28.1.15

Jovem confuso


Não existe conceito em Cabo Verde mais confuso que "jovem". Principalmente quando é usado no sentido político. Aliás, é um dos vocábulos favoritos dos nossos políticos e a pergunta é: porquê?

A população em CV é maioritariamente jovem. A idade média da população é de 27 anos! A malta dos 15 aos 34 anos representa 39% da população, faixa essa oficialmente jovem. E desculpem, não é elogio nenhum, pelo contrário, continuar a ser tratado de "jovem quadro", "jovem colaborador", quando já se passou dos 40. Os políticos adoram a palavra por uma razão óbvia: representa a maioria dos eleitores. Mas igualmente representa a maioria das necessidades da população, em termos de emprego, habitação e acessos no geral. Em CV "jovem" não é uma particularidade; é a própria população. Portanto, o discurso devia ser emprego e não emprego jovem, habitação e não habitação jovem, oportunidades e não oportunidades para jovens. Assim, essa repetição exaustiva da palavra, parece-me um paternalismo, às vezes uma vitimização e provavelmente um esquivar das questões de fundo. Políticas de verdade para jovens, são políticas de integração no mercado, não de "emprego jovem", ou de acesso ao crédito, ou programas de estágios profissionais, ou de realização social. Essa política de papá providencia já não se adequa.

10.12.14

Moçambique, Malove


Os lugares são as pessoas. Esse chavão deve ser repetido até a exaustão.

Assim termina uma viagem a Moçambique, país tão grande que, o que começa azul numa ponta, noutra já será amarelo. Da cosmopolita Maputo ao sul a telúrica Pemba ao norte, vários mundos e modos se desdobram em infinitas combinações, até já não se puder distinguir a fantasia da realidade. País caleidoscópio, Moçambique.

Abraço aos companheiros de viagem e projecto, Janaína Oliveira, Luana Paschoa, Janaína Damaceno e Victor Epifánio. Abraço a Elisa Santos e Ute Fendler, que me abriram o livrinho de contactos. Abraço aos queridos Renato Macuane e Lério Carlos, os primeiros a transmitir esse calor humano moçambicano típico, ainda vias online. Abraço a João Ribeiro e Pedro Pimenta, os nossos sábios de serviço. Abraço a Miguel, o canivete suíço em versão humana. Abraço a Mamana Wa Vatsongwana, esse furacão, e aos queridos Mutxayu Maxaieie, Albino, Alex, Leila Lukásc, Fernando, Angélica e todos os de Maputo. Abraço a Tassiana. Abraço a Mahiriri Ossuka, homem-todo-o-terreno. Abraço aos queridos NBC, Undukus e a todos os de Pemba. Abraço a Angela e Andrade, que abriram a casa, ou seja o coração, e nos ofereceram catadupas de carinho.

A família aumentou consideravelmente!

#Nov2014 #moçambique #cinemanegro

14.10.14

Juvenis

Artista: Amdeo Modigliani

Homem, em passo de tanque velho, anda com moça atrelada por todos os lados. Ela nem ladra. Anda com a cabeça levantada, para não ver com os olhos e com o coração não sentir juvenis palpitações.

5.10.14

Bipolares

Artista: Basquiat

"Com o crioulo não vamos longe, não saímos das ilhas"
Germano Almeida, in DN (link)

Segue confuso o debate acerca da Língua Caboverdiana e a posição contraditória de alguns intelectuais sobre o assunto.

Germano Almeida, escritor crioulo, orgulhosamente crioulo, mas que diz que com o crioulo não vamos longe… Acaba por mostrar como alguns intelectuais continuam agarrados a um passado colonial, em dessincronia com a realidade actual de Cabo Verde e do mundo. Exactamente quando há um debate global, promovido  pela UNESCO, acerca da valorização das línguas maternas e da diversidade linguística, que caracteriza toda a sociedade humana, vêm esses senhores defender uma hegemonia linguística...estrangeira! Mas no entanto não se revêm nessa língua estrangeira e nem conseguem se expressar totalmente nessa língua. Enfim, um discurso errante.

