24.12.08

OK, pronto, Feliz Natal!

cartão UNICEF
É Natal. Nunca explicaram-me ao certo o que é isso e porque devo abrir o coração anualmente por esta altura. Nasci e encontrei as coisas como estão, nunca questionei e na verdade deixo um certo contágio de alegria me invadir, acho bonito o jantar familiar, lembro-me da enorme excitação em criança de receber as prendas e vejo isso agora em minha filha.

Nunca questionei os hábitos: de se vestir o fato terrivelmente quente do Pai Natal, figura inventada, dizem as más línguas, por Coca-Cola; de se simular a neve na árvore de Natal; e outras tantas coisas mais. Também nunca tinha reparado que a árvore só se encontra com muita raridade em alguma montanha deste país.

Não critico os discursos de ocasião e a repentina sensibilidade para com os pobres e menos afortunados, aleijados, idiotas e estúpidos.

Não questiono os preços, justos ou não, não é altura de questioná-los. Não questiono os milhares de contos que circulam vertiginosamente esses dias. Nem questiono os produtos, chineses ou não, tóxicos ou não, letais ou não, descartáveis ou não.

Ensinaram-me uma coisa, quando praticava desportos naúticos: o mar é uma força poderosa; numa situação de aflição tenta não entrar em pânico e gastar muita energia; tenta aproveitar a própria força do mar para encontrar uma solução. É o que faço por esta altura: aproveito e mando uns abraços e beijinhos; compro uma prenda (penso) inteligente para a minha filhota; bebo umas cervejas desmedidamente com os amigos; e vou estar logo à noite à volta de uma mesa, com a família reunida, degustando as coisas importadas que podemos comprar.

Filmes da minha vida

Este é dos maiores! Um grande ensaio sobre a natureza humana. Nada de estorinhas de encantar; nada de efeitos mágicos; nada de soluções idealistas; nenhuma piedade; nenhum milimetro de descuido na feitura desta obra de arte. Trabalho exímio de todos: actores, realizador, fotografia, cenografia, adereços, figurinos...tudo.

Cinenastas como Lars Von Trier, Michael Haneke, David Lynch, Glauber Rocha ou Wong Kar-Wai, são monstruosos profanadores da profissão. Ou, visto de um outro ângulo, são os guardiões intransigentes da arte. Obrigam-nos a lembrar que, entre arte e entertenimento existe um abismo.

Lars Von Trier é o "dogmático" de Dogma 95. Michael Haneke fez um dos filmes mais radicalmente cruéis (crú e verdadeiro) que já vi: Funny Games. David Lynch é o meu herói e poucos aceitarão o facto que ele reinventa a linguagem do cinema. Glauber Rocha é o terrível reaccionário do cinema novo brasileiro.

Nesses tempos de artificialidade das lojas de Natal, ver um filme de qualquer um deles é uma punhalada nas nossas crenças e ilusões. É lembrar que o mundo é um lugar bizarro.

23.12.08

Uma nota a Maquiavel

Querias dizer que a política devia ser feita com pragratismo e, talvez não desejasses o sentido pejorativo que a expressão "maquiavelismo" veio a tomar. O problema é a acepção que cada um tem do que é pragmático. Em Cabo Verde o conceito de "tratar do seu expediente" pode ser considerado um pragmatismo...perigoso.

Lendo Mário Fonseca

"Entre nós, a política, em geral, não é nobre, é um mero instrumento de poder para o qual se tende, por propósitos e ambições pessoais e de grupo, fazendo o que se mostrar necessário, o que quer que seja, na prática, para alcançar e conserver, respeitando por conveniência, as regras do jogo em vigor, num pacto implícito de que beneficiam os partidos políticos que se alternam na governação do país, e que, mais do que o grande público que neles vota, estão interessados na sua preservação e perpetuação."
Mário Fonseca, in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

"Não há dúvida, pois, de que o cruzamento ou a proximidade entre a política e mundo de negócios é um sinal seguro de bicho na fruta, isto é, de corrupção, mais ou menos palpável, embora não exista entre nós, um mecanismo de controlo de aquisição de riqueza, o que urge instaurar, sob pena de virmos a sofrer os efeitos corrosivos da corrupção que falsifica e apodrece uns e outros, corrompidos e corruptores, introduzindo elementos de perversão no sistema político"
Mário Fonseca, in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

Mais 2 ou 3 discursos desse e talvez começassemos a ter uma opinião pública que pressiona os partidos a fazerem política efectivamente, ou seja, administratar os assuntos do Estado, este conceito grande, com ética.

