13.11.11

Relatório sentimental


Conheço bruxas, de verdade! Maimuna, que é uma flor de três pétalas que nasceu em Moçambique, fala em língua de bruxa. Também a prima Lúcia conhece essa fala. Mamã tem as suas tiradas de bruxa e eu acabo por aprender bruxedos básicos. Maimuna dizia-me, também fala assim a prima Lúcia, que nada acontece por acaso, que tudo está ligado por linhas invisíveis e as bruxas, boas e dóceis, conseguem ver essas linhas, só isso.

A prima Lúcia previu todas as linhas invisíveis que me puxaram aqui a ali, que me ligaram a este e a aquele, as linhas que mudaram os últimos dois meses da minha vida. Maimuna, a minha bruxa de serviço em S.Tomé, fazia-me leituras diárias de sinais, como um assessor de impressa faz recortes de notícias. Eis umas ligações invisíveis:

De enfiada, conheci tipos fantásticos, brothers in art, e de repente já temos projectos, planos, esperanças e uma alegria de estar juntos, como se esperássemos por isso toda a vida. René, sentiste isso? Tu também Kwame? Uma estranha e palpável sensação de conhecer Adelaide encarnações atrás, os seus olhos familiares e as suas palavras dirigidas a um velho amigo. João Carlos Silva olhou um momento para mim em silêncio e disse-me: parece-me conhecer-te de longos anos! Paulo e Guida parecem vizinhos de longa data! Podia caminhar a marginal de S.Tomé de olhos fechados, conhecia as pedras de cor.

Hoje queria ver um filme, mas não um qualquer, nem sequer um excelente qualquer. Queria uma coisa que me cortasse um pedaço de tripa. Quando acabei de ver este filme Dogtooth (Dente Canino), do grego Giorgos Lanthimos, que tem a força de Michael Haneke e a bizarrice de Lars Von Trier, fiquei em estado de espanto. Não nos podem acontecer tantas coisas fortes ao mesmo tempo sem que isso signifique muito.

12.11.11

A mata

Atravessando a mata. A mata vive, tem ossos, carne, coração, espírito. No carro o condutor conta a história da árvore que foi cortada num dia e no dia seguinte apareceu de pé, ainda com as marcas da serra, mas de pé e eu vi, vi mesmo. A mata tem mistérios.

Na roça do João oiço as histórias de S.Tomé, que são tantas, cruzadas, emaranhadas, resolvidas, mal resolvidas, problemáticas, esperançosas e por aí fora. O céu desaba-se em água. Chove sempre, sempre e forte. A mata tapa tudo, só se vislumbrando um punhado de casas ali, um troço de estrada mais além, o cume dum monte ao longe, uma breve vista do mar e as vozes. A mata tem sons e vozes.

S.Tomé tem povos vários, atirados do mar para dentro da mata. Com o lento escoar do tempo os povos se cruzam mas ainda dizem, nós, eles, aqueles, este é nosso, aquele é deles, não queremos saber nada deles e assim. Os povos ainda não sabem se juntar, num único abraço.

9.11.11

Orgulho Cabo Verde

O meu país destaca-se no seu continente. África sofre de ponta a ponta. Se não é de guerra, é de fome, se não é de fome é de corrupção, de violação de direitos individuais, de negação de direitos humanos básicos. Quase todos os países africanos são classificados de pobres e muito pobres. E no entanto o continente é incrivelmente rico de natureza e cultura. A pobreza só tem a ver com os jogos humanos.

Nesse quadro Cabo Verde parece um paraíso. Orgulho-me de morar num sítio sem guerras abertas, onde as mulheres tem direitos reais, onde as criancinhas já não morrem tão facilmente, um país que tem um projecto de governação electrónica exemplar e uma verdadeira democracia. Estamos bem em termos de qualidade de telecomunicações em África, vamos tendo uma quantidade razoável de portos, estradas e aeroportos. A prevalência da SIDA é baixa e o mais importante, temos uma mentalidade aberta. MAS (é preciso um grande MAS) as condições para se perder essas vantagens não estão eliminadas. Dessas condições é a corrupção o que mais me preocupa. Corrupção no sentido lato, das famílias, das empresas, dos partidos, dos governos, de todos. É necessário uma Justiça bem forte, de modo a garantir que todos respeitam os ganhos obtidos, para que ninguém tenha a tentação de estragar com os pés o que já fizemos com as mãos.

Gatos e Ratos

O Governo anda naquela mansidão característica de quando anda a tratar das suas próprias coisas e não propriamente de governar o país. As autárquicas se avizinham e prometem luta renhida, unha por unha, dente por dente. Esta é a hora dos traidores e dos chico-espertos. Muitos já sabem que o partido no poder já não terá as mesmas chances que no passado e viram-se independentes. Os que há uns anitos atrás defendiam o partido cegamente, agora tem muitos argumentos para se "distanciar" dele. Inversamente, o partido da oposição tem mais chances, então muitos até agora ilustres anónimos dão a cara, exibindo bravura e abnegação, num tocante exercício de devoção à causa pública. Então senhores, é isso que a malta que devia estar a administrar o Estado anda a fazer, a brincar de gato e rato. Governo mesmo só daqui 1 ano e olhe lá!

