12.1.09

Erro(s) sistemático(s)

Quando as políticas, ausência ou deficiência delas neste caso, tocam a vida das pessoas é que começamos a dar conta que Política não é um mero jogo de palavras; tem consequências; e graves! Vejam o que está acontecendo com a Justiça.

Queríamos Ensino Superior (ES) no país a todo o custo e assim o introduzimos, de qualquer maneira. Alguns dirão: tínhamos de começar por algum lado. Sim, mas ES não é coisa que se inicia, como se inicia um bar. E as vidas que condicionamos de forma indelével?

Mais uma vez começamos e só depois pensamos em regular. E assim nasceu a Universidade Piaget CV, uma pequena aberração do sistema. Esta univ iniciou um, pasmem, curso de Arquitectura!! A Ordem de Arquitectos (OA) avisou que o curso não cumpria com alguns requisitos e poderia vir a não ser reconhecido. Dito e feito. Saiu a 1ª fornada de arquitectos e a OA não os reconhece. Crise. Um dos alunos põe a boca no trombone, acusando, pretensiosamente, a OA disto e mais aquilo. Mas em nenhum momento aponta um dedo à sua univ, que vende tudo menos qualidade. Disseram-me que a mesma celeuma está a passar-se entre os formados em Engenharias e a Ordem dos Engenheiros.

Pronto. Corrigimos a situação um bocado com a criação da Universidade de Cabo Verde (UnivCV), que tem trabalhado para recuperar o prestígio do ES, não sem um rol de intrigas. Ao menos introduziu-se a noção de que o ES não se faz de um dia para o outro. No meio tempo em que a UnivCV luta pela dignidade do ES, pipocam universidades, como se plantação de tomates se tratasse.

Agora a parte humana. Os alunos queixam-se de não ter bilbiotecas, laboratórios, de não ter aulas práticas, de faltar professores, de terem professores de bradar aos céus, de abusos das reitorias, de pagarem muito e de receberem pouco. Os professores queixam-se de faltar condições e material didático, de falta de organização e de abusos das reitorias. As empresas queixam-se de um incrível despreparo dos alunos formados in CV. E os alunos ainda não perceberam a alhada em que estão metidos.

Não estaremos a comprometer perigosamente uma geração inteira? Como diria o Chefe da Sombra (vulgo, Oposição), é um escândalo Sr.Primeiro-Ministro!

10.1.09

Um pé fora de casa

Imagem da revista "Crua"
Acontecem coisas incríveis, com o simples facto de se pôr um pé fora de casa. O mundo lá fora está sempre fervendo, cozinhando surpresas para o dia a seguir. Este Sábado, acordei com aquela boca seca, típica de ressaca, não importa agora o grau, mas tinha obrigações: compras, passar no trabalho, um programa para completar, e-mails para enviar: e tinha que me organizar. Lá pus o pé fora de casa.

Primeiro um café, onde acontece a primeira surpresa: um casal de amigos, agradáveis, que há muito que não os via, roubam-me deliciosamente uma parte do Sábado. Um assalto bom.

Segundo, ía a entrar para o carro quando aborda-me um jovem, tratando-me por Sr.César, meio sem jeito, desculpando-se pela abordagem, mas que há muito que procurava uma oportunidade de falar comigo, que segue o que faço e digo, que ele também tem ideias e que queria que eu o ajudasse de alguma forma a mostrar o seu trabalho. Confesso, fiquei baralhado na minha repentina posição de fama. Tratei, antes de tudo, de tirar o "senhor" e resolvi "perder" mais 20 minutos. No final, ele já sabia que eu era um simples mortal e eu já sabia que há mais gente atenta a pequenos detalhes. Que gratificante!