Rouba, mata, esfola!...

"...Iaia, foi baleado, nos arredores do mercado da Achadinha. François, o provável homicida, foi capturado...Uma briga de gangues rivais terá estado na origem do incidente..."
in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

"...Polícia Nacional apreendeu, nos últimos dois dias, várias armas de fogo, munições, dinheiro falso, telemóveis e uma avultada quantidade de jóias em ouro."
in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

"Na ilha do Sal, uma briga de namorados culminou com a morte de um jovem,..."
in Expresso das Ilhas, 23 de Dezembro 2008

Sempre se roubou, se brigou e se matou nessas ilhas. Antes, volta e meia éramos assaltados com uma notícia pavorosa de um assassinato. Hoje, a maneira como se rouba e os motivos porque se matam, nos locais onde acontecem, na proximidade dos nossos filhos, nas barbas das autoridades, é que assustam. E a quantidade também: tudo isso aí em 2 dias!

A pior coisa que nos pode acontecer é essas notícias tornarem-se banais. Não são; são GRAVES.


22.12.08

À conversa com Mário Lúcio

Imagem de Abraão Vicente
Ir à casa de Mário é como sair para fora cá dentro. O sítio é inspirador num duplo sentido: em si, emana a alma do artista, com os seus muitos discos, livros, objectos, plantas, pedras, esculturas,...; o outro sentido tem a ver com o facto de, por não ser uma zona "chique", termos de atravessar zonas muito pobres da capital para lá chegar. Imagino que para um criador comprometido com a sua sociedade, deve ser um renovar permanente de um sentimento humanista.

Além do sítio, a conversa com esta personalidade é verdadeiramente desafiante. Talvez a maioria dos CVs conheçam o músico e alguns só conhecerão o intelectual. Ainda menos ainda conhecerão a forma com ele constrói o seu pensamento, a infraestrutura de ideias que ele tem sobre assuntos importantes. À conversa com ele, numa visita ao seu sítio, o assunto da língua caboverdiana ocupou a maior parte do tempo. No final fiquei muito mais convicto de uma coisa: o Ministério da Cultura podia ocupar-se SOMENTE deste dossier, que já teria trabalho para vários anos e podia EFECTIVAMENTE mudar alguma coisa de estrutural na nossa Cultura. E se precisassem de um concelheiro, Mário Lúcio tem um dos discursos mais inspiradores e conciliadores sobre o assunto.

Para quando um Ministério da Cultura capaz de motivar e aproveitar as ideias concisas sobre a Cultura CV de Mário Lúcio, Corsino Tolentino, António Correia e Silva, Manuel Brito Semedo ou Mário de Andrade? Para quando uma reflexão sobre as sucessivas tentativas de movimentos culturais? Para quando um resultado concreto e tranformador deste Ministério que consome 3% do nosso custoso dinheiro?

21.12.08

Arte em primeiro plano

Ahmed Khemis, fotografado por Jef Rabillon
Auditório da Assembleia Nacional, dia 20, 21h, após a apresentação da Solange, 3 solos de dança contemporânea, 3 MAGNÍFICOS momentos de arte e um enorme auditório...sem gente. Os artistas:

Ahmed Khemis, Algéria. Foi o que mais gostei. Um imenso solo. Velocidade, técnica, precisão e, mais importante para mim: conceito. O tema da guerra, da oposição das civilizações, os desastres humanitários, traduzidos em 3 elementos: dança, som e luz. Foi mágico.

Serge-Aimé Coulibaly, Burkina Faso. Eu vi nele o talento natural do africano pela dança, um trabalho de estilização da dança tradicional do seu país, para além de todo o resto: técnica, velocidade e precisão. Ocorreu-me a questão da escola. Os Raiz di Polon tem feito um esforço titânico, mas é preciso mais: é preciso educação sustentada, formação de formadores, laboratórios e outros itens mais.

Ariry Andriatmoratsiresy, Madagascar. Um sénior já. Um senhor. Um espectáculo. No seu solo também impressionou-me o conceito, para além da excelente execução.

3 grandes artistas. 3 momentos raros em CV. 1 auditório vazio...a culpa está em vários lados: ausência de programação cultural, desinteresse da sociedade pela arte, fraca divulgação.

E eu fiquei mais rico nesta noite e compensado da irritação do primeiro evento.


Arte em segundo plano

(quem é o autor da foto? apanhei-o no Expresso da Ilhas, mas quem é o autor?)

Solange apresenta o seu primeiro álbum, Hotel Trópico, Sábado, dia 20, 19h.

