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3.6.10

Quarta,Parede

Fez-se um apinhado de gente à frente do tribunal. Roubaram-me tudo! Repetia a gritar uma dona, a população fazia coro, Bandidos! Só bandidos! Foram engrossando a romaria os curiosos. Era meio da manhã, bem no centro da cidade, o Supremo Tribunal da Tribunal. Depois veio o carro-jaula da polícia num grande estrilho, com sirenes ligadas. Primeiro saíram da jaula dois gorilas fardados, com coletes à prova de balas, as boinas de lado, no estilo de comandos, a cara fechada e os músculos a abarrotarem-se dentro das fardas. Depois saíram os acusados, três indivíduos, altos, largos, pretos, cheios de dedos de mãos, duros. Nigerianos.

A Nigéria já foi terra de imponentes reinos e impérios. Povos de guerras e comércio. Zona de batalhas titânicas. Lugar que pariu as melhores peças para a escravatura. Pretos fortes, possantes. Foram presos para serem apresentados ao tribunal, três nigerianos. Deu no telejornal da noite, Três indivíduos, entre os vinte e cinto e os trinta anos, de nacionalidade nigeriana, foram finalmente capturados, após quatro meses de elaborada investigação, por roubo de animais, principalmente galinhas e cabras. Iam a amotinar a população, quando os meliantes foram tirados para fora do carro-jaula. A polícia de intervenção teve de intervir. Estava armado a confusão. Cada um queria vingar as suas galinhas e cabras. Um homem ficou sem uma vaca inteira. A outro subtrairam algumas ovelhas. Os camponeses, a maioria das quintas dos arredores da cidade, de vida baseada no gado, estavam destroçados, pelas perdas em negócio, mas muito por sentimento aos bichos.

Chamado a prestar declarações, o chefe da polícia enfatizou o trabalho exemplar dos seus homens, a maneira rápida e eficaz como foram efectuadas as prisões e o sangue frio necessário para acalmar a população, cumprindo cabalmente o papel da polícia na manutenção da ordem social. Esses indivíduos violaram gravemente as tradições do povo e as leis do país, pelo que devem ser expulsos. Aqui ninguém mexe com a alimária dos outros.


5.5.10

Quarta,Parede

Eram meninos, não inimigos. Meninos nunca são inimigos. Na parte de manhã andavam na mesma escola. À tarde, depois dos trabalhos de casa, brincavam na mesma rua, tranquila nesse tempo. Francisca era assim, uma planta frágil que se tinha de regar, endireitar e tirar as folhas secas a toda a hora. Corriam livres, faziam jogos, inventavam. Era Nuka quem sempre vencia, decidia e batia em Francisca por qualquer motivo, porque ela caia, errava no jogo, dizia uma parvoíce, porque apetecia-lhe, por tudo. A pequena Francisca chorava. Mas tinha Kiko que lhe amparava nos grandes braços e peito. Kiko investiu-se da missão de estar ao seu lado a vida toda, até hoje, casados. Na rua afastava as pessoas, distraídas ou malvadas, que vinham embater-se nela, na escola defendeu-lhe o melhor que soube, de Nuka e de todos.

Cresceram assim, na rua do restaurante de Dona Anastácia, mãe da Francisca, onde também trabalhavam a mãe da Nuka e o pai do Kiko, ela empregada de mesa, ele guarda e faz-tudo. Dona Anastácia, a patroa, era uma personalidade imponente e generosa, apesar da enfraquecida filha. Ajudou os meninos como se tratassem os três de seus próprios filhos, mas tinha especial admiração por Nuka, pela firmeza do seu corpo de menina criança, pela sua pele cor de café, até perecia que herdara a firmeza dos seus olhos e não os da mãe. Mas um dia, Nuka, por alguma razão, tinha sovado severamente a sua Francisca. Acabou a bondade. Dona Anastácia parou tudo à sua volta, cuspia fogo, quase arrancava as orelhas à pequena Nuka, brigou por mais de vinte minutos, Nuka foi se esconder atrás da saia da mãe, muda e impotente. A patroa que tinha fingido por muito tempo não reparar no abuso permanente à sua pequena, não teve outro remédio senão correr com elas dali para nunca mais.

Francisca passou a gerir o negócio depois da doença da mãe, doença de arrependimento. Francisca revelou dotes de empresária após o curso. Fez crescer o restaurante, hoje lindo e reputado. Emagreceu toda. Dizia-se que era a roupa que estava de pé. Os olhos afundaram-se em olheiras escuras. Foram vários anos, muito mudou, e um dia Nuka entrou no restaurante de mala na mão. Estavam no expediente, Francisca a distribuir as ordens e Kiko, sempre ao lado, como que em eventualidade dela cair. Kiko foi apanhado de surpresa pela repentina aparição de Nuka, não se conteve de contentamento e foi recebê-la num asfixiante abraço. Francisca um passo atrás, indecisa, sorriu de esgar. Nuka vinha à procura de emprego. Francisca sorrindo mais um pouco, não disse palavra, aguardou que ela implorasse finalmente, Por favor Francisca, preciso.

