15.12.08

Ignorância e esquecimento

"Emigrantes portugueses desintegrados em Andorra
Uma investigação, elaborada pela socióloga Magda Matias a pedido do governo andorrano, aponta para a "existência de segregação política, laboral e cultural", apesar dos portugueses serem a maior comunidade estrangeira no principado.
" Fonte: Expresso

Vi também na televisão que em Portugal, por desculpa da crise, estão a "convidar" os nosso emigrantes a voltar às suas terras, mesmo que isso signifique deixar para trás uma vida inteira (de miséria). Povos emigrantes deviam ser mais tolerantes uns em relação aos outros, mas não são. A Declaração Universal dos Direitos Humanos fez 60 anos, mas ainda não apanhamos o significado do termo "Universal". A gestão das Migrações é um falhanço universal dos Direitos Humanos: em parte alguma os emigrantes são tratados com dignidade.

13.12.08

Uma Entidade baixou aqui...

"Leio tudo. Devoro tudo o que está escrito nos tais blogs de Cabo Verde. Sou um devorador de blogs. Tenho várias máscaras, pseudónimos e nomes. Sou amigo de todos e de ninguém. Estou e não estou. Sou e não sou. Existo e sou um fantasma. Estou por perto e tenha uma visão global de ti e de todos os que te rodeiam. Estou em todos os lados. Sou Omnipresente, Omniconsciente. Sei todos os teus passos. Sei de todos as tuas fraquezas. Sei os teus fortes. Sei como pensas. Sei como devias pensar. Sei onde estás e onde não vais. Sei onde queres chegar e onde não alcanças. Sou o anónimo. Sou todos os anónimos num só. Estou por dentro. Sou aquele te mete medo. Que te faz pensar. Que te faz dar justificações pensadas num sábado de manhã quando devias estar com a família a curtir a vida que é curta."

Comentário de um Anónimo...Um verdadeiro Manifesto Anónimo. Não estou a ser cínico: achei verdadeiramente se tratar de uma leitura interessante: a do olho que não se vê, dos passos atrás de nós que não se ouvem, do objector de consciência, do misticismo, omnipresença, omniconsciência...brrr...estou arrepiado.

Há frase e frases

"Franco-atirarei na tua ideia discordada e não no teu peito inocente dela"

Um visitante deste blog, com a imagem enigmática de Cristo, que diz frases revolucionárias, tem delicadeza de poeta, apelida-se de Joshua e escreve muito aqui: http://joshuaquim7.blogspot.com/

Neste mundo perdemos uma jóia numa esquina e encontramos um baú na próxima.

Tempo de mudar

Vamos entrar no ciclo das pré e precoces campanhas eleitorais. A partir de agora tudo será classificado de verde ou amarelo. Quem nem é uma coisa ou outra, melhor desaperecer de circulação. Vou experimentar o que é isso.

Tempo de fechar, fechar-se e inventariar-se. Durante anos, progredi quieto na fotografia, nas artes plásticas e na escrita, num percurso de tentar decobrir com se fazem essas coisas. Nunca tive a ousadia do público. Houve pessoas que me dizia: é preciso começar por algum lado, porque a obra nunca está acabada. Então um dia, enchi o peito de ar e saí à rua. A vida mudou.

Fizemos Praia.Mov 2006, 2007, "Texturas da cidade" em 2008, fizemos teatro, fomos ao Mindelact, conhecemos artistas brilhantes, lemos e escrevemos bastantes coisas, poesia, fizemos "META_FORA", este filme que está por debater, participamos num festival de filmes documentários, seguimos vários workshops, promovemos vários debates, compilamos muitas ideias, conquistamos pessoas, fomos ao estrangeiro, ARCO'07, uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo, andamos a escrever crónicas todos os meses e até na televisão pública já fomos parar e é precisamente neste ponto, da televisão, da máxima exposição, que vem a necessidade do balanço.

Balanço para mim: ENORME. Balanço social: FRUSTRANTE. Vivo num país carente de tudo, principalmente de discussão. Temos um déficit enorme de participação. Somos um país de egoístas e mesquinhos. Por mais que uma pessoa se esforce para estar na boa, tentar eliminar a ideia da vaidade, tentar demonstrar a OBRA, há sempre uma núvem de crápulas prontos a atacar ao mínimo erro (humano). Estão sempre aí, a fazer não sei o quê, mas sempre aí, à espreita. Consigo sentir-lhes o bafo, os dentes afiados, à espera que a presa se enfraqueça. Ainda por cima mascarados.

