31.10.09

Abriaspas Novembro

ABRIASPAS é um espaço para confluência de linguagens artísticas, onde se destacam o audiovisual e poesia, numa dinâmica de comunicação em rede entre pessoas, espaços virtuais e ideias.

Pretendemos proporcionar o intercâmbio e debate de ideias sobre temas propostos mensalmente aqui (bianda.blogspot.com)

Acontece todas as segundas-feiras na Fundação Amílcar Cabral, Cidade da Praia.

É uma co-produção entre a Bianda e a Fundação Amílcar Cabral.

O projecto é aberto a TODOS. Participem, actuando, criticando e sugerindo. Contactem-nos pelo e-mail abriaspas@gmail.com


Tema de Novembro: MISTURACÇÕES, Artes, Letras e Cia.
Dirigido por Flávia Ba

Existem textos literários onde outras artes se misturam e se cruzam, conferindo ao texto um sabor multiartístico. É esse mosaico que pretendemos descobrir e compreender. Ler um texto depois da audição de uma sonata, depois da análise de uma escultura ou das sensações provocadas pela visualização de uma pintura, podem auxiliar a leitura de uma obra, sobretudo se uma destas artes se entrecruzar nessa obra.

Flávia Ba nasceu em Lisboa, onde viveu até aos 24 anos. Aos 25 parte para a sua primeira jornada de trabalho no estrangeiro, Timor-Leste, onde exerceu funções de docente universitária na Universidade Nacional de Timor-Leste e de directora do Centro de Língua Portuguesa. Encontra-se actualmente a desempenhar as funções de Leitora do Instituto Camões na Universidade de Cabo Verde. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, é Mestre em Literaturas Comparadas pela Universidade Nova de Lisboa. Gosta imenso da leitura e da escrita...sobretudo de ler e (re)ler os outros.

Todas as Segundas, das 18h30 às 20h30, Fundação Amílcar Cabral, Praia


30.10.09

Semana Capital

O dia de ontem, 29 de Outubro, vai ficar ecoando no meu ouvido por vários dias, o fabuloso piano de Mário Laginha. Ele esteve solo, mas houve temas que quase ouvi a voz de Maria João, temas que eles criaram junto, em dueto, entre marido e mulher. Simpático, humilde e de uma sensibilidade que nos transporta para Keith Jarret ou Chick Correa. Houve um momento de improviso, ele batendo no corpo e nas cordas do piano que me lembrou um fabuloso disco de Chick Correa, com Miroslav Vitous e Roy Haynes, chamado de Trio Music. São os momentos em que apercebemos que nem todos os artistas são iguais. Uns fazem arte; outros se casam com ela.

Os clubes

Álvaro Ludgero Andrade despertou-me este post.

Frequentemente vejo grupos de homens, em praças, pontas de esquina ou em bares, a discorrer sobre a época futebolística. É impressionante a quantidade de informação que determinados deles tem sobre toda a indústria futebolística. Sabem de todas as aquisições, as transferências, os valores, os salários. Têm uma opinião muito bem formada sobre o sector, onde no mundo há mais oportunidades de negócio, onde os jogadores são bons e baratos. Têm até opinião muito formada sobre a forma como os directores desportivos devem agir, o que a empresa deviam adquirir e o que não. O que mais me impressiona na discussão do futebol é a fluidez de argumentação, só possível quando as pessoas estão "por dentro" da coisa.

O nível de participação futebolística, o nível de leitura de "A Bola", deve ser esmagadoramente melhor que o nível de participação na cidadania, sobre a vida pública, curiosamente sobre questões que nos afecta directamente. Se calhar porque, como disse Álvaro, desde que nascemos nos ensinam a ser de clubes, mas não nos ensinam a ser cidadãos.

Pertinente a observação Álvaro. Obrigado.

29.10.09

Frases hortelã

"Mesmo que sincero não fosse e que o esforço fosse doloroso, qualquer esforço para uma possível isenção nas análises é muito louvável e de extrema importância"
Hermano Silva, comentando o post "Soldadinhos"

Existenz

Um dia vamos poder discutir ideias em vez de clubes?