Tercerio, uma surpresa lunática. Quando já vinha no carro, aparece do meio do nada, correndo para a estrada em minha direcção, uma velha amiga, das mais belas nos seus remotos 16 anos, agora um pedaço de osso, restos de carne e pele a cair, gritando! Parei, ela entrou no carro, pediu-me que a levasse dali. Delirava. Um doido queria matá-la. Falava em torrentes desordenados. Estava possuidamente pedrada e cheirava mal, do hálito, dos sovacos, dela toda. O meu coração cortou-se de tristeza a ver a miséria humana a acontecer debaixo dos meus olhos, dentro de meu carro. Contive-me. Falei com ela da mesma forma que falo com a minha filha de 4 anos, calmamente, até que ela se acalmasse também. Pediu-me que a deixasse num lugar seguro. Fomos conversando, ela foi recuperando o tino e eu fui pensando que a única coisa que podia fazer por ela, era precisamente dar-lhe os 10mn de atenção que dei. Devolvi-lhe à estrada.

Finalmente entrei na minha vida, aquela que tinha planeado antes de pôr o pé fora de casa.

9.1.09

Pensamentos

"...como se pode pensar a política num estado de beligerância social, de perda de garantias e direitos, de total anomia jurídica? Nesta zona de incertezas jurídicas, o que significa agir politicamente?"
Giorgio Agamben, filósofo contemporâneo italiano.

Cidade baixa

Passou na CEB, ontem, dia 8. É assim: filme de porrada, ou pornô, ou de Steven Seagal, já sabemos que é porcaria anunciada. Mas certos filmes são lançados com a pretensão de cult e quando erram o alvo ficam mesmo mal. Desde "Cidade de Deus" que o (excelente) cinema brasileiro encontrou a fórmula para sensibizar o mundo para a sua miséria: escarram na sua cara toda a violência, a droga, a prostituição, de forma aberta. Bom, "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite" fizeram isso com maestria, mas o resto do pessoal, realizadores novatos, precisam tomar cuidado com esta "estética da miséria".

No caso de "Cidade Baixa", uma novelinha disfarçada de drama social, ainda por cima com uma referência subjectiva ao "Cidade de Deus", comete um pecado que me irrita solenemente: usar a miséria de forma oportunista. Se tirassem aquela estorinha daquele cenário e pusessem em outro cenário qualquer, continuaria a ser uma novelinha básica; continuaria a não dizer nada sobre os problemas que, supostamente, suportam o filme.

Valeu no entanto a interpretação de Lázaro Ramos, que vi no incrível filme "Cafundó" , e Wagner Moura, o célebre "Capitão Nascimento".

O cinema brasileiro contemporâneo é INCRÍVEL. Está inscrevendo Brasil na história do cinema mundial, com filmes de antologia, tais como: "Central do Brasil", "Abril despadaçado", "Cidade de Deus", "Eu, tu, eles", "Cafundó", "O cheiro do ralo", etc., etc. Ao Centro de Estudos Brasileiros, que cuidem da qualidade dos seus filmes, porque opções não lhes faltam.

A propósito de cinema, uma frase de Ismail Xavier, crítico de cinema brasileiro: "...deve-se pensar o cinema além do espectáculo, como uma forma de pensamento, experiência de duração, profunda intuição vital, que traz de volta um elo fundamental com o mundo.". Para nos lembrar que o cinema deixou de ser um luxo, para passar a ser uma das principais formas que os países se realizam culturalmente. Custa muito? Custo menos que os benefícios. Podemos discutir isso.

Let's talk about politics, baby

A inscrição significa "Cego?" em polaco. Autor: Zbigniew Kaja
O que é que há de errado em falar de Política? Ou, ainda mais: o que é que há de errado em fazer Política? Mas, já não somos todos responsáveis políticos? Então não pagamos impostos? Então não somos, como já tive oportunidade de ouvir/ler, accionistas do Estado? Então não somos cidadãos, um conceito político? Porque é que existe uma percepção suja da Política?

