20.2.10

Dulce Almada

Deu-me de falar dela.

Não é interessante notar que, uma senhora que tanto sacrifício fez para a independência do seu país, academicamente especializada numa área que tão exasperadamente precisamos, a Linguística, esteja a viver longe da sua terra, como que num exílio pós-Indepedência? O que é preciso dizer a esta senhora para que ela venha continuar a sua luta aqui? Ou acham que a luta de emancipação terminou? Não veem que a questão da língua materna/língua está impregnada de complexos coloniais? É só aprofundar-se um pouco na nossa história recente para perceber isso.

E casos desses continuam a suceder-se. Quanto caboverdianos brilhantes temos espalhados pelo mundo, só porque aqui não lhes dão...estima. Pois muitas vezes estima é a maior das retribuições. Mas enfim, creio que faz parte da nossa idiossincrasia sermos ingratos.

19.2.10

Sexta,Capital

A qualidade artística do Carnaval da Praia é de bradar aos céus! Não sei quando vamos chegar à conclusão que a arte é algo que se ensina desde a primeira infância, há cursos, é uma profissão honrosa como outra qualquer e é por demais necessária.

A artista plástica Luísa Queirós, que não me canso de declarar-lhe a mais profunda devoção artística, denuncia o roubo de peças do antigo Centro Nacional de Artesanato. Ora, como se as autoridades não soubessem disso! Aliás, o que é de crime contra o património nesta terra!....

Anuncia-se o Sistema Nacional da Qualidade (SNQ). Bem, isso da Qualidade é uma dimensão que não temos de todo e falta-nos cruelmente. Vamos lá ver se o próprio SNQ tem qualidade ou é mais um desses diplomas para constar.

Bom FDS, com a cervejinha da praxe.

Min.Cultura/IPC convidam...

Inscrita nas actividades comemorativas do dia internacional da língua materna

Palestra:
«Educação bilingue e a implementação da biliteracia e o ensino da leitura e da escrita em cabo-verdiano»

Oradora: Prof.ª Doutora Dulce Pereira, Coordenadora do projecto «Turma Bilingue Português-Cabo-Verdiano» (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa/ ILTEC)
Local: Campus do Palmarejo (Auditório)
Data: Sexta-feira, dia 19 de Fevereiro de 2010
Horário: 16h00
Destinatários : interessados no ensino bilingue; estudantes da Uni-CV; docente; mestrandos; sociedade civil em geral

e

Mesa-redonda:
A importância da valorização da língua materna em diferentes perspectivas”

Oradoras: Dulce Pereira, Coordenadora do projecto «Turma Bilingue Português-Cabo-Verdiano» (FLUL/; Ana Josefa Cardoso, Professora da língua cabo-verdiana; Amália Faustino, Mestre em Língua e cultura portuguesa; Adelaide Monteiro,Linguista, IIPC
Moderador : Danny Spynola, Escritor em língua cabo-veridana
Local: Biblioteca Nacional
Data: Sexta-feira, dia 19 de Fevereiro de 2010
Horário: 18h00
Destinatários: sociedade civil

18.2.10

Quinta,Essência

Por falar em língua materna, lembra-me Dulce Almada, uma das personalidades mais importantes de Cabo Verde, um pouco esquecida, nessas voltas que a história dá.

Dulce Almada é, depois de Amílcar Cabral, das maiores, senão a maior, figuras da luta da emancipação do povo de Cabo Verde. Propositadamente não digo "luta de libertação" porque a luta que Dulce Almada fez, junto com Amílcar Cabral, foi muito mais do foro intelectual do que militar. Esta mulher teve um passado fulgurante e no entanto para as novas gerações, incluindo a minha, é um nome vago.

