14.9.09

Criadores e destruidores

"Criação colectiva de Binga e Samira a partir de poemas de Amilcar Cabral, LARBAC é uma encenação em homenagem dos 85º aniversário do Amilcar Cabral. Estreia 12 de Setembro de 2009"
(divulgação FAC)

Estão de parabéns os promotores da ideia, foi um espectáculo. Enquanto o Palácio da Cultura está de pé vai tendo esses previlégios de receber eventos de elevado bom gosto como esse foi. Mas o Palácio, mais uma vez o Palácio que não se sabe se é um morto-vivo, ou se é um vivo em vias de morrer, causa-me indignação. É imperdoável que o seu bar continue fechado; há lá um tapete que gostaria de perguntar ao indíviduo que se chama de director se o punha em sua casa!; há imensos instrumentos doados pela China que vão ser devorados pelas traças; há espaços vagos a implorar por uma mente inteligente que os transforma em vida e lucro. O Palácio da Cultura Ildo Lobo é a materialização da estupidez cultural que vivemos nos dias presentes.

O Ministro da Cultura, mais uma vez o Ministro da Cultura, não se percebe como pretende dirigir um sector tão complexo e exigente se não comparece a nenhum dos melhores eventos da cidade! A sua ausência é tristemente notória. No oposto, a presença de Corsino Tolentino em toda a vida social desta cidade é um marco positivo e encorajador para mim. Inspira-me as suas palavras, sendo ele o único intelectual de alto calibre que ousa dizer: falhámos!

Mas muita dessa situação é culpa da Comunicação Social que por uma inércia que não consigo perceber não desempenha o seu papel de crítica e fazedor de opinião. Não aparecem, não participam e logo se restringem a anunciadores de eventos.

Apesar de tudo e de um certo indivíduo que resolveu usar o evento como palco para as suas patéticas performances, a noite decorreu agradável, com vinhos do Fogo a acompanhar um queijo Camambert a completar o quadro de bom gosto dos promotores. Obrigado.

11.9.09

Ao oitavo ano...

...as coisas começam a desandar. Lembro-me como se fosse hoje o oitavo ano da governação do MPD. O país andou pra trás: salários em atraso; crispação política; privatizações desreguladas; delapidação dos recursos financeiros do Estado; cooperação internacional ameaçando abandonar o país; escândalos económicos; ministrinhos tipo boys for the job; enfim...o país a desandar.

Convenhamos, este governo tem outro sentido de Estado e a única coisa que podem no dia de hoje vangloriar é de ter reequilibrado definitivamente as contas do Estado. Mas, a sintomática do esgotamento de soluções, a ansiedade provocada pela possibilidade de mudança política, as manobras pessoais com vista ao poder e uma certa guerrilha política, voltam a pôr o país em situações ridículas.

O mais grave dessa história muito previsível é que em 2011 as coisas podem voltar ao ponto de partida, com o MPD e os seus líderes reloaded, como se o passado não existisse. Ou então não se volta ao ponto de partida e continua este governo com os seus pedregulhos que custam uma fortuna ao Estado, não coisam e não saem de cima, sendo os ministérios da Cultura e da Juventude e Desportos, por exemplo, casos já de calcificação política.

Novos tempos? Novos desafios?

Lá está o outdoor de José Maria Neves com um (menos brilhante) sorriso anunciando: NOVOS TEMPOS, NOVOS DESAFIOS. A política tem essa forma estranha de confundir o discurso: desculpa Senhor Primeiro Ministro, mas a Vossa Excelência não tem novos desafios e nem tem tempo para inventar novos desafios; os seus desafios já vão com quase uma década (ou seja toda a sua Governação) ou seja são velhinhos: o desafio da reforma da Administração Pública, o mais abominável monstro do nosso Estado, continua por vencer; o desafio dos TACV vai fracassar; o desafio das Energias já fracassou; o desafio das Infraestruturas, uma das suas maiores bandeiras de sucesso, precisa ser re-alinhado com a economia real; o desafio das Telecomunicações continua em banho-maria (ou não se pergunta porque não temos ainda um Comércio Electrónico, coisa corriqueira já em muitas partes do mundo?); o desafio da Educação agora é a qualidade em vez de exibir números; o desafio da Cultura nem se pôs; o desafio da Juventude para mim é um falso desafio; o desafio das Agriculturas e Pescas continuam em idade de artesanato; o desafio da Economia é o desemprego a 1 dígito que nem nos seus sonhos vai atingir...para além de ainda ter que evitar que o tecido do seu próprio Partido se rompa pelas costura. Mude o slogan para: "novos tempos, os mesmos irritantes desafios, os mesmos velhos actores"

10.9.09

Brincando aos países

Não considero que esconder a realidade e enfatizar até ao ridículo os elogios que recebemos seja uma boa estratégia motivacional. É claro que me regozijo com os louvores, mas a luta por um país digno ainda é longa e, na minha óptica, só se consegue vencê-la encarando de frente as batalhas.