28.4.10

Quarta,Parede

Mãe, isto é como na escola? É, mais ou menos. Aquele homem é como o professor? Porque pensas que é como o professor? Manda calar, manda calar!... Sim, deviam estar calados. Mas eles não param de falar e cochichar e rir. Falta de respeito! Lá na escola quando falamos muito a professora nos ralha. Aqui não. Porque não? Porque são malcriados. Mas são crescidos! São mal-educados. Não foram para a escola? É, parece que não. Mãe, estão a brigar?

Silêncio na plateia! São lembrados os que estão na plateia que não são tolerados quaisquer perturbações à sessão, faz-se o mais absoluto silêncio ou serei obrigado a mandar evacuar a sala!

Faça o favor de continuar, senhor deputado.

21.4.10

Quarta,Parede



Por hora e meia Marciano tinha estado mergulhado no livro, Pensamento Estratégico, de conhecido autor. Tirou a cabeça de fora e disse para a mulher, Mulher, vou ser presidente da república! A mulher, Luíza do nome, suspendeu o minúsculo pincel de frasco de verniz, tinha os dedos de um pé arreganhados por pequenas esponjas separadoras, enquanto iniciava a pintura do terceiro dedo do outro pé, com cuidado, exclamou seco, sem esforçar muito a expressão para não estalar a máscara de argila que lhe cobria a cara toda, O quê?! Vou ser presidente da república, repetiu em tom reconfirmante.

Ora, presidente da república seria o desfecho lógico de todo o seu percurso político e enquanto destacado membro da sociedade. Deputado da nação por vários anos, presidente da associação de pais na escola do seu filho menor, representante dos trabalhadores na sua empresa, dirigente desportivo, membro activo da campanha “dignidade aos gatos e cães de rua”, bom vizinho, amigo de todos, logo ambição natural. Achas que deva cortar o cabelo? A voz da mulher vinha da casa de banho ao lado, escorria água no lavatório. Luíza apareceu no quarto desmascarada e a sorrir. Preciso de roupas novas, vasculhou o guarda-roupa. Vais ser a primeira-dama mais bonita que este país já teve! Alegrava-lhe ver a mulher entusiasmada.

Apareceu no emprego de gravata, camisa e calças perfeitas. Cumprimentou a gente do trabalho, uma por uma. Ninguém deixou de comentar, ver, ou cochichar. Calmamente passou as mesas todas e foi se sentar no seu canto, triunfal. Pegou no telefone antes de qualquer expediente e fez questão que a conversa com o chefe do partido fosse audível. Compreendo, compreendo, repetiu quantas vezes, diminuindo a voz aos poucos. Fez uma cara séria por momentos depois de desligar, mas logo recompôs o sorriso inicial. Foi tomar o café diário no bar ao lado, não dispensando os apertos de mão generalizados. Constatou que lhe faltava material de campanha. Nessa noite desenhou e imprimiu, a rabugenta impressora, vários folhetos dizendo, candidato independente à presidência da república e enumerando os princípios básicos da sua candidatura. Recolheu no trabalho, na escola, no clube e em todo o lugar as assinaturas requeridas. Votarão em mim? Votaremos sim, claro. Enfeitou o carro de cartazes e seguiu convicto. Só não tinha calculado que tivesse que se deslocar a todas as ilhas de avião, facto que podia prejudicar a campanha. Fez fervorosos apelos pela rádio e pela televisão. Mandou e-mails, abriu um blog. Apesar das tendências apontaram para uma retumbante derrota, manteve-se crente até ao fim. O anúncio dos resultados finais da votação deu-lhe quinze votos. Calou a rádio e a televisão, nem a mulher, ou os filhos arriscavam tecer comentários. Ficou assim a noite toda a sede da sua campanha, a sua própria casa.

Apareceu no emprego de gravata, camisa e calças, igualmente perfeitas. Cumprimentou a cada um, não escondendo a tristeza. No entanto, tinha pegado o hábito de lhe chamar de senhor presidente, o que lhe soavam bem e o fazia sorrir de novo. Foi se sentar no seu canto, triunfal.

13.4.10

Vereação

O Vereador estava vestido como deve ser, roupas de gabinete, e tinha as mão cruzadas atrás das costas, em gesto de não interromper quem fala.