Separar a questão da língua, domínio científico de linguistas, da questão das identidades, é uma separação impossível. Quando Germano diz  "Portugal é quase continuação da casa", imediatamente eu me pergunto: “para quem Sr. Germano?”  Para si talvez, que até deve ter um passaporte português e talvez se reconheça no conceito claridoso de "portugueses das ilhas", mas para mim, para milhares de cabo-verdianos em Cabo Verde e para milhares de cabo-verdianos (porque negados o direito de serem portugueses) em Portugal, também não. As experiências dos maltratos nas fronteiras, de ser tratado como gueto,  de ser privado de cidadania, por ser considerado como "imigirante de 3ª geracão", não nos permite celebrar esta “continuação da casa”.

A confusão continua, quando Germano afirma ser "defensor do ensino do crioulo rigoroso, mas o português tem de ser ensinado como uma língua estrangeira, porque não é a nossa língua nacional (...) Mas a verdade é que defender o português é ideia que ganha adeptos, felizmente. Por exemplo, há quem defenda o ensino universitário em crioulo e isso é absurdo.”

Afinal? Estou tonto. Ensino rigoroso e probir a sua expressão nas universidades? Rigoroso sem investigação universitária? Rigoroso como?

Enfim, no auge da bipolaridade intelectual, continua: "Conto uma história em português, mas sou cabo-verdiano e há expressões que só me fazem sentido em crioulo. Por exemplo, ‘catchor de lantcha’, eu não saberia traduzir. Posso pôr ‘és um malandro’, mas...”.

Suponho que, um dos grandes problemas do reconhecimento da Língua Caboverdiana, e por extensão da Cultura Caboverdiana, tem sido essa posição em cima do muro de muitos intelectuais, que são lidos e ouvidos por uma larga audiência. Eu, enquanto cabo-verdiano, não me revejo neles. Não quero mais essa tentativa de nos justificar como “lusitaninhos de segunda”.

A qualidade do ensino em Cabo Verde está na ordem do dia. Ela passa por ensinar o português corretamente, bem como a matemática, mas esse debate não tem como dispensar a língua materna e, por extensão, uma reflexão sobre nossa identidade cultural.

Com o crioulo fomos longe! Com ele, formamos uma nação que ultrapassa em larga escala as fronteiras destas ilhas. A nação caboverdiana se fundamenta na língua materna e não noutra.

Algumas referências:
Sucesso de qualquer modelo de ensino em Cabo Verde passa pela língua materna
Bilinguismo e Aprendizagem de uma língua segunda
Educação Bilingue e Bilinguismo
Debate na televisão pública cabo-verdiana sobre “Bilinguismo em Cabo Verde”
Oficialização do crioulo cabo-verdiano
Declaração Universal Sobre a Diversidade Cultural

24.9.14

Afronarrativas altruístas

(Obrigado autor da foto)

África é o nirvana do ativista social europeu. Excepções sejam feitas, claro, mas o tom geral do ativista europeu que vem pra África é de completude. A declaração "Vou pra África" está para o ativista social europeu, como "Vou pra lua" está para o astronauta. Podes passar a vida toda a cuidar dos pobres da tua terra, ajudar os toxicodependentes, lutar pelos direitos de minorias étnicas marginalizadas no teu país, ou mesmo ajudar pobres pretos desgraçados, que vão dar à costa europeia, mas serás sempre um mero assistente social, voluntário ou mesmo ativista, mas sem aquele txam! Nada como tocar numa criança negra africana...em África! Pobre negro em África é uma espécie de pobreza em negrito, carregado, bold.O ativista social que não veio pra África é comparável ao muçulmano que não foi pra Meca, ou rabino que nunca tocou no Muro das Lamentações. Não importa se é o 1º país de África em IDH ou o 50º, dá no mesmo. Para os teus amigos, no regresso, vai ter o mesmo impacto a frase "Estive em África!". Postar na Internet, fotos com criancinhas pretas, é parte importante do processo. Como toda a narrativa visual, a narrativa da pobreza precisa de um cenário. Não poderás encontrar cenário mais marcante que nos subúrbios de África, qualquer África. Ativista social europeu tem um quê de missionário ou Indiana Jones.

