17.12.09

Quinta-Essência

Ainda ontem comentamos, nós não nos juntamos por nada que há! O nosso prédio poderá desabar que os condóminos, quem nem devem ser chamados de tal, porque como tal não se comportam, nada farão. Poderá a cidade ser engolida pelo lixo, a Electra nos deixar sem luz uma semana, os buracos permaneceram no estrada por meses, o homem tirar a pila e mijar à frente dos olhinhos dos nossos meninos, que nada, absolutamente nada, nos move para uma movimentação civil. Viram com a Dengue? Treta pegada. Tava na moda, coisa que até o Primeiro-Ministro saiu à rua, pois não ficava bem todos os bacaninhas também não saírem à rua. E a população, puro susto que provocou um espasmo de comunitarismo, mas de seguida, as coisas continuaram a mesmice, tanto é que tou para descobrir qual dos meus vizinhos teima em pendurar o lixo na varanda! Porra, que cena que me irrita todas as manhãs ao sair de casa!!

Qual a causa desta deficiência grave de consciência de comunidade? Será por nos ter sido negada a cidadania por séculos? Mas então não estará aqui um caso de psicologia social a ser estudada? Uma ponte aqui com a conversa tida com outro ilustre amigo, que falava da falta de seguimento das nossas acções, ou seja, identificamos um problema, fazemos grandes campanhas de informações, e até algumas acções bonitas, mas depois não há seguimento avaliação e replanificação das nossas acções. Será por isso que alguns dossiers não andam nem pra frente, nem pra trás? Neste caso então seria um caso a estudar, mas depois seria de planificar acções com a intenção de mudar este nosso estado de apatia social, do deixar andar, mijar e cagar.

16.12.09

Quarta-Parede

Isso de Carlos Veiga pretender recandidatar-se a Chefe de Governo deste país, tem um quê de controverso. O grande busílis para ele é encontrar um discurso de Oposição que não lhe faça parecer um grande cara-de-pau. Carlos Veiga, para o bem e para o mal, tem inexoravelmente uma tremenda responsabilidade neste país, como tem e terá sempre José Maria Neves. Esses homens tomam decisões que nos mudam definitivamente e quem tem o poder de mexer com a vida dos outros, deve saber que quando abre a boca deve, se não assertar, assegurar-se que não atira qualquer coisa cá pra fora.

Não Dr.Carlos Veiga, Cabo Verde não ganhou um segundo pacote MCA por mérito da "fiscalização" do MPD, até porque este partido conseguiu uma coisa inédita no passado que foi desacreditar o país face à Comunidade Internacional. Tenho a certeza que não se esqueceu por isso não nos faça de trouxa, e nem se faça de cara-de-pau. A César o que é de César. Temos só que parabenizar o governo do PAICV por esta vitória, não querendo dizer que a sua ficha ficou limpa. Este Governo, também, vai tendo grandes responsabilidades em muitos males que padecemos e isso também não esqueço. Política precisa de elevação e isso começa por grandes líderes. Desejamos uma boa Oposição que será naturalmente a alternativa em 2011, mas esta Oposição precisa de se encontrar rapidamente. Até agora tem sido um discurso corrosivo, não colaborativo, nada inovador, completamente esvaziada de visão e sempre, sempre, sempre no encalço do Governo, em vez de se posicionar em frente, num plano novo, que nos dê novas perspectivas também.

Esperava mais, juro!

14.12.09

Segunda-Versão

O meu acto de paridura da KATHARSIS manteve-me fora das lides blogosféricas, mas retomo sempre. Desta vez retomo com uma sensação que o blog já precisa de uma segunda-versão...bem, um novo ano e logo se vê.

Por falar em KATHARSIS, a minha mais recente dedicação, obrigado aos que apareceram, comentaram e deram sugestões para melhoradas aqui e ali. Continuo a perguntar-me sempre o que fará as pessoas saírem de casa. Continuo a querer sempre ter gente nas exposições, para verem e ouvirem, para comentarem, arriscarem uma análise, uma crítica. Continuo a sonhar com a ajuda de jornalistas para, depois de apresentada a coisa, que façam textos, que critiquem, analisem, façam links com outros projectos. Enfim...