Uma mulher interceptou-lhe o caminho entre a saída da Câmara Municipal e o destinho que ía seguir. Deu-lhe beijinhos. O Vereador sorriu, colocando-lhe uma mão paternal nos ombros, Salve! Como está? Estou bem Vereador...olhe tenho aqui um assunto. Foi tirando papéis da bolsa, dois ou três maços, segurou um com o queixo, enquanto esfolhava o outro, começou a bater com o dedo num parágrafo, e num passe, trocava o maço que tinha segurado com o queixo para uma mão e outro para debaixo do braço, não perdendo a linha, continua a mostrar parágrafos,percurtindo os dedos no papel. O Vereador recolheu as mãos paternais para atrás das costas, fechando devagar o sorriso, como que evitando qualquer interrupção na convita debitação de palavras da mulher, que não se ouvia de longe, mas que se adivinhava nas rugas da sua testa. Não sei, acho que ela terá mesmo tirado uma lágrima. O Vereador a olhava quase lhe vendo o interior dos olhos, abanando a cabeça como fazem os padres.

Talvez o Vereador chege em casa e conte à sua mulher do ocorrido, após todos os arranjos domésticos, banho, jantar, TV, e já trocando as intimidades da cama. Talvez demore mais minutos a dormir hoje. Provavelmente irá se lembrar em especial da mulher, daqui a uns anos, no momento de distribuir lotes de terrenos, sacos de cimento, ou ferro, em campanha.

30.11.09

Segunda-Versão

Aguardou que tudo se acalmasse, a televisão, os pratos, os meninos, os carros que passavam na rua, aguardou fingindo dormir, rezando por dentro, a pedir a deus que a perdoasse o pecado ao aceitar aquele pequeno pedaço de papel, que viu de soslaio tratar-se da palavra satânica, mas que não teve forças para esconjurar quem assim a pôs em contacto com o diabo, e em vez disso, como que arrebatada de paixão, guardou o pequeno anúncio, despachou as horas do dia, fez o almoço, deu de jantar à família, lavou a loiça, deitou-se cedo e aguardou que tudo se acalmasse. Enfim só os roncos da casa, pode tirar o papel, fazendo ainda uma pausa para avaliar o impacto junto a deus de uma tal incursão, assegurando-lhe que continuava devota e temente, mas que talvez ele quisesse que ela procurasse alternativas, que talvez ele não se importasse com um certo grau de desvio, assim a sua vida fraca e desesperada a obrigava. Leu.

MESTRE CURANDEIRO, que pode resolver todos os seus problemas seja qual for, tais como: encontrar trabalho, viagem, visto, inveja, pressão alta, quer ter filhos, dor de coluna, homem com problema de tesão, faz mulher voltar para homem que separa e o contrário, cura mulher com problemas vaginais, mulher que não consegue sentir prazer com homem, venda de propriedades, aumentar as vendas nos seus negócios, separação de amantes do seu marido, problemas espirituais e quaisquer outros problemas na sua vida…Resultado em pelo menos em 24h.

As palavras tesão e vagina irromperam-lhe um calor avassalador nas faces, sentiu-se húmida sem controlo do corpo, precipitou-se para o quarto de banho, depressa antes que pudesse estar possuída de loucura, chorou, lavou-se, continuou em cascatas de lágrimas para mais uma boa metade da noite, lamentando a sua sorte, a ausência dos odores do seu homem na sua pele, os odores de outras mulheres que era obrigada a respirar tantas noites seguidas, chorou até de madrugada. Mal pode dormir, levantou-se antes de todos como sempre, fez as preces, o pequeno-almoço, deu de comer a marido e filhos, que partiram para as suas vidas, sem sequer reparar que os seus olhos eram buracos ainda mais cavados.

25.11.09

Quarta-Parede

Há anos que tento psicoanalisar-me a ver se descubro as raízes do meu nervosismo que cresce com a aproximação do Natal. Talvez se explique pelo facto de o considerar um tremendo de um embuste, ou muito provável é que me irrite solenemente as correrias às compras e as enxurradas de dinheiro que, por mais que se evite, acaba por extraviar-se e invariavelmente resulta em diarreia e desarranjos digestivos, ou de certeza é que me chateie um determinado novo-riquismo deficitário de autênticos valores de família, amizade, verticalidade de carácter e observância de princípios.

Seja qual o factor determinante por este sensível incómodo natalício, certamente também estarão incluídas as lembranças de outros natais, quando a família devia estar unida e não estava, ou os diferendos entre as pessoas deviam estar sanados e não estavam. Em vez disso tratamos de nos esfalfar para conseguir a que preço estiver, aquele bacalhau que vem lá da Noruega, para depois ganhar acréscimos comerciais em Portugal, para finalmente chegar aqui. Nesta altura as importações do país, já de si graves, devem disparar para níveis próximos do ridículo.

É também o tempo que me impressiona, sempre impressionou desde menino, como os pobres, miseráveis, doentes e tristes, ficam ainda mais expostos na sua má sorte e deprimidos, mais à margem que ficam de uma competição com capa de fraternidade e amor. Juro que tenho uma raiva estrutural pelo Natal.