A vontade de fechar-se tem a ver com repensar as coisas, porque não estão funcionando. Uma pessoa se expõe, trabalha mesmo (depois das horas), errando de certeza, mas tentando sempre, e quando olha à volta, nada mudou e ainda ganhamos uns pentelhos de estimação. A estratégia não tem sido boa.

12.12.08

Girar, girar, girar

Lá vou eu hoje ao 180º do Abraão...girar. Das outras vezes fui com convicção, com algo para dizer e procurei a melhor forma de o dizer, sabendo que a televisão é um saber próprio, aprende-se com a prática e nem sempre a mensagem sai da melhor maneira. Mas hoje não estou convicto; estou inseguro e um tanto desanimado. Que tema abordo? Qual é o sentido das palavras? Que efeito é que elas têm, neste país que parece que palavras são bandeiras rotas?

As palavras neste país, ou são bandeiras rotas, ou devem ter somente 1 de 2 cores possíveis, as cores dos 2 únicos partidos deste país, para que tenham ouvidos. Se esta afirmação for verdadeira, estamos mal. Se existem só 2 partidos efectivamente, estamos mal. Se não há outras bandeiras estamos mesmo mal.

Qual é a forma de contrariar a palavra política, que neste período que já se vê as eleições no horizonte, distorce a realidade. Entramos no período do marketing político. Para uns está tudo errado. Para outros está tudo bem. E no meio? E no meio disto tudo, onde pára a sociedade? Ou seja, onde estamos? Qual é o valor efectivo das nossas acções? Eu escolhi ser participativo; qual é o significado disso? Quanta energia terei de dispensar até conseguir um resultado efectivo?

Não sei de nada e por isso estou desanimado...

11.12.08

Countdown project

Faltam 159 dias, 9 horas e 17 minutos para terminar o prazo que o Ministério da Cultura deve estregar o Plano Estratégico da Cultura, PES. Estou em pulgas!

Hoje foi anunciado que vai haver (mais) um fórum para debater o ALUPEC. Para começar o MC está virar um especialista em fóruns. Faz sentido, na medida em que este país tem a cultura dos fóruns, mesmo que não produzam coisa alguma e gastem centenas, ou mesmo milhares, de contos. Preciso saber: as (in)conclusões e as re(co)mendações deste fórum vão ser integrados no tal PES? É que preciso saber se ponho mais um contador, para a implementação de políticas efectivas de defesa das nossas línguas, ou não.

Bom, sei que o tema é ALUPEC, mas, ao meu ver, precisamos falar de Língua, que no nosso caso são Línguas. Não é todo o país que é bilingue, ou semi-bilingue, como somos. Mas há uma grande distorção no tratamento do assunto: a língua mãe não é ensinada nas escolas/a língua madrasta é ensinada pessimamente; a língua madrasta tem autoridade decretada/a língua mãe tem autoridade efectiva;...e por aí fora.

O certo, certinho, é que somos mal servidos de ensino de Língua(s) e por isso praticamente não temos Literatura.

Evasão/Invasão

Imagem da WWF
Acordei com vontade de correr. Fazer jogging, como fica mais chique dizer. Tradicionalmente ía correr pelos lados da Quebra-Canela, o nosso reduto espiritual, em desaparecimento. Agora aquilo anda cheio de obras. Hoje fui correr dentro de um ginásio, para evitar a irritação que essas obras causam-me. Mesmo assim fiquei com o assunto na cabeça.

Eu sou ABSOLUTAMENTE contra todas as obras que estão a ser feitas na Quebra Canela. Os mais velhos dizem que o areal da QC, em tempos outros, era extenso. O areal foi ficando curto, com o avanço da cidade, com a erosão, mas também com a apanha de areia (sim, há apanha de areia na QC). Agora, com (a moda) o asfaltamento da estrada da QC, o areal ficou ainda com menos espaço. Aliás, QC está a ficar quase que um estorvo ali. Parece que a vontade é de acabar com aquele pedaço de praia.
Não bastasse o encurtamento da praia, resolveram fazer um enorme saída de águas, que não sei bem se são residuais, superficiais ou fecais, bem dentro da praia!!!!...

A cidade da Praia não tem cidadãos; têm bestas quadradas.

8.12.08

A uma mulher

Imagem:Basquiat
Amiga, haverá alguma forma de suavizar o teu sofrimento? Haverá forma possível de atenuar a barbárie de uma violação? Que não bastante bárbado em si, veio a quadriplicar?