O meu politólogo preferido, Edson Medina, expõe o problema da seguinte forma:

"Contribui fortemente para esse ambiente (crispação política) o facto de que em Cabo Verde a maior parte dos "políticos" não se tratam de "self made men", com percurso e sem necessidade de criar laços com o Estado. Pelo contrário, são figuras que querem se perpetuar no poder, garantindo regalias e benesses, transformando os partidos em máquinas de interesses. Nessa luta impõem um estilo populista, onde os recursos fundamentais são a intriga e o assassínio de caracteres, instrumentalizando a dicotomia bases/elite, em função dos seus interesses, como se os partidos não vivessem dessa constituição plural e estratificada da sociedade." In jornal A Nação, 8/1/2209

A Política não é nada mais do que a "coisa pública". Como disse um outro politólogo: a Política começa assim que pomos um pé fora de casa. Partilhamos as mesmas leis, as mesmas infraestruturas, os mesmos serviços. É por demais importante que possamos perceber que, em Estado de Direito, todo o cidadão é uma parcela do Estado, que Parlamento só regula o nosso funcionamento comum, que Governo só faz a gestão do comum e que a Justiça garante (devia) o Direito, que suporta esta filosofia. Ou seja, os políticos cuidam do Estado, por delegação nossa. Mas, não podemos de nos isentar da Política. Seria como entregar os nossos filhos na escola e esperar que esta seja responsável por toda a sua educação. Se a sociedade, dita civil, não se activar politicamente, exigindo, mas também agindo, estaremos a permitir o espaço da tal instrumentalização e continuaremos a dar oportunidade para que "sujem" a Política.

Como tenho dito aos meus colegas, precisamos re-inventar a sociedade. Ter uma sociedade mais justa implica corrigir as suas instituições, sendo os da Política as mais importantes, até pelo dinheiro que custam.

7.1.09

O(sem)posição

Em 2009, diz o Governo e a Oposição, vai ser o ano disso e aquilo. Ou seja, os outros anos atrás eram a fingir?! O Primeiro-Ministro acordou para a sua política cultural, Jorge Santos, também ele, tem finalmente a sua fórmula mágica: GOVERNO SOMBRA. Uau!

Não devia a Oposição ser isso desde o início? Que tem 2009? Frisson de eleições? Já cheira a pele da cadeira do poder? Se essas fórmulas mágicas aparecem agora por conta das eleições, serão credíveis? Naquela onde do mais vale tarde do que nunca, estou ansioso para ver esse Governo sombra, se é que se poderá vê-lo, porque tenho lido insaciavelmente todas as entrevistas de Jorge Santos e ainda não percebi que políticas que ele defende, além de berrar no Parlamento.

O que terá JS a dizer sobre Economia? Que políticas terá para a Educação? E a Formação Profissional? E a Segurança? E a Justiça? E o Desporto? E o Ambiente? E a Cultura? Estou curioso, porque ainda não ouvi nada consistente. Sobre a Cultura, nunca ouvi nada de nada da boca da Oposição. Que venha a sombra.

6.1.09

à conversa com Carlos Santos (Kiko)

Todo o miúdo teve amigos inseparáveis. Kiko foi um deles para mim. Em S.Vicente vivemos uma adolescência incrível, com mais outros conpinchas: Péricles, Caliss, Fré, Paulo Noel.

De repente crescemos e tornamos cidadãos com tremendas responsabilidades. Kiko, agora Carlos Santos, personifica a liderança que vejo para S.Vicente. Nas nossas longos conversas, fartamos de procurar explicações e soluções para S.Vicente. Andamos pelo S.Vicente escondido, pelos bairros clandestinos, pelas casas de lata, e falámos muito de política. Concordamos em muita coisa:
  • Com a actual concepção de "luta política" não vamos a lado nehum. É preciso recuperar a seriedade na política. Com a democracia criámos um dilema: para angariar e manter votos, entramos pelo discurso demagógico e por uma prática política esvaziada de conteúdo, o que resulta no afastamento dos cidadãos que são técnicos e estão interessados num discurso mais inteligente.
  • As acções colectivas são essenciais para conseguirmos alguma transformação. Precisamos re-inventar a sociedade, re-inventando cada colectividade que a compõe. O sentido da liderança deve apontar para uma acção que possa ser avaliada concretamente e positivamente. Por enquanto, temos dificuldades em apontar um bom exemplo de colectividade, seja ela grupo, associação ou partido.
  • Falando de Cultura, enquanto não partilharmos todos, do Presidente ao menino de escola, determinados valores e desígnios, as acções continuarão a ser circunstanciais. O combate pela Cultura, ao nível de Estado, deve se ocupar de preocupações mais elevadas, como sejam a Educação, só para apontar este, no sentido de melhorar a nossa acção colectiva.
À conversa com Carlos Santos, ganho confiança e esperança de que a próxima elite política possa corrigir as burradas que a presente vem fazendo.

