Lembrei-me agora da minha professora de inglês do liceu, Ana Salomão, dos raros professores que não nos davam chance de perpetuar a nossa fama da turma mais terrível dos anos 80. Porra fiz o liceu na década de 80! Ela tinha um misto de general e a mais simpática das professores. Isso acaba com qualquer aluno-peste. E ela ensinava mesmo! Passamos toda uma aula tentando pronunciar a palavra "strawberry". Enquanto não apanhássemos o accent lá ela arranjava as estratégias fonomorfológicas para o conseguirmos. Lembro-me de passar essa aula toda também a ver para a deslumbrante imagem do morango e de como achava que era um fruto muito sofisticado para um dia se vender em Cabo Verde. Hoje dou comigo a comer cereais com morangos frescos, tomar batido de morango, mousse de morango, gelado de morango, ou comer morangos enquanto vejo a têvê. Ainda exijo à minha vendedora regular só os morangos com pelo menos 5cm de comprimento. Evidente, o desenvolvimento tem os seus azelhas de serviço, mas a verdade é que esses 40 anos de desenvolvimento tem feito coisas impressionantes.
17.4.14
17.3.14
Void
Em resumo, o turista veio e deu de caras com a publicidade enganosa que andamos a fazer veementemente. Queríamos o quê? Ora, também eu fui a um restaurante e quase arranquei os olhos para pagar a conta, num serviço normal, quase de tasca. E o gajo do táxi cobra 30Eur Mindelo-Baia, o mesmo preço Lisboa-Madrid! Estamos a brincar. E a cena se repete no Tarrafal de Santiago, no Fogo, no Maio, em S.Nicolau, na Boavista, ou onde quer que se vá. Talvez Santa Maria escape um pouquinho e mesmo assim...
Temos de decidir senhoras e senhores. Temos de vender ou gato, ou lebre, nunca um pelo outro, ou os dois ao mesmo tempo. Se é turismo de caminhada, ótimo, o turista aceita a natureza tal com ela é. Mas, se queremos turismo de cruzeiro, caracterizado por "quero tudo em 12h", por favor não procuremos justificativas bizarras; vamos ter que oferecer tudo em 12h. Não me interessa se o raio do turista foi rude nas suas apreciações. Ele aqui foi chamado, pagou pra vir. Se não tivéssemos o hábito de engolir o arroz seco que pagamos para comer, entenderíamos o ponto do homem.
Temos de decidir senhoras e senhores. Temos de vender ou gato, ou lebre, nunca um pelo outro, ou os dois ao mesmo tempo. Se é turismo de caminhada, ótimo, o turista aceita a natureza tal com ela é. Mas, se queremos turismo de cruzeiro, caracterizado por "quero tudo em 12h", por favor não procuremos justificativas bizarras; vamos ter que oferecer tudo em 12h. Não me interessa se o raio do turista foi rude nas suas apreciações. Ele aqui foi chamado, pagou pra vir. Se não tivéssemos o hábito de engolir o arroz seco que pagamos para comer, entenderíamos o ponto do homem.
12.3.14
Pipocas
Artista: Ry Rocklen
Jornalista pergunta para miúdo, fechando de propósito a pergunta em Cabo Verde, para não dar ao miúdo hipótese de fuga: "Quem é o futebolista cabo-verdiano que mais admiras?". Miúdo, encurralado pelo fechamento, pensou um pouco, titubeou, mas finalmente disse: "Heldon!". Jornalista insiste: "Quando cresceres queres ser como quem?". Miúdo nem hesitou: "Ronaldo!"...Heróis constroem-se.
Rússia invade a Ucrânia nas barbas da Europa. Europa, que lembra um galo velho hoje em dia, ameaça tomar medidas enérgicas, congelar contas, bloquear relações com a Rússia, etc. Ao mesmo tempo, Portugal anuncia que vai intensificar as relações com agências russas do turismo, um dos seus principais mercados emissores. Eheheheheheheh.
Cabo Verde é o quinto país do mundo com mais ministras. É também o país onde ainda elas apanham no focinho com muita força, chegando a matar. E Eurídice Monteiro, a voz chata da razão, pergunta: será que em Cabo Verde, o empoderamento das mulheres-elite significa a melhoria da condição das mulheres na base?
"Homem que é homem não bate em mulher". É a campanha do momento. A pergunta que se impõe é: como é que o homem cabo-verdiano vai parar de bater em mulher, em homem, em criança, em velho, quando uma simples reclamação no táxi já é potencialmente agressora?
