18.10.10

Laureados

No Festival Internacional de Cabo Verde, ilha do Sal, 2010, o nosso filme ganhou 2 prémios! O prémio mais simpático, Prémio do Público, e uma Menção Honrosa!

Estou feliz por mim e pelo colectivo: Samira, Nuno, NDú, Lúcia. Uma nota de apreço ao Djinho Barbosa. A lição óbvia disso é: quando juntamos e trabalhamos a valer, a obra nasce forte, ousada e ambiciosa. Obrigado amigos!

15.10.10

RTP - GRANDE PLANO

Link: RTP - GRANDE PLANO

Peça sobre o Festival Internacional de Cinema, Sal 14-17 Outubro. Tem uma entrevista comigo sobre os meus filmes participantes "Raíz" e "Faka"

12.10.10

Cinema cá

Estou nessa. Sou participante, apoiante, vibrante e crente. Estou em competição nessa, mas na verdade só de estar nessa, já me atrai. Vou ao Sal, uma ilha que só se vai para apanhar sol ou avião, não um encontro cultural. Este festival vai começar pequenino (mas assim também começou Baía das Gatas) e já há vozes do agouro, maldizendo isto e mais aquilo. Não nos lembramos que por cá, nem se passam filmes, quanto mais fazê-los, mostrá-los, debatê-los, compará-los, ouvir outros sobre nós, falar de nós com outros, discutir os pequenos jargões, as pequenas manias, esta e aquela técnica, uma ou outra opção. Se fosse na Santa Lúzia, com 5 pessoas, se pudesse, ia também.

Vou já torcendo que tenha muitas edições. Tem vozes do agouro, mas também tem vozes confiantes. Tem já gente, de cá e de outros lados, a torcer pela 2ª edição já. Muita m*da pessoal!

Vejam o programa aqui

Upgrade

Já não há dúvida que o hip-hop hoje é a verdadeira voz da cidade da Praia. Está por todo o lado e é o meio preferencial para falar, contestar. A população jovem diz das suas angústias, dos seus medos e raivas; cantam a percepção que tem do seu país e os políticos não são propriamente uma raça amiga. Esta manhã vinha ouvindo na rádio um som, um bom beat. Primeiro fui agarrado pela qualidade do som em si, que é um dos aspectos que mudou radicalmente no hip-hop feito por cá, mas depois foi a letra da música que me chamou atenção. Cantava a raiva e a revolta que é ter que enfrentar o sistema de saúde. Contou do desespero da espera (veio num jornal da praça que um homem de bacia partida esperou 24h para ser atendido!), da impotência perante o mau tratamento do pessoal dos serviços, dos erros e das mortes que acontecem, que deixem um espectro de erro médico no ar. Enfim, as coisas que todos nós em algum momento sentimos. No fundo, samplaram um discurso do ministro da saúde, sobre as melhorias do sistema de saúde, das medidas a introduzir, terminando a dizer que, "estamos a fazer um upgrade"...

Certo ou errado, é a percepção que a população tem e contra isso não há números que sosseguem. Depressa com este upgrade, Excelência.

6.10.10

Ruga-se

Ela era uma manga madura envolvida numa pele lisa e salpicada de gotículas d’água na prateleira de um mercado de fruta. De todo o ângulo que era vista, era redonda e abundante de carne. E nós, cabritos imberbes, que vivíamos contando os pêlos que apareciam um de cada vez, tínhamos uma onda de calor no corpo se ela passasse e no ar ficasse um perfume de manga que pedia para ser comida. Ela tinha olhos de ave de caça e boca firme, pronta a devorar cabritos imberbes. Morríamos de medo que ela visse que transpirávamos, tremíamos, que pressentisse as nossas vontades, e, num acto de fera que sente sangue, nos atacasse. 

Volto aqui todos os anos e todos os anos a cidade tem mais uma ruga, velha desgastada de uma vida vivida a pleno num tempo passado. Ela, a manga, passou por mim, é cozinheira do restaurante que vou. Por instantes, por instinto, o que vejo é a fruta madura, como um arquivo que guarda a melhor foto, mas logo vejo os seus olhos esvaziados de perigo, baixados. Ela ainda ocupa o ar com formas ovais e movimentos de dança, mas os seus olhos flutuam num líquido turvo. Perdeu brilho na pele, tem varizes. Não pressente mais rapazes que a perscrutam, olha para um nada, de boca cerrada, como que acabada de provar fel. Ninguém a salpicou mais com borrifos d’água. Era seca.

Volto aqui todos os anos e a cidade envelhece entrevada numa cama. Nada mais mexe. Cadeiras vazias. Teimo em ver poemas a balançar no mar calmo da baía, mas as rugas da velha mais parecem feridas mal cicatrizadas. A cidade tem nova safras que não florescem. Tudo vive num arquivo, guardando a melhor foto. 