22.9.14

Afronarrativas de péssimo gosto


Enquanto africano, é sempre muito constrangedor quando somos confrontados com a enorme ignorância em relação ao país-continente África. Principalmente quando estamos no exterior. Há um misto de ignorância, arrogância e cinismo, ou ainda uma peninha e solidariedade, verdadeiramente irritantes. O caso da Ébola é bem elucidativo dessa ignorância. Quem receia ir à França, porque em Portugal tem uma epidemia? Pois, viagens foram canceladas para todos os países africanos, Cabo Verde incluído, num total de 54, porque em 5, dos quais 3, tinham um problema sério de saúde pública. Num universo de 1 bilhão de pessoas, morreram 2 mil e foi anunciado o fim de África. Rapidamente se invadiu o Mali com tropas estrangeiras, ou retirou-se Kadhafi do poder, mas em relação ao Ébola assistimos uma pouca-vergonha inqualificável da comunidade internacional. Morreram 500 pessoas na louca travessia marítima e o mundo nem tremeu. O país-continente África continua a sofrer de narrativas muito mal construídas, ou no mínimo terrivelmente parciais. Um Al-Jazeera africano, faz-se necessário. Produtoras e distribuidoras de filmes, com alcance mundial também fazem-se necessárias. Concretizar redes de arte e cultura, tais como Afribuku, FICINE, ArchiAfrica, FESPACO ou Dakart é um imperativo. Criar uma voz, através da comunicação, da arte e da cultura é essencial, para tirar poderes corruptos africanos da sua zona de conforto e para sacudir as ideias feitas no resto do mundo sobre o país-continente África. Há milhões de activistas fazendo por isso. Quem viver verá. 

21.8.14

Transubstanciação


Pensando no significado da mecanização artística de Andy Warhol e nas obsessões de Yayoi Kusama. A loucura é uma condição da arte? Ou a clarividência enlouquece? Ou o mundo é demasiado comum para comportar a genialidade? Artistas geniais tem algo de Jesus Cristo: vivem e morrem para nos salvar.

3.8.14

Quando crescer quero contar estórias


Esses sãos os meus filmes! Esses que provam que contar estórias não tem e, felizmente, nunca terão nada a ver com a tecnologia. Rigorosamente nada a ver. A diversidade de equipamento na atualidade, em capacidade e preços é impressionante. As facilidades computacionais são ainda mais impressionantes. A capacidade de mini-câmaras fazerem um filme, com alta qualidade de imagem, dá que pensar. Mas ainda, nada, nem 3D, nem super efeitos especiais, nem qualquer outro artefacto mudou o poder da...estória!
E assim é esse Short Term 12. Um filme, de tão real o enredo e os personagens, que parece um documentário. Realização de mão segura, sem perder tempo com sequências desnecessárias. Fotografia inteligente. E, cerejinha, direcção de actores maravilhosa. Uma coisa linda, este filme.

26.6.14

Eu não sonhei com esta cidadela

Fico autenticamente horrorizado, de cada vez que vou à Cidadela, o bairro que nasceu no estirador de um arquitecto e vendido em anúncios de TV que faziam sonhar. Como é possível tamanha selvajaria na ocupação do território? Caminhos malucos, crateras na estrada, não há vislumbre de uma única árvore, cada centímetro é ocupado com casas que parecem bunkers, não vejo espaço para estacionamento de carros, nada que se pareça com um jardim, as crianças não terão parques de diversão, os jovens não terão terrenos de jogo, nem pensar num teatro, cinema, auditório ou coisa que se pareça, nem sequer haverá um largo, vazio, sem nada. Tudo será brutalmente ocupado de cimento. Até mesmo a orla do mar, abusivamente construída. Naquela que podia ser das mais invejáveis zonas da cidade, com vista privilegiada para o oceano. Tudo vandalizado. Ainda falamos com boca cheia de desdém do bairro do Inferno! Classe média ou medíocre?