8.11.11

Na raiz do mal

Uma das coisas mais tristes que vi em S.Tomé e Príncipe são as mulheres bêbadas. É uma coisa que me espanta verdadeiramente, primeiro porque na minha terra é mais comum que os bêbados sejam homens, segundo porque sempre me preocupou a questão da dignidade da mulher, por uma razão muito simples, ela é mãe. Ouvi uma história de arrepiar em STP, de uma mãe, com o filho bebé nas costas, caída de bêbada na estrada, quase a esmagar a criança. Foi o irmão em pessoa que me contou a história.

Associado à bebida, as famílias padecem do mais variado leque de males. É super comum a irresponsabilidade paterna, a sociedade é incrivelmente machista, mulheres não se vêem, nem se ouvem, muitas vezes as crianças estão abandonadas à sua sorte, pelas ruas, a tentar sobreviver. Em certas zonas da cidade, por causa da chuva incessante e da falta de condições sanitárias, o cenário é de miséria bruta. Do outro lado da cidade já vão aparecendo resorts turísticos, os únicos sítios decentes e aprazíveis à vista, onde a elite local, no bar, entre um whisky e outro, vai aprendendo a se distanciar cada vez mais da sua população.

É preciso denúncia à miséria no mundo, porque ela não tem nadinha a ver com os recursos materiais. Tem a ver exclusivamente com a acção humana.

7.11.11

Mata Cerrada

A mata é a vista dominante de S.Tomé e Príncipe. E o mar. Do alto, do avião, avista-se desde a aproximação, a a mata. No meio do oceano, uma mata só. Depois de aterrar, aos poucos, os olhos habituam-se e vêem-se casotas, pessoas. Depois são só pessoas. Pessoas e mais pessoas, mercados abarrotados de pessoas. E cheiros e lama. Aos poucos a cidade nos invade, com cheiros e sons: cacaôô!

17.10.11

STP, Day One, First Impressions

Acabado de aterrar no Aeroporto Internacional de S.Tomé e Príncipe. O primeiríssimo ser a dar-me as boas vindas foi...um cão. Assim que saí do avião lá veio o canino no meio da pista, todo alegre a abanar o rabo, estendeu-me as patas e fiz-lhe uma festinha, um bocado espantado por estar um cão ao lado de um boeing, na pista dum aeroporto internacional.

Odiei o voo da TAAG. O grande mal dos nossos países africanos é nós aceitarmos as condições de boca calada. Não é aceitável que num voo de 5h de duração, um avião tenha um interior tão mau, tenha pessoal de bordo tão carrancudo, que as cadeiras sejam tão duras e mal cheirosas. Garantiu-me um colega de viagem que aquele avião só voa entre "as áfricas". Porra pá!

As primeiras impressões. Aqui o universo muda de cor, textura, tempo, principalmente o tempo. Aqui uma hora parece ser duas. O som mais ouvido na cidade é das motas. Há imensas! São...táxis! Não quis acreditar ao ver uma mota a transportar uma senhora de bébé ao colo, os dois sem capacete, numa pose de descontracção total.

Isto vai ser uma aventura!

11.10.11

PP


Que falta a História nos faz! Como é uma pena que milhares de caboverdianos não tenham a oportunidade de conhecer a cruzada que os nacionalistas começaram na década de 50 e que conduziu os nossos povos à independência. A história começa com Amílcar Cabral, Dulce Almada e Abílio Duarte, principalmente esses, e depois segue-se com todos os outros. Pedro Pires é uma das figuras que sempre se destacou pelo seu low profile, ou melhor, que nunca se destacou, devido ao seu low profile, e no entanto é um dos personagens mais decisivas dessa cruzada.

Pedro Pires, reza a história, foi dos dirigentes que se dava igualmente bem com caboverdianos e guineenses. Sugere a história ainda que ele terá mediado várias situações explosivas de conflitos entre caboverdianos e guineenses. Pedro Pires foi o tenaz negociador da independência, lutando ferozmente para que Cabo Verde não se tornasse uma dependência de Portugal, como era a pretensão dos negociadores portugueses. Consta ainda que PP terá sido o grande impulsionador da diplomacia caboverdiana nos primeiros anos de independência. Na luta entre maoistas e trotskistas, ele era um conhecido moderador. Atravessou toda a humilhação nos anos do MPD. Regressou ao poder de uma forma surpreendente. Hoje há um grande consenso que é um dos políticos mais íntegros de toda a nossa história política, independentemente da nossa história política, como toda a história política do mundo, tenha momentos menos esclarecidos. O prémio ao PP é uma reforma mais do que merecida a um homem que teve uma vida pública tão longa e intensa. Parabéns Presidente!