À partida seria um bom programa. Confesso que estava desconfiado da escolha do Hotel Trópico. Para mim, arte é para ser apresentada em lugar de arte. Todos os meus amigos artistas, quando apresentam um trabalho, num espaço que não tem a religiosidade necessária da arte, faço sempre esta crítica: ficou a faltar ambiente de arte. No caso deste evento da Solange, não só ficou a faltar ambiente de arte, como a arte foi só uma fracção do todo:

O espectáculo, se é que se pode chamar aquilo de espectáculo, começou com 1 hora de atraso!! Razão, toda a gente aguardava o Presidente da República. Meu querido Presidente, com esta a Excelência perdeu pontos da minha admiração. Foi inqualificável! Quase me levantava e ía para casa, bem mais quentinha que aquela noite fria que se fazia sentir à beira da piscina.

Mas o pior estava por vir: um rol de marketing descarado e sem graça dos Mendes Brothers e, mais grave ainda, os discursos de João Mendes e Ramiro Mendes. A esses dois, aconselharia uma coisa: tenham também profissionalismo de discurso. O improviso, que fica bem na arte, não fica tão bem em determinados momentos: ao iniciar a apresentação, João improvisa claramente, cumprimentando o Presidente, o Primeiro Ministro, quase a esquecer a Primeira-Dama, que se não me engano devia ser cumprimentada logo depois do Presidente, depois esqueceu todo o corpo diplomático que estava ali, não cumprimentou os familiares da artista, quanto menos o resto do público. É assim: ou há protocolo ou então o homem devia simplesmente apresentar o evento. O Ramiro, este é que acabou por nos massacrar com as suas dissertações sobre História, Cultura e Política. Ramiro pára com isso! Pela segunda vez oiço o homem, com as suas considerações leves sobre a Cultura e a sua ingenuidade sobre a Política. Ainda por cima puxando o saco de Pedro Pires a toda hora. Ainda por cima roubando protagonismo à artista.

Por fim (depois de 1hora + discursos estapafúrdios) veio a arte. Foi um deleite ouvir e ver Solange. Ela tem uma interpretação segura e convicta. Expressa bem no palco. Fala bem, acabando por salvar os discursos. E a música, aí sim parabenizo os Mendes Brothers, está deliciosa.

No encerramento, mais discursos dos MB, uf!!! Conclusão: a arte da Solange, que devia ser maior parte do evento, ficou reduzido a uma peça de marketing dos MB. Detestei!!

18.12.08

Joint (traduson: djunta, eheheh)


O projecto de um blog joint já está a andar. Desculpem-me, mas essas coisas são para serem feitas a quente. O blog "Geração 20J73" já está a ventilar a ideia, num post curioso. Heis alguns trechos e comentários:

"passe de ruptura num ângulo de difícil execução" (referindo-se à ideia do alinhamento de blogs periodicamente). Pois, é um ângulo difícil, mas o que não é difícil nesta terra? Até quando se paga, é difícil. Estamos cientes e temos que ter convicção, mesmo que pareça utopia. Tu tens essa fibra, já senti.

"teríamos antes de limitar as nossas deficiências num profundo contacto via meios electrónicos (emails por exemplo) de forma a estabelecermos o Norte da bússola". Eu desafiaria a nos mantermos intactos, como estamos, sem sequer ter a necessidade de nos encontrarmos. Vamos experimentar. Vamos testar uma colaboração 100% virtual. O único ponto de encontro seria o tema.

Na barra lateral está a lista dos blogs interessados. Se algum não quer estar na lista, avise p.f. Destaco mais uma vez que a lista está por ordem de manifestação de interesse.

EmRede

Imagem daqui: http://www.flickr.com/photos/navafederico/
Surgiu uma provocação aqui neste blog, de se tentar criar uma colaboração, uma vez por mês, entre bloggers. Tudo surgiu com o post "Cidadania distribuída". A ideia é:

Um grupo de bloggers se associa à ideia. Cria-se um lista por ordem de manifestação de interesse. Cada blogger inicia um tema na última semana do mês e todos os outros criam réplicas nos seus blogs sobre o mesmo assunto, concordando, discordando, fazendo um desenho, buscando mais matéria, ou seja o que for para ajudar o debate. A escolha de temas é obviamente livre e cada um mostra a sua perspectiva sobre o tema. Assim, por um dia, ou por cinco dias, conforme acharem bem, estará a circular nesta rede um tema, em que bloggers e comentadores poderão contribuir para formar opinião.