5.1.09

Blog joint

Há gente com muita ansiedade. Isso é óptimo porque gera motivação, com o devido cuidado, para não deitar tudo a perder, antes mesmo de existir.

É impressionante como que, antes de haver seja o que for, já ouvi críticas severas, algumas até com laivos de derrotismo. Esta ideia foi uma como as outras tantas em que já participei. Esta ideia tem no entanto uma novidade, que é o uso da blogosfera como espaço de colaboração. Mas esta ideia, principalmente, não está clara nas nossas cabeças. Vamos, calmamente discutí-la. A ideia era, na última semana de Janeiro, aparecer o primeiro tema.

4.1.09

À conversa com João Branco

Existe definição mais importante numa sociedade que a de família? Estou cada vez mais convencido de que não.

Das coisas que mais me inspiram na vida é visitar pessoas, também inspiradas, em suas casas. É onde se revelam na sua grande intimidade. É onde se definem pelas cores pintadas nas paredes, pelos objectos, pela música, pela conversa, mas sobretudo pela família. A do João passou a ser minha um pouco. Apresentando:

Inês, a filhinha codé, logo a rainha total da casa. Uma lindeza de 3 anos.

Laura. Quando fui ao Mindelact pela primeira vez, saltou-me à vista uma criança super expressiva. Fazia pequenas performances a toda a hora, com toda a gente, incrivelmente divertida. Agora conheço-a mais. Mostrou-me os seus desenhos que tema mesma expressividade das suas “performances”. Um encanto de 11 anos.

Bety. Mãe, mulher, chefe, artista…uma personalidade. Das pessoas que se conhece às prestações. Cada prestação é melhor, a dobrar, que a anterior. Esta senhora é actriz, faz uns figurinos lindíssimos para o teatro, faz marionetas e máscaras lindíssimas. Anda em Belas-Artes e vou torcer que surpreenda este país ainda mais.

João, vivendo num reino de mulheres com tais personalidades, logo o elo mais fraco, eheheh. Mas uma das pessoas mais importantes deste país. Aprendamos a conviver com estas constatações. Este homem constrói o que vivo dizendo que não construímos: PATRIMÓNIO. Ele vai estar ligado aos ossos da nossa história, por obra e não por placas de inaugurações e por discursos. Certa vez, estando eu intrigado de como o Mindelact acontece cada ano, sempre com a mesma qualidade, ultrapassando todas as dificuldades, perguntei-lhe qual seria o segredo e ele respondeu: comungamos um sentimento de família e por isso todos lutam para que sobreviva. É pois uma dos nossos temas predilectos de conversa, mesmo quando não dizemos explicitamente a palavra “família”. Estamos sempre a falar de associação, projecto, grupo, colaboração, que são (deviam ser) formas de dizer: família.


E ainda, à conversa com João, ouvimos o disco do seu pai, José Mário Branco, que passei a saber que é uma das personalidades mais respeitadas de Portugal. Caso para dizer: há famílias que nos inspiram.

3.1.09

Mindel di meu

Fin d’on na Mindel, sab pa fronta!!

A tradição da passagem de ano em S.Vicente é inimitável em todo o arquipélago. Vamos lá assumir isto, sem complexos de inferioridade, por parte de badios, foguenses, santatonenses e outros enses, e sem complexos de superioridade por parte dos mindelenses. É um forte de S.Vicente, como outras festividades são mais rijas em outras partes de CV. Mas o pessoal tem que perceber uma coisa: cada lugar no mundo tem a sua forma de passar d’ano e todos fazem-no dentro do calor da família e dos amigos. Estive em S.Vicente, mas senti uma falta danada da minha família, minha filha, meus amigos do peito, das famílias dos meus amigos do peito, que me tratam de filho. Vim para S.Vicente para reviver a linda festa de rua e ter um fim d’ano diferente…não necessariamente melhor.