Dulce Almada fez os seus estudos em Filologia Românica, mas cedo entrou na luta clandestina, fugindo constantemente da perseguição da PIDE, vivendo a duras expensas no exílio, vivendo em diversos países, desdobrando-se em mobilizações e palestras, tendo ainda tempo para gerar dois filhos, que também criou debaixo de sacrifício e de medo, e arranjando maneira, como dava, para encontrar o marido, Abílio Duarte, que também viveu duramente na clandestinidade, mobilizando e desencadeando ações para a luta. Dizem que Dulce Almada só não foi um alto dirigente do PAIGC porque era...mulher. E no Cabo Verde independente não assumiu nenhum alto cargo de direcção, que não sei se será por opção própria ou por machismo puro. No entanto ela dedicou-se muito à questão da língua materna caboverdiana, essa dama que ainda sofre dos mais altos preconceitos.

Dulce Almada foi a PRIMEIRA PESSOA, em 1962, que discursou perante a ONU, reivindicando a independência de Cabo Verde. A seguir Amílcar Cabral faria o seu discurso.

...Continuamos a ser um povo terrivelmente ignorante da sua história. Chego a pensar que essa ignorância é propositada, pelos que se sentem diminuídos pela própria história.

16.2.10

Terça de Entrudo

Fico cada vez mais impressionado, à medida que vou aprofundando os meus conhecimentos disso, com o nível de vida social e cultural que se viveu no Mindelo durante a 1ª metade do séc.XX. Mindelo era como uma "Havaninha" para os governantes portugueses e as "forças vivas" locais. Mindelo não se assemelhava a nenhuma outra localidade em Cabo Verde. Desenvolveu notáveis figuras nas letras e nas artes. São famosos os clubes e as festas. Até os governadores colonialistas perdiam-se de amores por Mindelo e os seus encantos.

Nessa óptica, a entrada do PAIGC no Mindelo, na data da Independência, assemelha-me à entrada de Fidel Castro e Che Guevarra em Havana. O fim da belle époque da burguesia luso-caboverdiana. Ora neste sentido, pode-se compreender a animosidade contra os "revolucionários" de uma determinada classe de pessoas, e ainda hoje um culpar do PAIGC do desaparecimento dessa way of life.

Ora, caro amigos, concidadãos, patriotas ou não, sejam de que raça forem de caboverdino, uma coisa é certa: a minha cidade do Mindelo viveu coisas magníficas, de que lhe ficou de herança o cosmopolitismo; o problema dessa moeda é que no reverso a maioria na população, das "fraldas" do Mindelo e do resto do arquipélago, era miserável e ignorante, morrendo à fome e às doenças. Ou seja, não tinha como manter aquilo.

Agora aproveitemos das heranças boas, em que o Carnaval é uma das mais alegres, boémias, divertidas e reveladoras. Hoje mais do que chorar o passado, podemos é juntar todos os bons atributos que temos e procurar novos ares, de bandeira desfraldada nos ares, idealmente levada por uma bela porta-bandeira.

15.2.10

En passant

"Já se viu que o Tribunal de Contas não tem pedalagem para desengrenar a ferrugem da máquina de prestar contas."

Apetece-me perguntar: quem é na verdade o Tribunal de Contas? O que faz da sua vida? Quem lhe vigia o cumprimento do seu papel? Alguém se importa se esta instituição existe, se não, se está vivo, morto, competente ou incompetente? E no entanto é uma instituição fundamental. É a máquina de prestar contas do Estado, precisamente.

14.2.10

Segunda,Intenção

Quando se proibiu a igreja de continuar a lecionar, mandando encerrar o seminário de S.Nicolau, o arquipélago foi lançado num vazio de ensino. Por iniciativa de um grupo de cidadãos, liderados pelo senador Augusto Vera-Cruz, foi criado em 1917 o liceu Infante D.Henrique, instalado na residência do próprio senador, em Mindelo, onde hoje funciona o Museu de Arte Tradicional, que este cedeu, indo morar noutro local.

