14.5.13

Funcionários Polimórficos


Tanque cheio, gasolina, são comandos transmitidos automaticamente aos moços da bomba, que são chamados de bombeiros (denominação curiosa em tão inflamável zona), por trabalharem numa bomba, duh! De tanto repetir esses comandos, por anos, todos os meses, já nem se vê para a cara desses bombeiros, figuras também discretas, que normalmente só emitem o som do sim senhor e do obrigado. Até que, hoje, autómato, absorto nas minhas intricações mentais, sou surpreendido por um deles com a oferta: senhor, o senhor gosta de perfume americano? Eu...um tanto trazido à terra de repente, ahn? Repete ele, o senhor gosta de perfume americano? Eu, meio irritado e meio divertido pelo inusitado, rapaz, nem gosto de perfume americano!...Ok, desculpa, segue a bombagem da gasolina. Viro a cara para o lado, para poder sorrir da momentânea transformação do funcionário da estação de combustível em vendedor ambulante clandestino. No fim da bombagem, pago, tomo o troco, pronto para arrancar, mas intuitivamente reparo que o preço afixado no painel e as moedas que tinha recebido, não batiam. O preço terminava em 4 e recebi 550 escudos redondos. Conferi e faltavam 16 escudos. Terminou a piada! Em tom severo, digo-lhe, falta-me dinheiro! Senhor, não tenho 16 escudos. Em tom autoritário, vai arranjar e traz!! Deu-me 20, perdeu 4. Para trás deixo um moço, que tanto pode ser bombeiro, vendedor de rua ou claramente mau funcionário.

Preto Ladino Perdendo a Compostura

foto sacada da página FB do Flávio

Flávio Hamilton, para quem não conhece, não é só um dos maiores atores cabo-verdianos da atualidade; é simplesmente um grande ator em toda a parte do mundo. Flávio, ilustre cidadão do Porto, Portugal, esse país que insistimos que é o nosso país irmão, apesar dos pesares, acaba de me indignar profundamente com o relato na sua página de Facebook, que ele intitulou "ACERDA DA DOR DE PELE", onde conta como foi barrado à porta de um bar conhecido pelo nome de "Plano B". Mesmo insistindo que o explicassem o porquê, foi tão simplesmente deixado à porta como um indigente...

Ora, aqui neste ponto desperta em mim o bicho da revolta. É preciso ter mais tento nas palavras, ouvi sempre. É preciso deixar passar essas coisas estúpidas, ouvi sempre. Pois!!!, foi precisamente essa a educação que recebemos da catequese e fomos os melhores alunos da história. Os pretos mais bem sucedidos da ladinização. Os obedientes, os que até vieram a se tornar aliados dos colonos na sua subjugação de outros povos. Os tementes a Deus  os recatados e prudentes. Por essa via, é como ainda nos continuam a estuprar. Nem eu, nem o meu mais profundo ser, pode aceitar o racismo, nem lá, nem cá, ainda mais quando vejo a desfilar debaixo do meu nariz um retorno maciço de "nossos irmãos" à minha terra, infelizmente para os bons, muitos vem com os seus comportamentos de merda, com as suas declarações de merda, com as suas insinuações miúdas. Que me perdoem os bons, porque os tenho e são de casa, mas nessas situações só mesmo uma boa dose de má-criação para expressar o quanto esse assunto mexe comigo. Porque perco a compostura!

30.4.13

Geração Ética

Artista: Annette Kelm

Num instante a terrinha passou de uma província periférica, para país, de plenos direitos, inserido num mundo formidável e cruel, em iguais medidas. Num instante, já não somos mais aquele belo povo exótico, a quem se dava o nome de Morabeza.

