16.7.10

Tinta

É a minha estréia (em grande) em design de capa de livro. A fotografia é de Duarte Belo, um fotógrafo poeta. O livro é de, nada mais, nada menos, que o nosso mais premiado escritor, José Luiz Tavares.

Acreditem que o livro é bem mais bonito que esta simples imagem; tem a capa, a contra-capa, as badanas, a lombada e o miolo, que é um papel que parece reciclado; o desenho de uma capa se faz por pequenos detalhes, que agora, ao pegar no livro, corre-me uma alegria de ter feito boas escolhas, de proporções e posicionamentos. Ocorreu-me que os nossos escritores, se conta pelos dedos de uma só mão, os que cuidam do aspecto gráfico dos seus livros; é só ver para a parte da livraria que diz: "literatura cabo-verdiana".

E já agora, quem ainda não leu José Luiz Tavares, que tente fazê-lo. Vá, é poesia, é uma linguagem muito elaborada, com toques de literatura clássica, o vocabulário, muito dele, já não está em uso, e são temáticas também elas profundas, não evidentes ao primeiro olhar. Acontece com toda a expressão artística; há aqueles que produzem para consumo imediato; há aqueles que produzem para rasgar os limites da nossa compreensão; José Luiz Tavares é da segunda categoria.

15.7.10

Adesão de Cabo Verde ao FODETE está mais ou menos assente

...estamos fod***s

Copy&Paste

"Aquele cheiro era igual ao do meu avô. Cheiro de blazer de fazenda antiga misturado com cigarros, um cheiro amarelado, macerado, das pontas dos dedos.

É um cheiro que quase não o chega a ser. É o cheiro da total ausência de uma gota de perfume, de um aroma, ausência de qualquer nuance contemporânea naquele corpo estranhamente tão jovem.

Deixei-me senti-lo, inspirei-o com a memória. E a sorrir daquele sorriso encabulado como quem coça a cabeça, meti a mudança e lentamente carreguei no acelerador."

(És uma inspiração, Minhokinha. Sorte a ti e aos teus)

14.7.10

Ar

Todas as mudanças são necessárias, até mesmo as detestáveis mudanças de casa. Mudanças mexem as coisas, põe-nos a mexer. Revemos coisas antigas, tiramos o pó dos cantos, refrescamos a pintura, deitamos coisas no lixo, eventualmente compramos coisas novas. Mudanças são necessárias em tudo: em casa, no blog, na política, na profissão.

No nosso país precisamos de muitas mudanças. A política precisa mudar; o ideal seria substituir toda a classe política, governo e oposição, por coisa nova, embora saiba que a coisa nova se tornaria na mesmice. Mudança é preciso no discurso político. Aliás, é preciso no discurso em geral. É preciso mudar de estilo, de gostos e tendências. Precisamos largar o provincianismo de ideias e abraças este admirável mundo novo. Andamos em passo atrás, no plano das ideias e isso é atroz.

Mudar, mudar, mudar. Perder o medo de perder-se. Quem não muda, não se dá a oportunidade de descobrir; descobrir-se.

9.7.10

Água

Sexta. Vou institui-lo nas minhas efemérides pessoais, como o dia da amizade. É o dia de ver os amigos, após uma semana de trabalho.

Hoje, há exposição na iGallery sobre o Eugénio Tavares. Visitar uma expo é sempre um óptimo programa, principalmente quando o lugar é de bom gosto e os promotores sabem o que fazem. Reforço o convite para a minha própria exposição, UTOPIA, a decorrer no Palácio da Cultura, até ao dia 12, sempre das 19h30 às 22h. Hoje ainda há debate com Nardi Sousa e Abel Djassi, a partir da minha exposição, a começar às 20h.

Também hoje, vai haver mais um festival de música. Aliás a minha sugestão à cidade, é que começasse a pensar num grande espaço público para concertos. O Taiti serviria perfeitamente e seria uma óptima alternativa ao monstro de betão que pretendem lá por.

Digam o que disseram, a cidade da Praia é o verdadeiro centro do cosmopolitismo CV da actualidade. Simplesmente é aqui a ponta da vida económica, social e cultural do país. Não que torce por isso; é um facto.

8.7.10

Pau

Esse miúdo anda por aí, nos becos, praças, mercados ou a parte que calhar da cidade. Os seus cerca de 14 anos, se não for isso, não será mais que 15, foram já totalmente adulterados pelo álcool e sabe-se lá que mais outras drogas. Do álcool é evidente porque lhe sai pelas ventas, pela boca, pelo nariz, se calhar pelos ouvidos, pelos poros da pele e pelos olhos inchados, um vapor fétido a álcool da pior fermentação. Esse miúdo é um alcoólatra juvenil. E é bandido. Faz medo ao mais gigantesco homem, porque os seus olhos são de diabo, como que pudessem mandar qualquer um para os quintos do inferno com um só desejo da mente e olhar. Tresanda a álcool, a falta de anos de banho, ao chão onde deve dormir, aos becos onde deve mijar e cagar, a miséria! E no entanto não passa de um miúdo de 14 anos, como eu fui, com a pequena diferença que não dever ter sido criança desde que nasceu.

