Porque são Rússia, Europa e US a mesma coisa? Porque pertencem à mesma matriz. Partilham o futuro. Partilham a branquitude. Criaram o que é conhecido como Ocidente, um conceito mais cultural do que outra coisa. Lembremos das grandes contribuições dos russos, no cinema, na literatura, no teatro, na ciência e na filosofia. Partilham a mesma cosmogonia, considerada por eles superior a todas as outras do mundo. Uma cosmogonia branca, violentamente racista.
14.3.22
Guerra e Demência no Ocidente
Porque são Rússia, Europa e US a mesma coisa? Porque pertencem à mesma matriz. Partilham o futuro. Partilham a branquitude. Criaram o que é conhecido como Ocidente, um conceito mais cultural do que outra coisa. Lembremos das grandes contribuições dos russos, no cinema, na literatura, no teatro, na ciência e na filosofia. Partilham a mesma cosmogonia, considerada por eles superior a todas as outras do mundo. Uma cosmogonia branca, violentamente racista.
2.10.21
29.11.20
O meu amigo Joel e o meu amigo Fela
(imagem emprestada de https://www.geledes.org.br/)
Finalmente vi o filme “O Meu Amigo Fela” do meu amigo Joel Zito Araújo. A maior parte dos filmes que vejo, no final saio satisfeito, informado, desiludido, irritado, maravilhado, ou simplesmente contente por ter passado um tempo de qualidade. Algumas horas depois já passou. Para um grupo selecto de filmes, como “O Meu Amigo Fela”, fico ainda alguns dias em questionamentos, dúvidas e sentimentos múltiplos, às vezes até contraditórios. O que me leva a escrever.Joel Zito não é só um cineasta. É uma liderança política. Tal como Fela Kuti era. O que torna um artista numa liderança política, na mesma ordem que líderes de partidos ou da oposição? É que não chega tematizar um assunto político. Após ver “Negação do Brasil” e “Raça”, outros títulos de Joel zito, a abordagem em “O Meu Amigo Fela” parece-me parte coerente do pensamento e da ação política do autor. O que lhe confere o título de liderança, na minha opinião, é o potencial de mobilizar discursos e ações, nas atuais lutas anti-racista, anti-colonial, anti-imperialista, anti-capitalista, ou todas elas combinadas, não só no seu Brasil, mas num contexto de luta negra mais alargado. Por exemplo, como esse filme pode informar uma descolonização mental de Cabo Verde?
Ao propor trabalhar a memória de Fela Kuti, contextualizando essa memória num tempo histórico, talvez o mais intenso na luta de emancipação negra (60, 70s), lembrando que foi o período que produziu todas as independências em África e importantes conquistas de direitos civis nos Estados Unidos, Joel Zito faz ao mesmo tempo um trabalho de pós-memória, ao produzir uma espécie de manual de como incorporar essas memórias
nos processos de luta atuais. A alusão a Gabrielle Franco (ativista negra-brasileira barbaramente assassinada) no filme é um sinal claro dessa operação interessante de linkagem de memórias. Talvez nem faça sentido falar em pós-memória e sim num continuum memorial.
Para além das óbvias qualidades cinematográficas do filme, em que a direção é de mão firme e a montagem é igualmente de louvor, a inteligência do filme reside nessa fina tessitura no tempo-espaço da luta pela dignidade dos povos africanos e afrodescendentes.
No final talvez o filme seja menos uma biografia de Fela Kuti e mais uma demonstração de como a vida, a luta e a morte de Fela Kuti se constitui como peça fundamental no complexo puzzle da luta negra. E essa parece-me ser a resposta à pergunta final do filme, se terá valido a pena o sacrifício humano que Fela Kuti impôs a si próprio. É também nesse sentido que a natureza machista, misógina e tirana de Fela Kuti (a sua chamada “complexidade”, num claro desconforto historiográfico) talvez seja pouco relevante, em relação à sua grandiosa contribuição estética e política.
15.6.20
Badiu ten kulpa rixu
5.3.18
Mornas são as posições
Curiosamente, nunca ouvi a Morna em toda a minha vida! Assim tipo ter discos de morna em casa. Nem conheço ninguém das minhas relações que o faça. Deve ser a maior ausente de todas as formas de fruição da música em Cabo Verde, como discotecas, festas, rádio,s playlists nos computadores, telemóveis, etc. Duvido que os 72 deputados que acabaram de instituir um Dia Nacional da Morna também a oiçam com regularidade, ou até conheçam a sua história. Ninguém a ouve! Como tal género se torna então a maior bandeira musical de Cabo Verde?
A Morna é mais identificável nas ilhas da Brava, Boavista, S.Nicolau e S.Vicente, que representam na atualidade 20% do total da população residente. É praticamente inexistente em Santiago, que representa ela só 55% da população. Aliás, Santiago, Fogo e S.Antão, que representam 70% da população, tem géneros musicais bem mais potentes, tanto em história e tradição, como musicalmente, exemplos do Batuku, Funaná, Kurkutisan, Bandera, Kolá Boi, Tabanka, etc.
No entanto, por um brilhante acidente de percurso, a Morna é o género cabo-verdiano mais conhecido no mundo, graças ao sucesso comercial de Cesária Évora. Mas, as novas gerações de sucesso comercial no estrangeiro, como Carmen Souza, Tcheka, Maira Andrade, Mário Lúcio, ou, para mencionar um caso mais mainstream como Lura, nem se atreveriam a ter um repertório baseado na Morna.