10.10.11

Governados

Hoje ocorreu-me que o Governo tem 21 elementos. O problema do número de elementos deste Governo não tem a ver com o preço que pagamos para tê-los, mas sim com o custo da inoperância de um Governo deste tamanho e sabendo que o tamanho deste Governo não tem a ver com as necessidades do país, mas sim com a clara e vergonhosa distribuição de jobs for the boys. Hoje ocorreu-me que este Governo não está nem aí para o país, tendo o próprio PM dito que não quis se recandidatar, mas que por pressão dos amigos e por um irresistível senso de Estado (presumo), teve de aceitar. Hoje ocorreu-me que só para a área dos recursos humanos temos três ministérios, para a das relações exteriores temos dois e por aí fora. Temos ministros que de tão apagados ninguém se lembra que existem. Temos outros que fizeram um pulo do partido para o Governo, sem nunca passarem por um cargo directivo de peso. Hoje ocorreu-me que este é um Governo de fachada, que de Governação não tem nada, quanto mais de Boa Governação.

Por falar em Boa Governação, um dos factores para um país ser considerado nessa categoria é a informação aos cidadãos. Algum de vocês aí sente-se informado dos planos e intenções do Governo? Alguém consegue dizer o que vai acontecer à Electra ou à Segurança Interna?...E que tal um pouco de conversa séria sobre a Governação?

5.10.11

Quando caem as árvores

Saiam à rua!



!!!

HELP!
Quem vir esta mensagem que a leve muito a sério: Cabo Verde está a ser invadido por alienígenas! Eles são invisíveis, ninguém os pode ver, mas atacam forte. Usam um gás paralisante que atinge principalmente Ministros, Directores-Gerais, Presidentes de Conselhos de Administração de Empresas do Estado, mas atinge de maneira geral toda a população. Estamos paralisados!! Help! quem vir esta mensagem que mande ajuda. E eles estão roubando toda a nossa energia. Estamos há dias sem luz. Vamos morrer como peixes podres! Mandem a NASA, o NATO, a Mossad, mandem todas as forças especiais. Tragam cientistas para injectar no cérebro dos dirigentes um soro desparalisante, porque são os mais cruelmente atingidos por este ataque alienígena aos terráqueos de Cabo Verde.

4.10.11

Empreendedor Camarada

Por uma conversa que escapuliu da língua, soube que a empresa do camarada não está nada bem. E eu, nada bem como? Quanto nada bem? Nada bem a ponto de não poder pagar funcionários, o básico. Não era de fingir o meu súbito secar de palavras. Como podia a empresa do camarada falir, uma empresa daquele tamanho, daquele investimento, que o camarada conseguiu sem verter suores, porque é assim, o camarada não batalhou para ter uma empresa de sucesso.

O camarada foi Ministro, mau Ministro diga-se. Por razões de escandalosa incapacidade ministerial foi afastado e como prenda de consolação ganhou o PCA de um empresa pública, polémico. Depois de algum tempo, não dava mais, foi corrido ou correu, mas tratou de levar consigo os contactos, negócios chorudos de terrenos, alianças já firmadas, de modo que montou logo a sua empresa "Camarada e Cia SA". Floresceu em apenas 4 anos. Distribuiu carros topo de gama para os colaboradores directos, fez a casa mais estupidamente grande da cidade, ganhou estatuto de empreendedor modelo, um exemplo a ser copiado e seguido. Veio a crise e faliu. Como medida de combate a crise, finge. Mantêm o estilo de vida, os carrões, as viagens e as festas monumentais na mansão. Mas não paga os funcionários.

O meu interlocutor, perante o meu espanto, pergunta, porquê o espanto? Empreendedor camarada por regra é leviano, acaba por acontecer.

3.10.11

As boas intenções e o Inferno

"O Governo anuncia medidas para a Electra". Enquanto que o Governo precisava anunciar acções.

"A Electra vai ser dividida em duas empresas, uma Norte e outra Sul". Assim paramos de ouvir o pessoal de S.Vicente a dizer que não tem energia porque tem que pagar as facturas da Praia, como se cada ilha tivesse a capacidade de pagar sozinha as suas facturas.

O Governo critica os clientes que levam 3 a 6 meses para regularizar as facturas, esquecendo-se que as instituições públicas são os maiores devedores da Electra.

O Governo anuncia que todos os clientes da Electra estão geo-referenciados, permitindo assim localizar rapidamente os incumpridores, mas esquece-se que, a cidade da Praia, que é onde o problema se põe de forma mais dramática, a maior parte da cidade é ilegal, logo a maior parte não são clientes da Electra, ou seja a geo-referência não serve pra nada.

"Os efeitos das novas medidas só terão efeito a médio/longo prazo". Há anos que nos dizem a mesma coisa. Quando é que chega o médio/longo prazo?

Ou seja, o Governo sempre terá essas justificações que mais irritam que acalmam uma pessoa.

Fonte: aqui