Mas também sou pai e a porca torce o rabo. À medida que a minha menina cresce e passa da ignorância total em relação a essas matérias, ao fervoroso desejo de ter coisas, sinto-me dragado para esta feira de vaidades, impotente, como quem não pode lutar contra correntes marítimas fortes. Involuntariamente, através do mais que legítimo desejo dos filhos, que não é mais a compilação dos nossos próprios desejos, perpetuamos o sistema, como animais que se enfileiram para um sacrifício, ignorantes do seu destino.

Natal é o tempo em que o faz-de-conta eleva-se ao quadrado, ao cubo. Cada um deve arranjar formas de demonstrar a todos, que está de perfeita saúde financeira, quanto mais enfeites melhor, que se rala pela união da família e da sociedade, nem que isso tudo se esfume logo depois.

19.11.09

Quarta-Parede

Furtado é um crápula!, rasgou este raio a calmaria da tarde na esplanada. Que dizes, mulher? A esplanada é a proa de um barco em pedra. As amigas pararam de súbito a música que faziam tilintando o gelo nos copos de whisky, não repararam que ela começara um choro miúdo, perdidas que estavam na distância do horizonte. Que dizes, mulher? Que Furtado é um crápula, agora em pingos maiores, um porco, uma fraude de trinta anos este meu casamento, que não posso mais, lágrimas torrenciais! Não repitas asneiras, mulher, Furtado é um homem bom para ti, Não é, deve amar mais as cadelas das amantes que eu, as ondas batiam com violência em baixo nas fundações da esplanada, rolando os calhaus em rufar alto, ela abria-se em prantos, nunca antes ouvidos. Devo terminar com esta condição de não ser mais mulher, soluços secos. Não sejas burra, amiga, tens a vida que nenhuma de nós teve, avalia bem. É amiga, pensa bem. Pois, pensa bem, essa deve tar rebolando-se de contentamento, tempos há que noto que arrasta as duas asas para cima do meu marido, a cabra. As decisões não se tomam a ferver, pensa que tens mais futuro a viver que passado vivido, aliás do passado nem guardas grandes alegrias, tens agora uma boa vida. Furtado cuida mais do carro que cuida de mim, voz fina. Pára com tolices, mulher, olha para ti! Um estalo que lhe estancou a choradeira, o resto da água corria-lhe pelos olhos morridos, cara abaixo, nas inexpressivas faces, secando-se de seguida ao vento, as ondas, os calhaus, retornaram ao seu rufar pendular. Amiga, nenhuma de nós viveu os sonhos de meninas, nem amou os homens de revistas, nem se deitou em lençóis de seda. A vida reserva-nos dificuldades e Deus sabe as dificuldades para darmos de comer aos filhos, se permitir um pouco de conforto.

Meteu ar no peito, secou com as mãos o molhado na face, na fronte, tirou ar, as palavras das amigas flutuavam como cantigas de embalar, respirou com calma, da bolsa tirou um pequeno espelho, pente e batom, ajeitou-se, os lábios eram de novo tinta brilhante, endireitou-se, alinhou as mamas, era de novo a mulher ornamento que sempre foi. Ao pegar no cartão do banco para pagar a conta, gesto repetido inconsciente, e as chaves do carro, prendas de Furtado, o sol tornou a brilhar no seu céu, Que tontice a minha! Recolocou o sorriso discreto de dona de si, voltando-se para as amigas, com o ar de decisão que lhe conheciam, e ordenou, Vamos?

17.11.09

Terças

Brama
Arrumou o biquini no carry-on, com a mesma excitação de criança que arruma o caderno na mochila para o primeiro dia de aulas da vida. Ganhou uma bolsa de estudos para o seu doutoramento. Centenas de países por escolher, sentiu-se atraída por Cabo Verde, porque leu, ouviu, contaram-lhe da boca dos próprios caboverdianos imigrados na sua cidade, as virtudes de viver em Cabo Verde, ainda mais tratando-se de moça nova, com os cartuchos do amor ainda plenos, viçosa, belíssima como era Júlia. Ia viver para umas ilhas, mar e música por toda a parte, gente sorridente, calma como a própria brisa, um país em paz, reputado pelo seu desenvolvimento, terra onde cresceu o grande ideólogo, que Júlia já conhecia por estudo até os hábitos mais íntimos, Amílcar Cabral. Abandonaria a vida entalada em filas, elevadores, subterrâneos e autocarros, para enfim ter um pouco de sossego para os estudos, a grande dedicação da sua vida.

