30.4.10

Pontos no Globo

O conflito que opõe o Google e a China é um caso interessante de como as empresas multinacionais viram tão gigantescas, ganhando poder de embater com Estados, igualmente gigantescos como o da China. Ou como o poder económico se confronta com o poder político.

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Nós aqui chateados com os devaneios de Mário Soares, de que Cabo Verde teria mais a ganhar se ficasse anexado a Portugal, e Portugal a debater-se com a ideia de ser expulso da União Europeia, por causa de, imaginem, má gestão das finanças públicas. Pessoalmente não me parece que a União Europeia deseje tal cenário de ruptura, mas o simples facto de se colocar essa hipótese, deve ser uma lição aos saudosista do imperialismo, que tem problemas internos bem mais complicados a resolver, antes de pretenderem gerir outros.

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Passou por Cabo Verde um iate com 200Kg de cocaína, que normalmente vem em estado puro, que depois de cortado pode se transformar em 400Kg. Isso é uma fortuna astronómica para os produtores e uma desgraça incalculável para os consumidores. Todos os dias há notícias de coisas ilícitas que passam por Cabo Verde. Somos parte de grandes desgraças globais: tráfico de drogas, armas, gente...

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Um país pode ser meio metro quadrado, mas se é país é global e se é global faz parte dos problemas e das soluções globais. Teremos a consciência disso?

29.4.10

Quinta,Essência

Lars Von Trier é do género de realizador amar ou odiar, ponto. Um projecto seu pode não resultar num must, mas quem aprecia o cinema em todas as suas vertentes, vá lá, técnicas, não pode deixar de ficar babado com as suas obras. Há sempre uma maneira de fazer que ele subverte, um discurso que ele desconstrói, um ponto de vista inovador e há sempre sequências estrondosas, preparadas ao milímetro. Não gostei particularmente do argumento, ou melhor, de como foi dirigido o argumento. Mas amei as sequências de diálogos, com direito a "erros" como a quebra de eixo (jargão cinematográfico) ou a "erros" de focagem, "erros" de enquadramento, etc., etc., etc. Uma outra marca de Von Trier, que escapa a olhos destreinados, é o recurso à câmara na mão durante todo o tempo do filme, o que transmite ao espectador uma impressão de "estar lá", participar. Mas é um câmara na mão bem feito e discreto.

Para além da realização vem as outras coisas. O visual é puro espectáculo, feito pelo director de fotografia de "Slumdog Millionaire". A banda sonora é um actor ele próprio. A direcção de arte marca presença forte. E o mais forte do filme (como em qualquer filme de ficção que se preze) são as interpretações. Willem Dafoe, o máximo como sempre; Charlotte Gainsbourg, uma agradável surpresa para mim.

Este não é o melhor filme de Von Trier, de certeza, principalmente por ter entrado num género, algo entre terror e surrealismo, que outros dominam melhor, como o incomparável David Lynch. Mas ver Von Trier é sempre um acto de arte. Não são filmes para se gostar ou não; são rompimentos com os próprios limites da criação, que também causam desconforto e estranheza. Percebo os que odeiam, mas quem ama sabe do que estou a falar.

28.4.10

Quarta,Parede

Mãe, isto é como na escola? É, mais ou menos. Aquele homem é como o professor? Porque pensas que é como o professor? Manda calar, manda calar!... Sim, deviam estar calados. Mas eles não param de falar e cochichar e rir. Falta de respeito! Lá na escola quando falamos muito a professora nos ralha. Aqui não. Porque não? Porque são malcriados. Mas são crescidos! São mal-educados. Não foram para a escola? É, parece que não. Mãe, estão a brigar?

Silêncio na plateia! São lembrados os que estão na plateia que não são tolerados quaisquer perturbações à sessão, faz-se o mais absoluto silêncio ou serei obrigado a mandar evacuar a sala!

Faça o favor de continuar, senhor deputado.

complot

Os deputados da nação, na seu elevada consciência de nação, cientes do seu papel de denunciadores das situações menos favorecedores a uma sociedade justa e igual, já avisaram, alto e com bom som, nas antenas da rádio nacional, que o governo está a preparar um mega plano de controle da comunicação social. Avisam-se a todos os jornalistas que não terão onde escapar, ou farão judiciosamente o que a malta do governo mandar, ou vão ter que ver com a máquina vingativa do governo. E não pensem que estão safos os órgãos privados, porque segundo os competentes deputados, o governo vai tratar de arranjar formas maquiavélicas de exercer controle indirecto sobre os dito cujos.