21.2.14
PFLNO (Países Falantes de Língua Não Oficial)
Andamos há séculos a falar numa língua ilegal. Este povo, está provado, é do mais subversivo que há. Primeiro resolveram ser povo, ato de ousadia extrema. E como povo, claro, tinham de ter língua. Mesmo perante todas as medidas das autoridades coloniais no sentido de proibir a nascente língua e, perigosamente, provavelmente, a nascente nação, este povo persistiu, falando descaradamente a sua língua, em todos os cantos, mesmo nos locais proibidos, como nas escolas, na igreja, ou nos tribunais. Este povo, agora independente, devia estar na cadeia por perpetuar essa insubordinação linguística. Cortejam-se na sua língua, namoram na sua língua, dão à luz na sua língua e, ato máximo de insubordinação, falam com os filhos na sua língua, em vez de cumprirem com a língua decretada. Ou seja, desde cedo ensinam-nos a ser rebeldes. Não conheço resistência mais bem preparada que essa. Portanto, não somos contra a oficialização da nossa língua. Somos é a favor da sua não oficialização, como condição de continuarmos a ser resistentes, malcriados e subversivos, falando teimosamente a nossa língua, agora até nos parlamentos, nas campanhas e se descuidarem até daremos aulas na nossa língua. Desde já, com a oficialização da nossa língua este blog perderia a maior parte do seu leit motiv.
10.2.14
E se o japonês representasse assim o caboverdiano?
Foto: sapo.cv
Do fórum Geração da Independência, com a sua tímida abordagem à África, à Semana da República, com a sua dissonante palestra sobre lideranças políticas em África, à Cimeira Africana da Inovação, com o seu tom afro-entusiasta, ao desfile dos auto-proclamados "Mandingas do Mindelo", ressalta-me uma vez mais que o nosso(?) continente continua a ser alvo de todos os maus-tratos, ora por ignorância pura, ora por pseudo-intelectualismo, ora por excesso de exaltação, ou então por desrespeito direto.
Em relação aos "Mandingas do Mindelo" se por um lado reconheço que carregam um protesto, por outro revelam uma representação, no mínimo ridícula, do povo Mandinga, em que cerca de 11 milhões de seres humanos se identificam (wikipedia). Esses "Mandingas do Mindelo", recordo-me bem desde criança, sempre simbolizaram a sociedade maldita, a que vem lá das "fraldas", sujos, perigosos e feios. Eram assim vistos, nas nossas cabecinhas. Ressurigiram agora, num misto de moda e reclamação do direito à tradição, com um certo apoio, não sei se alargado ou não, da sociedade que os acolhe. Claramente continuam a representar um certo protesto, como atesta as palavras de um deles, em entrevista, dizendo: "vocês já tiveram a vossa diversão, agora queremos ter a nossa". Esse "nós e vocês" não deixa de ser sintomático dentro de uma mesma sociedade. Mas esse "nós e eles" também é bastante sintomático na forma como se representam. Pintam-se de negro e qual é o significado de um africano se pintar de negro? Ou serão não-africanos a representarem africanos? Enfeitam-se de vestes, acessórios e objetos, da mesma forma que um cinema e um teatro antigamente ridicularizavam os negros e os povos "primitivos". Têm uma dança própria, carburada de álcool, sexo-exibicionista e poses guerreiras. Qual o significado disto tudo?
Para além de todas as considerações, em relação aos produtos altamente tóxicos com que se revestem, do alcoolismo e do excesso de linguagem, uma consideração mais básica não devia ser feita em relação ao próprio nome que carregam? Já perguntaram aos guineenses, senegaleses e malianos, que porventura sejam Mandingas, o que pensam desse carnaval? Ah bom, mas é a tradição. Pois, tradição também é mutilar o sexo de jovens moças.
22.1.14
Bipolares
Uma das questões que mais me incomoda na nossa Constituição é o fato de não consagrar a nossa língua materna como língua oficial ainda. Na verdade a Constituição é um mero reflexo da sociedade, que adia essa questão. Já ouvi todo o tipo de argumento, em desfavor da oficialização da nossa língua: que não serve para conceptualizar noções complexas da ciência, que é um língua minoritária, que irreconciliável nas suas várias variantes, que é um custo enorme a oficialização, que é um absurdo o ensino na língua materna, que isto e mais aquilo. No entanto, quando se trata de comunicar com eficácia, ou seja, criar empatia no receptor, é a língua perfeita. Que o diga, os políticos, os publicitários e até os encenadores.