Talvez seja de bom-tom, o que nas sociedades minúsculas se costuma dizer, que fiquei consternado ao ver conhecidos meus a entrarem pelos tribunais, algemados, tais animais encurralados. Sim, ficar até fiquei, mas de seguida lembrei-me do quanto mais consternado fiquei, a assistir ao longo desses tempos à transformação de ingénuas pessoas, inofensivos habitantes de ilhas, em maquiavélicos construtores de esquemas, ou de como humildes pessoas se tornaram artificialmente vaidosas. A tal ponto que, ter brandos costumes, roupas simples e trabalhos pacatos, começaram até a parecer ridículos valores. A tal ponto que, não ter um esquema passou a ser sinónimo de falta de inteligência. Mas, ainda bem que é assim, a lei natural reequilibra tudo, repõe o que se tirou, compensa o que se amputou, corrige o que se desviou. Calhou a conhecidos meus apanhar com o martelo da lei. Tinha de calhar um dia e calhou nesses.

Num instante já não somos mais o país das tardes sossegadas. Todos querem correr na frente, mesmo que isso signifique advogar contra o povo, sendo eleito do povo. Da próxima falaremos desses outros tipos de maquiavélicos construtores de esquemas.

25.4.13

Liberdade, disseram.

Artista: Ei Arakawa

Hoje marca o dia de ontem em que todos os utópicos celebraram o retorno à liberdade. Foi necessário que milhares de jovens, dos dois lados da barricada, entregassem a vida, até que os velhos casmurros chegassem à evidência que um povo não se amarra. Lembro-me do nosso músico-poeta, Norberto Tavares, que disse: "amarrem-me as mãos e os pés, mas não podem amarrar-me o pensamento". Foi necessário que uma geração inteira de líderes escolhessem estar nas matas, ou na clandestinidade, vivendo com medo das sombras, no lugar de irem ao cinema, ou fazerem disparates próprias da idade, para que se conduzisse os povos a um estado de liberdade. Liberdade, disseram. E no entanto a liberdade não souberam guardar, pois mal descansaram de combater os usurpadores e já estavam sentados nas poltronas dos usurpadores, mal terminaram os discursos fervorosos e já estavam a construir os discursos falaciosos. Liberdade! Já ninguém(?) vai para a prisão por pensar. Liberdade sim e no entanto mal podemos escolher onde ir, onde trabalhar, onde morar, o que comer, quando comer, o que ter, como ter, como crescer e como levantar-se e dizer, a compreender bem a palavra: liberdade!

11.4.13

Atingida por um raio


Terá a Cidade da Praia sentido que foi atingido por um raio de vários megawatts chamado AME (Atlantic Music Expo)?...Bem me parecia que não.

Pois, aconteceu assim, num flash, o AME. O acontecimento foi de tal maneira grande que não tivemos mãos suficientes para o agarrar. Então, que dizer quando temos reunidos aqui nesta cidade alguns dos maiores produtores da música do mundo, ou influentes jornalistas de grandes meios de comunicação social internacionais, ou até mesmo ministros de cá e do Senegal, nada mais, nada menos que Youssou N'Dour, Ministro do Turismo e Cultura do Senegal e que, por outro lado, tenhamos uma tão pálida presença de músicos e produtores musicais e outros agentes do mundo da música nesse grande evento?! Então?! Chamamos o mundo e não estamos preparados para acolher o mundo?...Cada um terá a sua explicação e até as suas queixas, mas cá por mim o indicador foi: Cabo Verde é tido como um país da música, por excelência. Todos, nacionais e internacionais, são unânimes em afirmar que é desproporcional a quantidade e a qualidade da música CV em relação à dimensão territorial do país. Mas no entanto, desse facto à efetivação de bons negócios para a música CV, vai ainda uma bom bocado. É definitivamente o trabalho chato mas inultrapassável que temos de fazer, nas nossas organizações, na nossa maneira de estar, que tem que passar da boa-camaradagem a parcerias profissionais sérias, sólidas e produtivas. É tal coisa de passarmos do estado da mão-estendida, para meter as mãos e fazermos o nosso próprio desenvolvimento. Mas para isso tudo é preciso abandonar um certo pensamento curto, também, segundo dizem, típico de terra pequena.

