13.8.13

Emoções novas no horizonte


Em modo espera. À espera da chuva, da viagem, de acontecer os acontecimentos importantes que se apontam no horizonte. À espera de rever os amigos, me re-encher de emoções novas. Limpando o equipamento, calibrando as máquinas, verificando a afinação dos mecanismos. Testes. Verificação das hipóteses. O céu está carregado de água, que balança, balança e mantêm todos de olhos no céu. Mas não cai. Balança. Todos esperam. Esperam a água, as cheias. Esperam nem pouca água, nem demasiada água. Espero que o lixo não desague no mar, que árvores não caiam, que pessoas não desesperem. Esperamos, esperamos. Emoções novas no horizonte.

9.8.13

Ramadan

Imagem: euronews.com

Feliz por iniciar o meu trabalho com as comunidades africanas imigradas em Cabo Verde. Hoje na Cidade da Praia, centenas (ou milhares) de fiéis muçulmanos marcaram o fim do Ramadão. Fui numa das concentrações, no largo do Estádio da Várzea. Parei em silêncio a observar, ouvir e sentir. Estou longe de ser um fã das religiões, principalmente porque dão azo a maus usos, ou não seriam as grandes barbáries humanas - da inquisição, à escravatura, o nazismo e o terrorismo - todas feitas em nome de Deus de uns, ou contra Deus de outros. No entanto, em qualquer espaço onde se celebra um culto religioso, emana uma espiritualidade, que vem da comunhão de pessoas em gestos fraternos uns em relação aos outros, que até parece que o ar muda. Quem não consegue sentir essa vibração, presumo que não consiga sentir vibração outra nenhuma.

O crescimento do Islamismo em Cabo Verde espanta, não pela sua dimensão, mas porque andamos distraídos e, de repente, quando os fiéis se concentram e mostram a força dos números, vem a constatação: Cabo Verde é também agora um país muçulmano. Quando vejo as benesses que a Igreja Católica usufrui do Estado dito laico, ainda, depois de acabar a escravatura, terminar o colonialismo, questiono-me como será quando o Islamismo for, digamos, 10% da população. E sei que estarei vivinho para testemunhar esse tempo. Só não sei se será de tolerância ou estupidez. 

19.7.13

Finas navalhas


Os americanos apanham militar guineense, acusado de crimes, em alto-mar no seu iate de luxo. Aliás, o luxo do iate de um militar de um país onde a população esgrima-se pela sobrevivência, é já de per si uma novela só. Os americanos conduzem o iate de luxo, com militar dentro, para um cais de Cabo Verde. Não tarda a reação da Guiné-Bissau a acusaram Cabo Verde de entregarem um alto cidadão seu à opaca justiça internacional dos americanos. Cabo Verde replica que o iate, o seu luxo e o seu conteúdo, foram apanhados em águas internacionais. Azia instalada. Entretanto, cidadã guineense é apanhada com droga num aeroporto de Cabo Verde. Segue a sua extradição para o país de origem, acompanhada por dois policiais cabo-verdianos. Chegando lá, as autoridades capturam esses policiais, acusando-os de comportamentos estranhos, tais como não terem aparecido com a senhora, (esfumou-se nessa estória), ou que os agentes não teriam dado entrada no hotel onde supostamente deviam dar, supondo-se que terão preferido ir brincar aos espiões. Segue julgamento dos agentes, pela justiça guineense, que as autoridades cabo-verdianas já vão denunciando, que está repleto de ilegalidades, o tal julgamento. Entretanto os governantes dos dois lados vão espetando finas navalhas nas costelas uns dos outros.

Os espetadores aguardam o momento em que a estória explode.

8.7.13

Independência, é?!

Artista: Mel Bochner

Em suma, os gays fazem a sua parada, os stripers tiram a calcinha (feita da bandeira nacional), toneladas de cerveja rolam em vários dias de festivais e os políticos hesitam entre o muito mau país e o muito campeão país. A Independência permitiu isso, a pluralidade.

Uma definição de país hoje é constantemente variável. Varia com o estado do tempo e do temperamento. A análise depende se feita do planalto ou da planície. Depende da feição dos ventos. Nada de terrivelmente profundo. Somente umas formulações apressadas na TV, ou opiniões inseguras na rua entre os populares. Nada de estudos, ou publicações, literatura ou arte. Somente programas de TV, propaganda, anúncios turísticos ou de venda de lotes. Mesmo que de quando em vez venha um aviso de fora, nem se sabe bem de que ponto cardeal, que diz: o país tem risco de convulsões!...Só quem não vive com os pés assentes neste chão não sabe que, isto aqui é uma convulsão, constante.