A novidade para mim agora são as eleições para a reitoria da universidade pública, das mais altas figuras da educação no país, em que os slogans vem na língua materna! Sejamos claros, a desonestidade intelectual não se manifesta em grandes crimes, mas sim em pequenos delitos. Ou, se preferirem, em pequenas contradições. Se a própria República (nós) não consagramos a língua materna como oficial (reconhecida pelo Estado), como podem as figuras do Estado usarem essa dualidade? Os entendidos que me esclareçam.
21.1.14
Mamãe África
Foto: Arquivo Histórico Nacional
Ainda notas da Semana da República, agradecendo todo o manancial de informação produzido por esses dias. Promovida pela Presidência da República, tivemos o privilégio de assistir a uma mesa-redonda sobre o legado das lideranças africanas no pós-independências. Quanto a África, heis os meus pensamentos:
É constrangedor a esquizofrenia identitária que continuamos a ter em relação ao continente. Como disse o antropólogo Carlos Anjos, de onde vem essa ideia de uma excepcionalidade cabo-verdiana? Europeus não somos de certeza. Americanos nem tanto. Asiáticos muito menos. Então somos o quê? Atlântidos? Um povo especial?...Já que resistimos à denominação de, simplesmente, africanos.
É bom lembrar que os ideias de nacionalidade, independência e auto-determinação, se afirmaram num quadro de africanidade, ou seja, num momento de identificação clara de civilizações africanas distintas das europeias. Mesmo se devemos tributar ao longínquo Du Bois e outros ativistas negros, as primeiras reivindicações descolonizadoras, é a geração de Cabral e outros eminentes africanos, como NKrumah, Sénghor e outros, que deu o corte radical aos colonizadores. A nossa luta pela independência se fez num quadro de solidariedade africana, tendo Argélia como enorme suporte financeiro, militar, logístico, Guiné Conakry como base militar, ou a própria Guiné-Bissau como palco de guerra aberta. Agora, passados os anos, questionamentos o nosso pertencimento africano??
Sejamos amnésicos, ou mesmo ingratos, mas e a atualidade? Até quando vamos continuar a fingir que uma boa parte da nossa população hoje não é constituída de africanos purinhos, eles sim, sem dúvida nenhuma se são africanos ou não, ou seja os imigrantes? E os seus filhos e netos quando forem cabo-verdianos de direito pleno, também sofrerão dessa dúvida identitária? E o Islão, que é uma realidade no nosso solo? Islamofobia? E todos os fenómenos que passam pelas nossas águas, inclusive o tráfico humano? Um problema "deles"? E as trocas imensas, comerciais e culturais entre nós e "eles", não tem significado?
É mesmo constrangedor esse debate vacilante sobre o nosso continente. Pelo menos o meu continente.
CV.SOCIAL
Foto: Arquivo Histórico Nacional
Terminou a Semana da República, marcada pelas datas 13 e 20 de Janeiro, dia da abertura democrática no país e dia dos heróis nacionais, respectivamente. A semana foi marcada por intensos debates, sobre temas de capital importância para o país, que vão desde o ensino da história, até questões sócio-económicas prementes. Ouvi várias análises, umas sobre as difíceis condições materiais da vida no arquipélago antes da Independência, outras sobre os imensos ganhos do pós Independência. De todas as análises, ficou-me claro dois aspetos, que pessoalmente considero graves e até preocupantes: o reconhecimento que o crescimento económico não está a ser transformado em desenvolvimento social e que nem se sabe como fazer isso; o distanciamento progressivo das elites intelectuais da realidade social, que por sua vez se organiza num voz até com tons de ameaça. Ecoa na minha cabeça a frase do líder da Corrente de Ativistas: "prestem atenção em nós!"
8.1.14
Fotofestivalar e Fotodepender
Imagem do espetacular Kiluanji Kia Henda
Há anos que tentamos abordar o tema da Arte Contemporânea em Cabo Verde, mas continua a ser uma noção bem distante. Atrevidamente já criamos no passado eventos que chamamos de "Arte Contemporânea" a ver se provocava uma reacção, nesta sociedade flácida, mas não provocou, a sociedade continua flácida. Já fomos lá fora, já participamos em eventos chamados, justamente, Arte Contemporânea, vimos maravilhados e de algum modo consternados que, realmente, andamos a margem do que se apelida arte, quanto mais contemporânea.
