entre este blog e a Fundação Amílcar Cabral. É um espaço para confluência de linguagens artísticas, onde se destacam o audiovisual e a poesia, numa dinâmica de comunicação em rede entre pessoas, espaços virtuais e ideias.

Mensalmente serão propostos temas aqui no Bianda e serão convidados os visitantes a participar, para depois se concretizar em acções, todas as segundas-feiras na Fundação Amílcar Cabral, Cidade da Praia.

Fica ligado. Já mandamos o tema do mês de Setembro.

Estado maculado

A questão não é se está ou não está na lei. Tornou-se um hábito irritante nos dias que correm dirimir as questões unicamente pelo prisma legal sem que se questione a sua pertinência e muito menos a sua moralidade. As leis existem sim, mas estarão de acordo com os nossos ideias de sociedade, cultura e ambiente? Agir dentro da lei não pode significar automaticamente agir correctamente.

A questão da Murdeira. Um grupo de cientistas, após aturado estudo, definiu as bases técnicas e científicas do que viria a ser a nossa Lei Ambiental. Murdeira, pela sua natureza (zona protegida) ficou interditada a construções que não fossem de cariz científico e educacional. O Governo num passe mudou isso para permitir um empreendimento. Agiu dentro da lei? Sim, porque a lei lhe confere esse poder. Agiu correctamente? NÃO!

Um empreendimento chamado "Riu Lacacão" seguiu inteiramente sem nenhuma avaliação de impacto ambiental porque, pelas próprias palavras do Premier, em tal momento de crise não se poderia dar ao luxo (!!!) de esperar por tal avaliação e por isso autorizou-se a obra, até que se encontre formas de minimizar eventuais maus impactos (!!!)

Agora o chefe do Governo, um dos 3 pilares do Estado (Parlamento, Governo, Justiça) vê o seu nome embrulhado num muito cabeludo negócio de restaurante e orla marítima. Já é de si estranho que o Governo em primeira pessoa esteja envolvido dessa forma, num negócio que dispensou concurso público e tresanda a clientelismo. Mas a questão é a mesma: é legal? Pode até ser, mas algo está tremendamente mal nessa lógica toda.

Este país anda louco de valores...há tempo demais.

25.8.09

Kitsh requintado

Caminhar por um tapete de relva sintética à entrada é a primeira maravilha do lugar. De seguida vem uma floresta de pilares de cimento, uma cobertura de chapa metálica e diversas sombrinhas que tapam o sol onde a chapa de metal não tapou. Um desenho de um homem raquítico indica lavabos para senhores e um de uma desmesurada bunda indica os das senhoras. Um exército de arcas frigoríficas tapa o bar quase na totalidade. É arca para tudo. O bar é a caverna de Ali Baba repleto de estantes com garrafas e uma senhora apertada na saia com óculos grandes. Lâmpadas anémicas iluminam aqui e ali. Toca funaná em colunas de som de um metro de altura cada enquanto decorre o noticiário e futebol em dois televisores mudos.

Enquanto tentamos acertar em algo que existisse integralmente na ementa pedimos entradas de azeitonas e queijo. Não há. Cerveja só então. Repeti duas ou três vezes ao empregado que a minha omeleta fatalmente não podia conter nem atum nem fiambre nem frango nem chouriço nem linguiça; só cebola tomate e salsa. Diverti-me com as toalhas em xadrez das mesas em rectângulo, quadrados e redondas. O delicioso restaurante da Tátá fechou há tempos! Fechou também o do Mar Azul. Fechou o Hotel Tarrafal? Veio a minha omeleta numa travessa inox que lembra recipientes para esterilizar pinças em hospitais. Após dois golpes de garfo e faca apercebo-me da presença de atum na minha omeleta. Pronto, era demais! Reclamo cheio de fúria e indignação ante o impávido empregado que ouviu tudo até ao fim para depois se perder em desculpas suplicando: senhor, quis fazer um agrado; mandei acrescentar atum… Salvei-me o resto da refeição a ver para a magnífica vista sobre a praia do Tarrafal.