Por enquanto, até que esteja retocada nos seus ínfimos detalhes sórdidos a tal lei, tem se recorrido a uma técnica simples para obstruir a palavra da oposição: toda a vez que um elemento da oposição abre a boca para falar, os técnicos da rádio e da televisão introduzem um ruído insuportável na transmissão. Graças aos valentes deputados, através das antenas da rádio nacional, tomamos conhecimento deste plano, que o diabo não se lembraria nem nos seus dias de maior inspiração.

Viva os deputados da nação!

27.4.10

Democracia elementar

Baltazar Garzón é um juiz espanhol que fez coisas impensáveis: deu ordem de prisão ao Bin Laden (que não compareceu, se calhar porque tinha uma indisposição, como uma determinada figura local), acabou com a carreira do ex-chefe de governo espanhol, Felipe González, ao denunciar um caso pouco abonatório, mandou extraditar Pinochet de Inglaterra para Espanha (que também não cumpriu porque tinha cãibra nos pés), julgou criminosos da II Guerra Mundial, pôs o diabo de quatro, só que, embalado pelo sucesso, foi mexer com gente poderosa dentro de casa. As elites, que tem mais força que o próprio Estado, arranjaram forma de agora ser ele a sentar no banco dos réus. Lá vão eles acabar com o defensor da justiça.

Fez-me lembrar o caso da apanha criminosa (do ponto de vista ambiental) de areia na ilha do Sal para a construção civil, por parte de empresas privadas, ao qual um brilhante e jovem juiz interpôs-se. Lembram-se? A coisa deu que falar. Aliás o dito juiz deu que falar por essa e outras, até que lhe arranjaram um lugarzinho na Assomada, onde faz sempre um ar fresco, a ver se o jovem esfria os ânimos. Bonito. O caso vai ser encerrado, por não cumprir com algum pormenor legal, as empresas supostamente infractoras foram todas absolvidas e já não vão ter que pagar a astronómica multa que seriam condenadas a pagar e não me espantaria se agora fosse o Estado a indemnizar as empresas em questão, por prejuízos materiais e morais.

Lição da história: mexam em tudo, menos no meu queijo (para quem conhece a parábola "Quem mexeu no meu queijo?").

É NÓS!

"Change is afoot in contemporary Cape Verdean culture. Young artists are set on stirring things up."
Leiam a história completa aqui em The Courier. Podem fazer o download da linda revista na íntegra (gratuita) aqui

Orgulho de ter o trabalho visto e apreciado por outros olhos. Orgulho de colocar uma das raras referências a Cabo Verde, sobre a arte, em circuitos artísticos africanos. Orgulho de ter trabalhado com gente que faz!

A mudança é um lento e imperceptível processo. Se juntarmos mais, catalizamos mais.

sétima,arte

Isto é Herzog. Fabuloso filme! Isto é Nicolas Cage como nunca o tinha vista. Como dizem, quem vê caras não vê corações. Quem vê para a cara deste filme (o cartaz) não consegue imaginar a obra, no mínimo genial, deste conceituado realizador. Quando vi o cartaz, de relance, pareceu-me um desses filmes ridículos sobre o patriotismo dos militares, etc., etc. Depois reparei que era Herzog e pensei, ou é um incursão desastrosa pela Hollywood de um grande realizador, como foi com Wong Kar-Wai em Blueberry Nights, ou o cartaz não foi bem concebido. Felizmente era a 2ª opção.

Mais uma vez, reforço a minha posição em relação ao cinema de que, o trabalho humano continua a ser o mais valioso. Nicolas Cage tem um interpretação incrível. A direcção dos outros actores é igualmente genial. A história, sempre a história, é do mais humano que se podia assistir num filme, vá lá, policial (porque é sobre polícias, mas nada a ver com o significado tradicional do termo).

E que haja cinema sempre! (E já nem me importo com o DivX)

26.4.10

Segunda,Versão


Nada como um ponto de vista alternativo para contar as histórias. Dizem que, na literatura e na arte, tudo está dito e tudo está feito, que o que torna uma obra diferente e original é o ponto de vista. Seguramente que sim. E os fazedores de obra fácil que tenham paciência, é preciso muito trabalho, muita experimentação, até descobrir o ponto de vista original para contar/fazer as coisas.

Quando este filme começou, disse para mim: "Não! Mais outro filme sobre a IIª Guerra, não!" Tive paciência para seguir e no final tinha visto uma grande obra sobre sobrevivência humana. Mão firme do realizador, sem os "truques de espectáculo" de Steven Spielberg.

23.4.10

Pecado,Capital

"O Papa Bento XVI foi hoje formalmente processado judicialmente nos Estados Unidos por alegado encobrimento de abusos sexuais por um padre de Wisconsin acusado de molestar pelo menos 200 crianças surdas entre 1950 e 1975."

Fixe mesmo era ver esse ex-nazista atrás de umas grades. Eu passaria a ser um fervoroso crente na Justiça Humana.