Razões várias, a começar pela ausência da academia, ressaltando o meritório contributo do M_EIA, mas evidentemente insuficiente para o volume do país. A academia não vai criar talentos, mas vai criar aprimoramento técnico e o imprescindível campo teórico. Da questão da educação, saltam todos os outros: falta de produção, logo a ausência de propostas arrojadas, a inexistência de eventos regulares (bienais, por exemplo), não presença de curadores, historiadores e jornalistas especializados, falta de mecanismos de distribuição e retro-alimentação do sistema, por aí fora.
Neste contexto surge o Festival Internacional de Fotografia de Cabo Verde, com uma proposta tão nivelada por cima, que talvez nos tenha apanhado em contra-pé. Apanhou-nos a todos: autores, produtores e financiadores. Vamos tentar corrigir essa rota? Vamos restabelecer o debate interno? Vamos recuperar as reflexões feitas no Praia.Mov ou no Oiá? Vamos começar agora com as atividades, para quando do festival a gente esteja de pés firmes no chão?
Neste contexto também vem surgindo, da timidez para níveis cada vez maiores de atrevimento, as iniciativas do coletivo online Fotodependentes. O mérito do coletivo, na minha pessoalíssima opinião, é provocar uma "dessacralização" no fazer da imagem. A maioria dos membros do coletivo entraram com a desculpa que não são profissionais, que fazem por atrevimento, que são curiosos...enfim. Dessa timidez nasceu o "passatempo" (mais uma vez uma cautelosa posição) #PROJETO47, que considero particularmente feliz, pela mistura de cidadania, fruição e apropriação do espaço online.
É preciso no entanto pautar que, fotógrafos-artistas são uma categoria diferente dos fotógrafos-profissionais (no sentido comercial) e que esses são diferentes dos fotógrafos-amadores. Cada categoria tem um percurso que é preciso respeitar, mas todos juntos formam uma massa crítica à tão carente produção de imagens neste Cabo Verde que, paradoxalmente, tem milhares de fotografias espalhadas por esse mundo fora. Mas, uma fotografia é uma imagem?
6.1.14
#republika
Que povo, que nação, que pátria? Como, quando e onde nasceu o sentimento nacional? Como a morna e a poesia construíram a nação? Como o batuque e a mazurca guardam os nossos genes? Como se construiu a pátria, o que lha mantêm unida e o que lhe periga a integridade.
E futuro? E África?
Seguir em: http://www.cesarschofieldcardoso.org/republika/
https://twitter.com/cesarschofield
#republika reflecte sobre a comunidade que somos, organizada politicamente. Olha para a Constituição da República, texto que exprime a nossa vontade de nação, os nossos ideais e a nossa imagem do mundo, bem como as nossas contradições, as longas amarras do passado, os traumas e as feridas. Como esse texto, poético porque utópico, condiciona as nossas vidas no quotidiano? Ou, como o que desejamos nos posiciona no mundo?
E futuro? E África?
Seguir em: http://www.cesarschofieldcardoso.org/republika/
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19.12.13
Reloading
Muitos fazem balanços e planos no final do ano, explícita ou implicitamente. Eu faço os meus ao sabor do maravilhoso chá tradicional Xali e descobrindo o jazz de Christian Scott (imagem).
Para mim, o mundo está meio cheio, em vez do pessimista meio vazio. Aliás, otimismo e pessimismo dependem do lado da história em que se posicionar: se do lado do espetador, ou do lado do ator. Sigo querendo fazer parte dos atores e nesse percurso vou conhecendo os melhores seres do mundo. Este particular ano que vai findando, foi de ganhar mais umas quantas amizades, gente energética, energizante e atuante. Tive a oportunidade de, junto com eles, derrubar umas quantas ideias pré-fabricadas e sonhar construções novas. O nascente ano promete uma carga de luz.
Christian Scott tem apenas 30 aninhos e já é uma revolução no jazz, junto com outros da sua geração. Ouvi quase exclusivamente jazz em toda a minha vida adulta, a partir do momento em que aos 17-19 anos a voz de Sara Vaughan atingiu-me como a seta de Cupido. E me fascinei com essa incrível aventura musical negra, que em 100 anos já passou do Blues ao Bebop, Cool, Post Bop, Hard Bop, Avant Garde, Fusion e estamos na era do jazz contemporâneo, sendo Brad Mehldau o músico que mais me tenha impactado nessa virada. No entanto essa música louca já tem inovadores e até gostei do termo "Next Bop". Músicos como Esperanza Spalding e Christian Scott são sons fresquinhos no mercado, fazendo cada vez mais a junção do pop e do "jazz puro", como defendido por Wynton Marsalis.
