28.9.09

Quando caem as árvores

É uma coisa inexplicável que sinto quando vejo uma árvore enorme caída como uma que vi há dias quando fez um pé de vento malcriado com chuva. Ver aquele pedação de ser vivo assim tombado na estrada, na horizontal que dá mais a dimensão do seu tamanho, e as suas ramagens e folhas desmaiadas pelo chão, tem configuração de cataclismo. Assim também sinto quando morrem grandes figuras como Mário Fonseca.

Conheci Mário Fonseca ainda tinha uma penugem no lugar de barba. Já me fazia cidadão nessa altura, com o fervor patriótico, político e cultural que nasceu comigo como parte da minha química, quando ouvi pela primeira vez Mário Fonseca intervindo numa palestra. O homem tinha uma grande postura física, voz firme, discurso fluído e ideias apaixonadas. Aquele homem naquele momento havia de marcar definitivamente o que sou hoje. Depois, nos últimos anos, comecei a vê-lo definhar e, embora mantivesse o mesmo espírito indomável, tremia-lhe o corpo e andava vacilante. Morreu. O que senti foi o estrondo de uma grande árvore tombando.

Morreu também Manuel de Novas. Quando as árvores caem é tempo de minutos de silêncio.

24.9.09

Odeio d'amar

De volta aos nossos queridos e amados jornais impressos. Eu os amo de coração porque amo a palavra e a imagem impressa embora já seja da geração da transição para a desmaterialização dos conteúdos e um confesso admirador (e fazedor) das novas tecnologias de informação. Voltando à vaca fria dizia, os nossos jornais.

João Dono continua a sua profecia que me lembra os doidos que andam pelas ruas a apregoar o fim do mundo. Usa as minhas palavras e só comete um insignificante deslize de não dizer quem é o “artista”. O Expresso das Ilhas achou tanta graça ao cartoon que eu tinha odiado que voltaram a publicá-lo. A Nação continua a tentar galgar o difícil caminho do reconhecimento, fazendo uma coisa que para mim é justificativa para o comprar todas as semanas: trazem artigos de cariz social e cultural mais para a superfície embora ainda sinta o cunho terrivelmente partidário no seu tom. A Semana continua relaxadamente e despreocupadamente de férias prolongadas, mas sabem o que mais? Quando voltar, continuará a ser o mais comprado dos jornais impressos. Como diz um camarada meu, quando se ama algo ou alguém, por mais que esse algo ou alguém nos martirize, não há nada que nos demova. Daí o ditado: o amor é cego…surdo, mudo e tetraplégico.

Por mim tudo podia simplesmente passar a digital, que não pode entrar de férias e nos dá a possibilidade de exprimir na hora o que nos vai na alma, mas enquanto a ubiquidade de acesso à Internet for só uma piadinha tola de José Maria Neves, os jornais impressos, como a rádio e televisão tradicionais, continuam sendo essenciais. Amo-os e odeio-os, como nos amores verdadeiros.

Lições de Hitchcock

Mais um terrivelmente bom filme de Hitchcock: Marnie. Expressionismo puro. Mais uma lição: quando os recursos são utilizados com peso e medida, o que isoladamente pareceria um exagero sem graça nenhuma torna-se um efeito essencial. Outra vez as grandes cenas de silêncio. Hoje em dia vejo Hitchcock com outros olhos e outros ensinamentos: estou a tentar aprender isso do silêncio: fazer uma cena que demora 3mn (que em cinema é uma eternidade) em silêncio e essa cena ser a que mais nos faz cravar as unhas no sofá, é quando dizemos: “esse camarada é um mestre!”.

21.9.09

Frases piri-piri

"Você nunca terá uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão e, naturalmente, a primeira impressão que as juventudes partidárias cabo-verdianas passam é de notória imprestabilidade ou meros trepadores do organigrama partidário."
Amilcar Tavares, in "Um propósito para os Jotas"

Substituiria "propósito" por "préstimo"

20.9.09

Uma cidade a afogar-se

“Praia é, pois, uma cidade desestruturada, portadora de um número significativo de bairros sem quaisquer condições de habitabilidade”

“É, enfim, o “deixa-andar” na sua dimensão mais dramática. Como, de resto, tem sido a administração da capital desde o dia em que este país se conheceu enquanto estado e nação.”

“Hoje, o resultado é este – uma cidade à beira de um colapso natural, onde nem as autoridades municipais e nem as governamentais parecem ter uma solução à altura da resolução dos problemas”

O título e os itálicos são do jornal “A Nação” de 17/9/2009, a propósito das cheias pela cidade. Sim senhor! Falaram bem. Pena que tal veemência de palavras não se verificou também na altura de Filú mas, prontos, ao menos dizem-no agora. Sim, Praia é uma cidade que vai colapsar a continuar a andar nesta toada. Tenho defendido que, no lugar do circular fantasma inaugurada com a maior das pompas, centenas de melhoramentos deviam ser feitos na cidade. Mas preferimos vangloriar as obras vistosas e no entanto viver na m…

19.9.09

Lições de Hitchcock

Finalmente vi o famoso filme de Hitchcock “Os Pássaros”, uma obra-prima de 1963.