Isto veio a propósito deste post do Amilcar Tavares, um guerreiro.

C'est pas possible!

Gritou indignado um amigo meu senegalês ao ver para a foto da manchete do Expresso das Ilhas de 2 de Setembro de 2009 que mostra um senegalês (não vem escrito que é senegalês mas o meu amigo senegalês jurou ser um senegalês porque um senegalês reconhece outro senegalês a quilómetros de distância como uma caboverdiano reconhece outro caboverdiano em toda a parte do mundo) e um grande título que diz: "ASSÉDIO E INSEGURANÇA ASSOMBRAM TURISMO". O artigo referia-se à ilha do Sal.

Meu povo que amo tem por vezes essa capacidade de se fazer de burro. Por mais de uma década o turismo derivou num mar sem porto e sem rotas. Por tempo demais não se articulou oportunidades e políticas. Praticamos um turismo do deixa fazer o que o estúpido do investidor bem quiser e praticar os preços que achar devido e invadir as praias com monstros de betão como bem entender sem qualquer noção de limite. As autoridades locais e nacionais, cegos pela sua luta cíclica de assalto ao poder esqueceram que tinham um país a gerir. Veio a crise, que é a versão capitalista de purgatório, e demonstrou que construímos castelos de areia que se desabam com um só golpe e agora querem passar essa ideia que a culpa é dos chatos dos vendedores da costa africana!

Como dizia Arménio Vieira (nas suas fábulas quase realistas), um burro-burro é só burro; um homem-burro nem burro é, por respeito ao burro. Quanto mais quando sabemos que de burro não temos nada; é mais para chico-esperto que é uma espécie de carapau-de-corrida que está abaixo desse homem-burro que nem chega a ser um autêntico burro.

A Guerra, cap.1

"O terrorismo político que o PAICV praticou nas campanhas em Santa Catarina, que culminou com a tentativa de assassinato de Francisco Fernandes Tavares nas vésperas das eleições em Mato Gegé continua e, por isso, não obstante a sua boa fé, o Presidente teve dotar-se de uma equipe mínima de sua confiança, para a sua segurança e funcionamento da Câmara Municipal, pois o pelotão da frente pode desandar em elação ao rumo traçado pelo líder para que a equipa possa funcionar"
Francisco Tavares (Presidente da Câmara Municipal de S.Catarina), in Expresso das Ilhas, 2/9/2009

Mato Gegé, referido no texto, na verdade trata-se de um perigoso palco de guerra, também conhecido por Mato Uakagá. O terrorismo que se fala, na verdade foram actos bárbaros perpetrados por dois terríveis mercenários conhecidos por Aka Psuda e Fu Djidu, que inventaram e aprimoraram técnicas de tortura como a "gozga" e a "txuputidura" também conhecida em outros matos deste perigoso país como "pnik".


8.9.09

Rainha da Cocodada Preta

A tal Rainha do Lar tirou o famigerado post da polémica gastronómica. Assim tenho de demonstrar a minha desilusão. Gosto de pessoas convictas que quando assumem uma posição mantêm até ao fim. Eu tinha achado que ela foi infeliz nas palavras, mas a sua observação era pertinente. Precisamos sim cuidar da imagem que oferecemos para fora.
"Os músicos Vasco Martins – de Cabo Verde, e Mário Lajinha – de Portugal, actuam no próximo mês de Outubro no auditório do Centro Cultural Português na Cidade da Praia, em concertos separados." (RTC)

Há notícias que deixam uma pessoa cheia de inspiração. Dois monstrinhos sagrados juntos!!..Quero ver e ouvir.

7.9.09

Palavras fantásticas

Adoro as palavras. Acho que a palavra "putativo" é uma palavra fantástica que faz a língua estalar duas vezes nos dentes para a pronunciar, que é a mesma coisa que fazemos com a boca quando tomamos um café mesmo bom e estalamos uma ou duas vezes a língua nos dentes como que a ecoar o gosto. Juro que ainda vou escrever um texto cheio de "putativos" só para a poder saborear como um café.

Aqui todos malham

Uma brasileira andou dedilhando algumas impressões sobre a comida que é servida na cidade da Praia o que incomodou muita gente. É certa que a senhora apressou-se nas ilações tais como "não doura-se cebola e alho, eles são cozidos junto com todos os demais ingredientes do prato" mas depois de nos passar a irritação de ver o nosso nome criticado não pelas melhores razões, vamos fazer um exercício de racionalidade e vamos perguntar: ela andou muito longe da verdade?

Em Cabo Verde come-se bem, diverte-se bem, vive-se bem, mas só para quem conhece e chega a traçar o seu próprio roteiro. De resto, para os visitantes, passamos uma péssima imagem e mesmo nós próprios dizemos muitas vezes: come-se mal na cidade da Praia! Exercício: tendo dinheiro, experimentem almoçar todos os Sábados e Domingos na cidade da Praia e verão se em duas semanas não estarão terrivelmente irritados.