Vixnu
Aterrou com o sol a desferir raios no asfalto e carros irritados apertando-se na estrada, trocando furiosos apitos e palavras ácidas. O condutor do seu táxi, sem muito se importar com a presença delicada da moça, mandava a sua parte de gritos para a rua. Branca, foi a primeira coisa que lhe chamavam em todo o lado, caso não suficiente para lhe tirar o sorriso e os bons-dias que distribuía sempre. Foram dois dias até ser apresentada nos rapazes interessantes e nas meninas que tinha que conhecer. Em breve já estava no circuito dos bares e da moda que se instalou de se sentar ao luar na praia, onde se acendia uma fogueira e charros. Conheceu a vida de todos em pouco tempo, os cornos, os cabrões, as putas. Rápido abandonou o circuito para se refugiar em bares menos povoados, lendo os livros que tinha que ler para o trabalho. Deixou de frequentar as praias por insistente assédio de tudo quanto era homem, que julgavam que moça linda assim, só na praia, precisava de conversa. Foi roubada duas vezes no apartamento que lhe calhou no meio de um casario informe, onde também faltava luz dia sim, dia não, não tinha água sempre e frequentemente arrebentava a fossa em frente. Mantinha o sorriso. Que terra não tem problemas, o próprio dela morria gente a toda hora de assalto e pessoas passavam a maior das dificuldades. Respondia sempre com grande sabedoria das ciências sociais, É um processo histórico, são dinâmicas de toda a sociedade e a vossa tem muitos aspectos positivos, É um país em paz, reconhecido no mundo todo, um exemplo em África.

Shiva
Tiraram-lhe dinheiro a mais da conta na última transacção da caixa automática, estava ela no balcão do banco pela quinta vez a tentar demonstrar que havia uma irregularidade, insistindo com o moço do balcão, que abanava compulsivamente a cabeça em não, que a irritava aquele abanar, mais explicava, mais o moço abanava negativamente a cabeça, mais a irritava. A menina de porcelana estraçalhou-se em cacos, de fúria contida, de acumulação de desaforo. No lugar do sorriso habitual suave, arreganhou os dentes, deitou fogo pelos olhos, de ruga fendida no meio da testa, descarregou a ira para cima do moço que, pobre, involuntariamente ouviu todo o tipo de considerações, sobre a incompetência dos serviços, a ineficácia dos horários e dos prazos, a péssima cara dos atendedores públicos, o atraso, a moleza e os demais defeitos, de como se arrependeu de um dia ter apanhado o avião para aqui, que regressaria imediatamente, que nunca mais voltaria, desejou venenos e infelicidades para o país, rasgou os modos de colégio, de mão na coxa e a outra em riste, arrebentou as costuras do decoro e da elegância. Depois desapareceu

16.11.09

Segunda-Versão

Foi quando percebi que na política, uns sentem e outros a praticam. Parei de bebericar o capuccino, hábito gostoso vendo televisão, como chá, vinho ou pipoca. Parei de escutar os ruídos da casa, rádio, frigorífico, e da rua, carros, buzinas, gente, para me dedicar de plenos sentidos à televisão. É quando acontecem desastres ou atentados, ou como nesse dia, pela primeira vez, Octávio, companheiro de anos distantes, agitava-se dentro da televisão, falando num comício do partido. Não que fosse inabitual aquela tonalidade apocalíptica de discurso político, é que não havia possibilidade nenhuma de identificar aquelas palavras com o familiar camarada de sentar o rabo numa escadaria do nosso bairro, a tecer considerações sortidas sobre tudo o que ocorresse, sem a mínima preocupação de ligar efeitos, causas ou consequências, valendo só a passagem do tempo. Octávio, na televisão, em comício de partido, falava como os outros falam, de tortura, monstros, elevando a voz e cerrando os punhos, rematando as frases com murros no púlpito, recebendo em troca histéricos aplausos, apupos. Faz pausas para se ajustar no fato, que não teve tempo de encontrar gravata apropriada e calhou aquela de bolinhas, limpa charcos de suor que lhe inundam a cara e, na diminuição do frenesim do povo, retoma com igual ferocidade verborreia, reactivando os ânimos, os aplausos, apupos. Lista sofrimentos que teve na vida, sem que em instantâneo flashback eu pudesse descortinar o momento histórico de tais tormentos. Antes da escola, fomos inocentes, comum em putos. Na escola aconteceu-nos participar em organizações juvenis, que tempos depois, vim a saber, lavavam cérebros, e nas paredes, quadros com nomes, depois vim a saber, eram os lavadores de cérebro. Nada mais que as excitações das visitas de estudo, as excursões ou as assembleias de brincar de discutir a política. No liceu, o cérebro deslocou-se mais para baixo e tortura mesmo era amor não correspondido. Depois do liceu, cada um partiu para um lado e reencontrávamos nas férias para tortuosas e quentes noites de paródia. Não encaixei as assombrações que Octávio repetia de voz trémula, choro quase.