5.10.10

Bzzz

Ouvir o presidente do CA da Electra a explicar a falha de fornecimento da electricidade na ilha de S.Vicente, é de cortar os pulsos. O homem deu as desculpas que não se dá em gestão e em engenharia. O homem falou titubeante. Disse que a razão das falhas tem a ver com a falta de aprovisionamento em combustível. Básico! Falou da situação financeira dramática da empresa. Novidade! Mas, pra mim, a desculpa das desculpas foi, que tiveram que parar as máquinas para manutenção, porque são...máquinas! OK, uma analogia com um equipamento de suporte de vida num hospital: Sr.Doente terminal, vamos ter que parar isto para manutenção, porque é uma máquina; não o deixamos morrer, só vai sofrer umas horitas, tá?!

A Electra tornou-se um cancro. Não há medidas possíveis que a reponha num lugar digno de empresa. E pobre do homem que lá está à cabeça, encaixando tudo. Um verdadeiro testa-de-ferro. Qual ferro, titánio.

4.10.10

M*da na cabeça

Tem coisa mais triste que ouvir o director de uma escola privada (leia-se cara) a queixar-se dos pais? A queixar-se que os pais não pagam 2,3,4,5,6 meses. Que os pais largam os filhos esquecidos (!) na escola à hora do almoço! Que os pais não vão assistir às peças de teatro dos filhos! Que já aconteceu terem que anular uma peça de teatro porque apareceram poucos pais! E ainda chamam a essas pessoas de encarregados de educação?!

Tem coisa mais porca que gente que mora em bairro classe média-alta a mandar as empregadas deitar o lixo na rua, porque não há um contentor por perto? Enquadramento: a Câmara Municipal mandou tirar os contentores das ruas, porque cães e vagabundos espalham aquilo tudo, deixando os lugares sujíssimos. Doravante cada um deve gerir o seu lixo. SENHORES, eu cuido do meu lixo, guardo-o em casa, meto-me no carro e vou deitá-lo lá onde existe um contentor ou até à lixeira se fosse o caso. Aonde eu moro, todos tem um carro...e, supostamente, uma posição nesta sociedade. Envergonhem-se da vossa falta de sentido cívico. 

O endireitamento deste país passa por uma crítica cerrada às aparências despidas de conduta moral. 

30.9.10

Muita M*da!

Terminou mais um Mindelact, festival internacional de teatro do Mindelo, a 16ª edição. Na memória fica uma avalanche de emoções e momentos únicos. Para sempre fica também a experiência humana e artística. O festival oferece uma variedade tonificante de espectáculos e registos, alguns menos conseguidos, mas sempre de grande entrega, outros sumptuosos acontecimentos de arte...(continue a ler a história aqui

23.9.10

Boing

Em Mindelo. Vim da Praia num Boeing. Trinta minutos de vôo. Parece abrir um amêndoin com uma marreta. É que Boeing só pelo nome é grosso e ilha é sempre pedaço minúsculo de terra. Inglaterra não é ilha porque não é pequena. Mindelo tem um aeroporto, que é internacional pelo tamanho da pista e nacional pelo tamanho do terminal. Mas é lindo, arrumado e calmo, como a própria cidade que acolhe o festival internacional de teatro, Mindelact, de 16 a 26 de Setembro.

Procuro não faltar a um show. E que shows! Mais uma vez, vi Void, de Clara Andermatt com Avelino e Sócrates. Conheci Sócrates, um tipo que tem um percurso que se confunde com o próprio movimento da dança contemporânea em CV. Sócrates tem muitas estórias a contar. Vi um magnífico monólogo brasileiro, num palco sem qualquer cenografia; só o actor, um luz geral e o público; 2 horas (um tantito demais) de pura arte de representação. Vi a peça "Os amantes" uma peça espantosamente atrevida do grupo do CCP-IC, toda ela falada em crioulo, um facto também de notar num grupo de uma instituição cuja missão é promover e divulgar a língua portuguesa. Tenho visto tanta coisa e falado com muita gente. Há discussões existenciais sempre, há festa e novas amizades. O Festival tem um ambiente fantástico, embora muita gente vem queixando da sua degradação.

Entristeço-me amargamente da opiniões da treta que tem havido à volta da extensão do Mindelact à Praia. Está provado que somos um povo leviano, capaz de meter muita energia em discussões estéreis e desmotivantes, enquanto que a realidade demanda por um discurso responsável e construtivo. O que digo a esse respeito é que, é muito benvindo essa extensão, do ponto de vista de consumidor, continua a ser uma extensão e não um festival, é um crescimento saudável do festival e ainda pode até conquistar público para o palco principal do festival, Mindelo, que tanto precisa de visitantes, turistas, receitas, atenção.