Servirão de algo dizer-te palavras e finalmente não guardar mais a admiração que te tenho e informar-te que poucas pessoas merecem o meu respeito como mereces? Servirão as palavras, ditas de circunstância, por ditas pessoas importantes, que, dirão, sentem profundamente?

Haverá castigo suficiente para os perpetuadores de tal babárie? Serão os doze anos que ouvi dizer que se apanha de cadeia para esses casos, com todos os agravantes, compensação de alguma coisa?

Amiga, nem posso imaginar as chamas que ardem no teu ventre agora. Nunca, ninguém, por abstração, intelectualmente, poderá por-se na tua pele. Só posso estar inundado de raiva como estou agora.

E vou mandar à merda a próxima pessoa que entrar por este blog e sugerir que eu pare de chatear, que eu pare de dizer que tudo está mal, que eu vá cuidar da minha vida, que eu vejo tudo torto, porque, para além de a mandar à merda, vou lhe dizer que não vou parar de chatear, que enquanto agirmos como se a estupidez não existisse, vou ser um valente chato. Ou então do que vale a força, a inteligência, a educação e as possibilidades que me foram dados?

Ironia macabra

Imagem:Basquiat
Quando a violência ocorre bem dentro no nosso seio, com a nossa gente, com a gente que abraçamos, temos saudades, alegramos ao revê-los, gente que admiramos, que amamos, sentimos então o quanto somos estúpidos. Sentimos de verdade o quanto pode a raça humana ser despresível.

A minha amiga, que admiro tanto, tão linda, foi estrupada violentamente, por QUATRO demónios disfarçados de homens. O meu amigo foi espancado, amarrado e obrigado a assistir a macábrie. O meu amigo até que poderá, dificilmente, se recuperar um dia, mas a minha amiga não. A minha amiga, mãe, profissional, cidadã de alto valor, amiga mesmo, doce e inteligente, foi escolhida pelo inferno para ser infligida um castigo. Não se livrará nunca do inferno.

O castigo parece ser: irresponsáveis, apelidados de políticos, mas previligiados pela sociedade, porque tem o poder de decidir por toda a sociedade, digladiam-se pela conquista e manutenção do poder. Nesta luta, estúpida, pelos valores que atrela, uns escondem a brutalidade, outros brutalizam. Então vem Deus, se existe, ou uma Força Oculta, ou uma Lógica qualquer que anda por trás disso tudo, inflingir um temeroso golpe, a ver se alinhamos o juízo. Eu sei, a violência existe em todo o lado. Mas não acham que estamos a beirar o estupidamente ridículo?!

Mas porquê os meus amigos? Mas também dirão os outros: porquê os meus amigos? Então digo somente: porquê?

Ironia trágica do destino

Imagem:Basquiat
O jovem casou-se. Primeiro no Civil, para depois, no dia a seguir, ir casar na igreja e arrebentar-se de alegria em festa, com a família e com os amigos. Em vez disso morreu em trágico acidente de automóvel, a preparar a sua própria festa. Um hetacombe cai sobre os familiares, sobre os que o conheciam e comoveu toda a sociedade, parecendo realmente uma piada de muito mau gosto de uma força oculta.

Lembro-me que as nossas estradas são assassinas, que a prevenção não é suficiente, que morre gente barbaramente em acidentes de automóveis, mas, como teve um policial a lata de dizer certa vez, o balanço é positivo, porque para o mesmo período, do ano passado para cá morreu menos gente. Para o idiota do policial, uma dica: tratando-se de vidas humanas, ou melhor, de morte humana, o balanço nunca é positivo; no máximo é menos negativo.

5.12.08

Estamos todos FU...

Se há uma coisa absolutamente clara para mim, na celeuma gerada pelas moções confiança/censura, é que a classe política, ela todinha, está a levar este país, outrora miserável e de brandos costumes, para caminhos perigosos.

O Governo, "protegido" pela lei, adjudica de forma directa cerca de 14 milhões de contos de obras a empresas estrangeiras. Sabem quantificar esse montante no contexto CV? Só uma referência: o Orçamento do Estado é de cerca de 52 milhões de contos. O que diz a tal lei de adjudicação de obras públicas, que protege os políticos, e nos desprotege, a nós cidadãos: que o Governo pode adjudicar qualquer obra directamente, desde que este tenha carácter de urgência ou se revele oportuno. Agora digam-me, o que tem a Circular da Praia de urgente? e oportuno?? E outras tantas obras? E o ESTRONDOSO escândalo da adjudicação do imenso projecto, que é Palmarejo Grande, a uma empresa que nem sequer tem alvará para essa dimensão de obras?