Lembro-me sempre desta frase sábia: os lugares são as pessoas.

O(s) erro(s) de JMN (o pior)

O Premier encontrou a fórmula mágica para, finalmente, lançar o seu programa para a Cultura: Entretenimento Cultural. Ora, está aqui uma definição que devia pôr todos os intelectuais e “homens da Cultura (!?)” com os cabelos em pé.

O conceito, puro e simplesmente, não existe numa Política Cultural de Estado. Posso aceitar que tal faça parte do programa de um Ministério do Turismo (que já precisa existir), que significaria uma preocupação em ter entretenimento, ao qual se agrega valores culturais. Mas, um Ministério da Cultura com tal preocupação é uma ofensa à própria Cultura. O que vai acontecer, se esta maravilhosa ideia pegar, é que o Estado estará a incentivar uma Cultura feita depressa, dada a urgência do mercado. O que me dirão, eu que faço fotografia? Que pare de fotografar a desgraça das nossas cidades, porque é preciso um produto mais “atractivo”? Ou, posto a pergunta de uma outra forma: quem terá mais possibilidade de angariar mais incentivos: o gajo que faz postais bonitos ou os da minha gente, que tem procurado retratar o lixo que deitamos para debaixo do tapete? Qual é a mensagem implícita neste "Entretenimento"? Que é preciso fazer uma Cultura produtizada? Que devemos fazer um estudo de mercado para saber se usamos mais azul ou mais verde na pintura?

Recordo-o, Sr.Premier, a sua preocupação deve ser a Educação, o Património, a Legislação, a Investigação, o Financiamento de Cultura, mas sabendo que isso tudo terá efeito a longo prazo. Quando começar a sair fornadas de artistas formados em escolas; quando as cidades começarem a se organizar em torno do seu património arquitectónico; quando existirem galerias e museus para exposições de arte; quando festivais de música, dança, teatro, ganharem consistência e visibilidade; quando as pessoas com capacidade financeira começarem a se interessar pela arte; quando essas coisas começarem a ser realidade, teremos cidades com mais interesse de visita e aí a Cultura estará a prestar um serviço ao Turismo. O que é tremendamente errado é pôr o Turismo como meta da Cultura. É uma aberração.

Sr Premier, já ouviu falar em crise de valores? Pois, tenha cuidado em veicular maus valores. Ai da Cultura quando começar a se orientar por essas cenas que o Sr tem dito.

30.12.08

O(s) erro(s) de JMN III

O erro da falta de política para a Língua não é só de JMN. É de toda a nação, desde a independência até esta data. Sabemos, a questão é sociológica: o português foi e continuou a ser a língua da autoridade, da educação, da intelectualidade, da elegância do expressar, da distinção, ou, numa só palavra, a língua da dominação.

Sabemos também que, a Língua é o elemento de base de qualquer Cultura. Ou seja, sabemos que estamos perante uma Cultura distinta, quando esta apresentar uma Língua completa. Existe uma Cultura CV porque temos uma língua CV, que é radicalmente diferente da língua PT na sua estrutura, embora partilhem muito etimologia. Assim ficamos com um problema que nos atrasa, culturalmente: sentimos em CV e sistematizamos em PT; algo fica pelo caminho, de certeza. Vejamos: os cabovedianos tem uma oralidade muito desenvolvida; somos os maiores da anedota, das estórias, dos contos. Constatamos muitas vezes que, se o caboverdiano escrevesse tudo o que pensasse, teríamos a maior das literaturas. Mas isto é sério! Realmente temos uma literatura débil, porque, penso eu, quando passamos da oralidade para a escrita, temos de empreender um grande esforço de tradução para uma outra língua, que não dominamos propriamente, resultando numa literatura "engessada".

A questão é da maior gravidade quando se trata da educação das crianças. Quem disse que os meninos do interior de S.Antão, S.Nicolau ou Santiago, estão aptos para iniciar a sua educação formal em português?