22.4.10

Quinta,Essência


"Cabo Verde é o país mais europeu de África"
Alberto Navarro (SAPO CV)

Este tipo de afirmação e outras, como a do Dr.Mário Soares que valia mais a Cabo Verde ter-se mantido nação portuguesa, estão na lógica das frases que Salazar proferia para convencer o mundo que na "Guiné Portuguesa" havia paz social, que "Angola é nossa", que Cabo Verde é Portugal, etc. Foram essas afirmações que os Nacionalistas contrariaram para poder ganhar a guerra da Independência. Mas o que me incomoda mais que essas afirmações fáceis e gratuitas, são os dirigentes e intelectuais caboverdeanos que no momento em que os seus pares europeus dizem essas coisas, ficam caladinhos. O meu medo é acreditem mesmo nessas afirmações ou, pior, que não tenham argumentos para rebater.

Agora pergunto, qual é o sentido da frase acima? Se é por causa da língua, não senhores, a nossa língua não se parece com o português; se é por causa da música, não senhores, a nossa música não se parece com a europeia; se é por causa da vida social, sim, é parecida; se é por causa da paz e da democracia....espera, isso não é uma invenção europeia; isso da paz e da democracia, ou a falta delas no nosso continente, não tem a ver com Europa (a civilização, subentende-se), mas sim tem a ver com processos históricos, governos africanos corruptos e governos ocidentais hipócritas, que ao mesmo tempo que reclamam por democracia, vendem armas.

A frase pode ser engraçada, como dizer que Lisboa é uma cidade muito africana. Só que para o nosso caso, onde o debate da identidade está carregada de contradições, essas frases parecem-me completamente evitáveis.

21.4.10

Quarta,Parede



Por hora e meia Marciano tinha estado mergulhado no livro, Pensamento Estratégico, de conhecido autor. Tirou a cabeça de fora e disse para a mulher, Mulher, vou ser presidente da república! A mulher, Luíza do nome, suspendeu o minúsculo pincel de frasco de verniz, tinha os dedos de um pé arreganhados por pequenas esponjas separadoras, enquanto iniciava a pintura do terceiro dedo do outro pé, com cuidado, exclamou seco, sem esforçar muito a expressão para não estalar a máscara de argila que lhe cobria a cara toda, O quê?! Vou ser presidente da república, repetiu em tom reconfirmante.

Ora, presidente da república seria o desfecho lógico de todo o seu percurso político e enquanto destacado membro da sociedade. Deputado da nação por vários anos, presidente da associação de pais na escola do seu filho menor, representante dos trabalhadores na sua empresa, dirigente desportivo, membro activo da campanha “dignidade aos gatos e cães de rua”, bom vizinho, amigo de todos, logo ambição natural. Achas que deva cortar o cabelo? A voz da mulher vinha da casa de banho ao lado, escorria água no lavatório. Luíza apareceu no quarto desmascarada e a sorrir. Preciso de roupas novas, vasculhou o guarda-roupa. Vais ser a primeira-dama mais bonita que este país já teve! Alegrava-lhe ver a mulher entusiasmada.

Apareceu no emprego de gravata, camisa e calças perfeitas. Cumprimentou a gente do trabalho, uma por uma. Ninguém deixou de comentar, ver, ou cochichar. Calmamente passou as mesas todas e foi se sentar no seu canto, triunfal. Pegou no telefone antes de qualquer expediente e fez questão que a conversa com o chefe do partido fosse audível. Compreendo, compreendo, repetiu quantas vezes, diminuindo a voz aos poucos. Fez uma cara séria por momentos depois de desligar, mas logo recompôs o sorriso inicial. Foi tomar o café diário no bar ao lado, não dispensando os apertos de mão generalizados. Constatou que lhe faltava material de campanha. Nessa noite desenhou e imprimiu, a rabugenta impressora, vários folhetos dizendo, candidato independente à presidência da república e enumerando os princípios básicos da sua candidatura. Recolheu no trabalho, na escola, no clube e em todo o lugar as assinaturas requeridas. Votarão em mim? Votaremos sim, claro. Enfeitou o carro de cartazes e seguiu convicto. Só não tinha calculado que tivesse que se deslocar a todas as ilhas de avião, facto que podia prejudicar a campanha. Fez fervorosos apelos pela rádio e pela televisão. Mandou e-mails, abriu um blog. Apesar das tendências apontaram para uma retumbante derrota, manteve-se crente até ao fim. O anúncio dos resultados finais da votação deu-lhe quinze votos. Calou a rádio e a televisão, nem a mulher, ou os filhos arriscavam tecer comentários. Ficou assim a noite toda a sede da sua campanha, a sua própria casa.