Há um sentimento de Next. É essencial perceber a cultura digital, a cidadania online, a desterritorialização do trabalho, o media art e toda uma série de fazeres e estares, que a era pós-contemporânea vem trazendo, para continuar a estar do lado dos atores. Next!
13.11.13
Filhos Radicais (Pais segurando firme)
Naia: Pai, hoje começamos a aprender os ordinais: sexagésimo, septuagésimo, octogésimo..
Eu: Uau, consegues até dizer essas palavras todas de enfiada!...
Naia: É, a professora disse que são palavrões, mas palavrões que podemos dizer - tratou de pontuar.
Eu (com súbito interesse): Ah é? E que palavrões que não podem dizer?
Naia: Mas não posso dizer!!..Mas tu dizes, papá, quando estás chateado..Dizes muito um que começa com P e termina com A.
Eu: Ah é, digo tanto assim? Hmm...E que outros conheces?
Naia (com um sorrisão): conheço um que está em "computador"
AHAHAHAHAHAH (Saiu-me uma gargalhada dessas do fundo do poço!)
Eu (com acrescentado interesse): Que mais?
Naia: Tem um que começa com M e termina com A
Eu (apavorado com a direção da conversa / mantendo a pose de cool)
Naia:...Acho que só conheço esses 3... (ela deve ter lido uma prisão de ventre repentina na minha cara e saiu com esse tranquilizante)
Eu (fingindo autoridade): Mas diz-me, onde se aprende isso tudo?
Naia: Ora, os meus colegas dizem palavrões a toda hora!..(a safadinha se safou)
Eu: Uau, consegues até dizer essas palavras todas de enfiada!...
Naia: É, a professora disse que são palavrões, mas palavrões que podemos dizer - tratou de pontuar.
Eu (com súbito interesse): Ah é? E que palavrões que não podem dizer?
Naia: Mas não posso dizer!!..Mas tu dizes, papá, quando estás chateado..Dizes muito um que começa com P e termina com A.
Eu: Ah é, digo tanto assim? Hmm...E que outros conheces?
Naia (com um sorrisão): conheço um que está em "computador"
AHAHAHAHAHAH (Saiu-me uma gargalhada dessas do fundo do poço!)
Eu (com acrescentado interesse): Que mais?
Naia: Tem um que começa com M e termina com A
Eu (apavorado com a direção da conversa / mantendo a pose de cool)
Naia:...Acho que só conheço esses 3... (ela deve ter lido uma prisão de ventre repentina na minha cara e saiu com esse tranquilizante)
Eu (fingindo autoridade): Mas diz-me, onde se aprende isso tudo?
Naia: Ora, os meus colegas dizem palavrões a toda hora!..(a safadinha se safou)
4.11.13
Poliamor
[Poliamor me lembra Lúcia, não tem como!]
Polienamorado pela minha terra. Me sentindo amando várias ao mesmo tempo, sem possibilidade qualquer de dedicar mais amor pra uma que pra outra. S.Vicente é ilha-mãe, inquestionável, Santiago é aquela mulher do calor, Sal é uma amante, Boavista é a outra, Fogo é aquela que nunca na vida se esquece, Maio é doce e discreta, S.Antão tem essa maneira de te agarrar, S.Nicolau ainda veste saias longas e sorri com a frescura de uma montanha virgem, Brava é essa moça linda, com ares de adolescente, sempre.
Mas como todo quem ama, sofre, assim me mata todos os dias a violência contra as ilhas. Os crimes ambientais são silenciosos e sorrateiros, embrulhados em elaboradas teorias jurídicas. O desprezo pelo património físico cultural é prova de selvajaria. Cabo Verde tem uma violência surda e letal, contra a natureza e o património cultural. E o pior é que tá tudo dentro da legalidade!...
21.10.13
Pit Stop
Artista: Sharon Hayes
Ready...