No dia seguinte, a tarefa era de topo de agenda, fui vê-lo, sem delongas circunstanciais ou desnecessários preliminares, perguntei-lhe, Que palavras eram aquelas, amigo? Onde foi parar as nossas dissertações sobre a justeza das ideias e o comedimento das acções, os teus sonhos, pátria e utopias? Sem se perturbar, de pé, sério, esperava-me já diria, encolheu os ombros em sinal do mais patético dos óbvios, disse-me, Acabou a brincadeira, amigo, entrei na política.

29.10.09

Soldadinhos

Os partidos têm soldadinhos. Do MPD é só vê-los por aí, frenéticos, repetindo discursos automáticos: o Governo está esgotado, o Governo está esgotado. É uma técnica bem conhecida: de tanto repetir uma frase, com fundamento ou sem fundamento, acaba por criar uma impressão. Tão aí: ora distribuindo convites para o lançamento do livro de Carlos Veiga, irritantemente publicitado na última edição do Expresso das Ilhas; ora travando uma batalha verbal com algum interlocutor; ora analisando entre eles os estragos que terá causado ao partido o último desaire radiofónico de João Dono. Eles são os soldadinhos. Têm blogs, publicam artigos nos jornais, vão à rádio e à televisão. Eles são jovens aspirantes a poder. Em princípio nada repugnável por aí, não fosse um determinado discurso desprovido de interesse real.

Mas, um momento, onde andam os soldadinhos do PAICV? Ah pois! Esses andam ocupados a ocupar os ramos do poder. Querem lá saber de sujar a figura embatendo-se com soldadinhos da Oposição. O chefe deles, o soldado Nuías Silva, mostra como se faz: é gestor da Casa do Cidadão (por si só um cargo do caraças!), é Administrador Não-Executivo (essa versão crioula de Job For The Boys) de 2 empresas públicas, é presidente da Assembleia Municipal de São Filipe, tem uma empresa própria e sabe lá mais o quê. Um pouco de moralização, por favor! A seguir a esse belo exemplo de serviços abnegados à pátria, há outros que estão distribuídos por aí, cada um numa teta estatal, e ainda há os que, estando os papás na mó de cima, dormem tranquilos.

Soldadinhos da mó de cima, vão dormindo na sombra do Palácio, que os da mó de baixo andam a urdir uma boa teia. Enquanto ustedes da Situação saem do gabinete climatizado, entram no carro climatizado e em seguida entram nas casas climatizadas, os da Oposição estão aí, na calçada da rua, que é onde bate o coração do povo.

11.9.09

Ao oitavo ano...

...as coisas começam a desandar. Lembro-me como se fosse hoje o oitavo ano da governação do MPD. O país andou pra trás: salários em atraso; crispação política; privatizações desreguladas; delapidação dos recursos financeiros do Estado; cooperação internacional ameaçando abandonar o país; escândalos económicos; ministrinhos tipo boys for the job; enfim...o país a desandar.

Convenhamos, este governo tem outro sentido de Estado e a única coisa que podem no dia de hoje vangloriar é de ter reequilibrado definitivamente as contas do Estado. Mas, a sintomática do esgotamento de soluções, a ansiedade provocada pela possibilidade de mudança política, as manobras pessoais com vista ao poder e uma certa guerrilha política, voltam a pôr o país em situações ridículas.

O mais grave dessa história muito previsível é que em 2011 as coisas podem voltar ao ponto de partida, com o MPD e os seus líderes reloaded, como se o passado não existisse. Ou então não se volta ao ponto de partida e continua este governo com os seus pedregulhos que custam uma fortuna ao Estado, não coisam e não saem de cima, sendo os ministérios da Cultura e da Juventude e Desportos, por exemplo, casos já de calcificação política.

13.8.09

Nestum

Umas discutiam as virtudes da papa nestum e outras ainda preferiam a papa cerelac. Os meninos quando crescem um pouco já passam a preferir chocapic que é bom tem chocolate e vem com carrinhos ou bonequinhos de brinde. Os botes tinham saído às quatro da madrugada. O sol era já um facão pronto a lascar peles mas no horizonte continuava sem sinal de regressos. Umas discutiam o preço do novo alisante de cabelo brasileiro e outras exibiam desenhos sofisticados de flores brancas em fundo de verniz marron nas unhas do dedão do pé. Uma delas enchia o areal de bunda. Batia com a mão forte na coxa para explicar como tinha vontade de meter a mão na cara da médica quando o filho nasceu no hospital da Praia. A atrevida a ralhava como se de um menino tratasse porque não dava de mamar ao filho preferindo um caldo caseiro levado por familiares. Ela mesma tinha tomado desse caldo da mãe que também tinha tomado desse caldo da mãe. A vida era mais simples antigamente e não havia tanta doença. Zita tinha roupinhas novas de criança vindas em bidons.