Era esse miúdo que estava a ser espancado sem piedade por uma vendedeira, dessas que pesam toneladas e dão muros que dói só de ver. Espancava o miúdo carregada de uma raiva, que ultrapassava qualquer valor que o miúdo tivesse tentado roubar ou qualquer coisa que tivesse feito. Era uma raiva talvez com séculos, que se descarregou naquele momento em cima de uma criança. Seja ela um bandido, um produto colateral da sociedade, um lixo humano, mas uma criança. E veio a polícia, a tratá-lo pelo nome, talvez fartos de o prender pela enésima vez. E vieram logo descarregando os cassetetes enormes para cima das costas do miúdo, das pernas, dos braços, completamente indiferentes aos gritos lancinantes da pobre criança. E enfiaram-lhe num carro, transformado em jaula metálica, e levaram-no.

Deu-me vontade de mandar à merda as centenas de pessoas que assistiam à cena, com aplausos adicionais e palavras de perfeito ódio, mas não o fiz por humana covardia. Por saber que as minhas palavras não o vão safar das mais porradas que há-de apanhar, da polícia, das pessoas e da porca vida.

7.7.10

A seguir na UTOPIA 2010


Um abraço aos que me visitaram na abertura da exposição. Obrigado aos que se deram ao trabalho de analisar o que viram e depois comentar, superiormente. Estão convidados os que ainda não foram, a tomar parte da expo e da actividades que vamos desenvolver:

07.jul - 19h
Visita guidada pelo autor seguida de Tertúlia sobre Identidade e Auto-Conhecimento do Núcleo de Estudantes de Psicologia da Universidade Jean Piaget.

08.jul - 19h
Visita guiada pelo autor seguida de Tertúlia com Edson Medina e Milton Paiva sobre a(s) leitura(s) da exposição.

09.jul - 19h
Visita guiada pelo autor seguidas de Tertúlia sobre a Liberdade com Abel Djassi (Politólogo, Boston University-USA), Nardi Santos (Sociólogo, Universidade de Santiago) e convidados

11.jul - 19h
Visita guiada pelo autor seguida de festa de encerramento da 2ª edição de UTOPIA

Visitem o blog do projecto: http://utopia-the-movie.blogspot.com/

A tal marca


Deixei correr tinta e bytes antes de me pronunciar sobre a marca Cabo Verde, criada por Rafael Fernandes, DiBooks para os chegados.

Não é o logo mais bonito que já vi na vida. Prefiro muito mais os logos das ilhas individuais, pelo mesmo autor, que faz parte do mesmo pacote. Mas convenhamos que o trabalho é astronomicamente superior a quase todos os logotipos, de todo o Cabo Verde, juntados. Se eu tivesse tempo, faria aqui uma colecção de logotipos pavorosos, das nossas instituições, das mais modestas às maiores. Gostando ou não, esteticamente falando, o facto aqui é que tecnicamente o trabalho é bem feito, como faz questão de demonstrar o autor aqui (http://logomarca-cv.blogspot.com/), com uma frontalidade que também contribuiu definitivamente para me "ganhar".

Mas também, a minha posição a favor deste logo, é uma posição CONTRA as posições intrigueiras, não objectivas, mal-dizentes e mais outras formas cabo-verdianamente vis de, mais atacar o outro, que se posicionar contra.

Suponho também não ser contraditório suportar a crítica de Emílio Rodrigues, porque também ela sustentada, firme e coerente, salvo o exagero da petição. Concordo plenamente que há questões que merecem mais debate, um processo mais elaborado, um concurso mais divulgado e um júri decente. De todo o modo, houve concurso e que eu saiba com tempo suficiente para que todos pudessem enviar as suas propostas.

Em resumo, gostemos ou não, tenha o processo decorrido da melhor forma ou não, o que não podemos fazer é, de forma ligeira, falar do trabalho de um profissional da forma como está sendo feita. Eu apoio esta marca, em apoio aos que trabalham, dão a cara e não tem nada para esconder. Costumo dizer, porque também assim me ensinaram: não é errado conseguir pouco; errado é não tentar nada...e ainda maldizer.

2.7.10

UTÓPICOS

Apresentando....

UTOPIA

dedicado a Cristina, pela paciência, e a Naia, um universo dentro de mim.