3.7.13

Tumular

Artista: Hedwig Houben

Tribunal é um lugar pesado. Tipo cemitério. O edifício é pesado, a espera é longa, o processo é lento, as togas negras parecem a morte a caminhar, o escrivão tecla com dois dedos, o juiz corrige os autos como se fossem dactilografados por uma criança, as declarações são pomposas, os bancos são duríssimos, a sala é feiíssima, os mobiliários são cinzentos, as feições são fechadas e a palavra "julgar" tem aparência de catana. 

1.7.13

Puberdade cidadã

Artista: Richard Hawkins

Enquanto o mundo se revoluciona, nós aqui, em respeito à tradição, aguardamos a feição do vento para decidir o rumo a tomar. O Brasil, em tempo real, digladia-se com as suas graves rachaduras sociais, levando o povo à rua, levando a polícia à rua, levando a embates físicos às vezes trágicos, em tempo real, explode de alegria por mais um título no futebol, o enésimo título. Aqui, perante os Gays, Lésbicas e Simpatizantes (adoro o termo "simpatizante") a sociedade divide-se em comentários tímidos, também em respeito à tradição do posicionamento não firme. As figuras públicas ou apressam-se em demonstrar que não têm preconceitos, numa pressa que quase denota preconceito, ou ficam caladinhos à espera da reação dos colegas de equipa, ou ainda invocam esdrúxulos valores da família, jurando defender os direitos humanos.  Se há tema que provoca hilárias reações, esse tema tem a ver com o sexo em geral. Os GLS.CV tocaram no umbigo da nossa púbere sociedade.

17.6.13

Animalidade política

Artista: James Richards

"A unidade estatal é, pois, de natureza espiritual. É nesta vontade espiritual que se consubstancia a unidade do Estado. O território estatal é o espaço sobre o qual esta unidade se estende; a população, ou o povo, é o conjunto dos cidadãos que a a sustentam; e o Poder estatal é a força que deles emana."
Introdução à Ciência Política, António José Fernandes, 1995

Ponho-me a pensar em território-país e território-diáspora, sobre cidadãos-"naturais" (tal como define o registo notarial), cidadãos-emigrantes e cidadãos-imigrantes. Penso se teremos a noção da Nação como um Território imenso, que se estende por todo o espaço onde haja um sentimento nacional marcado, com População nascida, emigrada e imigrada e se o Poder terá isso tudo em conta. Penso se os nossos políticos serão estrategas ou comerciantes a retalho.

15.6.13

Bucólicos

Artista: Valie Export

Em S.Paulo, Brasil, a multidão mostra as garras e a polícia militar mostra os dentes. O povo, contagiado por outros povos, que agora por todos os lados resolveu protestar contra a forma de exercício do poder, nas ditas democracias, saiu à rua, apanha com gás lacrimogéneo, apanha com bala de borracha, mas se mantêm firme. O poder, a dita democracia, através da instituição militar/policial, acorda os demónios da ditadura. E nós por cá, nesse cantinho do mundo, não sei se por sorte ou condenação divina, vivemos na pastorícia paz, o que faz de nós pastores ou, inversamente, gado, alegres e contentes. Aqui não há abuso do poder, jogos malignos de interesses, ou governação prejudicial ao povo e à natureza. Por nós, não passam armas, drogas e tráfico humano. Nem há manobras militares. Aqui tudo se passa na mais pura paz atlântica. Que povo lindo!(?)

6.6.13

À carga!


O projeto de quebra-mar de Ponta Preta, na ilha do Sal, foi aprovado!

É assim que nos dão a notícia. Podia ser, vamos derrubar o vulcão do Fogo, para construir um resort turístico. Ou, vamos acabar com o centro histórico do Plateau, para construir umas lojas baratas. Podia ser qualquer coisa, porque a lógica é que alguns decidem pelos outros, na base de valores imediatos. O que mais me corrói em Cabo Verde, a minha terra amada, é que a Cultura e o Ambiente são dois conceitos absolutamente vilipendiados. A facilidade com que se deita uma árvore abaixo, a ferocidade com que se acaba com espécies, a ligeireza com que se altera a paisagem, a rapidez com que se desmorona um edifício antigo, a facilidade com que se desfaz dos arquivos, a indiferença com que se convive com o lixo e esses argumentos sinceramente muito mal explicados que se usa para construir uma estrutura no meio do mar, contrariando na alma os utilizadores do local, no caso os cultores do espaço, praticantes de desportos náuticos, inclusive campeões mundiais, com o fim tão ridiculamente exclusivo de permitir um banhinho de mar tranquilo a turistas!...Há limites, senhores, há limites.