Definitivamente, há que encontrar uma segunda versão das coisas. As do momento não tem funcionado muito bem. Muita conversa surda-muda. Muitos desamores sem nenhuma razão aparente. Este faz, aquele outro acha que tá mal feito, mas entretanto aquele outro não faz porque senão este vai também dizer que tá mal feito, assim de seguida. Temos uma visão ridiculamente curta e não vemos que, nem todos juntados, não damos conta dos desafios que estão aí, na cidade, no país, no mundo. Fiz a minha cota parte. Tentei todo o tipo de colectivo e resultou um ano, mas no ano seguinte já apareciam as questões crioulas de identidade de cada qual com as suas própria pessoas, os seus fantasmas e as suas frustrações. Parto solo daqui em diante. Eis uma segunda versão.

Entretanto vão aparecendo segundas-versões de tudo nesta cidade: um delicioso restaurante indiano (dizem, preciso comprovar) a contrariar a mesmice gastronómica por cá; o projecto Paradela a insistir que Cabo Verde tem que fazer cinema (APOIO!); Voz Di Povo que devolveu a dignidade à noite do Plateau; projectos de literatura que vão aparecer no novo ano; os meus amigos do teatro que trabalham como toupeiras; Abraão Vicente a tentar trazer Bento Oliveira para a Praia, um dos mais desconhecidos génios visuais deste Cabo Verde contemporâneo. Falta mesmo é juntar tudo e sair por este mundo fora, de cara levantada, cheios de orgulhos, a dizer para todos, fazemos o nosso. Faltou mais.

10.12.09

É HOJE

A Fundação Amílcar Cabral e a Associação de Jornalistas de Cabo Verde, têm o prazer de a/o convidar para a inauguração da exposição Kathársis, de César Schofield Cardoso, João Paradela e Soizic Larcher no próximo dia 10 de Dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, às 19h na AJOC.

Sinopse
Em Outubro de 2009 nasce Katharsis, um projecto multidisciplinar que nasceu da vontade de explorar através de linguagens artísticas os debates sobre o Tarrafal e o preso político ideológico.
Trata-se essencialmente de uma homenagem a esta condição que infelizmente é actual. Homenageia-se os homens perseguidos, torturados e encarcerados; as mulheres, mães e filhos, esposam e viúvas, filhos, órfãos, vítimas que, estando em liberdade, sofrem o mesmo castigo infligido por déspotas e regimes totalitários.
Katharsis é uma instalação, é o cruzamento entre linguagens artísticas e de olhares dos criadores, um convite à reflexão sobre a condição humana.
Katharsis inaugura do próximo dia 10, dia internacional dos direitos humanos, às 19h na sede da AJOC, Plateau - Cidade da Praia.

Ficha Técnica
Direcção Artística César Schofield Cardoso
Filmes César Schofield Cardoso e João Paradela
Interpretação/Pintura Soizic Larcher
Direcção de Produção Samira Pereira
Co-Produção Fundação Amílcar Cabral e Associação de Jornalistas de Cabo Verde

Hoje a cidade vai bombar!

Expo KATHARSIS, Mostra de Cinema de Direitos Humanos e Concerto Remna. Grande prenúncio de Sexta-Capital

Quinta-Essência

Tem mal escrever como se fala num café ou em casa? O que faz com que a palavra escrita tenha que ser catequética?

É abismal a distância que vai do nosso mundo oral ao escrito. Oralmente, somos faladores, divertidos, sarcásticos, maus, ao passo que quando passamos à escrita somos uma coisa chata, que tem que ser formal, ser sistemática, senão tem classificação menor, não vale. Será por isso sermos paupérrimos de literatura? Pois que, da passagem do oral à escrito, fica-nos o mundo todo pra trás.

Na rua, em casa, no trabalho, na intimidade somos pornográficos a toda a hora, facilmente mandámos à merda, quando não é a mãezinha que entra na conversa sem o mínimo de sacralidade, porra então nem sequer é palavrão. Mas, na escrita somos os pontífices do catolicismo e, sei, as palavrinhas merda e porra já te causaram desconforto, porque é assim, é estranho vermo-nos ao espelho escrito.