A Morna, por decisão de uma cadeia reduzida de pessoas influentes e não por um processo de investigação cultural, concorre a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO, que alegadamente trará vantagens para o país. Bem, até devia/podia, por exemplo, possibilitar o estudo dos outros géneros musicais da nossa cultura popular. Mas, pela triste história da Cidade Velha, Património da Humanidade da UNESCO, sabemos que esses títulos podem não acrescentar nada ao valor patrimonial de tais marcos, como podem até ter um tremendo efeito adverso, como a especulação comercial que daí advém. No caso da Cidade Velha, esse título da UNESCO, em si pretensioso, nem serviu para desflorar um assunto maior da nossa história, a Escravatura.
Esses processos ensinam-nos várias coisas sobre nós próprio. É já problemática a falta de uma fibra intelectual endógena, capaz de romper com os ditames coloniais e pós-coloniais. A Morna é um género que está associada ao "nascimento da intelectualidade cabo-verdiana", a partir da geração conhecida como Nativistas, no séc.XIX, de onde Eugénio Tavares se desponta. Uma intelectualidade burguesa, lusitanista, elitista, branca. A Morna terá sido declarada como autêntica representante da identidade cabo-verdiana, na Primeira Exposição Colonial Portuguesa, de Salazar. Portanto, a Morna é desde essa história colonial a representante musical oficial de Cabo Verde. A Morna e a intelectualidade cabo-verdiana estão marcados assim ab initio por uma negação brutal de toda uma parte substancial, para não dizer maior, da nossa cultura popular. O simples facto de se considerar como marco de nascimento da intelectualidade cabo-verdiana a partir dos Nativistas, de Eugénio Tavares e da Morna, é provocar uma lobotomia a toda a atividade intelectual anterior, presente no texto político do Batuku ou do Kurkutisan, nas representações sociais da Tabanka, ou no percurso riquíssimo da Bandera. É esquecer, por exemplo, que Nácia Gomi é a todos os títulos uma das maiores poetas que esta terra viu nascer. Dizer que a afirmação da língua cabo-verdiana se deve à Morna é no mínimo uma arbitrariedade grosseira.
Esta extraordinária ordem de acontecimentos, que leva a Morna a ter um dia só para si no calendário nacional e ter uma candidatura a um título cimeiro da UNESCO, é bem sintomático da história da elite cabo-verdiana e da apatia do resto de nós. Não menos curioso é a transferência de foco de Eugénio Tavares para B.Léza, num piscar de olhos. É risível a sucessão dos factos na base de "sugestões" dessa tal cadeia de pessoas influentes. Sintomático é também o discurso megalómano do Ministro da Cultura, que declara ser uma decisão do povo! Cabo Verde parece uma borboleta mágica no Concerto das Nações.
19.11.17
Onde metemos os malditos pobres?
9.11.17
Quanto custa um Ministro?
16.6.17
"A Outra África"
Uma reflexão sobre narrativas na edição de Nha Terra Nha Cretcheu, de 06 de junho de 2017, com o título "A Outra África" (https://www.rtp.pt/play/p3061/e292359/nha-terra-nha-cretcheu).
Sendo que o vídeo é linguagem forte, amplamente difundida, a literacia hoje deve incluir o ler e fazer vídeo. Especialmente o vídeo como documento social, que representa a realidade amplamente distorcida. Um dos maiores problemas que África tem pela frente é a longa produção de imagem e narrativas acerca das suas realidades sociais, feita a partir de uma perspetiva eurocentrada, que se limita ao exótico e ao problemático. Contrariar, ou refazer essa longa produção é uma tarefa monumental, em curso, em estádios avançados nalgumas paragens, que demora a iniciar-se na "África lusófona".Cabo Verde sofre particularmente dessas narrativas pré-fabricadas, ao juntar-se os mitos das ilhas como espaços idílicos. Da Cinemateca Portuguesa, numa sessão organizada pela investigadora do cinema colonial portuguesa, Maria do Carmo Piçarra, chega-nos um filme de 1967 (!), intitulado "As Ilhas de Cabo Verde", realizado por J.N. Angot. O filme tem uma espantosa ressonância na produção audiovisual cabo-verdiano atual, de teor "promocional", ou diria antes "propagandístico". Até que ponto existe uma linhagem entre lusotropicalismo português, cinema e audiovisual no espaço lusófono?
Fonte dos dados: http://www.dn.pt/lusa/interior/mais-de-um-terco-dos-imigrantes-sente-se-discriminado-em-cabo-verde-8565416.html
1.8.16
A cidade em busca de si
13.6.16
Povo Santo
20.5.15
O Esquecimento de Celeste
18.5.15
Espaços de gratuitidade
6.5.15
Pasa sabi vs Kau mau
30.3.15
O truque da informação
28.1.15
Jovem confuso
A população em CV é maioritariamente jovem. A idade média da população é de 27 anos! A malta dos 15 aos 34 anos representa 39% da população, faixa essa oficialmente jovem. E desculpem, não é elogio nenhum, pelo contrário, continuar a ser tratado de "jovem quadro", "jovem colaborador", quando já se passou dos 40. Os políticos adoram a palavra por uma razão óbvia: representa a maioria dos eleitores. Mas igualmente representa a maioria das necessidades da população, em termos de emprego, habitação e acessos no geral. Em CV "jovem" não é uma particularidade; é a própria população. Portanto, o discurso devia ser emprego e não emprego jovem, habitação e não habitação jovem, oportunidades e não oportunidades para jovens. Assim, essa repetição exaustiva da palavra, parece-me um paternalismo, às vezes uma vitimização e provavelmente um esquivar das questões de fundo. Políticas de verdade para jovens, são políticas de integração no mercado, não de "emprego jovem", ou de acesso ao crédito, ou programas de estágios profissionais, ou de realização social. Essa política de papá providencia já não se adequa.