14.3.13

Cheiro a Túmulo


De toda a vez que olho para as realezas europeias, simbólicas mas ainda largamente presentes, ainda por cima, para infortúnio dos seus súbditos, a consumirem uma boa parte do orçamento dos seus Estados, o que parece uma contrassenso, porque a República derrubou a monarquia, mas continua a pagar as suas ossadas a preço de ouro, ou quando vejo uma enfiada de velhotes que nem se aguentam de pé no Vaticano a ditarem o que grande parte da população do globo deve e não deve rezar, ou quando sei que ainda os preços das matérias-prima de África se decidem nas bolsas europeias e norte-americanas, que também as artes e a ciência continuam ainda largamente sediadas na Europa e nos US, percebo que a chamada crise não é mais que um terramoto que vai fragmentar essa excessiva concentração de poderes e vai proporcionar novas centralidades. Isso já acontece com a China a comprar as dívidas públicas, ou Angola a comprar ativos europeus, ou o Brasil a liderar a Cultura Digital. Mas percebo que ainda é preciso dispersar mais os poderes e olhar para o (re)crescimento do festival de cinema Fespaco, ou ver para a CEDEAO como uma grande espaço para negócios e intercâmbio, ou mesmo, aqui ao lado, ver para a Bienal de Dakar como um espaço que já devíamos pertencer.

Quando penso nesses vetores sinto-me horrivelmente sufocado no provincianismo barroco destas ilhas, com essa mania que somos os maiores, sem nos darmos conta que isso foi um dedo que nos enfiaram por um buraco acima. 

5.3.13

Empreendedor


Badio é o nome fictício de um condutor badio no Sal. Badio, para os que não sabem, é a denominação dada aos habitantes da ilha de Santiago, tipo carioca para os habitantes de Rio de Janeiro. Para os que não sabem também, cada habitante de cada ilha é famoso por alguma característica. Os badios e as badias são famosos em determinadas profissões e vão a todo o lado de Cabo Verde para demonstrar que são especialistas nessas profissões.

Badio é condutor das famosas carrinhas que fazem a carreira Espargos-S.Maria-Espargos, na ilha do Sal. Eles não dão qualquer chance aos condutores das outras ilhas. São eles os reis da praça. Quase 2h da tarde, em S.Maria, eu tinha uma pressa grande de chegar a Espargos, para encontros de trabalho. Poucos clientes na carrinha. Na verdade eu era o único cliente. Badio faz de tudo para captar clientes. Circula, vai, vem, sai do carro, pega as pessoas na mão, canta-lhes, fala francês, italiano ou seja o que for preciso para dizer "Espargos, Espargos!" (com entoações em várias línguas). Badio vai e vem e eu com tamanha pressa. Disse-lhe, sócio (que é como em Santiago dizemos "companheiro..."), vou ter de sair do carro e apanhar um táxi (que é 10x mais caro). Badio num ápice, por instinto mesmo, replicou, pagas 800 e vamos! Nada contra; poupei 200 em relação ao táxi, despachava-me, Badio, à primeira vista perdia 700, mas...feitas as contas, ele deve ter feito um bom negócio: não ficava 1h a circular por S.Maria à cata de clientes, otimizou assim o tempo, ainda apanhou mais uns 2 clientes pelo caminho e talvez se tenha safado, num dia particularmente difícil, com tantas carrinhas na praça e poucos clientes.

A vivacidade de Badio inspirou-me. Se uma parte dos Caboverdianos fosse assim vivaço e com instinto empreendedor como Badio, estaríamos melhor, de certeza.

21.2.13

Praia Mundi

Artista: Nicholas Byrne

Pai, na minha sala há 2 americanos, 3 angolanos, 1 guineense, 3 portugueses...e 13 caboverdianos. Ahn, um dos caboverdianos é filho de uma russa. Foi assim que Naia se deu conta da multiculturalidade da sua sala de aulas.