Deve ser por isso que, não poucos estrangeiros, tendo primeiro conhecido o nosso país por escrito, pelas nossas belas descrições de morabeza, pelos nossas leis tão avançadas e bonitas, pelo romanceio de histórias suaves e gente castiça, se espantem a sério quando se confrontam com uma grande crueza que somos. E de palavras principalmente.

9.12.09

Quarta-Parede

O post da segunda, que tem a ver com machões que cumprem a sua macheza batendo nas mulheres, precisa de algumas correcções e observações. A primeira observação é que, definitivamente, o tema da Violência Baseada no Género (VBG) é uma lata de porcaria que ninguém quer destapar, daí que o trabalho da ICIEG e campanhas como o Laço Branco sejam tão importantes, para que ao menos se fale no assunto. Da fala até a acções concretas, digo, legislação e isso tudo, vai um bom caminho ainda, porque o tema não é trivial, pelo contrário, está inscrito na nossa convivência social, como estão outras coisas “normais”.

Voltando ao post, ele contêm imprecisões, porque ao que parece os tais vilões identificados em conversa informal, continuam vilões, mas não são da iniciativa do Laço Branco. Ora daí ter causado uma certa polémica, que também ela é interessante: é justo pensar em expulsar reconhecidos agressores, ou pelo contrário, faz ainda mais sentido tê-los na iniciativa, como forma de auto-redenção, como alguém já sugeriu? É justo exigir comprovativos de não-agressão a quem queira se ingressar na iniciativa, ou o objectivo é precisamente ter todos, agressores e não-agressores.

O post teve a imprecisão acima indicada, mas serviu para libertar certas ideias, precisamente porque foi escrita como se de Radar se tratasse, como alguém notou-me. Ficamos a saber, por exemplo, que há pessoas que acham que essas iniciativas são meros “show off”. Serão mesmo ou terão um real interesse social? Enfim, penso que qualquer debate sobre o tema, mesmo com imprecisões, é melhor que debate nenhum, até para banalizar o debate sobre o tema. A impressão que fiquei é que estão todos muito sensíveis quando se aborda a questão. Comments?

7.12.09

Copy&Paste

"Se Cícero ainda vivesse entre vós, italianos, não diria “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, mas sim: “Até quando, ó Berlusconi, atentarás contra a nossa democracia?” Disso se trata. Com a sua peculiaríssima ideia sobre a razão de ser e o significado da instituição democrática, Berlusconi transformou em poucos anos a Itália numa sombra grotesca de país e uma grande parte dos italianos numa multidão de títeres que o seguem de rastos sem se aperceberem de que caminham para o abismo da demissão cívica definitiva, para o descrédito internacional, para a irrisão absoluta.

Com a sua história, a sua cultura, a sua inegável grandeza, Itália não merece o destino que Berlusconi lhe traçou com criminosa frieza e sem o menor vestígio de pudor político, sem o mais elementar sentimento de vergonha própria. Quero pensar que a gigantesca manifestação contra a “coisa” Berlusconi, na qual estas palavras irão ser lidas, se converterá no primeiro passo para a libertação e a regeneração de Itália. Para isso não são necessárias armas, bastam os votos. Ponho em vós toda a minha esperança."

Segunda-Versão

Ouvi dizer, por favor, não pensem que sou dado a essas fofoquices, mas já diz o ditado que onde há fumo há fogo, que alguns rapazes cá do burgo, normalmente muito janotas a circular por aí, andam a descarregar a sua mão masculina em cima da parceira, ou parceiras lá onde for o caso. Ora, até aqui nada de novo ou extraordinário, porque o padrão é os machos crioulos baterem em suas mulheres pelo menos uma vez na vida, tipo, há uma primeira vez para cair de bêbado, há uma primeira vez para estar com uma mulher e uma primeira vez para as bater. Isto é idiossincrático, senhoras! Aliás, senhoras, devem agir com cuidado nessa coisa moderna de querer mudar os vossos homens, para que não deixem de ser homens de uma vez. Para que saibam, porrada e grogue são moléculas masculinas, sem as quais os dessa categoria correm o risco de perder a tesão.