Estou em Mindelo, a minha cidade natal, que reconheço a cada pedra que piso, mas que deixo de reconhecer a sua alma saudosista e corrosiva. Também não reconheço esta proibição de andar à noite nas suas belas ruas, porque a violência faz lei. A cada ano que venho, não páro de fazer a pergunta: qual será o teu ritmo certo, Mindelo? Nem massivo-industrial para não perder o encanto pueril, nem pacato como está para não perder a dignidade.

E não poderei parar de amar a minha cidade, contudo.

15.9.10

Vaga

Claude Chabrol (1930 - 2010)

A Nouvelle Vague vai desaparecendo. Um enorme legado deixado e a transformação definitiva na arte de fazer o cinema. Há vagas fantásticas!

NULL

País desgovernado, todos ralham e ninguém tem razão.

A Câmara Municipal da Praia (CMP) pediu a intervenção do Governo em 4.000 casas em perigo de desmoronamento, por causa das chuvas. O Governo negou, devolvendo a acusação à CMP, de que não se preparou como devia ser para as chuvas. Neste ping-pong, as famílias vivem o dramaticamente a chegada das chuvas na cidade.

A relação poder central/poder local é muitas vezes de fronteiras imprecisas e os políticos jogam com isso. Os cidadãos tem que se informar para não se apanhados nessa charada. É de competência do Governo o ordenamento do território, que passa por gerir as grandes infraestruturas - como pontes, condutas de água, estradas - as ocupações e usos do território, com vista a protecção do seu equilíbrio geofísico. O território da cidade também faz parte dessa gestão e não pode o Governo esquivar-se a isso. O caso flagrante de incongruência de políticas é a super estrada circular da Praia, enquanto que dentro da cidade não existe uma única estrada competente, prova disso é o péssimo escoamento das águas. No entanto é da competência das municipalidades criarem os seus Planos Directores Municipais (PDM), que estrutura e regula a ocupação do território dentro das cidades, coisa que ainda o maior município do país não teve a capacidade de fazer.

Em resumo, a situação da cidade da Praia é um incompetência dupla, da CMP e do Governo. As fronteiras de actuação não são tão imprecisas assim, tendo cada um as suas tarefas, que vem sendo adiadas ou executadas pessimamente. E bem que podiam ter mais respeito para as famílias que se desesperam de toda a vez que vêm as chuvas, em vez desse ping-pong vergonhoso.

AHAHAH

Mulheres fumam cigarros electrónicos depois de terem conversa atrevida no Messenger

À semelhança dos cigarros tradicionais, considerados imprescindíveis após o sexo, os cigarros electrónicos já começam a ser usados após conversas de índole sexual na internet. “Gosto muito de fumar o meu cigarro electrónico, que também tem nicotina e não produz cinza, o que é uma vantagem. Quando a conversa é mesmo intensa e até mete webcam, gosto muito de fumar o meu cigarro electrónico até que a pilha acabe. O problema é que também gosto de um abraço e de carinho electrónico depois do sexo virtual. Tal como acontece na vida real, os homens depois do clímax no chat viram-se para o outro lado da cama e ficam off-line no MSN”, afirmou uma mulher. 
João Henriques, in Inimigo Público

Void

De Clara Andermatt, com Avelino Chantre e Sócrates Napoleão, CCP Praia, 14-09-2010.

Não fosse o (já repetente) atraso do Primeiro-Ministro a chegar ao teatro e algum excesso de ruído na sala, teria sido uma noite perfeita. Mas exceptuando essas duas notas deselegantes, foi um noite de encher os poros de poesia.

VOID, uma peça para mastigar, dada a quantidade de informação que passa e todas as interpretações possíveis. Uma temática que pode ser vista na direcção Praia-Lisboa, Lisboa-Praia, Mindelo-Lisboa ou S.Paulo-Tóquio. Questões de gerações, identitárias, ir e voltar, nascer e morrer, estar, simplesmente deixar-se estar num estado VOID. Morremos muitas vezes, repetia-se.

A peça, disseram-me, tem uma versão diferente de Lisboa, o que desconfiei pela quantidade de texto dito em crioulo e uma ou outra interjeição tipicamente daqui, que faz o público rir. Desconfio também que, dado que o público CV gosta de piadas, foram introduzidas algumas. Mas o efeito disso é o público achar que se trata de uma comédia e de surgirem risos em momentos inapropriados, cobrindo até o texto, que é uma componente muito forte da peça; não ouvi uma ou outra frase que quis ouvir.