Os problemas já conhecemos todos. O que fazemos é que é a questão. Ou seja, que política para a Língua? Que acções? Que atitudes?

Uma primeira atitude é deixar de prestar homenagens em ocasiões pontuais e passar a assumir o Caboverdiano nas reuniões ministeriais, nos gabinetes, nos tribunais, na televisão e em qualquer esfera social importante. Que tal um curso de Língua Caboverdiana para diplomatas? Que tal escutar o que se passa na Internet, na forma como os adolescentes estão a resolver a língua? Que tal ver como se escreve o CV num telemóvel? Que tal reunir os utilizadores profissionais da Língua (escritores, radialistas, publicitários, compositores, músicos) e ouvir o que eles tem a dizer?

Que tal se passasse a escrever em Cabovediano neste blog? Pois, aqui entra a segunda parte da questão: o português. É a língua que escrevemos desde da escola primária, pela vida fora. Pela escrita é mais difícil romper. Considero que abordar a questão pela escrita fica mais difícil. Estando a defender convictamente o CV, escrevo em PT. Aliás, escrevo muito rápido em PT. É um treino, é uma ferramenta que tenho e deverei deitá-la no lixo. Esta é uma das questões que os mesquinhos costumam agarrar para confindir o debate, mas eu não abro mão do português, não abro mão do caboverdiano, estou a ver se faço um curso de francês, o meu inglês já está a precisar de uma actualização e se pudesse aprendia chinês, que vai ser necessário quanto a China se tornar a 1ª potência do mundo. Separemos a questão de Identidade da questão da Utilidade.

A minha sugestão é que se trabalhe firmemente na questão oral, que se "liberalize" o Caboverdiano socialmente, mas, principalmente, que se ataque a questão de frente. É o dossier mais complicado da Cultura, mas temos de ter coragem para a assumir.

29.12.08

O(s) erro(s) de JMN II

Chega de brincar aos "amigos da Cultura". Qualquer sociedade que se preze tem um política cultural séria, assim como tem políticas fiscal, orçamental, de educação, de saúde, etc. A questão é: quais as consequências de não ter uma política cultural? Ou, ainda mais básico: o que é uma política cultural?

Vejamos, a palavra "política" é aplicada aqui no sentido de ter visão, estratégia, acção e avaliação de uma actividade/assunto de interesse público. Isto quer dizer que, para a Cultura, significa saber o que queremos dos nossos valores culturais: língua, semiótica, património arquitectónico, história, simbologias, arte, artesanato, museologia, investigação. Que me desculpe o Primeiro-Ministro, "contar com os artistas" é uma visão terrivelmente redutora da Cultura. Aliás, Arte muitas vezes está até em contradição com a Cultura, porque a contesta e a "vandaliza". E é bom que assim seja, porque Cultura é status quo e Arte é insatisfação do status quo. É também evolução da Cultura, ao forçar os seus limites. A relação é inversa: são os artistas é que precisam deseperadamente de uma política cultural (educação, investigação, produção,...) para que se desenvolvam e para que funcionem de verdade como esta força catalizadora da Cultura. Por enquanto somos uns artesãos pacóvios, até mesmo na música, que gostamos de apontar como "força cultural".

É verdade que os artistas, por desespero de causa, tem actuado como "especialistas" da Cultura, mas está muito errado. Para uma política cultural séria, ao nível do Estado, outros actores entram em cena: historiadores, linguístas, antropólogos, sociólogos, filósofos, investigadores de uma maneira geral. Os artistas, bem como todos os agentes culturais, terão obviamente uma palavra a dizer, mas os dossier são complexos e especializados, de maneira que precisam de uma acção complexa e especializada. Por isso é que preciso uma política, ou políticas: para a Língua; para o Património; para a Educação da Arte; para a Investigação Cultural; (principalemnte a História) para os Equipamentos Culturais (teatros, cinemas, salas de música, galerias, museus, etc); para o financiamento da Cultura (sem essa de economia da Cultura).