A questão da Ponta Preta não é se a geodinâmica altera ou não, se ficam mais tartarugas ou não. Nem se é legal ou não. A questão é de cidadania. A questão é que várias alterações vão sendo perpetuadas na frágil ilha do Sal e ninguém fala. Quando um grupo, realmente ferido na alma, protesta, o poder mostra como tem mão pesada. Decide!..O ponto essencial, que as autoridades fingem ignorar, é que para todo o fiel, neste caso os surfistas, que são das pessoas mais religiosas que conheço, quando se deita um lugar sagrado no chão, isso representa uma afronta que não podem calcular senhores. Fiquem atentos à raiva gerada.

5.6.13

Ponto Negro II


A questão do suposto projeto do quebra-mar em Ponta Preta, outra vez! A simples ideia de construir uma estrutura para interromper um fluxo da natureza, é de per si uma ideia assustadora. De cada vez que o homem faz isso, dá merda em algum lado. Concretamente ao caso de Ponta Preta:

Ali faz onda, ó se faz! Faz tantas ondas que é mundialmente procurado por surfistas, windsurfistas e kitesurfistas. Faz tanto que até já produziu os dois maiores títulos mundiais no desporto cabo-verdiano: 1 vencedor de uma etapa da prova mundial de ondas de windsurf, Josh Angulo, e 1 campeão mundial de kitesurf, Mitu Monteiro!!...Mas será tão difícil assim entender isso!! Onde estão os Tubarões Azuis agora? Onde estão o senhores do desporto agora?...

O que querem fazer em Ponta Preta: construir um quebra-mar para facilitar o banho dos turistas!! Onde é que estamos? Que tipo de lógica é essa? De todos os kilómetros de praia que a ilha tem, porquê a insistência exactamente no ponto onde é super valorizado pelo facto de ter...ondas! Ou seja, a luta aqui é entre uma atividade desportiva, limpa, ecológica, rentável, aliás eternamente rentável, e outra atividade invasora, potencialmente destruidora, conjuntural e com uma justificativa económica bastante discutível. A luta aqui é entre velhos senhores sentados num gabinete climatizado, a ver os cifrões a cintilar na imaginação, e uma geração jovem,que pensa diferente,pensa natureza, quer um vida diferente, mais justa, mais ecológica para estas frágeis ilhas. O pior disso tudo é que, arrogantemente, as autoridades não nos informam suficientemente sobre o projeto, não nos explicam que raio de vantagens são essas, não mostram as partes em jogo...é tudo um lodo, que nem passa a luz.

E a cidadania?...Ah Cabo Verde campeão de África, rei da cosmética.

2.6.13

E no entanto..ar

Artista: Ugo Rondinone

Frequentemente tenho a oportunidade de viajar por este meu país, Cabo Verde. Quando vejo, em total silêncio, as dunas da Boavista, ou o imponente vulcão da ilha do Fogo, na sua assustadora paisagem a lembrar a superfície da lua, ou quando subo até o cima das altas montanhas da ilha de S.Nicolau ou Santiago, quando vejo amanheceres de cortar a respiração ou entardeceres a sugerir a presença divina, quando posso parar e observar esta luz do sol, que é a força mais marcante destas ilhas, sinto-me a habitar ilhas maravilhosas, que convidam à peregrinação e à meditação. Cabo Verde consegue ainda marcar este agitado século com lugares de quietude, com povoações que parecem embalados num longo sono e pessoas que olham curiosas e se predispõem a conversar, dar uma indicação, ou até acompanhar o visitante se assim ele desejar. Cabo Verde, fora dos centros urbanos e dos gigantescos aglomerados turísticos, ainda guarda esses tesouros, que se deve descobrir caminhando, em passo lento, para dar tempo aos olhos de apreciar a combinação de natureza e presença humana, para dar tempo de pensar como é interessante atravessar tantas paisagens diferentes, de praias planas e águas limpas, a imponentes montanhas, ou mini florestas, tudo em tão pouca extensão de território.

Clima encoberto

Artista: Amy Bessone

Tarrafal, na ilha de Santiago, meu retiro espiritual, este fim-de-semana estava encoberto. Estranha sensação de uma manta gigantesca de pobreza que vai abafando esse cantinho maravilhoso da natureza. Hotéis fechados e abandonados, casas fechadas, ruas desertas, povo que outrora parecia sereno, com um semblante de inquietação, pedintes, carentes, assediando turistas, pescadores sem peixe, peixeiras sem venda, restaurantes vazios, preços elevados com a intenção de compensar a perda nos negócios, o que causa é mais repulsa dos negócios. Amo Tarrafal, como se fosse a terra onde nasci. Peregrino-me por Tarrafal, mas de toda a vez que vou fico de coração rasgado de ver a degradação, a imponência do mau-gosto, o reinado dos oportunistas. No diálogo ruidoso dos dirigentes e anti-dirigentes desta minha terra, situações vão sendo esquecidas, abandonadas ao definhamento.