Aos intérpretes, Avelino e Sócrates, parece que a peça foi criada para eles, para o seu percurso de vida, este ir e voltar constante do cabo-verdiano, para as suas memórias, a nostalgia de estar lá e uma experiência poetizada daqui. Para quem vive aqui, dá até um toque folclórico as saudades das coisas que já não existem, como a soleira da porta e as estórias da avó. Aos intérpretes, um regresso à terra, em apresentações em grande, Praia e Mindelo, Mindelact. Se calhar um recarregar de outras memórias e um actualizar da nostalgia.

À grade coreógrafa, Clara Andermatt, gosto particularmente da sua interpretação de nós. Ora vemo-nos ao espelho, ora vemos um nós possível. Outras vezes é tão somente a criadora, com todo o seu processador, passado e presente, que inventa-nos e o faz com muita graça.

VOID é um espectáculo de teatro, dança, música e literatura. É dirigida por uma coreógrafa, mas é criada conjuntamente pela coreógrafa e pelos intérpretes. Parece uma peça fácil de digerir mas não é; merece reflexão, rever, conversar, ler sobre, ouvir os outros, ter ideias e pô-las em causa. E está mais uma vez provado que, para a arte contemporânea, a técnica continua a valer muito, mas o que distingue uma obra de outra é a elaboração do seu conceito, o que dá imenso mais trabalho que o treino físico.

6.9.10

A política em placas

No meu país o desporto se faz em placas. Na falta de dinheiro para construir polidesportivos e ginásios genuínos, são feitas pequenas áreas cimentadas, a que se dá o nome de “placas desportivas”. Existe de todo o tipo e formato. Podem ter vedação ou não, baliza ou não, tabela de basquetebol ou não, terem as linhas divisórias no chão, ou não. Podem simplesmente se resumir à área cimentada e à declaração de que se tratam de infra-estruturas desportivas.

Concelho ou vila que se digne do nome deve ter placas. Político que se preze deve mandar construir uma. A cada rotação do poder, aparece uma nova placa, acabando assim o país por se dotar de uma infinidade de placas. Existem por todo o sítio. Tanto podem estar no meio de plantações em espaços rurais, como podem se irromper no areal de uma praia, ou estarem no meio do trânsito da cidade. O país e as cidades cresceram, os desafios aumentaram e os políticos seguiram em criatividade as demandas dos novos tempos. Nas cidades surgem placas mais sofisticadas, equipadas com bancos inclinados e barras paralelas, para a prática da musculação. Um político teve a ideia de pintá-las das cores do partido, então veio o adversário, que se apercebeu da importância estratégica das placas desportivas e mandou construir uma, ainda mais sofisticada, com equipamentos de ginásio de verdade, bancos almofadados e um piso fantástico, de uma cor ostensivamente verde, que tanto pode significar a esperança, imitação de relvado ou literalmente a cor do partido.

Ninguém ousa dizer que não existem políticas públicas para o desporto, que vem imediatamente um dirigente político a contar as placas construídas. E pela evolução do fenómeno é de se esperar que no futuro venham ter recepcionistas, treinadores, médicos, chuveiro e sauna. E isso tudo ao ar livre.

3.9.10

7Arte

Ver um bom actor a actuar é sempre um momento de perceber que afinal a arte não é tecnológica, é humana. Harry Brown é um portentoso filme, porque é bonito visualmente, porque é realizado com mão segura por Daniel Barber, um realizador que acabei de descobrir, mas essencialmente porque tem uma performance irrepreensível de Michael Caine, nos seus 77 anos, a esbanjar talento. 

Harry Brown é desses filmes que faz chorar aos mais sensíveis. Damos por nós a sentir raiva, alegria, pena, tristeza, todas as emoções que são supostas de passar e que realmente passam com uma intensidade grande. Adoro os filmes ingleses. Tem um quê de realismo e força visual que me cativam. Lembro-me de Trainspotting, de Danny Boyle (o mesmo que fez Slumdog Millionaire), um dos filmes que mais me marcou nos últimos tempos; ou do realizador Mike Leigh e os seus filmes que parecem documentários das nossas vidas; ou Guy Ritchie e os seus filmes que são, ao mesmo tempo, obras visualmente magníficas, comédias negras, ritmo e adrenalina, para além das sempre boas interpretações.

Almirante é assim o título de um filme russo que vi antes de ver Harry Brown, do realizador Andrey Kravchuk (descoberta), que me fez lembrar que a Rússia é a pátria dos maiores realizadores da história do cinema: Dziga Vertov, Serguei Eisenstein, Andrei Tarkóvski, Nikita Mikhalkov. Stalker de Tarkóvski mudou a minha maneira de pensar o cinema.

Enquanto se espera por salas de cinema em CV, vai valendo a pirataria, que por mais que me doa reconhecê-lo, é a única maneira de não perder o admirável progresso de uma arte suprema: o cinema.