Até aqui estivemos a falar de assunto comum, homem, mulher, crioulos, porrada, o de sempre. O caso muda de figura quando esses janotas, pertencem a uma campanha chamada “Laço Branco”, que é uma rede de homens contra a violência de género. Espera! Estou baralhado. Os camaradas batem nas mulheres e pertencem a uma associação de homens contra a violência de género? Bem, a mim deram-me dados precisos, nomes, profissões e filiações partidárias. Uma teoria que me pareceu plausível, explica que na verdade esses tipos não pertencem e nem acreditam em tal iniciativa, que só estão aí, sorridentes a posar para a fotografia, porque em termos de marketing político é o que mais tá a dar.

Sabem, agora metendo toda a violência dentro do mesmo saco, a questão complicada é, quando vemos uma mãe que assenta a mão no seu filho, com tanta fúria que ultrapassa a “palmadinha terapêutica”, e ficamos de boca calada, ou até apoiamos, é onde semeamos a árvore da violência, de género inclusive, que essa também muita vezes começa com uma “porradinha necessária” e um dia descamba em morte. A minha sensação é que, metade de nós é agressor e a outra metade é cúmplice.

4.12.09

LAÇO BRANCO

CARTA PRINCÍPIOS DA REDE LAÇO BRANCO CABO VERDE

HOMENS CONTRA A VIOLÊNCIA DE GÉNERO

Quem somos?

O Laço Branco Cabo Verde é uma rede fundada no dia 10 Julho de 2009, por um grupo de homens das mais variadas áreas de formação e de actuação. É um grupo que se caracteriza pelo forte engajamento na promoção da igualdade de género, pelo que fomenta alianças com outras instituições/organizações da sociedade civil que se posicionam a favor dos direitos humanos e contra a desigualdade de género e a todas suas manifestações, especialmente a Violência Baseada no Género (VBG).

Porque surgimos?

Na sociedade cabo-verdiana prevalecem preconceitos e estereótipos sexistas bastante enraizados. Uma das faces mais visíveis destas representações é os altos índices de violência contra a mulher (22%), que têm como efeito a deterioração de relações nos espaços privados e públicos. Os homens são ao mesmo tempo parte do problema e da solução. Confrontando os homens com atitudes, normas sociais e comportamentos discriminatórios em relação aos papéis de género e à violência contra as mulheres, queremos comprometer os homens nesta luta de identificando e eliminação das praticas sociais injustas em função do género e de pôr fim à todos os tipos violência contra a mulher.

Em que acreditamos?

Que ser homem NÂO é:

° Ter muitas parceiras;

° Usar violência contra mulheres ou homens;

° Aguentar a dor;

° Procriar um grande número de filhos e filhas;

° Exercer o poder sobre outrem;

° Ser heterossexual.

Que ser homem É:

° Saber construir relações baseadas no respeito e igualdade;

° Não tolerar qualquer tipo de violência;

° Ter coragem de pedir ajuda;

° Saber partilhar decisões e poder;

° Saber respeitar a diversidade e os direitos de todas e todos.


O que queremos?

° Difundir e multiplicar a mensagem do Laço Branco Cabo Verde;

° Promover a igualdade e a equidade do género;

° Combater todas as manifestações de violência, nomeadamente a VBG;

° Promover e estimular a assumpção plena dos direitos e deveres próprios da paternidade;

° Apoiar as políticas e iniciativas que fomentem a equidade de género na família, na saúde, na justiça, na educação, na política, na economia e na comunicação social.

Para tal, a rede tem o intuito sensibilizar, envolver e engajar os homens em Cabo Verde e a sociedade civil no geral no combate à violência baseada no Género e a todas as formas de desequilíbrio de género, e na desconstrução duma visão distorcida de masculinidade.

Quais os princípios dos quais não abdicamos?