Apareceu no emprego de gravata, camisa e calças, igualmente perfeitas. Cumprimentou a cada um, não escondendo a tristeza. No entanto, tinha pegado o hábito de lhe chamar de senhor presidente, o que lhe soavam bem e o fazia sorrir de novo. Foi se sentar no seu canto, triunfal.

19.4.10

Nomenklatura

Ser político e não pertencer a partido nenhum, pode sim senhor!

Após a leitura do colosso de José Vicente Lopes, "Nos bastidores da Independência", penso ter percebido um pouco mais da nossa história política recente. Sempre ouvi falar de maoistas e trotskistas, achando piada aos nomes, que parecem saídos de algum filme de propaganda. Agora percebo melhor a questão, estando mesmo assim longe de a descascar. Isso será matéria para estudiosos da política, daqui a alguns anos, com mais distância dos factos.

No entanto a minha leitura é que, os que eram chamados de "trotskistas" representariam uma elite, de homens fortemente politizados, mas com outras vertentes de formação pessoal, com valias culturais fortes, apreciadores da literatura, do cinema, da música erudita, bem falantes, bem articulados, que terão "complexado" a malta que vinha do mato, que tinha uma práxis política muito mais directa e pragmática. Trotskistas podem ser considerados utópicos, enquanto que os radicais do partido podem ser considerados realpolitik. Os trotskistas acabam por sair do partido (PAIGC), por incompatibilidade. Aparecem mais tarde nas fileiras do MPD, mas logo se incompatibiliam com a linha centralizadora de Carlos Veiga, a lembrar a velha nomenklatura e, mais uma vez, saem, ou são corridos, ou como preferirem.

Grande coincidência ou não, os trotskistas são grandes homens deste país, com partido ou sem partido. São homens admiráveis em si, pela sua Cultura e o seu percurso intelectual. Por mim deveriam continuar a ter uma intervenção altamente política, mas que evitem os partidos. Parece estar demonstrado que, em termos de associativismo, espírito de cidadania, trabalho de grupo, visão de conjunto e capacidade de projecção, ainda estamos longe. Os partidos são só uma parte bem visível deste nosso carácter anti-democrático.

18.4.10

Segunda,Versão

Avatar, o grande "sucesso" cinematográfico da actualidade custou mais de 300 milhões de USD, o que equivale a 24 milhões de contos CVE, fazendo as contas com o dólar a 80$ CVE, ou seja metade do orçamento do Estado CV para 1 ano de funcionamento! Tão a ver o que é isso? Esse dinheiro paga todos os professores, todos os médicos e enfermeiros, todas as despesas de funcionamento dessas duas instituições, durante 1 ano!...E no entanto uma porcaria de argumento!

Hollywood impôs uma bitola industrial ao cinema, até que a Nova Vaga, aí pelos anos 50, veio acabar com essa visão. Hollywood hoje está a enfrentar problemas, precisamente de orçamento. É um cinema caro, que só se mantêm se as bilheteiras estiveram sempre a somar avultadas somas, o que vai se tornando mais difícil, por causa da crescente de outros medias, da multiplicidade de outros cinemas e outros factores mais. A solução apontada por alguns produtores da Hollywood para sair da crise é a aposta nessas super vistosas produções que tornaram a atrair multidões para as salas de cinema, naquela da novidade. Mas a fraqueza do argumento de Avatar parece-me inaceitável face ao dinheiro que custou. Tenho de me render à sua beleza visual, incomparável no seu refinamento de imagem de síntese, o que faz avançar a tecnologia, mas esse cinema continua a privilegiar o entertenimento em desfavor da arte, que me faz cada vez mais um não-adepto dessa visão do Cinema.

Tetro, o novo filme de Francis Ford Coppola, tem um orçamento de 5% de Avatar, nem sequer entrou para os Óscares, e no entanto é uma belíssima peça cinematográfica. Aqui não vale o argumento de que é um questão de gostos. Que eu saiba um bom filme ainda se define pelos seus parâmetros clássicos: argumento, realização, interpretação, produção, fotografia, sonoplastia, sendo os mais importantes. Tetro tem isso tudo no topo de excelência. Mas é um filme no sentido clássico do termo, filme de autor, sem grandes truques visuais para manter a audiência acesa, uma estória dramática, dura, humana, de uma maestria de realização, que também faz avançar o Cinema.

Entre um fazer da arte que custe tanto dinheiro e um fazer que exija força de imaginação, sendo eu habitante de um país pobre, de um mundo tremendamente desigual, amando profundamente o cinema como amo, defendendo que temos de fazer também o nosso cinema, escolho sem pestanejar, um fazer da arte em que o seu valor intrínseco seja maior que todos os demais valores. Podemos fazê-lo...e vamos fazê-lo.