Uma das razões porque gosto tanto da Cidade da Praia é porque gosto tanto de gente diferente. E Praia tem qualquer povo que se possa imaginar, com especial predominância de senegaleses, guineenses, nigerianos, mas também imensos portugueses. Sem esquecer os chineses, que parecem se multiplicar por clonagem. Mas ainda há indianos, espanhóis, franceses, italianos, japoneses, brasileiros, de outros países e um pouco de todo o lado. Tenho pelo menos um amigo de cada um dessas origens. O que não gosto é da imensa ignorância, o que leva à intolerância, de uns em relação aos outros. Nós não gostamos de nenhum deles, enchem-nos a terra. Os portugueses não gostam de nós, vivem fazendo piadinhas. Nós não gostamos dos chineses, que são antipáticos, mas também eles não devem morrer de amor por nós. Os guineenses não gostam de nós, que somos armados em superiores, igualmente os senegaleses acham-nos levianos, os franceses nem se misturam, igualmente os espanhóis preferem o seu gueto. Os angolanos tem uma definição concisa de caboverdiano, nós também deles. Regra geral, qualquer africano do continente não nos considera africanos, porque regra geral não nos sentimos africanos. Os europeus não nos reconhecem como africanos, mas tão-pouco nos reconhecem com europeus. Preferimos pertencer a uma raça abstracta que se chama atlânticos. Oiço essa coisa da boca de muito boa gente. Somos uma geração da intolerância, mas com pretensões cosmopolitas. Fingimos nos dar bem, mas não nos damos bem. Sorrisos em face um ao outro e passamos um jantar todo a descascar para cima dos outros. Vice-versa já foi observado também. Eu gosto de eles todos, excepto os seus maus comportamentos. Também eu já fui surpreendido a ter atitudes exemplarmente racistas, mas procuro me adaptar, juro. Mas enfim, gosto tanto deles todos, até porque dão-me motivo para escrever.

Naia vai crescer numa Praia multicultural e nem vai se lembrar da origem dos seus amigos do parque de diversões. Ou pelo menos é a minha esperança.

20.2.13

Notas cotidianas

Artista: Christopher Knowles

Boa educação à moda antiga ainda não tem substituto. Continua válido, elegante e delicioso.

Normalmente saio de casa de manhã bem devagar. Apanho os raios de sol todos, entre a casa e local de trabalho, porque nesses dias tenho o privilégio de ir ao trabalho a pé. Paro, falo com as pessoas, não tenho pressa nenhuma em chegar ao escritório. Nesse pequeno tempo entre um local e outro, acontecem coisas incríveis, boas e más. Aconteceram-me:

Um miúdo, que não deve ter mais idade que a minha filha de 8 anos e portanto devia estar, ou na escola, ou a estudar, ou a brincar, mas não, em vez disso vendia rebuçados na ponta da esquina para ajudar a economia familiar. O miúdo virou-se para mim, abruptamente, e disse: "kant'ora?" (quantas horas?). É exatamente por isso que gosto de sair de casa devagar, para ter calma de espírito para reagir as negatividades do cotidiano. Virei-me para o miúdo, num tom de pai, e disse-lhe: "querido, diz, por favor, diga-me as horas e no final diz obrigado". Obriguei-lhe quase que repetisse a frase e ele timidamente, envergonhado, repetiu. Despedi-me, como um pai. No outro dia, vinha a passar na mesma rotina, o miúdo virou-se para mim e disse: "senhor, que horas são, por favor?". Tive um ataque de sorriso! Disse-lhe as horas e ele aprontou-se: "obrigado, senhor!". O sorriso deve ter ficado incrustado na minha cara o dia todo, espreitei o miúdo ao afastar-me, ele via para mim e sorria, no que podia traduzir-se por: "obrigado senhor, por me ter ajudado a ser um miúdo melhor".