° Da visibilidade no combate à violência contra a mulher;

° Da denuncia e combate a todos os actos de omissão, infracção, comportamento discriminatório, nomeadamente, machismo/sexismo, exclusão social, homofobia, racismo ou qualquer outro tipo de comportamentos contra mulheres, homossexuais, bissexuais, transexuais e violação dos direitos resultantes da desigualdade de género;

° Da aliança com as mulheres para alcançar a equidade de género e conquistar direitos, saúde e bem-estar das mulheres e meninas;

° Da assumpção e partilha das responsabilidades que a constituição da família implicam, nomeadamente o cuidado das crianças ou dependentes e as tarefas domésticas

° De praticar uma nova masculinidade que respeita a diversidade sexual e os direitos reprodutivos de mulheres e homens;

° De responsabilizar-nos pelo nosso bem-estar, pela nossa saúde, planeamento familiar e por uma pratica sexual responsável;

° Da identificação e da denúncia das necessidades específicas e experiências de homens e meninos que não são tomadas em conta pelas políticas públicas e práticas profissionais em todas as áreas;

° Da transparência, honestidade, justiça e ética em todas as nossas acções;

° Da colaboração e diálogo com todo o tipo de instituições.

Como podemos ser contactados?

Email: lasubranku_cv@yahoogrupos.com.br
Facebook: http://www.facebook.com/home.php#/group.php?gid=240299560523&ref=ts
Rua Serpa Pinto nº68 CP 253 – Tel: 261 62 71/ 261 51 74 - Fax: 261 52 63

Sexta,Capital

Enfim, a situação da Dengue parece acalmar, depois de uma aturado esforço das autoridades médicas e sanitárias. Parabéns! Agora, a população, essa é que continua a mesma. Ainda ontem, no meu bairro, Palamarejo, vi um carnaval de sacos de lixo pendurados nas varandas, árvores e postes. Agora imaginem nas zonas onde efectivamente não há condições sanitárias. O trabalho é árduo. A cabeça das pessoas é mais difícil de mudar que toneladas de aço.

Natal vem chegando, mas ainda está tudo muito quietinho, crise oblige. O que de certeza não vai faltar é dinheiro para a paródia. É nesta época que se gasta mais em lixo que em outra coisa. Por falar em gastos, já tiveram a curiosidade de ver parte do dinheiro das famílias que é gasta em bebidas alcoólicas! É imenso. Vejam o site da INE.

Hoje sinto de novo o espírito da sexta-feira, embora não vá tomar a tradicional cerveja. Estou em trabalho de parto e na segunda já vos digo o que vou parir. Portanto, em vez de cerveja, a noite será de contracções e sofrimentos da criação. Para ajudar, estou a ouvir Jaco Pastorious esses dias, que me dá tanta inspiração. Sei pessoal, isto tá fraco esses dias, mas compreendam que há momentos de tal modo interiores que nada sai pra fora.

Bom FDS


30.11.09

Segunda-Versão

Aguardou que tudo se acalmasse, a televisão, os pratos, os meninos, os carros que passavam na rua, aguardou fingindo dormir, rezando por dentro, a pedir a deus que a perdoasse o pecado ao aceitar aquele pequeno pedaço de papel, que viu de soslaio tratar-se da palavra satânica, mas que não teve forças para esconjurar quem assim a pôs em contacto com o diabo, e em vez disso, como que arrebatada de paixão, guardou o pequeno anúncio, despachou as horas do dia, fez o almoço, deu de jantar à família, lavou a loiça, deitou-se cedo e aguardou que tudo se acalmasse. Enfim só os roncos da casa, pode tirar o papel, fazendo ainda uma pausa para avaliar o impacto junto a deus de uma tal incursão, assegurando-lhe que continuava devota e temente, mas que talvez ele quisesse que ela procurasse alternativas, que talvez ele não se importasse com um certo grau de desvio, assim a sua vida fraca e desesperada a obrigava. Leu.

MESTRE CURANDEIRO, que pode resolver todos os seus problemas seja qual for, tais como: encontrar trabalho, viagem, visto, inveja, pressão alta, quer ter filhos, dor de coluna, homem com problema de tesão, faz mulher voltar para homem que separa e o contrário, cura mulher com problemas vaginais, mulher que não consegue sentir prazer com homem, venda de propriedades, aumentar as vendas nos seus negócios, separação de amantes do seu marido, problemas espirituais e quaisquer outros problemas na sua vida…Resultado em pelo menos em 24h.