A Oposição anda a querer desmontar o Governo, mas, para além de não conseguir reunir provas materiais concretas, a sua classe tem tantas imbricações com os tais negócios supostamente irregulares, que não podem forçar muito a barra. Hoje fiquei a saber que a Sociedade Lusa de Negócios, a que está a causar um terramoto político por cá, ao qual o Governo está (ou esteve?) ligado, dona da corruptíssima BPN, tem administradores que foram figuras de proa do MPD e do Governo da República de Cabo Verde.

O nosso calcanhar de Aquiles: SOCIEDADE CIVIL. Não me interessa se o Governo faz adjudicações legais; o que me interessa se são moralmente aceites e se são lesivos ou não para o país. Não me interessa se a Oposição grita no Parlamento; interessa-me que mostrem, por vias legais também, as irregularidades dos factos e que sejam capazes de fazer mea culpa. O que está claro é que, enquanto a Sociedade Civil não se mexer, os políticos continuarão a ser donos e senhores desta terra. Ou seja, enquanto os cidadãos não conseguirem se organizar em associações, grupos de cidadania, grupos de pressão, manifestações, petições, ou qualquer outra forma efectiva de exercício da cidadania, continuaremos a colher os malefícios da actuação política: especulação económica, delapidação do património nacional, desigualdade social, erosão moral e geração de conflitos.

Para o nosso maior pesadelo, atribuem-nos boa classificação no mundo, tendo em conta que o nosso termo de comparação (o resto da África) está na lama.

3.12.08

Estado grave...e a piorar

A política caboverdiana está a atravessar um daqueles momentos tristes e graves. Tudo despoletado pela polémica do BPN português, que está ligado ao Banco Insular caboverdiano, criado pela Sociedade Lusa de Negócios, que está (ou esteve) ligada ao Governo.

Isso tudo dá à Oposição, mais precisamente à dupla de cunhados Jorge Santos/Fernando Freire, o direito de chamar ao Primeiro-Ministro de ladrão, mentiroso, de dizer que ele mudou a lei das instituições financeiras em nome próprio (como se os técnicos dessas instituições fossem moscas mortas) de gritar na Assembleia e de meter o PM na Justiça.

Isso tudo dá ao Primeiro-Ministro o direito de chamar a Oposição, à tal dupla de cunhados, de bando de arruaceiros e mais outros mimos e de os meter na Justiça.

A Justiça, já sabemos, anda emperrada, sem acção, nada pode fazer, porque a instituição carece de reformas urgentes de ordem técnico-legislativas, materiais e humanas. A mesma classe política (Governo+Oposição) não conseguiram aprovar o pacote de reformas da Justiça, o que revela que a classe política anda interessada em tudo, menos em desbloquear as situações concretas.

Crítica ao Primeiro-Ministro: o Governo não faz negócios; o Governo abre concursos públicos e explicita as regras do jogo. Ainda há dias aconteceu mais uma vez, o IFH, instituição pública, concedeu ao Monte Adriano a construção do Palmarejo Grande. E concurso?

Crítica à Oposição: a ideia que passa que é cosa nostra da tal dupla de cunhados. Onde estão os outros? Os de maior craveira que esses dois aí? Até quando os grandes homens da Oposição (Carlos Veiga, José Filomeno, José Tomás Veiga, José Carlos Fonseca, etc, etc, etc) vão permitir este nível de discurso incendiário, panfletário e, mais grave, sem provas materiais?

Alguém tem dúvidas que a classe política é a classe mais importante numa sociedade, o que quer dizer que o seu comportamento condiciona toda a sociedade? Ainda reclamamos da violência, dos maus costumes e dos valores distorcidos?


2.12.08

Achadura

Imagem tirada daqui: http://www.myspace.com/hernani1978

Hernani Almeida concedeu uma entrevista no jornal "Nação" que está a causar o maior reboliço, que acontece porque em CV a Arte é coisa emocional. Daí faltar a escola, para que nós aprendamos a dar a nossa opinião de forma mais fundamentada. A arte tem um parte subjectiva, que é muito menos subjectiva que muitos pensam, e uma parte técnica. A parte subjectiva tem a ver com a apreciação estética (gostar/não gostar), mas o resto são factos, são teorias fundamentadas na história, na sociologia, na antropologia, na...ciência.