Adoro esses detalhes do cotidiano. 

15.2.13

Ativismo de pacotilha

(donde apanhei não vinha autor, sorry autor)

Ficaria muito contente se o protesto sobre um alegado plano maquiavélico de acabar com a praia da Lajinha, em S.Vicente, fosse um verdadeiro ativismo civil e ambiental. Esclarecimento: ativismo, o verdadeiro, caracteriza-se por um movimento de cidadãos responsáveis, que se organizam, repito, se organizam, torno a repetir, se organizam, para estudar (repararam que disse "estudar"?) um assunto e, constatando clara indicação de lesa interesse público, mais uma vez, se organizam para procurar as melhores formas de protesto, que passam por escrever cartas fundamentadas às autoridades, fazer conferências de imprensa elucidativas, publicar nos jornais, fazer filmes para a Internet, criar petições, fazer vigílias nos locais afetados, e ter a consciência que essas lutas podem durar anos. Já agora, lembrem-se de perguntar aos outros interesses na ilha, o que pensam sobre isso: os operadores económicos, os proprietários de camiões, os comerciantes, etc. Outra coisa, deixar que os políticos tomem frente dessas "batalhas", não conta.

Ficaria muito, mas mesmo muito feliz, se esse protesto representasse um acordar de um sono secular sobre a GRANDE destruição da Baía do Porto Grande, em S.Vicente. Ao longo de décadas, se calhar já vai para um século, essa baía sofreu todo o tipo de exploração selvagem. Começando pela razão da prosperidade de Mindelo, a exploração do carvão. Passando pelas petrolíferas. Ou ainda o grande poluidor Estaleiros Navais. Ou até mesmo o grande Porto. Sem esquecer Caizim, a lixeira marítima. Sem mesmo esquecer a Marina. A Baía do Porto Grande recebe todos os dias que o universo criou, uma carga nova de poluentes, desde de lixo ordinário, a hidrocarbonetos, pneus, esgotos, decapagem, químicos e mais uma data de coisas. É a baía mais poluída do país, apesar de na superfície ser a baia mais linda do país.

Pois então ficaria contente se, finalmente a sociedade começasse a questionar as coisas, num modo geral, a pôr os seus próprios modos de vida em questão, passassem a ser mais ambientalistas e solidários. Que tirasse a bunda do sofá e doassem um pouco da sua energia a causas não remuneradas, que festejassem, mas também batalhassem. É que, ter posições bombásticas é fácil. O difícil mesmo é viver com convicções, como fazendo parte da nossa ação, para sempre.

8.2.13

Tarantino, humano afinal


Já vi todos os filmes do Tarantino (excepto a curta de estreia e um tal de Four Rooms) e vou continuar a ver tudo o que ele faça, porque é dos cineastas que mais me inspiram, mas, à revelia da grande histeria mundial à volta de Django Unchained, eu não adorei o filme.

O que mais se destaca em Tarantino, para mim, é a sua capacidade de surpreender o mais avisado dos cinéfilos. Tinha jurado que não via mais nenhum filme sobre a II guerra, mas com Inglorious Basterds lá fui porque era o meu herói Tarantino. Não perdi a viagem, aliás nunca imaginei ver um tal catarse ao Holocausto. Pois, em Django nada surpreende. O argumento é revelado inteiramente nos primeiros 10 minutos, os personagens são francamente inferiores ao que já nos habituou Tarantino, excepto a monumental interpretação de Leonardo DiCaprio, e até o apoteótico momento de banho de sangue, marca indelével de Tarantino, em Django foi um tiroteio sem piada. Detestei o personagem de Samuel L. Jackson, a quilómetros de distância do maravilhoso Jules de Pulp Fiction ou o todo poderoso Ordell de Jackie Brown. Esse Dr.Shultz que perecia ser a grande promessa do Django, é afinal uma pálida sombra de grandioso Coronel Landa de Inglorious. A pretensão de filme-catarse esvaiu-se completamente na novelinha do amado que vai salvar a amada, numa alusão a um conto alemão também de amado que salva amada, que no final resultou nisso mesmo, numa novelinha. Tarantino domina vários códigos culturais, mas quanto a mim, precisa pensar numa versão melhor de catarse  da escravatura nos Estados Unidos. Terá irritado Spike Lee pela ligeireza de mexer com esses códigos. Até mesmo num aspeto que ele também demonstra grande criatividade, a banda sonora, aqui em Django meteu um rap que parece-me algo forçado. Prefiro a sua cultura funk.