Eu gosto particularmente de colectividades: de exposições colectivas, de teatro, de cinema, de colaborações, de workshops, etc. Colectividades aliadas ao conceito de redes, torna a coisa ainda mais aliciante. Que tal?

(título emprestado do blog do meu colega Zé Lino, http://emrede.wordpress.com/)

17.12.08

Filmes da minha vida

Adaptações (livros, teatro) para o cinema são sempre operações delicadas, que podem resultar em: porcarias entediosas; ou obras d'arte, como é o caso deste filme, que conservou de forma corajosa os diálogos "teatrais", refazendo todo o resto em linguagem cinematográfica.

O que mais me impressionou: os diálogos. É uma viagem!

Segundo, vêm as interpretações: Clive Owen, um actor sério, brutal; Natalie Portman, a que Norah Jones roubou o papel em Blueberry Nights, é descaradamente sexy e uma potente actriz; Jude Law, sempre impecável; e até Julia Roberts não ficou mal.

Terceiro, a realização, Mike Nichols. Não me lembro de ter visto um filme deste tipo, mas vou passar a ver qualquer coisa que ele faça. A história faz uns tantos shiftings e a realização tornou isso uma brincadeira deliciosa. Nunca vou esquecer a sua técnica.

Cidadania distribuída

Instalação de Pascal Combis
Filinto escreveu uma expressão que achei engraçada: "A blogosfera caboverdiana, a nova diáspora CV"

...tenho dificuldades em a encarar assim, porque a diáspora supõe sempre uma certa alienação da sociedade de origem. A blogosfera CV, movimento incipiente, circunscrito e (des)necessariamente elitista, visto a pobre penetração da Internet na nossa população, é uma versão séc.XXI do que foi "Sopinha de Alfabeto", só para dar um exemplo em que Filinto participou. É uma acção vinculada à sociedade e não alienada.

Na era da Internet, apareceu o conceito de "informação distribuída". Até mesmo as aplicações informáticas correm de forma distribuída: um Banco, por exemplo, pode ter o cálculo de câmbio num servidor na Japão, as contas dos clientes nos EUA e se apresentar para o cliente, de forma transparente, num site, como entidade única. O mesmo está se passando com a informação e até mesmo a arte. Hoje já existem formas de colaboração artística pela Internet.

Em CV, os novos conceitos da cibernética são ainda mal apropriados, ou apropriados de forma inconsciente. Usamos a Internet, um conceito amplo, global, distribuído, colaborativo (Wikipédia, por exemplo), mas continuamos a funcionar de forma "ilhada"...demasiadamente individualistas.

Tenho defendido para a blogosfera: que cada um cuide do seu sítio, muito bem, mas, que seja de tempos em tempos, que surjam colaborações de maneira a encorpar a mensagem. Imaginem todos os blogs CV, durante uma semana, a debitar um único assunto. Imaginem a pressão política que isso seria.

Património do quê?

Queremos, torcemos, desejamos que a Cidade Velha seja classificada como Património da Humanidade. Já andamos nessa "teima" há alguns anos. Alguém se recorda de Ciza Vieira, um dos maiores arquitectos do mundo, a oferecer os seus serviços a CV, de forma quase grautuita, de ter iniciado os trabalhos e depois ter bazado (ir-se embora, escafeder-se) destas terras morabis, perfeitamente irritado com as nossas criolices/carolices? Pois, não recordamos. Somos péssimo de memória. Somos horríveis de história e de preservação de patrimónios. Somos patos bravos, deslumbrados (ainda) com a indepedência. Eis alguns dos factores de não nos favore na candidatura.

A gestão política do dossier é uma das maiores complicações, como não podia deixar de ser. O sítio da Cidade Velha sempre foi pilhada e destruída. Mas a partir do momento em que engajamos numa candidatura do género, não seria de esperar uma outra autoridade do Estado? É possível que se continue a destruir as velhas casas para construir vivendinhas para o pessoal chique? É possível que se deixe construir um enorme armazém, ou unidade industrial, ou sei lá do que se trata, de betão, mesmo, mas mesmo debaixo do nariz, da Sé Catedral, reconstruída de ruínas com o dinheiro espanhol? É possível que se passem fios de electricidade e telefone a torto e a direito? O que é feito das escavações? E os artefactos encontrados no mar e na terra?

Vi à entrada do forte uma tentativa de construção, com blocos de cimento e ferro, que pelos vistos foi embargado (uf, uma medida!). Agora resta limpar o que já foi feito. Podia até por um contador para determinar o tempo que aquela porcaria vai ficar ali intacto.