22.5.13

A começar o dia...

Artista: Nevin Aladağ’s 

O quotidiano presenteia-nos com delicadas e deliciosas passagens e, dependente do estado de espírito, são irritações ou são toques de mágica. 

Assim iniciei o dia. Fui lá na loja do imigrante. Sempre correcto, sempre solícito, calmo a ouvir o cliente e sempre com uma solução, ou então aflito se não puder ajudar. Precisava tão-somente cortar o meu SIM Card, para que pudesse se adaptar ao meu novo telemóvel. Eu era o primeiríssimo cliente, ainda o dia tinha ares de madrugada. Eles lá têm uma tesoura especial que corta o cartão assim, trak! E pronto. Quanto custa? Oh não, não cobramos nada por isso...mas deixa ficar 20 escudos, para não azarar o dia! 20 escudos, para os que não sabem, só compra um rebuçado. Saiu de mim, uma leve e massageante risada. Saquei dos 20 escudos, não vá ser eu o responsável por um mau dia no comércio. E despedi-me, remetendo-me no quotidiano, sorrindo, dia bem começado.

14.5.13

Funcionários Polimórficos


Tanque cheio, gasolina, são comandos transmitidos automaticamente aos moços da bomba, que são chamados de bombeiros (denominação curiosa em tão inflamável zona), por trabalharem numa bomba, duh! De tanto repetir esses comandos, por anos, todos os meses, já nem se vê para a cara desses bombeiros, figuras também discretas, que normalmente só emitem o som do sim senhor e do obrigado. Até que, hoje, autómato, absorto nas minhas intricações mentais, sou surpreendido por um deles com a oferta: senhor, o senhor gosta de perfume americano? Eu...um tanto trazido à terra de repente, ahn? Repete ele, o senhor gosta de perfume americano? Eu, meio irritado e meio divertido pelo inusitado, rapaz, nem gosto de perfume americano!...Ok, desculpa, segue a bombagem da gasolina. Viro a cara para o lado, para poder sorrir da momentânea transformação do funcionário da estação de combustível em vendedor ambulante clandestino. No fim da bombagem, pago, tomo o troco, pronto para arrancar, mas intuitivamente reparo que o preço afixado no painel e as moedas que tinha recebido, não batiam. O preço terminava em 4 e recebi 550 escudos redondos. Conferi e faltavam 16 escudos. Terminou a piada! Em tom severo, digo-lhe, falta-me dinheiro! Senhor, não tenho 16 escudos. Em tom autoritário, vai arranjar e traz!! Deu-me 20, perdeu 4. Para trás deixo um moço, que tanto pode ser bombeiro, vendedor de rua ou claramente mau funcionário.

Preto Ladino Perdendo a Compostura

foto sacada da página FB do Flávio

Flávio Hamilton, para quem não conhece, não é só um dos maiores atores cabo-verdianos da atualidade; é simplesmente um grande ator em toda a parte do mundo. Flávio, ilustre cidadão do Porto, Portugal, esse país que insistimos que é o nosso país irmão, apesar dos pesares, acaba de me indignar profundamente com o relato na sua página de Facebook, que ele intitulou "ACERDA DA DOR DE PELE", onde conta como foi barrado à porta de um bar conhecido pelo nome de "Plano B". Mesmo insistindo que o explicassem o porquê, foi tão simplesmente deixado à porta como um indigente...

Ora, aqui neste ponto desperta em mim o bicho da revolta. É preciso ter mais tento nas palavras, ouvi sempre. É preciso deixar passar essas coisas estúpidas, ouvi sempre. Pois!!!, foi precisamente essa a educação que recebemos da catequese e fomos os melhores alunos da história. Os pretos mais bem sucedidos da ladinização. Os obedientes, os que até vieram a se tornar aliados dos colonos na sua subjugação de outros povos. Os tementes a Deus  os recatados e prudentes. Por essa via, é como ainda nos continuam a estuprar. Nem eu, nem o meu mais profundo ser, pode aceitar o racismo, nem lá, nem cá, ainda mais quando vejo a desfilar debaixo do meu nariz um retorno maciço de "nossos irmãos" à minha terra, infelizmente para os bons, muitos vem com os seus comportamentos de merda, com as suas declarações de merda, com as suas insinuações miúdas. Que me perdoem os bons, porque os tenho e são de casa, mas nessas situações só mesmo uma boa dose de má-criação para expressar o quanto esse assunto mexe comigo. Porque perco a compostura!