Soldadinhos

Os partidos têm soldadinhos. Do MPD é só vê-los por aí, frenéticos, repetindo discursos automáticos: o Governo está esgotado, o Governo está esgotado. É uma técnica bem conhecida: de tanto repetir uma frase, com fundamento ou sem fundamento, acaba por criar uma impressão. Tão aí: ora distribuindo convites para o lançamento do livro de Carlos Veiga, irritantemente publicitado na última edição do Expresso das Ilhas; ora travando uma batalha verbal com algum interlocutor; ora analisando entre eles os estragos que terá causado ao partido o último desaire radiofónico de João Dono. Eles são os soldadinhos. Têm blogs, publicam artigos nos jornais, vão à rádio e à televisão. Eles são jovens aspirantes a poder. Em princípio nada repugnável por aí, não fosse um determinado discurso desprovido de interesse real.

Mas, um momento, onde andam os soldadinhos do PAICV? Ah pois! Esses andam ocupados a ocupar os ramos do poder. Querem lá saber de sujar a figura embatendo-se com soldadinhos da Oposição. O chefe deles, o soldado Nuías Silva, mostra como se faz: é gestor da Casa do Cidadão (por si só um cargo do caraças!), é Administrador Não-Executivo (essa versão crioula de Job For The Boys) de 2 empresas públicas, é presidente da Assembleia Municipal de São Filipe, tem uma empresa própria e sabe lá mais o quê. Um pouco de moralização, por favor! A seguir a esse belo exemplo de serviços abnegados à pátria, há outros que estão distribuídos por aí, cada um numa teta estatal, e ainda há os que, estando os papás na mó de cima, dormem tranquilos.

Soldadinhos da mó de cima, vão dormindo na sombra do Palácio, que os da mó de baixo andam a urdir uma boa teia. Enquanto ustedes da Situação saem do gabinete climatizado, entram no carro climatizado e em seguida entram nas casas climatizadas, os da Oposição estão aí, na calçada da rua, que é onde bate o coração do povo.

28.10.09

Cinema Capital

Filmes excepcionais, fora do comum, não muito fácil de digerir, mas essenciais para a cultura de todos que se interessam pela arte cinematográfica. Com a presença do cineasta João Paradela, para um dedo de conversa depois dos visionamentos.

Notas políticas III

Uma forma de José Maria Neves acabar com esta sensação de "cansaço", "discurso repetitivo", "esgotamento de soluções", seria, digo eu, tomar determinadas medidas enérgicas, dando à sociedade um sinal firme e inequívoco de "novos tempos, novas respostas". Dessas medidas incluem, correr sumariamente com determinados ministros que gangrenaram os seus sectores. Como quer um Primeiro-Ministro convencer, quando os sectores da Cultura e da Comunicação Social tem os piores ministros desse Governo? Ou será que JMN despreza o poder desses sectores? Ou será que ele não se apercebe que a Cultura é uma indústria de inteligência e a Comunicação Social é a empresa distribuidora dessa inteligência?

Sem contar com uma infinidade de pequenos directores e outros tantos dirigentezinhos de m...que abundam por esse Estado fora, que esses sim, eivando a vida pública de uma lógica partidária virulenta. José Maria Neves sempre se posicionou como um pacificador das partes e poderá ser essa a sua derrota. Tendo em conta que (adivinho) a luta para 2011 será ombreada, o homem bem que podia aproveitar e mandar esses senhores para casa, tomar conta das clínicas ou escreverem os seus livros, porque dirigir a vida pública pede puro-sangue e elevação. Determinados homens, taxativamente, não servem.

Notas políticas II

De leitura pessoalíssima, aponto como um dos erros de José Maria Neves, não conseguir manter engajados os entusiasmos à volta da sua liderança, por parte de uma influente população. Dessa população que, mesmo não fazendo a militância partidária, participa activamente na política, comprando os jornais, ouvindo as notícias, acompanhando a Assembleia da República, conversando nas esquinas e bares, formados, inteligentes, com cargos de responsabilidades nos lugares que trabalham, pessoas essas capazes de influenciar outros tantos com menos articulação política. Aliás o próprio JMN reconhece essa lacuna, ao organizar encontros de emergência "com jovens quadros", como se pudesse inflectir determinadas opiniões em 2h de encontro e verborréia.

