
3.6.10
Quarta,Parede

5.5.10
Quarta,Parede
28.4.10
Quarta,Parede
21.4.10
Quarta,Parede
13.4.10
Vereação
30.11.09
Segunda-Versão
25.11.09
Quarta-Parede
19.11.09
Quarta-Parede
17.11.09
Terças
16.11.09
Segunda-Versão
29.10.09
Soldadinhos
11.9.09
Ao oitavo ano...
13.8.09
Nestum
11.8.09
Goulash
Não me lembro bem do nome mas era grande: restaurante de não sei quantas grande de Tarrafal. Mais ou menos isso. O proprietário espanhol atendeu-nos pessoalmente ele sim grande: os dedos podiam ser mandiocas arrumadas num balcão do mercado, os braços podiam ser troncos de árvores cortados, o resto do corpo podia ser todo um armazém cheio de sacos de milho. As roupas seriam XXL mas a voz era fina e esganiçada tipo as pequenas rádios de pilhas em espanhol falado rápido misturado com crioulo que parecia resultar em italiano.
O restaurante do nome grande tinha um extenso cardápio em três línguas e vários pratos que ninguém conhecia. Quisemos saber curiosos que prato era Goulash. É bom! Entusiasmou-se o espanhol enquanto explicava: é um prato hungaro feito de carnes de vaca e porco bem condimentado muito bom mas atenção que é forte e com este calor!…Já tínhamos andado um bocado ao sol pela vila de sítio em sítio a ouvir a mesma ladainha: terminou o peixe, não há búzio, faltava legumes, tal erva terminou, tal tempero acabou, a cerveja tá quente, etc. Este também não tinha nada mas tinha Goulash que soava a aventura. Este tinha mesas e cadeiras num jardim.
Talvez fantasiássemos uma tarde de prazer da comida e o amor de um café caseiro. Bebemos vinho e rimos. Esperámos como quem aguarda um beijo. Quando o Goulash enfim veio o sol apagou-se. O Goulash afinal não passava de duas medalhinhas de carne três fatias de batata e um tufo de arroz. A minha tortilla era uma bolacha. Não havia mais clientes na tasca nem empregados. Não houve mais beijos nem amor. Só sorrisos apagados.
27.7.09
Regurgitante
Aqui um povo foi deixado órfão e como cães procura o vão de escada onde é permitido dormir. Algo perturba. Há olhares fixos num ponto de indeterminação. Transitam corpos inanimados como fantasmas vivos e no entanto não pára o frenesim de potentes braços e pernas. As esquinas cheiram a sexo.
Algo regurgita permanentemente neste espaço exíguo que junta os corpos mais estranhos. Aqui pessoas têm cabelo fino e grosso, olhos pequenos e grandes, braços compridos e curtos, dedos redondos ou chatos e pele negra interpolada de vários tons até ao branco. Recombinam-se cérebros e corações.
Aqui ninguém ousaria habitar e no entanto é o lugar onde se reinventam seres humanos. Não dá para pular no mar nem se despenhar do cimo das montanhas. Sim, um laboratório de limites, um desígnio e não um castigo, vale a pena acreditar. A beleza alucinante desses meninos que nascem perfeitos tem que ter um significado supremo. Sim, maravilha sim.
Julho cá
- Há sempre muitos em Julho.
- Porquê?
- Porque em Agosto não se casa. Agosto é mês de desgosto.
- É verdade?!
- Dizem.
- E as pessoas acreditam nisso?
- Dizem que antigamente era uma crença, depois ficou uma tradição. Em Agosto não se casa, dá azar, assim como noivo não pode ver para o vestido da noiva.
- Oh, isso tudo é tão bobo.
- São fantasias, como em toda a parte, para todas as meninas do mundo. Meninas sonham casar.
- Eu não…
- Todas sonham. É das histórias de princesas e príncipes encantados. É da natureza romântica das mulheres. Pode ser até um instinto de preservação da espécie, não achas?