Fim-de-semana é um pit stop. Pit stop é aquela parada que acontece em 6 segundos em que os carros de fórmula 1 põem combustível, trocam rodas e ainda algum pedaço do carro que se tenha danificado. Mas FDS é pit stop em versão longa. Vamos à praia, verificamos o corpinho, testamos uns olhares, vamos ao shopping, sim, essa moda parva também já está cá, mas só que é preciso dizer que sempre fomos ao shopping, que antes era chamado de mercado, feira, sucupira, ya e outros nomes quanto a mim mais calorosos. A diferença agora é que se chama "shopping" que isso do inglês dá aquele toque tal. E a diferença é que no shopping andamos de forma engraçada, com uma certa pose, com um sorriso bobo na cara e fingimos que vamos comprar. Vamos ao cinema 2D e 3D, que essa parte eu gosto, mas o "nós" aqui é realmente bastante restrito. A transformação da cidade também tem a ver com essa delimitação estrita de espaços e essa estratificação clara da sociedade. No entanto na cidade da Praia continua a faltar dramaticamente espaços de qualidade, para um público exigente, em termos de cultura.
Steady...
Dia 18 foi Dia Nacional da Cultura. Foi interessante verificar que um pouco por todo o país os municípios organizaram eventos para assinalar o dia. Ou seja, moda pega e há modas que vêem por bem. Da qualidade já falamos daqui a pouco.
Go!
Maus sinais vêem das relações Cabo Verde - Guiné-Bissau. De forma completamente artificial, vozes vão plantando a discórdia, entre povos, que na realidade do dia-a-dia, das relações humanas, dos contactos e dos afectos, não vivem na discórdia. A sociedade nos dá ferramentas técnicas e intelectuais, para devolvermos elevação de discurso e ação e não para expressar as nossas próprias frustrações e motivações, que nada tem a ver com o bem-comum. Mas felizmente que, de um lado e do outro da (pseudo)barricada há gente a trabalhar para realçar o que de bom (muito maior do que há de não bom) existe entre nós.
Restart.
Guiné-Bissau, como em Moçambique, países pobres, onde as populações atravessam vicissitudes várias, uma pergunta se impõe: de onde vêem as armas?
Restart.
Guiné-Bissau, como em Moçambique, países pobres, onde as populações atravessam vicissitudes várias, uma pergunta se impõe: de onde vêem as armas?
13.10.13
Sembène strikes
A quem interessa um “cinema negro”?
Este é o título de um artigo de Júlio César dos Santos e Rosa Maria Berardo, enviado a mim por Janaína Oliveira, minha amiga historiadora, que pesquisa a questão da invisibilidade do cinema negro e cinemas africanos.
As denominações "negro" e "cinema negro", causam imediatamente desconforto. Como causaria desconforto a denominação "cinema branco". O facto é que existe um cinema branco, ou orientado por brancos, ou feitos à medida de brancos, ou, aqui sim problemático, que não incomode os brancos. Olhando para o filme Emitai, do mestre Sembène, que mete o dedo de forma violenta na ferida do colonialismo, ou, digamos as coisas, da escravatura recente, percebemos que a pergunta "a quem interessa um cinema negro?" é uma questão com vários desdobramentos. O filme Emitai de Sembène foi tão cáustico que foi banido do seu próprio país, já independente! Razão para indagar a quem não interessou que esse filme passasse. Emitai é um filme que conta a história que não se quer contar. Traz um episódio bárbaro, esses tantos que aconteceram em todos os nossos países, como os massacres de Pidjiguiti ou Batepá, ou ainda o muito mal contado trabalho forçado em S.Tomé e Príncipe. Vi o filme e acordou-me sobre o facto que, de novo temos dominação europeia nas nossas sociedades. Na minha terra, os donos das maiores empresas são, outra vez, os europeus, o que provoca automaticamente a formação de uma elite que tem uma cor. E uma vez mais o intermediário dessa classe de facto dominante, é uma elite local, subserviente e sustentada por esse sistema, chamado de "investimento externo". No dia-a-dia vou vendo o lento ressurgimento de tensões baseadas na classe-etnia. E oiço comentários que me faz pensar que isso ainda vai acabar mal, outra vez. Pois, Emitai acorda essas consciências e quase que apela para uma militância, quando, uma vez mais fazendo uma crítica cirúrgica das próprias tradições africanas, nos apela a reformular os nossos modos de pensar e estar para melhor enfrentar a hegemonia estrangeira. Pois então, a quem interessa um cinema que acorda fantasmas, ou periga a "tranquila convivência multi-étnica nas nossas sociedades atuais"? A quem interessa manter as memórias vivas? A quem interessa ensinar a história na perspectiva oposta? Para quê mexer nisso tudo?..Talvez devêssemos perguntar ao judeu porque insiste em manter o holocausto vivo, ou o japonês porque mantêm Hiroxima na memória, ou até mesmo o francês porque insiste em lembrar o nazismo.