É claro que a massa populacional é o factor decisivo no momento do voto e os partidos naturalmente tem a tendência em se preocupar para que lado se balança, no geral. Mas não é de desprezar o estado de alma dessa minoria, no meio da população em geral, até porque no momento da campanha é o entusiasmo desse pessoal, repito, não necessariamente a fazer militância, mas tão somente em conversas de café, que pode fazer toda a diferença, porque uma coisa é certa, o embate Veiga-Neves vai ser cerrado.

Notas políticas I

Um dia, um dos meus home boys disse-me uma coisa que ficou a tilintar-me no ouvido: com a candidatura de Carlos Veiga ao MPD, muita gente vai se posicionar. Ora, dito e feito. Mas o que está de errado nisso? Nada estaria errado - porque a militância política é algo de se louvar, como a própria política é de se louvar - se esse posicionar não pecasse por atraso e falta de carácter. Com a candidatura de Carlos Veiga, acaba o pessimismo pelos lados do MPD quanto à sua liderança e, com a chegada de um novo chefe, isso acontece nas empresas também, muita gente corre a se declarar de confiança, disponível, prestimoso, serviçal, porque há uma voz que diz que, com Carlos Veiga, a retoma do poder pelo MPD é uma possibilidade forte. E se for, já lá estão os serviçais, prontinhos a sentar o rabo numa dessas instituições leiteiras do Estado.

27.10.09

Notícias perturbadoras



Hoje em dia a ameaça de morte é um acto banal nas nossas cidades. Assassinar é igualmente banal. Tenho medo, tenho muito medo que, com o andar das coisas - as desigualdades, o crime e a corrupção a andarem soltos, a falta atroz de civismo, a violência verbal, a falta de firmeza do Estado e mais outras coisas - estejamos a construir um país de má fama. A paz e a estabilidade não são coisas eternas; nunca foram.

26.10.09

Dia Capital

Hoje foi um dia extraordinário, por isso aqui vai um post extraordinariamente (quebrando as minhas próprias regras) longo.

Há dias que são para esquecer, mas há outros que são para registar. Hoje foi daqueles. Tive ao longo do dia conversas que valem conferências. Comecei por fazer parte de uma corrente de e-mails que se entitula "cabo verde tem doutores a mais?". Não tive paciência para esmiuçar o rol de opiniões que estiveram por detrás de tão estranha pergunta, desde o seu emissor original até aos actuais, porque acho que realmente é uma pergunta estranha. Quem foi a pessoa que teve a ideia de chamar ao licenciado de "doutor"? Pois que causou um grande problema de egos e de confusões. Pois que licenciados, vão àquela parte, aprendam uma profissão primeiro e aprendam a ter o coração nessa profissão antes de estarem aqui com doutorices. Que os verdadeiros Doutores, a esses ninguém lhes dá o respeito devido. São pouquíssimos, digníssimos e discretíssimos. Aos doutorinhos, sinceramente!...Reponho a pergunta: "cabo verde tem doutorice a mais?"

À hora do almoço, com outras da pessoas que me ensinam coisas, decorreu uma outra conversa interessante, das perspectivas interessantes da nossa Política Cultural (que não existe). Uns são mais tradicionalistas e acreditam no lema "finkadu na rais" (as frases extemporâneas do nosso magnífico Ministério da Cultura); outros são mais cosmopolitas e são apologistas da "antropofagia" (no sentido cultural usado pelos modernistas brasileiros) e defendem que, aceitar tudo o que vem de fora e tentar estar lá fora, participando das correntes da arte contemporânea, que nos vai passando ao lado, seria uma forma de desencravar a nossa Cultura do profundo conservadorismo que insiste em ficar. Sou dessa corrente. Um povo com a unidade linguística que temos, que canta tanto a sua terra, que se ama tanto, não corre perigo de alienação. Chega de tradição! Vamos, sem medo e timidez, perceber o que está o mundo a fazer e vamos fazer!!!