Silvino Silvério Marques, governador de Cabo Verde de 1958 a 1962, com a missão de debelar as graves crises que assolavam as ilhas, conduzindo à míngua milhares de pessoas, introduziu um enérgico plano de obras públicas, com o intuito de gerar emprego e rendimento para as famílias. O saldo desse plano é notável: concluiu o cais do Porto Grande; construiu os aeródromos de Praia, Mindelo, S.Nicolau, Maio e Boavista, a central dessalinizadora do Mindelo, escolas primárias, o liceu e o Palácio da Justiça da Praia. Do ponto de vista cultural, promoveu uma mesa redonda sobre o homem caboverdiano, de onde saiu a publicação de duas obras de referência: Antologia da ficção caboverdiana e Antologia dos modernos poetas de Cabo Verde.

Alves Roçadas, governador de Cabo Verde de 1943 a 1953, é descrito como um humanista. No seu governo passou a ser publicado o Boletim de Cabo Verde, receptáculo de escritos de vários intelectuais e poetas caboverdianos. Elaborou o "Plano de ressurgimento de Cabo Verde" onde propunha mudanças de fundo na política para as ilhas, plano esse totalmente ignorado por Salazar.
[fonte: Cabo Verde, Os Bastidores da Independência, de José Vicente Lopes]

Exemplos de personalidades da nossa história que, embora afectos ao Estado Novo de Salazar, foram seduzidos pelo "povo das ilhas" e tentaram implementar acções que melhorasse o estado de abandono que o colonialismo português votou estas ilhas, findo o comércio criminoso de escravos. Utópicos que tem um ponta de "culpa" na emancipação do nosso povo.

12.2.10

Sexta,Capital

"Debatemos questões reais, como a língua, dominação cultural, a independência e certos graus de complexo? Começamos pela língua e dominação cultural."
Rony Moreira in comentários ao post Pai,Filho,Espírito

Por falar em língua, dos pontos que mais me sensibilizam, considero que as autoridades de hoje, gerindo o dossier de forma patética como tem gerido, estão em dívida com a história. Leiam o comentário na íntegra do Rony. Efectivamente a língua joga um papel importante, se não o mais importante, na colonização mais recente. Abolida a escravatura, o poder que os homens tinham de aprisionar e forçar a trabalhar outros homens, como se de animais domésticos se tratassem, a dominação passou a ser económica e cultural, fazendo crer ao colonizado que ele era de cultura inferior e que ele, o colonizado, tinha as respostas para os seus problemas. Quantas vezes a brincar não dizemos: "isto é bom, foi branco que fez!"

A questão pois não é discutir o que os nossos antepassados terão feito, se um ofendeu o outro, se o outro fazia isso e mais aqui; a questão agora é: e nós?

11.2.10

Quinta,Essência

Fazendo eco da última frase do livro de António Tomás, "O Fazedor de Utopias": afinal, do que serviu a guerra da Guiné, por longos e tortuosos 10 anos? Será que hoje, depois de tudo, existe um sentimento na Guiné de todo-pátria, ou agravaram-se as clivagens étnicas? Será que os países terceiros continuam o seu jogo sujo de deitar pólvora neste país-mártir? Sim, é de perguntar, qual tem sido o papel da Comunidade Internacional na Guiné-Bissau.

E nós, que ganhamos uma liberdade de mão beijada, que nem a queríamos, o que pensamos de tudo isso? Será que percebemos que a luta de Amílcar Cabral ultrapassou os campos de batalha e criou uma agenda de questões profundas? Será que percebemos, por exemplo, o alcance do pensamento que diz que a luta de emancipação dos povos é uma luta cultural?...Não me parece.

Uma coisa é certa: os campos ainda fumegam, as feridas ainda sangram e as mentes ainda deliram.

9.2.10

Pai,Filho,Espírito

"...tanto o CPLP como o Instituto Camões servem de condutores e suportes institucionais na reformulação do passado colonial que circula com a designação de política da língua portuguesa, ou simplesmente lusofonia."
António Tomás in O Fazedor de Utopias

Se isto não é uma opinião forte e polémica, outra coisa não é. António Tomás, enquanto que académico, doutorando, tem um escrita eivada de uma indisfarçável emoção revolucionária. Será pecado?