Hernani fala com propriedade técnica, mas também opina e a sua opinião tem peso. O grande problema está quando outros "peritos" se põe a construir teorias em cima das opiniões dele, acabando até por distorcer as suas opiniões. Leiam Hernani devagar, porque ele é honesto e bastante assertivo

Que em CV a música não se desenvolve. Não totalmente verdade, senão ele próprio não existiria. Completamente verdade, se compararmos com outras realidade e com o "achar" que somos desenvolvidos. Como ele próprio disse, formas musicais mais evoluidas não temos, como o Jazz.

Que Princisito não é músico, estou certo, quis ele dizer que Princisito não é arranjador e falta-lhe técnica. Mas Princisito é muito músico (na expressão do Djinho) no sentido em que ele é um criador inspirado e talentoso.

Depois vêm as famosas comparações S.Vicente/Santiago. Quando é que começamos a fazer debates sem paixão sobre este tema? Quando é que começamos a apoiar na História, como uma ciência, para fundamentar as nossas declarações? O que estamos a assistir, DE FACTO, na música caboverdiana? Será difícil perceber que S.Vicente, por mais que nos doa, está a perder vitalidade social, logo cultural e que, logicamente, a criação artística tenha decaído? É complicado perceber que, historicamente e antropologicamente, a ilha de Santiago é o nosso maior stock cultural, e que sendo actualmente a maior economia do país, logo a maior dinâmica social, fosse natural a exploração do seu stock cultural? É tão inaceitável admitir que Santiago é de momento o maior contributo à música CV? Já paramos para pensar que até mesmo sociedades muito avançadas, como os EUA, UK, França, muito evoluídas tecnicamente, tiveram a necessidade de procurar matrizes de outras partes do mundo (pobre) para se revitalizar?

Porque não aceitamos como natural e tranquilo que grandes músicos de S.Vicente, porém a viver numa sociedade em retracção, colaborem com criadores e portadores de grandes tradições de Santiago, produzindo coisas novas. O disco de Princizito é terrivelmente autoral, quase que a sua cara, porque Princizito tem uma grande presença de espírito; é o som do Princizito; é a sua poesia. A produção musical é do Hernani e é uma produção de fina qualidade técnica, mas em momento algum, nem o próprio Hernani, reclama a autoria desse disco.

Hernani Almeida é um grande homem, pelo valores de honestidade intelectual que cultiva. É doloroso ver "artistas" a usarem o seu nome para alimentar essas questões "ruidosas" que estão a circular por aí.

Countdown

Resolvi pôr pimenta aqui no Bianda. Na barra ao lado está um contador de dias que faltam para o MC apresentar o Plano Estratégico para a Cultura...Que me sirva de lembrete...porque não quero deixar de chatear...porque temos que chatear até que as coisas resultem.

Mulas

"Mulas" é o nome dado a pessoas que transportam a droga, dentro do próprio organismo. Que raio de nome feio que se farta! Por muito respeitinho que se tenha às mulas, mas apelidar um ser humano assim...! O triste é que, apanhadoa na grande teia do tráfico da droga, arriscando a vida, transportando quantidades impressionantes de droga dentro do organismo, acabam por ser isso mesmo.

Da Caps, um comentador do post anterior, disse a coisa certa: elas acabam por ser as grandes condenadas de todo um sistema, que nem mesmo os políticos estão isentos de culpa. É claro que o que fazem é crime e deve ser punido, mas é preciso urgentemente agir sobre todo o montante do problema. É só ver que o Primeiro-Ministro declara publicamente que há actividade política financiada pela droga e isso não tem consequência nenhuma. É só ver a quantidade de negócios (prédios, automóveis, estabelecimentos) que florescem por aí com dinheiro duvidoso. É só ver os advogados com alta responsabilidade no Estado a defender a "honra" de traficantes. É só ver, ou aliás, não ver o Ministro da Administração Interna a vir mais vezes à Comunicação a falar do tema. Por alguma razão mereceu a classificação de "tocha apagada" aqui neste blog.

Tenhamos a coragem de dizer: a nossa sociedade está impregnada de droga, das águias reais às mulas e que todos nós, mas todos nós mesmo, participamos disso. Ninguém tem o direito de se ausentar da sua responsabilidade social, sob pena de não pertencer a sociedade nenhuma. Mesmo quando achamos que não temos nada a ver com as questões, participamos, ao votar, ao consentir, ao pagar impostos, ao adquirir bens, ao calar-se. A democracia pode ser tão perigosa como a autocracia.