Sr. Premier, mais uma vez, se não se assessorar como deve ser nessas questões, o Sr vai se meter numa grande alhada, porque é neste sector, Cultura, onde se concentram grandes inteligências de um país, o que parece ridiculamente paradoxal. Ou seja, os "homens da Cultura" estão se fazendo de moscas mortas, mas experimente entrar por essas ondas de "homenagens" à Cultura e vai ver como afinal eles tem dentes. O que pode acontecer é que não os mostrem abertamente, porque já provaram os covardes que são, mas arranjarão maneiras esquivas e mesquinhas de o fazer. Neste sentido sou um dos seus maiores amigos.

O(s) erro(s) de JMN

José Maria Neves, que passou o tempo todo preocupado em tornar CV um país receptor dos maiores investimentos estrangeiros, nem sempre conciliando da melhor forma a economia, o meio ambiente, o desenvolvimento social e muito menos a Cultura, acordou para o facto de não ter tido até esta nenhuma política para a Cultura. Nenhuma!...pelo menos que eu conheça.

Entretanto o Premier acordou da pior forma. Apanhado por protestos cada vez maiores em relação ao sector, foge para frente, como se tornou prática aliás nesta terra. No Natal ele falou na língua caboverdiana, para "homenagear" a Cultura (!!?). Primeiro erro fundamental do Premier: passa o tempo todo da sua governação a "homenagear" a Cultura, enquanto se espera do Governo uma visão clara da Cultura, seguida de políticas concisas, ou seja, políticas que tenham em vista impactos e resultados, mas, atenção, não impactos e resultados medidos em termos económicos. Segundo erro fundamental do Premier: confundir "Política Cultural" com "Entretenimento Cultural". Realmente, o que ele quer é entreternos com a questão, enquanto pensa numa solução, de como, por exemplo, pedir delicadamente que Manuel Veiga vá ser útil em outro sítio e, mais difícil ainda, convercer uma pessoa de craveira deste país a aceitar o cargo.

26.12.08

Destaques e tal

Todos nos pedem para fazer uma "avaliação" do ano. O que destacamos, pela positiva, pela negativa? Quem é a figura do ano?

A minha percepção é que temos estado a incorrer na tentação do individualismo. Sabendo que defendo intransigentemente a individualidade, não suporto o individualismo. O problema é encontrar um ponto de equilíbrio entre os dois valores. O Primeiro-Ministro, do alto dos microfones da Assembleia Nacional e da Comunicação Social gritou que: "eu fiz, eu ganhei, eu fui escolhido, eu lidero, eu sou mais eu", etc. Bom, o homem estava a ser atacado pessoalmente, mas este homem não pode se esquecer que ele representa um colectividade muito importante: Governo. O simples uso da palavra "nós" é até auto disciplinadora.

Fala-se tanto de política, porque é pela política que se tem a maior percepção de toda a sociedade. Ser social, ser país, ser civilizado, implica logo ser político. Todos são, de uma maneira ou outra: ou somos eleitores, ou somos eleitos, ou somos contribuentes, ou somos sindicalizados, ou somos tão somente cidadãos, somos políticos. O problema é o equilíbrio que precisa existir entre os individuos e as colectividades. O problema é quando, disfarçados de colectividades, as pessoas começam a agir individualmente, seja o dirigente político, seja o agente económico, seja o bastionário, seja o presidente de alguma associação, seja o Governo, seja a Oposição.

Em 2008 senti um aumento do "eu" e uma diminuição do "nós". Para 2009, pessoalmente, empreenderei uma luta pela colectividade, lá onde posso influenciar. O meu desejo é, sem pertencer a partido algum, conseguir ter maior participção política, sem sequer praticar directamente a política. Quero, com a minha colectividade, empreender acções que possam criticar a realidade e modificá-la. Sou membro de Prodeco, quero que funcione; sou membro da Adeco, quero que aumente a sua actuação; participei da Fundação Amilcar Cabral, quero que tenha a sua importância; sou membro do Praia.Mov, quero que tenha força. Sou cidadão, um conceito colectivo, quero ter mais particição.