Com a especial ajuda de sistas e brothas: Samira Pereira, João Paradela, Nuno di Raiz, NDu e Lúcia Cardoso, my dear cousin. Especial apreço pelos extraordinários artistas Nuno, Ndu e Lúcia.

Feito graças à participação de: Milene e Dudu como guias do mundo do hip-hop da Praia. Agradecimentos à Associação Movimento Hip-Hop e aos grupos: B.Boss, Black Side, Central Side, Karaka, Kingston, Nito.G, Nunous, Shade.B, Va.Boss.

Um apreço à Fundação Amílcar Cabral que me acolheu e abriu as portas. Obrigado Leonor pela dedicação de formiga.

Por último, mas não menos, agradecimentos aos amigos e pessoas desconhecidas, que se dirigiram a mim e deram-me uma única mas fortificante palavra de apoio.

30.6.10

Quarta,Parede

Tropa de Elite 2....espero que siga a fibra do primeiro, embora eu raramente goste de sequelas, do tipo que tiram uma linha da história do primeiro e toca a criar uma história para o segundo. Tropa de Elite 1 causou impacto pela perspectiva quase documental, crua, como contou as coisas; agora vamos ver o seguinte.

28.6.10








Este projecto lembrou-me um conceito de FF (Fast Forward) em que a ideia era filmar, editar e entregar uma curta, em 24h. Aqui se fez algo do género, que João Paradela, o seu organizador, apelidou de FAXI-FAXI (http://faxifaxi.blogspot.com/) em que a ideia era a mesma coisa. Este projecto, "one day on earth" é um faxi-faxi à escala mundial. Tô dentro.

22.6.10

Pai,Filho,Espírito

Quando o Benfica ganhou o campeonato nacional português, o povo aqui fez uma festa tamanha, que dificilmente consigo explicar sem parecer exagero. Mas foi um exagero. Carros auto-tanques, esses que distribuem a escassa água a domicílio, quando a rede de distribuição falha, espalhavam água na praça do Mindelo, junto com fogos de artifício e muita, muita folia. Foi incrível.

Ao mesmo tempo, quando Cabo Verde empatou (imaginem se ganhasse) um jogo amigável (imaginem se fosse oficial) com Portugal, o que vimos foi um tratamento frio por parte da comunicação social portuguesa, a mesma comunicação que normalmente nos trata com um carinho do género papá que passa a mão na cabeça do filhote. Ficamos indignados, embora pouco, porque não somos de indignar quando nos tratam por baixo.

Ontem Portugal ganhou na Copa. Ganhou forte. E era só ver uma população cabo-verdiana em frente à embaixada portuguesa, aos berros, batendo palmas, gritando vivas a Portugal, a mesma embaixada que não se digna criar mais condições de acolhimento aos muitos cabo-verdianos que aí se deslocam para um pedido de visto, ou tratar de uma outra papelada, deixando a população à rua, durante horas e ainda com direito à antipatia dos funcionários do consulado.

A minha paciência é longa mas tem limites!

21.6.10

Segunda,Versão

Vamos lá fazer um exercício de imaginação.

Deram à costa mais de 50 cachalotes na ilha de Santiago. Logo a seguir outros 40 tem a mesma sorte (azar, aliás) na ilha do Sal. Isso já são 90. Isso já é uma população. Agora imaginem que, uma pessoa armada entra numa escola e mata 90 crianças! Ou essa pessoa armada vai a uma dessas aldeias que não tem mais que 300 pessoas e mata 90 deles. Chocante? Sim, é chocante. É mais que isso; é revoltante. Mais revoltante ainda se não conseguimos apanhar o homem. Continuam de olhos fechados. Esses homens, os que matam cachalotes (sem querer, claro!), andam por aí, nas nossas águas. Não sabiam?! Pois, ninguém sabe quantos homens e barcos e sonares e mais outros métodos terríveis de arrasar a vida marítima andam por aí. Ninguém sabe. E duvido que alguém queira saber. Queremos lá saber se sentamos à mesa com ditadores sanguinários? Queremos lá saber de onde vem o dinheiro e os prédios que se constroem por aí? O que é a natureza perante a necessidade urgente de facturar. É uma leitura simplista? Sim! É porque é simples.

A ética será a mais árdua tarefa a empreender, para depois nos orgulharmos de ser povo.

18.6.10

Quando caem as árvores

José Saramago - 16/11/1922 — 18 /6/2010

Vou me lembrar dele eternamente, como um dos escritores que mais mudou a minha maneira de ler e escrever. O próximo romance dele seria sobre a morte...

15.6.10

de Tambla Almeida

Estreia aqui na praia dia 18, às 20h, no palacio da cultura Ildo Lobo.
Masterclass com o realizador, dia 19 às 19h, na Fundação Amílcar Cabral.