Enfim, sempre na minha pessoalíssima apreciação de um dos melhores realizadores do cinema contemporâneo, Tarantino parece-me estar a atravessar aquele momento na vida de um artista que é preciso repensar a linguagem, afim de evitar a desgraçada imitação de si próprio. Tarantino habituou-nos a uma nova obra-prima a cada novo filme e eu, enquanto fã absoluto, não podia deixar de ficar desiludido por este que considero a sua obra menor, na esteira de Reservoir Dogs, Pulp Fiction, Jackie Brown, Kil Bill I e II, o super-hiper Inglorious Basterds. Bem talvez seja melhorzito que Death Proof, outro tiro ao lado de Tarantino. Que venha o próximo.

31.1.13

Onde cagamos


Segundo o QUIBB 2007, que é o Questionário Unificado de Indicadores Básicos (realçar "Básicos") de Bem.Estar, em todo o Cabo Verde, 27% dos agregados urbanos não tem retrete, ou seja, de cada 100 agregados, 27 cagam na cidade, e 60% dos agregados rurais (porra, 60%?!!) não tem retrete, o que significa que, em cada 100 só 40 propiciam aos seus integrantes um relax, conforto e higiene, dessa infraestrutura essencial numa civilização moderna.

Tendo em conta que todos os municípios agora são cidades, temos a concluir que estamos a cagar as cidades.

27.12.12

Pontos Pretos

Imagem ripada daqui: fotocommunity.de

De repente somos assaltados pelo anúncio que em Ponta Preta, Ilha do Sal, pretende-se fazer uma coisa para facilitar aos pobres turistas o seu chapinhar na água e que assim vão ficar mais contentinhos e assim prometem voltar mais vezes à nossa terra e assim teremos mais riqueza e bem-estar.

Fala-se em impacto ambiental. Uns argumentam que danifica a natureza, outros argumentam que não danifica assim tanto. Outros ainda preferem estribar argumentos legais, é legal, não é legal. Fala-se em interpor recurso na justiça, na desesperada tentativa de travar o que, alguns consideram, um absurdo. Sem se posicionar necessariamente de um dos lados da barricada, heis uma questão válida para ambos os lados da barricada: e o valor sentimental? E a necessária calma antes de se tomar grandes decisões? O que pensa ilustres cidadãos desta terra, tais como o campeão mundial de kitesurf, Mitu, sobre o assunto, não conta? Vamos parar um pouco aqui nesta ideia: campeão do MUNDO! Ele um dia, entre os centenas de atletas de todo o mundo, foi o nº1. Ele deve isso à sua ilha do Sal, às ondas, ao gosto pelo desporto do mar. E nós devemos a ele um pouco de respeito.

As estruturas legais e administrativas deste país precisa prestar um pouco mais de atenção a o que sente os seus ilustres cidadãos, guardiões da terra e dos mares, gente com ligação ancestral ao bocado de natureza onde vivem. Não se trata se tem impacto ambiental ou não, se é legal ou não, se é regulamentar, se preenche requisitos, se é tecnicamente bom e mais adjetivos. Trata-se de voltarmos para coisas básicas, sentimentais, ou estaremos perdidos, entre a frieza administrativa e a visão curta de um mero negócio.