24.6.14

Eu não sonhei com esta cidade

Artista: Andrei Koschmieder

Heis as sementes. Tratamos os chineses à imagem dos produtos que vendem, referimo-nos aos guineenses como o mais inútil dos negros, nigeriano é sinónimo de bandido e todos os outros imigrantes africanos, que não conseguimos identificar a origem, metemos num enorme saco chamado "mandjako". Olhamos com desconfiança os arabófonos e até já afiamos as nossas facas contra o Islão, crescente no nosso solo. Hoje, temos imigrantes do todo o lado, inclusive europeus, dos quais os portugueses são um caso particular. Por um passe de mágica, boa parte do tecido empresarial, das telecomunicações, a banca, a construção civil e uma série de outras actividades, tornaram-se de investimento português. Privilegiar essa fonte de investimento tem uma explicação oficial: aproximação histórica. Só que "aproximação histórica", para além da poesia, guarda uma carga de conflitos. Acordamos os fantasmas de morgado e rendeiro, recuperamos a palavra "patrão", que tem um som colonial e "crioulos", na conversa miúda dos patrões, significa "essa gente difícil de trabalhar". Um "patrão" já teve o desplante de me fazer essa queixa, presumindo que eu era "um crioulo do lado deles". A simples noção de "lado de cá ou lá" é sectária. Mas claro, pagam os justos pelos pecadores. Para o bem da verdade, sinto-me privilegiado por morar numa cidade tão cosmopolita, como vem se tornando a Cidade da Praia, mas preocupa-me imenso as sementes da intolerância, regadas de parte a parte. A formação de guetos na cidade, sendo possível fazer uma geografia exacta de onde cada grupo de imigrantes habita, não será um fenómeno alheio. Um autor refere-se assim aos guetos: "uma forma especial de violência coletiva concretizada no espaço urbano" [ver]...Bem, eu não sonhei com esta cidade. 

23.6.14

Um pouco de óleo nessa desengrenagem

Foto ripada de um post de Rosana Almeida no Facebook

Dois caboverdeanos dão a vitória a Portugal num jogo da Copa. Não! Dois portugueses negros dão a vitória a Portugal num jogo da Copa. Reparem na expressão "selecção nacional". Ou seja, esses negros são nacionais de Portugal. O que interessa a origem? Alguém anda a questionar a origem moura dos tantos portugueses? Mas, aqui vem a parte sensível. Há portugueses negros? Porque razão os meninos, netos e bisnetos de emigrantes caboverdeanos, nascidos, criados e não vendo outra terra senão Portugal, são ainda chamados de caboverdeanos? Ou mesmo os que emigraram e que escolheram Portugal como nação. Ou só se tornam portugueses, os negros com extraordinárias habilidades, como Nani e Varela? Onde estão os negros na vida pública de Portugal? Onde estão jornalistas negros, artistas negros, deputados negros, ministros negros? Fico pelo ministro, para não ter a ousadia de querer ver um negro na chefia de algum órgão de soberania portuguesa. Onde estão as imagens negras na televisão pública portuguesa, cineastas negros, fotógrafos negros, escritores negros? É Portugal ainda uma sociedade racista, do género "Angola é nossa"? E o que dizer da crescente comunidade portuguesa em Cabo Verde, normalmente detentores de maior poder económico que os caboverdeanos, que se referem a nós com o termo genérico "os crioulos"? E que dizer desse sistema político-económico que promoveu outra vez, pouco tempo depois da descolonização, portugueses como patrões? 

11.6.14

Cultura Tóxica

Artista: Mandla Reuter

O alcoolismo é um desses graves problemas, que vemos tratando com leviandade. Não vejo outro termo. Ontem, ouvia na rádio um chefe da polícia a anunciar pomposamente a detenção de um indivíduo na posse de 700gr de erva, com direito a prisão, julgamento, conferência de imprensa e tudo. Já viram alguém ser preso por vender grogue? E entre os dois produtos, qual terá mais toxicidade?

Gente, grogue não é cultura. É um álcool, que é tóxico para o organismo. Pode ser doce e cheirar bem, mas é um tóxico. Pode ser até limpinha da fonte, mas continua a ser um tóxico. Contêm etanol e, em doses mais ou menos elevadas, metanol, que é um composto extremamente perigoso. Existe uma escala de qualidade das bebidas alcoólicas, de acordo com a "honestidade" do seu fabrico, mas continuamos sempre e sempre com o problema de fundo: álcool é um tóxico. Visitem os hospitais e mais precisamente a psiquiatria e verão a amplitude do problema. Para além dos graves distúrbios mentais, ataca gravemente o coração, o fígado e o pâncreas, mais todo o resto. Visitem as estatísticas, vejam os graves danos sociais que isso está causando, vejam o impacto na economia. Como assim alcoolismo não é uma prioridade de saúde pública? A amplitude do problema é esmagadormente superior às estruturas criadas para o seu combate, a priori e a posteriori. Se não acabarmos com essa mania que álcool é fixe, estaremos perdidos. Vamos desclassificar o grogue como património cultural?..É, eu sei, é um ideia que dói, mas toda a transformação dói, principalmente aquelas que nos retira conforto. Entre o consumo social, o bom grogue e demais mitos, tudo contribui para uma verdadeira catástrofe dentro da nossa sociedade.