Não vale a pena "chingar" a brasileira. No mundo de hoje da globalização e do tempo limitado, um país que se preze deve impressionar desde o aeroporto a todo o resto. Neste sentido, acho que a brasileira foi até "bacaninha", como ela própria disse, porque na verdade somos horríveis de turismo. Aceitemos os factos.

4.9.09

Estado de Emergência de Energia

Mas...ninguém vem a público explicar o que se passa com a electricidade neste país?! O QUE SE PASSA?? Porque passamos 24h sem electricidade? O que está acontecendo Sr.Director-Geral da Electra? Que se passa Sra Ministra da Economia? Então passamos pelas mais absurdas situações e ninguém treme no Governo, Sr Primeiro-Ministro??...Não temos ao menos o direito à explicação? Ou isso já passou toda a explicação lógica? E a Oposição no meio disso tudo? E as organizações da sociedade civil? Quanto tempo temos que aturar mais esta absurdo-situação?

O discurso de posse da Ministra da Economia centrou-se na questão da energia e do emprego. Lembro-me vivamente das suas palavras a demonstrar uma grande confiança na resolução definitiva e consistente do problema da energia a breve trecho. Quanto ao emprego até lhe dou o benefício da tolerância por causa da crise. Mas esta situação da energia!!...Não faz sentido nenhum e não nos enganemos: não vai se resolver a breve trecho a não ser que se declare Estado de Emergência e se tome medidas sérias. Em política normal uma cabeça já tinha rolado diante de tais catastróficos-factos.

3.9.09

Mosquito Rave Party

Os mosquitos descobriram que agora invariavelmente falta a luz de madrugada lá em casa. Ontem fizeram uma rave party contando ainda com a minha participação na percursão e nos coros. Descobrindo os sons do meu corpo. Cara: taz; coxa: tum; joelho: toc. Coros: porra!..gaita!...porra! Os mosquitos e o seu invariável som: bzzzz, bzzzz.

Os mosquitos do meu bairro montaram uma maternidade num descampado que fica mesmo ao lado do meu prédio que está atolado de entulhos e plantas e com as chuvas tem as condições ideias para a procriação de várias espécies animais em que se destacam os mosquitos reproduzindo-se aos quilos. Em reconhecimento às boas condições de vida, a associação dos mosquitos da Praia estão organizando a próxima condecoração às autoridades locais e nacionais, louvando a falta de luz e as águas estagnadas. Poderá até uma figura receber um honoris causa.

Tal qual um recinto após um festança ao amanhecer o meu corpo mostrava como tinha sido divertida a noite.

2.9.09

As (opções) políticas

Preso por ter cão e preso por não ter.

Se é facto que essa questão da electricidade beira o surreal, o TACV continua a demonstrar como não se faz uma transportadora, a política das telecomunicações vai impedindo o país de entrar na economia digital, passamos em cima de questões ambientais de forma deselegante, ignoramos os benefícios de uma adequada política cultural, o desemprego não vai melhorar, a administração pública vai continuar monstruosa e a necessitar de chupar-nos o dinheirinho todo para se manter, o facto é que ninguem garante que isso tudo se resolva com uma mudança política em 2011, por um facto muito simples: grandes males que estamos a viver hoje foram plantados na viragem da dita democracia. E é exactamente essa mesma turma que está no horizonte para formar Governo, agravado pelo facto que estarão mais velhos e carregados de ressentimentos políticos. Caso para dizer, a minha geração (que em 2011 serão quarentões ou quase), vai passar ao lado. A minha geração não produziu líderes políticos.

As (más) políticas

A estrada circular da Praia é uma estrondosa obra, talvez só ultrapassada pela estrada em S.Antão que faz túnel e tudo (como se chama?). Ninguém duvida da grandiosidade dessa obra, mas terá sido uma boa política?

Política, em outras definições, é a melhor gestão possível dos recursos públicos. Temos um grande circular em que passa um carro de vez quando e por outro lado temos uma cidade que quando chove torna o trânsito automóvel impossível. Temos umas quantas zonas da cidade sem uma estrada de acesso digna do nome. O próprio palácio do Governo torna-se um lago devido a um sistema ineficaz de escoamento de águas. É como esses indivíduos que compram grandes e vistosos carros mas moram em casas miseráveis. Andamos a vangloriar de grandes obras públicas, mas vivemos em condições insuportáveis.

Lembro-me da discussão da boa Governação e do bom Governo. A primeira existe (também chamada de Governabilidade) porque somos um país democrático, com instituições do Estado a funcionar (uns mal como a Justiça, mas a funcionar), temos paz e cumprimos os outros requisitos todos para merecer essa classificação. Mas, um país que falha uma das suas políticas essenciais, a política energética, tem um bom Governo?

A minha noite foi um horror por falta de electricidade que me possibilitasse uma ventoinha e um repelente de mosquitos.

1.9.09

"A novela é o ópio do povo caboverdiano"
Inspirado num comentário aqui de Amilcar Tavares