Hitchcock está para o cinema como Miles Davis está para o jazz, pela dedicação à carreira, pelas inovações, pela experimentação, pelo ponto de vista, pelo uso da linguagem. Agrada-me particularmente em Hitchcock a câmara subjectiva, os travellings lentos e o uso do silêncio. Mas que silêncios tão bem escolhidos! Sequências inteiras em silêncio a ponto de levar o espectador a exasperação. E mais outra grande lição: pôr-se sempre no lugar do público tentando adivinhar a sua reacção e como vai fazer a leitura da cena.

Um mestre. Uma inspiração.

Thanks Guida

17.9.09

7 pecados mortais

Gostei da provocação do PSS, para enumerarmos os pecados mortais da Sociedade Civil. Por mim, ei-los: Vaidade; Inveja; Ira; Preguiça; Avareza; Gula; Luxúria. Ou seja, fiz copy/paste dos da igreja católica.

Passo a provocação aos leitores: enumeram os pecados capitais da nossa Sociedade Civil

Candidato a aprendiz de caricaturista

Quando vejo um cartoon no Expresso das Ilhas, em que estão Sócrates, trajado de rei, a incitar José Maria Neves, trajado de soldado do rei a aplicar chibatadas a um "pretinho" no pelourinho da Cidade Velha, a minha alma inunda-se de indignação! Será que o autor nunca pensou no significado pesado da escravatura? Será que ele não se sente um pouquinho só tocado pela história trágica dos seus antepassados para andar assim a brincar com termos como "pretinho" e com a escravatura. E onde ele foi arranjar a associação entre a política de hoje e a situação de crime humanitário dos séculos passados? E será que esse pasquim chamado de jornal não se dá ao respeito???

Candidato a aprendiz de profeta

Por falar em Deus e Diabo, João Dono resolveu lançar a sentença dos 7 pecados mortais ao Governo no jornal Expresso das Ilhas, 1 pecado mortal por semana. Após o 4º pecado mortal já não posso suportar essa escrita da metáfora ligeira. Fala em nome da juventude, dos operadores económicos, dos alunos e professores e por aí fora, como se de um padreco se tratasse, para nos iluminar a vida ante a conduta diabólica do Governo. Dono, por favor, menos, muito menos! Expresso, por favor, melhora.

Almas pesadas em toneladas

Sempre que trato Deus por “o gajo” a mamã se enfurece. Nasci ateu ou pensava que sim. Quando ainda morávamos numa casa com quintal, terraço, varanda e ainda havia pouca televisão, Albertina que veio de S.Antão para S.Vicente trabalhar como doméstica em nossa casa, tinha por hábito sentar-se com os meninos da vizinhança à noite a contar convicta que na sua ilha tinha bruxas que comiam meninos e que se transformavam em gatos para passar desapercebidas. Nasci também com a língua solta e da voz de menino contestava: náá, não é possível! Chateada com a minha descrença e por interromper-lhe a áurea de velha sábia, sentenciava-me: menino, trata de acreditar nessas coisas porque acontecem e é melhor te preparares!

Não conduzo a vida acreditando em Deus ou Diabo e no entanto vivo no meio de gente com a candura descrita em livros de anjos e gente carregada de fúria que correspondem às descrições de demónios. Há pessoas pesadas, a avaliar pela sofisticação maléfica das suas acções poderia dizer-se que não dormem um sono sossegado, que preocupações e frustrações as atormentam, que acumulam maldade e estão prontas para a descarregar em cima de qualquer um. Normalmente é no trabalho, o lugar em que um adulto passa a maior parte da sua vida, quando a tem é claro, que se revelam esses demónios humanos. Continuo descrente que algum padre, auto denominado funcionário de Deus, poderá exorcizar o mal de uma pessoa, mas acredito que certos ensinamentos do Oriente podem ajudar almas cansadas, como a noção de Karma que diz que acções do mal trazem mais mal e a noção de Darma que diz que o bem devolve o bem. Simples e acredito

15.9.09

Extremistas nós?

Paulo, precisamos de um Al Qaeda??...Definitivamente não. O mundo estará melhor sem Bin Laden e George Bush ou qualquer outro parvalhão que pensa em termos de matar para impor a sua lógica. Se acreditam tanto na morte porque não se matam?

Não, não precisamos de extremismo nenhum nem mesmo do extremismo que se exprime pela apatia total. Sim, a apatia face aos acontecimentos da vida é uma forma de extremismo que se denomina alienação. Para que o homem pudesse ter uma civilização foi/é necessário que se constituísse numa comunidade inteligente. Pois, e se dessa comunidade exigimos benefícios igualmente devemos participação. É vital não perder essa noção de comunidade, um fenómeno bem sensível entre nós nos dias de hoje em que desaparecem as pequenas vilas e as vizinhanças de soleira de porta, para no seu lugar gerar condomínios fechados (um conceito hediondo) e outras formas de estranhamento entre as pessoas.