A conversa ia intensa, mas as horas são implacáveis. Depois do almoço, o cafezinho num dos recantos mais agradáveis desta cidade, a livraria Nhô Eugénio, e lá encontro outra cabeça inventora, de testa franzida e caderno na mão, pensativo, que me sai com esta frase: "a riqueza (a busca da) é um acto de empobrecimento". Depois ele lá construiu toda uma teoria à volta disso e ficou de apresentar uma tese mais conclusiva. Ainda conheci um escritor que vai lançar um livro na sexta, às 18h30, no CCP/IC, que tem um blog com um título curioso: Poesia Distribuída na Rua e dali saquei um poema de José Miguel Silva, entitulado "Morangos Silvestres - Ingmar Bergman" (título, precisamente, de um dos filmes de Ingmar Bergman), que tem tudo a ver com o post de hoje:

Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.

Depois do trabalho, na mesma livraria do meu coração, por duas horas ouvi um andado jornalista e um andado economista, discorrendo sobre literatura, sociedade, economia e política. Tive a oportunidade de meter a minha colher, estando a viver um momento em que, são os da minha geração que vão fazer os combates, vão estar em posições-chave e vão tomar as decisões deste país, para a nossa alegria e para a nossa tristeza. Toca-me profundamente a questão das juventudes partidárias, porque estão a perder a oportunidade de fazer uma política baseada em outros princípios que não são, nem os do velho Veiga, nem os do novo Neves, que não consegue dar combate às velhas lógicas deste país.

Enfim, hoje ouvi tanto e pus-me a pensar: o que nos falta não é dinheiro; o que nos falta é usar toda a força da nossa inteligência para transformar a nossa própria maneira de estar e viver. Nada é dado por concluído; concluímos a cada dia.

Concerto

O magnífico Mário Laginha, conhecido pela sua dupla com Maria João, na Praia, dia 29, 21h15 no auditório do CCP/IC. Desta vez a solo. Será certamente um grande prazer rever a arte deste virtuoso pianista.

Índice de Desigualdade

Ora pois. Cabo Verde cresceu. Temos ao longo da nossa brevíssima história, enquanto país soberano e independente, um ritmo de crescimento económico verdadeiramente surpreendente. O que é notado e elogiado a nível internacional, para gáudio de todos, pois claro. Mas também temos sentido que, à medida que crescemos economicamente, aumentamos o fosso social. Entre os países com língua portuguesa, os Luso-G8 (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, S.Tomé e Príncipe, Timor) partilhamos o pódio da desigualdade com Angola e Brasil, que todos sabem tratar-se de países altamente desiguais, em 3º lugar, com mais de 50 pontos do Índice de Desigualdade. Ou seja somos mais desiguais que iguais. Grande motivo de orgulho!

Em termos rascas, alguns andam a meter a mão no bolso de outros. Ou, alguns andam a distribuir a renda só pelas suas aldeias.

Fonte: A Semana online, aqui

25.10.09

Tarantinologia

Quentin Tarantino é definitivamente, como um crítico já o chamou, a Nouvelle Vague de hoje. Os seus filmes chegam a parecer um jogo de violência gratuita, mas na verdade são discursos muito próprios sobre a natureza humana, sobre o poder pela violência, a brutalidade e os amores em situações levadas ao extremo.

Saí do cinema após ver Inglorious Basterds atingido por um raio, da mesma maneira que saí quando vi Pulp Fiction. Uma pessoa entra com uma série de idéias pré-cozinhadas - 2ª guerra, Hitler, nazismo, etc. - e sai com um experiência completamente genial de narrativa, de imagens, de sons, de interpretações magníficas, de decórs, de pequenos detalhes e, sobretudo, de um ponto de vista inusitado, ousado, elaborado. Tarantino define-se como um escritor. Para mim, ele é vários artistas ao longo do processo: é um exímio escritor quando escreve (os diálogos continuam a ser a sua assinatura, como em todos os outros filmes); é um grande fotógrafo quando compõe os quadros; é o máximo a dirigir actores; é um músico culto e vasto quando escolhe a trilha sonora. Enfim, como David Lynch (outro dos meus monstros sagrados), não há nenhum aspecto da arte de fazer filmes que Tarantino não saiba fazer ele próprio e com uma maestria que constitui escola para qualquer aspirante a fazedor de filmes.

A colecção ganha corpo e peso: Cães Danados, Pulp Fiction, Kill Bill 1 e 2, Jackie Brown, Prova de Morte, Inglorious Basterds...um por um, objectos de culto.