As palavras tesão e vagina irromperam-lhe um calor avassalador nas faces, sentiu-se húmida sem controlo do corpo, precipitou-se para o quarto de banho, depressa antes que pudesse estar possuída de loucura, chorou, lavou-se, continuou em cascatas de lágrimas para mais uma boa metade da noite, lamentando a sua sorte, a ausência dos odores do seu homem na sua pele, os odores de outras mulheres que era obrigada a respirar tantas noites seguidas, chorou até de madrugada. Mal pode dormir, levantou-se antes de todos como sempre, fez as preces, o pequeno-almoço, deu de comer a marido e filhos, que partiram para as suas vidas, sem sequer reparar que os seus olhos eram buracos ainda mais cavados.

29.11.09

Sabbath

Como é que uma pessoa pode descrever um espectáculo de Paulino Vieira? Vamos lá ver se encontro as palavras.

Tudo em Paulino é extra-ordinário, ou dito ao contrário, nada nele é ordinário, comum. Antes de mais, estamos a falar de um gigantesco talento musical, que pode tocar qualquer instrumento com a maestria que os solistas o fazem, de um fino compositor e o nosso MAIOR arranjador, ou talvez para ser modesto, o meu maior arranjador de música popular caboverdiana. Ontem, dia 28 de Novembro (este dia vai fazer eco na minha cabeça para sempre), ouvi arranjos, que não tem nenhuma outra comparação em Cabo Verde. Além do mais, a banda eram cordeirinhos guiados por este maestro-pastor: 8 músicos, 8 grandes, entre os quais, Bau e Voginha. Simplesmente lindo, mágico.

Bem convenhamos, o espectáculo cansou-me pra caramba, que não é todo o dia que uma pessoa aguenta aquelas cadeiras vergonhosamente desconfortáveis do Auditório Nacional, por 3 horas! E eu detesto parlapiação em espectáculos musicais, Paulino fala metade do espectáculo. Mas, quem disse que não é preciso sofrer para ter o privilégio de ser presenteado com cada uma das composições que ele, Paulino, escolhe com peso, medida, textura, volume, cor e outros atributos mais?

E por fim, o carácter desse homem, um extravagante por natureza. O meu coração encheu-se de alegria por vê-lo ontem tão incrivelmente feliz, a tirar pulos no palco, a rodopiar e dançar como um louco, a fazer acrobacias com um cabo de vassoura (sim, cabo de vassoura!), a contar piadas, a abraçar os amigos, a agradecer a todos, que como se adivinha, o ajudaram a sair das trevas que ele atravessou (ou atravessa). Da última vez que vi Paulino num palco, era um animal perseguido por fantasmas, tinha os olhos como dois buracos negros, falava de desgraça, ria pouco, embora mantivesse intacto a sua pureza musical. Ontem vi um homem diferente e faço tantas forças que ele possa viver assim feliz para o resto do seus dias.

És uma inspiração Paulino. Que o Universo cuide de ti.

27.11.09

Vocábulos

Cloaca
Lugar onde se deitam as dejecções

Já viram a quantidade de coisas que cabem dentro deste vocábulo?

25.11.09

Quinta-Essência

Um deputado manda o outro aquela parte, o outro responde com ameaça de porrada, os dois andam por ali a engalfinhar-se, a imprensa e os coleccionadores de baixaria tratam de espalhar o acontecido pelos quatro pontos cardeais, não se fala de outro coisa nos cafés. Olvidamos completamente detalhes como, tratarem-se de deputados da Nação, por definição representantes do Povo no mais importante órgão de soberania de um Estado Democrático, que é a sede da Legislatura, são cidadãos respeitáveis (?), profissionais, pais, avôs.

Em vez de nós nos indignarmos em bloco com os dois malandros, andamos a tomar partido para uns e para outros. Há momentos na vida que nem família tem razão. Mas por cá, esse género de coisas é quintessencial, dá uma repintada na monotonia dos dias, acorda-nos do enfadonho das obrigações, atiça os selvagens que dormem dentro de nós, geram um mar de piada, coisa que mais o crioulo gosta de fazer, contar piadas. Eu não achei piada. Os dois deviam ter vergonha de ostentar os títulos que ostentam. E nós devíamos ter vergonha de não ter vergonha de nada, nem de lixo, nem de cocó, nem de cólera, nem de dengue, nem de deputado baixo nível.