4.6.14

Corned Beef

Artista: Zoe Leonard

Sigo com interesse os casos de justiça no meu país. Nunca se tinha visto tanto, cidadãos que vão ao tribunal contra o Estado, ou empregados que processam os empregadores, instituições estatais que processam uns aos outros, denúncias de negligência médica, ou até a condenação de altos gestores. A democracia trouxe esse benefício, de obrigar a que a vida em sociedade seja mediada pelas leis. Se a justiça funciona bem ou mal, é uma questão importante, mas o facto é que modificou o nosso relacionamento com as outras pessoas e as instituições. Carlos Lopes, economista da ONU, falava dos custos da democracia em Cabo Verde, referindo-se ao facto de, sendo a democracia uma aparelhagem legal, os recursos e as instituições necessários ao seu bom funcionamento têm um custo enorme. Mas pergunto, qual será o custo da não-democracia? Ou, qual é o custo da autocracia? Ou ainda, haverá formas de democracia mais ligeiras, que essa assente numa pesada infraestrutura legal? Falou-se da importação de uma tradição jurídica europeia, mas que outros modelos podíamos seguir?

2.6.14

Feijoada enlatada

Artista: Mohau Modisakeng

Mindelense ganhou o campeonato nacional, mas os festejos, em comparação aos do Benfica cá, parecia um desses apitos baratos, que quase não consegue apitar. Não houve nem cortejos quilométricos, nem auto-tanques lançando água numa multidão em delírio e nem acaloradas declarações de importantes figuras. Mas percebo. Ser do Benfica é uma religião, é um pertencer. É o clube, o grande. É ver craques, verdadeiras estrelas que desfilam em carros de luxo, tem namoradas louras e vão a galas. Ser do Benfica é um pretexto para ir a Lisboa, visitar o Estádio da Luz, a catedral do futebol. É benéfico para a leitura, de todos os jornais, dos casos desportivos e extra-desportivos. Dá tema para semanas de conversas, debates televisivos, enche os bares,  as barbearias, mantêm muita gente com algo na cabeça para se preocupar. É o glorioso. Nada que se compare a Mindelense, um minúsculo clube sediado numa infame rua de botes, num poeirento pequeno país, sem glória, sem catedral e sem luz. Ser do Benfica, clube português, é bem mais fácil. No fundo, para quê fazer a sua própria feijoada quando já há feijoada enlatada, pronta a consumir, com carne e tudo?

29.5.14

A Província

Artista: Jiri Kovanda

No lançamento de um livro (As Revoltas) que fala abundantemente e até repetidamente, de como o estado colonial, constituído por reis, raínhas, príncipes, governadores e demais hierarquias por aí abaixo, junto com a igreja e o seu longo historial de suporte ao poder, oprimia o povo, de forma física, concreta, abusiva, mas também de forma moral, ao propagar uma simbologia de superioridade branca-cristã, em detrimento dos negros e as suas "negradas", é curioso observar como o evento em si se faça num ambiente de pompa palaciana. Com direito a um atraso palaciano também, no que já se repete entre nós, enquanto não chega a comitiva real, nada começa. O tempo e a paciência dos súbditos que se lixe. A divisão do espaço e dos assentos, entre os muito ilustres, os mais ou menos ilustres e, na parte mais recuada, a comunidade dos alunos, também recria esse ambiente de reis, raínhas, demais titulares da corte e finalmente o povo, lá ao fundo. Tudo era muito protocolar. A miúda que nos recebia à porta tratou de me encaminhar para o meu devido lugar, unicamente com base na minha aparência, creio. Num misto de enorme atraso, desorganização e um excesso de aclamações, acabei por sair, por imperativo de outros compromissos, sem cumprir o meu singelo objectivo: ouvir os apresentadores e o próprio autor. Repete-se, recria-se uma visão da sociedade e das coisas, em que importa mais o aparato que a substância. Ao invés de se concentrar no significado profundo que é a publicação de tal obra, tudo se torna fogo-de-vista. Assim segue a província.