E parem com esta conversa de que o povo é difícil, é ignorante, que destrói e bloqueia, pois que sabemos que na actualidade o maior perigo para a Cidade é a construção de vivendas, hotéis, resorts e o pessoal chique que quer morar nas casinhas centenárias, destruindo-as completamente. Ignorante é o Estado, mais uma vez.

Pessoal, não precisamos de Planos Estratégicos; precisamos de Planos Operacionais, tipo: que fazer com a figura de Estado que autorizou a destruição de uma das casas da Rua de Banana, em uma vivendinha ridícula?

16.12.08

Prémio Nacional de Arquitectura

A cidade da Praia, para além de outras preciosidades, é uma grande exposição de aberrações arquitectónicas/urbanísticas: zonas residênciais sem acessos condignos; falta de espaços de lazer; inexistência de parqueamento automóvel; ausência de espaços verdes (ou pelo menos livres); ocupação indevida do litoral; indústrias entaladas dentro da cidade; tráfego pesado e ligeiro juntos, numa grande confusão; desrespeito total de padrões de construção (prédios, casas individuais); até chegar a desenhos de certas habitações que sairam da cabeça de um arquitecto (ou não) inundado de uma tremenda confusão estética.

É tão raro encontrar um caso exemplar de urbanização. A zona chamada de "Wall Street", onde concentra a Bolsa de Valores, vários Bancos, lojas, farmácias, operadoras de telecomunicações, vários escritórios e residências, é quase funcional e um bom exemplo, mas mesmo assim é apertado, não há parqueamento, não há espaço para a criançada, a não ser dentro dos condomínios fechados, que é um conceito que, se eu fosse dono desta terra, mandava demolir. É tão raro encontrar um exemplo de edifício de alta qualidade de: desenho, função e construção.

Os arquitectos tem ainda responsabilidades enormes, como sejam as ambientais e as económicas. Os arquitectos são um dos maiores responsáveis pelo visual de uma cidade. Em nossa terra, é uma classe sofrida, destratados pelos políticos, especialmente os Presidentes de Câmaras, estes bestinhas metidos a reis. Para além disso tem uma grande confusão interna, que é uma especialidade caboverdiana.

Ocorreu-me que um prémio nacional de arquitectura podia ser pensado, como forma de: criar um ponto de reflexão sobre esta importante profissão; criar uma cultura de qualidade; e recompensar os casos de excepção que existem, neste mar de betão desordenado. Mas, por favor, a ter um prémio do género, que não façam como o Ministro da Cultura que criou um prémio ele próprio, nomeou um júri ele próprio e quase que ganha o prémio ele próprio. Convoquem um júri internacional, professores, pessoas de reconhecido mérito.

Será que certos arquitectos da praça, donos de algum poder, estariam preparados para saber que a sua obra é uma bosta?

15.12.08

Crioulês

Teresa Sofia Fortes (jornalista):...há cabo-verdianos que são contra o ensino do crioulo e a sua oficialização porque dizem, dificultaria a aprendizagem do português. Existe outra corrente que diz o contrário, ou seja, que aprender crioulo (gramática, sintaxe e semântica) facilitaria a aprendizagem do português.

Nicolas Quint (línguista, doutorado, investigador, 13 livros publicados, entre os quais Gramática da Língua Caboverdiana): Esta última seria a minha posição. Compreendo perfeitamente este receio porque o português é a língua materna ou veicular de mais de 200 milhões de pessoas no mundo e o crioulo tem um número reduzido de falantes, por volta de 1 milhão de falantes, incluindo a diáspora. É evidente que há muitas vantagens sociais que levam as pessoas a querer aprender e falar o português. Aliás, creio que ninguém em Cabo Verde está a pensar em substituir o ensino do português pelo ensino do crioulo. Mas é preciso ter cuidado. Se se ensinar apenas o português corre-se o risco de ver o crioulo desaparecer. Pode não ser daqui a 100 ou 200 anos, mas um dia vai acontecer. Uma língua que não se ensina de todas as formas está condenada no mundo de hoje. Os cabo-verdianos devem aproveitar as duas línguas que fazem parte do seu património cultural. Acho que não há nenhum impedimento de se optar a aprendizagem paralela das duas línguas. Um ensino bem construído e bem programado do crioulo ajudaria a tornar as crianças e o resto da população conscientes de que estão a lidar com duas línguas diferentes e provavelmente ajudaria muita gente a falar melhor o português pois teriam uma base sólida para depois se abrirem para outras línguas.

Fonte: A Semana online

Pergunta: o que nos assusta tanto ao tratar da Língua Caboverdiana?