Essa noção de que "isso não me diz respeito" cria um espaço aos messias satânicos, aos aproveitadores, aos sem escrúpulos, que aos poucos vai minando os nossos patrimónios (naturais, culturais, sociais) e quando as coisas atingem estatuto de crise, ficamos a achar que agora é preciso um Bin Laden para explodir isso tudo ou outro ditadorzinho com mão dura, o que implica matar gente ou restringir a condição humana das pessoas. NÃO! Somos mais inteligentes que isso. Por isso debatemos: não para derrubar o Primeiro-Ministro ou Ministro da Cultura (embora esse podia repensar o seu lugar) mas para exigir coerência, mudanças, soluções...melhoria de vida...para todos.

Textos fantásticos

Eu que gosto de fábulas, as inteligentes e não somente as estórias da carochinha, adorei este texto, como adorei um poema de Arménio Vieira do homem e do burro, em Mitografias.

14.9.09

Ditos

“Foi a crise que salvou Sócrates”, diz Ferreira Leite
in Público online

Se substituirmos "Sócrates" por "José Maria Neves" fica igualzinho. A propósito, os dois andam comcubinados de uns tempos pra cá; é só amores e troca de carícias aos seus egões. Mas, não vejo qual é o escândalo em o Presidente do PAICV/Primeiro-Ministro participar da convenção do PS português. Agora se o embaixador de CV em PT tava no assunto também e Zema terá prestado as declarações que ao que parece prestou, se está a incitar a comunidade CV/Lusa a votar em Sócrates, aí a coisa muda de figura. Como veio na imprensa, como são essas coisas avaliadas em termos de Relações Internacionais? Ou estarão os dois fofinhos plenamente convencidos que ganharão as eleições nos respectivos países não havendo por isso perigo que alguém (PSD) venha a vingar-se por esta mãozinha crioula? E tendo Ferreira Leite num passado recente ter-se referido a Cabo Verde de forma um pouco...deselegante. Juízo homens!

Criadores e destruidores

"Criação colectiva de Binga e Samira a partir de poemas de Amilcar Cabral, LARBAC é uma encenação em homenagem dos 85º aniversário do Amilcar Cabral. Estreia 12 de Setembro de 2009"
(divulgação FAC)

Estão de parabéns os promotores da ideia, foi um espectáculo. Enquanto o Palácio da Cultura está de pé vai tendo esses previlégios de receber eventos de elevado bom gosto como esse foi. Mas o Palácio, mais uma vez o Palácio que não se sabe se é um morto-vivo, ou se é um vivo em vias de morrer, causa-me indignação. É imperdoável que o seu bar continue fechado; há lá um tapete que gostaria de perguntar ao indíviduo que se chama de director se o punha em sua casa!; há imensos instrumentos doados pela China que vão ser devorados pelas traças; há espaços vagos a implorar por uma mente inteligente que os transforma em vida e lucro. O Palácio da Cultura Ildo Lobo é a materialização da estupidez cultural que vivemos nos dias presentes.

O Ministro da Cultura, mais uma vez o Ministro da Cultura, não se percebe como pretende dirigir um sector tão complexo e exigente se não comparece a nenhum dos melhores eventos da cidade! A sua ausência é tristemente notória. No oposto, a presença de Corsino Tolentino em toda a vida social desta cidade é um marco positivo e encorajador para mim. Inspira-me as suas palavras, sendo ele o único intelectual de alto calibre que ousa dizer: falhámos!

Mas muita dessa situação é culpa da Comunicação Social que por uma inércia que não consigo perceber não desempenha o seu papel de crítica e fazedor de opinião. Não aparecem, não participam e logo se restringem a anunciadores de eventos.

Apesar de tudo e de um certo indivíduo que resolveu usar o evento como palco para as suas patéticas performances, a noite decorreu agradável, com vinhos do Fogo a acompanhar um queijo Camambert a completar o quadro de bom gosto dos promotores. Obrigado.

11.9.09

Ao oitavo ano...

...as coisas começam a desandar. Lembro-me como se fosse hoje o oitavo ano da governação do MPD. O país andou pra trás: salários em atraso; crispação política; privatizações desreguladas; delapidação dos recursos financeiros do Estado; cooperação internacional ameaçando abandonar o país; escândalos económicos; ministrinhos tipo boys for the job; enfim...o país a desandar.

Convenhamos, este governo tem outro sentido de Estado e a única coisa que podem no dia de hoje vangloriar é de ter reequilibrado definitivamente as contas do Estado. Mas, a sintomática do esgotamento de soluções, a ansiedade provocada pela possibilidade de mudança política, as manobras pessoais com vista ao poder e uma certa guerrilha política, voltam a pôr o país em situações ridículas.

O mais grave dessa história muito previsível é que em 2011 as coisas podem voltar ao ponto de partida, com o MPD e os seus líderes reloaded, como se o passado não existisse. Ou então não se volta ao ponto de partida e continua este governo com os seus pedregulhos que custam uma fortuna ao Estado, não coisam e não saem de cima, sendo os ministérios da Cultura e da Juventude e Desportos, por exemplo, casos já de calcificação política.