Não deu tempo de terminar algumas tranças. Três botes vieram. Calçaram as chinelas, ajeitaram os lenços, apertaram o pano em volta da cintura, recolheram os alguidares, conferiram o dinheiro e em seguida partiram para cima dos botes. Depois formou-se um monte de cheiro de peixe e cabelo de sovaco com facas no ar a acompanhar discussões e foi quando tirei a fotografia clássica de peixeiras.

11.8.09

Goulash

Não me lembro bem do nome mas era grande: restaurante de não sei quantas grande de Tarrafal. Mais ou menos isso. O proprietário espanhol atendeu-nos pessoalmente ele sim grande: os dedos podiam ser mandiocas arrumadas num balcão do mercado, os braços podiam ser troncos de árvores cortados, o resto do corpo podia ser todo um armazém cheio de sacos de milho. As roupas seriam XXL mas a voz era fina e esganiçada tipo as pequenas rádios de pilhas em espanhol falado rápido misturado com crioulo que parecia resultar em italiano.

O restaurante do nome grande tinha um extenso cardápio em três línguas e vários pratos que ninguém conhecia. Quisemos saber curiosos que prato era Goulash. É bom! Entusiasmou-se o espanhol enquanto explicava: é um prato hungaro feito de carnes de vaca e porco bem condimentado muito bom mas atenção que é forte e com este calor!…Já tínhamos andado um bocado ao sol pela vila de sítio em sítio a ouvir a mesma ladainha: terminou o peixe, não há búzio, faltava legumes, tal erva terminou, tal tempero acabou, a cerveja tá quente, etc. Este também não tinha nada mas tinha Goulash que soava a aventura. Este tinha mesas e cadeiras num jardim.

Talvez fantasiássemos uma tarde de prazer da comida e o amor de um café caseiro. Bebemos vinho e rimos. Esperámos como quem aguarda um beijo. Quando o Goulash enfim veio o sol apagou-se. O Goulash afinal não passava de duas medalhinhas de carne três fatias de batata e um tufo de arroz. A minha tortilla era uma bolacha. Não havia mais clientes na tasca nem empregados. Não houve mais beijos nem amor. Só sorrisos apagados.

27.7.09

Regurgitante

Algo maravilha aqui neste chão de pedra dura e plantas armadilhadas de espinhos. O sol seca tudo e no entanto uma seiva teima em manter-se viva. Algo maravilha aqui entre as escarpadas montanhas e o infindável mar. Será castigo ou laboratório de limites?

Aqui um povo foi deixado órfão e como cães procura o vão de escada onde é permitido dormir. Algo perturba. Há olhares fixos num ponto de indeterminação. Transitam corpos inanimados como fantasmas vivos e no entanto não pára o frenesim de potentes braços e pernas. As esquinas cheiram a sexo.

Algo regurgita permanentemente neste espaço exíguo que junta os corpos mais estranhos. Aqui pessoas têm cabelo fino e grosso, olhos pequenos e grandes, braços compridos e curtos, dedos redondos ou chatos e pele negra interpolada de vários tons até ao branco. Recombinam-se cérebros e corações.

Aqui ninguém ousaria habitar e no entanto é o lugar onde se reinventam seres humanos. Não dá para pular no mar nem se despenhar do cimo das montanhas. Sim, um laboratório de limites, um desígnio e não um castigo, vale a pena acreditar. A beleza alucinante desses meninos que nascem perfeitos tem que ter um significado supremo. Sim, maravilha sim.

Julho cá

- Hoje há muitos casamentos!
- Há sempre muitos em Julho.
- Porquê?
- Porque em Agosto não se casa. Agosto é mês de desgosto.
- É verdade?!
- Dizem.
- E as pessoas acreditam nisso?
- Dizem que antigamente era uma crença, depois ficou uma tradição. Em Agosto não se casa, dá azar, assim como noivo não pode ver para o vestido da noiva.
- Oh, isso tudo é tão bobo.
- São fantasias, como em toda a parte, para todas as meninas do mundo. Meninas sonham casar.
- Eu não…
- Todas sonham. É das histórias de princesas e príncipes encantados. É da natureza romântica das mulheres. Pode ser até um instinto de preservação da espécie, não achas?
- Pode ser…Pode ser uma fantasia nossa…Nós lá, a minha geração, contestamos a legalização do amor pelo Estado ou pela Igreja. Aqui não sei…
- Aqui é como em todo o mundo. São só homens e mulheres.
- Não, aqui é tudo tão diferente…
- Lugares diferentes, pessoas diferentes?...
- Não. É difícil de explicar. Qualquer coisas não funciona bem aqui…Não sei explicar… Decepciona um pouco, sabes? É uma cidade sem saúde, sabes?
- É simplesmente uma cidade que nasce. É como a confusão de um estaleiro de construção: não é fácil adivinhar o resultado. É uma cidade que se busca e se define. Hoje, ao mesmo tempo, fui a uma feira de artesanato bem tradicional, mesmo que tenha novidades, fui a um concerto de rock e estamos aqui numa rave party. Aqui as coisas estão em formação. Acredito que um dia vamos ter um caldo bom, de sabores exóticos, porque aqui vive muita gente de muitas partes diferentes do mundo e onde há tanta gente diferente só pode resultar em coisa boa, não achas?
- Acho que não terei paciência para esperar que termine de cozinhar. Tenham paciência vocês.
- Claro! Fazer o quê?