- Pode ser…Pode ser uma fantasia nossa…Nós lá, a minha geração, contestamos a legalização do amor pelo Estado ou pela Igreja. Aqui não sei…
- Aqui é como em todo o mundo. São só homens e mulheres.
- Não, aqui é tudo tão diferente…
- Lugares diferentes, pessoas diferentes?...
- Não. É difícil de explicar. Qualquer coisas não funciona bem aqui…Não sei explicar… Decepciona um pouco, sabes? É uma cidade sem saúde, sabes?
- É simplesmente uma cidade que nasce. É como a confusão de um estaleiro de construção: não é fácil adivinhar o resultado. É uma cidade que se busca e se define. Hoje, ao mesmo tempo, fui a uma feira de artesanato bem tradicional, mesmo que tenha novidades, fui a um concerto de rock e estamos aqui numa rave party. Aqui as coisas estão em formação. Acredito que um dia vamos ter um caldo bom, de sabores exóticos, porque aqui vive muita gente de muitas partes diferentes do mundo e onde há tanta gente diferente só pode resultar em coisa boa, não achas?
- Acho que não terei paciência para esperar que termine de cozinhar. Tenham paciência vocês.
- Claro! Fazer o quê?
27.5.09
Televisão avariada
- Mais turismo, mais investimentos, mais leberdade, mais democracia… Mais turismo, mais investimentos, mais leberdade, mais democracia…
Dormi mal. Devo ter sonhado com a cara do Primeiro-Ministro. Não me concentro no trabalho. Telefono a um amigo que me surpreende com a queixa da mesma avaria no seu televisor, a cara do Primeiro-Ministro encravada no canal nacional.
23.5.09
Ninfa e nuvens
A forma como a cara barbuda olhava para os seios finos da criança soltava um cheiro de pêlo grosso que se esfregou num púbis de pêssego. A menina tinha pés bonitos, ancas leves, sem cintura, em vez de braços linhas, olhos de céu, olhar indeciso vendo caras ao redor, talvez de ciúmes, chateadas, ou de vergonha da mão que continuava no joelho. A forma como a cara barbuda expirava o bafo perto da boca da menina e em troca inspirava o aroma dos seus poucos anos, enchia o ar de enxofre. A criança tinha bata e mãos a tremer, unhas pintadas, sorria como adulta, mas piava em vez de falar.
Podia ser uma filha a ver para um pai, explicava às voltas o estômago, tentando desembrulhar uma ideia do que tinha a dar tal menina nova a tal homem velho. Em trago final, uma gota de café rebolou lento, tentando combinar outras possibilidades. Aguardou. Nada justificava que continuasse em redemoinhos. Ninguém via ou fingiam tratar-se de acto natural. Desistiu desaparecendo num sorvo. De dia, debaixo de quem passava, um pai possuía uma ninfa, que naquele momento tinha de estar sentada no banco de uma sala de aulas de aprender a sonhar com nuvens.
15.5.09
O Capeta em crise de risite aguda
Ver tantos olhares em exasperante silêncio se perguntando que lhes terá acontecido é um sufoco que ainda assim não se compara ao assistir do enterro vivo da faculdade de articular um definitivo e convicto desacordo ou observar cérebros a enfileirar-se na vez de verem extraídos o bocado que sente.
A gente pode sofrer de muitas enfermidades, exemplos de falta de amor, ter felicidade, conseguir a bondade, ser jovial, leviano, leve, malandro, maroto, mas falta de ser gente que sofre será quem sabe a enfermidade terminal.
Prepara-te tu também a te pôr na linha de ser decepado a virtude de debater por atitudes próprias.
Kit emergência
Denuncia o teu amigo que assim não denuncias o que te ocorreu no momento
Faz de conta que vais matar o teu colega em sinal de sacrifício
Sobrevive enquanto decides da validade de permaneceres vivo ou vegetativo