Não concordo taxativamente com esta opinião de "condutores e suportes institucionais na reformulação do passado colonial", embora reconheça gestos saudosistas nestas instituições. Sou do tipo que sabe que houve o Pai colonialista, o Filho colonizado, mas que sabe também que hoje existe uma herança humana, o Espírito, de onde se pode extrair um mundo novo, combinações inúmeras, campos inexplorados, valorizações imensas, que todos saiam melhores. Mas temos de agir também. Já chega desta africana-apatia.

8.2.10

Segunda,Intenção

"...os fidalgos compondo a expressão para que ela exprima, ao mesmo tempo, o respeito devido a príncipes, o enternecimento pela pouca idade que é a sua, a devoção pelo santo lugar que em cópia ali se mostra, tudo isto numa cara só, e tudo concordando, não é para admirar que pareçam estar sofrendo de uma dor oculta e talvez imprópria."
José Saramago, in Memorial do Convento

Digam-me se isto não é pintar um retrato com palavras!...Quando a literatura chega a reproduzir os 5 sentidos e demais, é quando percebemos que estamos perante um grande escritor.

5.2.10

Sexta,Capital!!!


A notícia não podia ser melhor. Está confirmado o KRIOL JAZZ FESTIVAL 2010!

O lançamento do site do festival decorrerá hoje, às 18h30, no salão nobre da Câmara Municipal da Praia

Está de parabéns a CMP, Tober, Ulisses e toda a equipa, por acreditar e realizar. Sempre digo que o fazer está no querer fazer...e saber o que fazer, claro.

Sétima.Arte.CV

Estou ansioso para ver este projecto. Mando a maior força para o meu amigo, um homem importante em Cabo Verde, embora de uma descrição impressionante, Fonseca Soares, Tchá para os chegados. Mando também forças para o resto dessa malta das artes cénicas do Mindelo, que tem por vocação, amar a vida.

A distribuição dos bens culturais é que continua uma lástima. Lembro-me de um excelente documentário, de produção espanhola que vi na Praia, que nunca mais se vê, se pode comprar, ou coisa que seja. E no entanto essas coisas correm festivais do mundo.

A este propósito, conversava com José Luiz Tavares, um poeta de alta gabarito, premiado internacionalmente, mas de distribuição sofrível aqui em CV.

Até quando políticas culturais incompetentes?

3.2.10

Poesia


Coube-me a elevada honra de ser um dos apresentadores desta opulenta obra.

Quinta-Feira, 18h, Salão Nobre da Câmara Municipal da Praia

Não é fácil ler José Luiz Tavares, mas se não tentarmos nunca haveremos de entrar no seu mundo de rebuscada poesia e filosofia. Mas uma vez entrados, a experiência da poesia de JLT é uma bombástica catarse. Alimento espiritual.

2.2.10

A Ditadura do Presente

Está aberta a polémica. Desencadeada obras de requalificação de estradas e esgotos na Cidade Velha, ter-se-a deparado com uma cidade ainda mais antiga, dos antigos senhores, uma cidade de luxo. António Correia e Silva, em artigo num jornal, chama a atenção pela extraordinária importância que estes achados têm, para a nossa história em si, a fim de percebermos melhor os nossos genes, mas também para a manutenção do estatuto de Património da Humanidade, que nos foi dado a crédito e há que justificá-lo, mormente com provas materiais a reforçar o seu inegável valor imaterial, quanto não seja para ter um sítio histórico dotado de mais coisas para turistas verem, já que é o discurso que mais fazemos, Afinal quanto isso vai nos render?

Por outro lado a Cidade Velha, com as obras ficou um caos. A população reclama. As tais estradas que eram para serem feitas, podem não ser feitas em favor da ciência. A população, esta que tem necessidades imediatas e estão entregues a um jogo político-partidário longe de ser inocente, reclama, querem mais é a sua estrada, que essas pedras do passado, em termos práticos não acreditam que vá mudar a sua vida. O presidente de câmara é uma figura que tem que renovar a sua legitimidade de poder, dia por dia, e pode simplesmente ir pela via de, faz-se a estrada, o património que se lixe.

Lidar com o presente é lixado. É urgente. É uma ditadura, nas palavras de Correia e Silva, historiador.