27.5.09

Televisão avariada

Tenho o televisor avariado. Mudo de canal, programas normais, notícias de um cão que aprendeu a abrir o frigorífico, agarrar o pacote de leite com os dentes sem o rasgar e levar ao dono, uma Xá sentado num sofá, relatos de um papagaio que decorou versos de poemas e vive repetindo-os, volto ao canal nacional, a cara do Primeiro-Ministro lá encravado, não sai por nada. Experimento ainda outra emissora, em que falam de um homem em depressão, que jura conhecer pessoalmente Barack Obama, mas, uma vez Presidente, deixou de responder-lhe os e-mails, não lhe atende o telemóvel e, afinal, não vai cumprir com as promessas de mudar ao mundo. Volto ao canal nacional, continua a cara do Primeiro-Ministro.

- Mais turismo, mais investimentos, mais leberdade, mais democracia… Mais turismo, mais investimentos, mais leberdade, mais democracia…

Dormi mal. Devo ter sonhado com a cara do Primeiro-Ministro. Não me concentro no trabalho. Telefono a um amigo que me surpreende com a queixa da mesma avaria no seu televisor, a cara do Primeiro-Ministro encravada no canal nacional.

23.5.09

Ninfa e nuvens

Entrou o que podia ser um papá que ia oferecer um lanche à filha na esplanada favorita dos arredores da escola. Hora habitual de acontecer um café em pensamento livre, gente a passar, meninos, lavadores de carros, vendedores, tudo em movimento comum, excepto que a mão que se pousou no joelho da pequena não era gesto fraterno. O acidente da colher na chávena foi um espasmo do pressentimento com repentino medo de se verificar.

A forma como a cara barbuda olhava para os seios finos da criança soltava um cheiro de pêlo grosso que se esfregou num púbis de pêssego. A menina tinha pés bonitos, ancas leves, sem cintura, em vez de braços linhas, olhos de céu, olhar indeciso vendo caras ao redor, talvez de ciúmes, chateadas, ou de vergonha da mão que continuava no joelho. A forma como a cara barbuda expirava o bafo perto da boca da menina e em troca inspirava o aroma dos seus poucos anos, enchia o ar de enxofre. A criança tinha bata e mãos a tremer, unhas pintadas, sorria como adulta, mas piava em vez de falar.

Podia ser uma filha a ver para um pai, explicava às voltas o estômago, tentando desembrulhar uma ideia do que tinha a dar tal menina nova a tal homem velho. Em trago final, uma gota de café rebolou lento, tentando combinar outras possibilidades. Aguardou. Nada justificava que continuasse em redemoinhos. Ninguém via ou fingiam tratar-se de acto natural. Desistiu desaparecendo num sorvo. De dia, debaixo de quem passava, um pai possuía uma ninfa, que naquele momento tinha de estar sentada no banco de uma sala de aulas de aprender a sonhar com nuvens.

15.5.09

O Capeta em crise de risite aguda

É constrangedor ver a quantidade de alma boa em incapacidade de emitir um audível basta que é estupidez que chegue!

Ver tantos olhares em exasperante silêncio se perguntando que lhes terá acontecido é um sufoco que ainda assim não se compara ao assistir do enterro vivo da faculdade de articular um definitivo e convicto desacordo ou observar cérebros a enfileirar-se na vez de verem extraídos o bocado que sente.

A gente pode sofrer de muitas enfermidades, exemplos de falta de amor, ter felicidade, conseguir a bondade, ser jovial, leviano, leve, malandro, maroto, mas falta de ser gente que sofre será quem sabe a enfermidade terminal.

Prepara-te tu também a te pôr na linha de ser decepado a virtude de debater por atitudes próprias.

Kit emergência

Sorri perante quem te intriga e faz-te parecer que se estala o dedo um bocado de ti pode cair

Denuncia o teu amigo que assim não denuncias o que te ocorreu no momento

Faz de conta que vais matar o teu colega em sinal de sacrifício

Sobrevive enquanto decides da validade de permaneceres vivo ou vegetativo