Além disso, a natureza dessas ilhas é tão delicada, pela sua exiguidade, que a mentalidade ambiental devia ser: quanto menos, melhor! Mais delicadeza, por favor!

8.10.12

Língua materna vs Língua madrasta


Não haverá desenvolvimento verdadeiro sem o desenvolvimento da língua materna, ponto! Exercício diário, vulgo TPC (Trabalho Para Casa) que desde a minha infância são meros cumprimentos de obrigação, em vez de serem entusiasmantes prolongamentos dos ensinamentos nas aulas. E continua. Sempre me angustiou essas questões. Como uma filha a crescer rapidamente, para além da angústia vem-me a revolta. Vejam só este enunciado:

"Ao número anterior, adiciona uma unidade ao algarismo das dezenas e de seguida subtrai um unidade ao algarismo das unidades. Ao número obtido, faz a soma dos dois algarismos. O que verificas?"

Agora adivinhem de que ano escolar estamos a falar...A 3ª classe, o ano em que a minha filha de 7 anos frequenta! E como ela lida com isso? Mal, claro! Porquê? Por causa da língua, caraças!! Como descascamos esse ananás? É assim: antes de resolver o exercício de matemática, sento-me com ela a resolver o problema da língua. Pergunto-lhe, percebeste o que o texto quer dizer? Não. Então vamos por partes, lê um pedaço de frase de cada vez e explica ao papá em crioulo o que quer dizer. Assim, continua. Agora lê a frase toda e liga as ideias. Consegues agora perceber a frase? Sim! Ótimo. Pronto, agora que percebeste a frase, vamos lá resolver o problema da matemática. Qual é o algarismo das unidades? Boa! E qual é o das dezenas? Continua, agora adiciona-os. Pronto!

Esta novelinha acontece com todas as disciplinas, inclusive a disciplina de Língua Portuguesa. Raciocinar na língua materna e fazer a tradução, no sentido de compreender e no sentido de escrever a o resultado. Agora ponho a questão: e os milhares de meninos que sequer têm uma família coesa, quanto mais pais pacientes e com um pouco de metodologia para desembrulhar essa complicação do sistema? Pois, produzir meninos estúpidos ao 12º está plenamente explicado.

3.10.12

Cultura vs Agricultura

Artist: David Adamo

Ser pai é um desafio todos os dias.

Ter o noticiário televisivo ao pequeno-almoço é um avanço notável. Podemos bebericar vagarosamente o café, enquanto tomamos o pulso ao mundo, ao menos ao nosso pequeno mundo local. Passava uma notícia sobre a cultura, sobre o mês da cultura, sobre arte e sobre a grande confusão do que vem a ser arte e do que não chega a sê-lo. A filhota que também parecia se interessar pelas notícias, ou então ficou curiosa pelo facto do papá prestar particular atenção nessa notícia, veio com a fatídica pergunta: papá, o que é cultura? Apanhado, com a boca cheia e sem resposta na ponta da língua, antes que eu pudesse acabar de mastigar e remoer uma explicação para tão complicada pergunta da miudinha, ela complicou ainda mais a questão:

- Sei o que é agricultura, mas cultura não sei!

Ocorreu-me, ainda a ver a notícia, que precisamos de muita coisa no nosso fazer da cultura e uma delas é ter curadores de arte, formados e, fundamentalmente, com experiência em museus e galerias de renome, de pelo menos 10 anos. Chega a ser insultuoso para os artistas, que trabalham anos a tentar perceber o que é isso de arte, que qualquer coisa seja chamada de arte, escancaradamente.

Confesso que esquivei-me à pergunta da minha filha, com as devidas explicações do adiamento da resposta. É uma pergunta complicada, estávamos atrasados para a escola e o trabalho e o papá ia procurar a melhor forma de responder. Está prometido, filha. É importante que ela cresça a saber distinguir muito bem o que é cultura e o que é agricultura.